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III.1 Suppression du confinement et formation d’un jet composé

III.1.2 Formation d’un jet composé

Análise exegético-teológica de At 28,16-28

Neste capítulo, a pesquisa busca apresentar um cenário geral das formas literárias da perícope e uma proposta de leitura exegético-teológica.

A seguir, a tradução funcional da perícope proposta por esta pesquisa, no Capítulo Segundo53, na íntegra.

v. 16 Quando fomos a Roma, o centurião entregou os prisioneiros ao chefe da guarda. No entanto, foi permitido a Paulo ficar fora do cárcere, vigiado por um soldado.

v. 17 Depois de três dias, Paulo convocou e reuniu os líderes judeus e lhes disse: “Ilustres irmãos, eu não fiz nada contra o povo ou contra os costumes de nossos pais, mesmo assim, vim preso de Jerusalém e fui entregue aos romanos.

v. 18 Depois de me interrogarem, eles queriam me libertar porque não encontraram nenhuma razão para me condenar à morte.

v. 19 Com a discordância dos judeus, eu me senti forçado a apelar a César, mas não com o intuito de acusar minha nação.

v. 20 Por causa disso, pedi para conversar com vocês. Afinal, é pela esperança de Israel que eu estou preso a estas correntes”.

v. 21 Eles, então, disseram-lhe: “Nenhuma carta nos chegou da Judeia a seu respeito e nenhum irmão trouxe informações ruins sobre você.

v. 22 De qualquer maneira, achamos que é justo ouvir, diretamente de você, sua forma de pensar. O que sabemos sobre essa seita é que ela é contestada por toda parte”.

v. 23 Eles marcaram um dia com Paulo e foram em grande número até o lugar onde ele ficava. Paulo lhes fez uma exposição, dando um testemunho completo sobre Jesus, bem como sobre a Lei de Moisés e os profetas. Sua exposição durou todo o dia.

v. 24 De um lado, alguns se convenciam com o que ele falava, outros nem sequer acreditavam.

v. 25 Discordando uns dos outros, iam se dividindo. Foi quando Paulo asseverou: “Bem que o Espírito Santo já falava aos nossos pais pelo profeta Isaías:

v. 26 ‘Vá a este povo e diga: vocês até ouvirão, pois têm audição, mas não entenderão o que ouvem. Vocês até verão, pois têm visão, mas não vão enxergar o que veem.

v. 27 O coração desse povo foi endurecido. Com os ouvidos, ouviram com dificuldade. Ficaram piscando seus olhos. Eles não verão mais com os olhos. Não mais ouvirão com os ouvidos. Nunca mais entenderão com o coração. Eles não voltarão mais atrás. Eu não vou curá-los.’

v. 28 Portanto, saibam que esta salvação de Deus é agora enviada aos gentios. Eles sim a ouvirão”.

v. 29 Quando ele disse isso, os judeus foram embora discutindo muito.

Antes do recorte da perícope desta pesquisa, no v. 15, tem-se notícia de que a chegada de Paulo a Roma já era esperada, pois alguns cristãos romanos vão ao encontro do viajante. Esse comitê de boas-vindas encoraja Paulo numa viagem que deve ter durado cerca de quatro meses. (Cf. PRETE, 1983, p. 148) Essa viagem está inserida num crescente literário não aleatório. Há uma trajetória preanunciado por diversas vezes. A seguir, são transcritas54 as citações no decurso que demonstram

esse caminho e uma proposta de interpretação cada uma:

Lc 9,51: “(...) ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém”. Inicialmente é Jesus quem está a caminho e seu destino é Jerusalém.

Lc 13,22: “Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e encaminhando-se para Jerusalém”. O caminho trilhado é o cenário em que o autor da obra lucana apresenta os ensinamentos.

Lc 13,33: “Mas hoje, amanhã e depois de amanhã, devo prosseguir o meu caminho, pois não convém que um profeta pereça fora de Jerusalém”. Jerusalém é destino paradigmático da tradição judaica, é referência fundante no roteiro teológico lucano.

Lc 17,11: “Como ele se encaminhasse para Jerusalém, passava através da Samaria e da Galileia”. O caminho supõe e instrumentaliza o contato com outros destinos paralelos e que são incluídos no ideário.

Lc 19,11: “Como eles ouvissem isso, Jesus acrescentou uma parábola, porque estava perto de Jerusalém, e eles pensavam que o Reino de Deus se manifestaria imediatamente”. Jerusalém, como destino, é apresentada não como uma etapa final do trajeto da tradição judaica, mas como início de sua expansão para o mundo pagão, ainda não descrita de forma explícita. Lc 19,28: “E, dizendo tais coisas, Jesus caminhava à frente, subindo para Jerusalém”. Jesus vai à frente no caminho.

Lc 19,41: “E, como estivesse perto, viu a cidade e chorou sobre ela”. O caminheiro chora ao vislumbrar o destino, ali se passa o drama mais importante de sua vida pessoal e de seu projeto, que se confundem. Desse clímax da primeira parte de sua obra (Lc), o autor seguirá sua narrativa (At) supondo uma continuidade com Paulo.

At 19,21: “Quando se completaram essas coisas, Paulo tomou a resolução de dirigir-se a Jerusalém, passando antes pela Macedônia e a Acaia. E dizia: ‘Depois de lá chegar, é preciso igualmente que eu veja Roma’”. Em Éfeso, Paulo diz que precisa ir a Roma, que é paradigma do destino universal do projeto salvífico judaico-cristão.

At 23,11: “Na noite seguinte, aproximou-se dele o Senhor e lhe disse: ‘Tem confiança! Assim como deste testemunho de mim em Jerusalém, é preciso que testemunhes também em Roma!” Prisioneiro em Jerusalém, Paulo ouve de Cristo, num sonho (ou visão), ser preciso que ele vá a Roma.

At 27,24: “Não temas, Paulo. Tu deves comparecer perante César, e Deus te concede a vida de todos os que navegam contigo”. Já a caminho de Roma, em meio a uma tempestade no mar, Paulo é encorajado pois é preciso que ele se apresente diante do imperador. Roma é o destino.

At 28,14.16: “Encontrando ali alguns irmãos, tivemos o consolo de ficar com eles sete dias. E assim foi que chegamos a Roma. Depois de chegarmos a Roma, foi permitido a Paulo morar em casa particular, junto com o soldado que o vigiava”. A afirmação dupla e sequencial sobre a chegada a Roma marca a dobradiça que prepara o clímax.

Percebe-se, por essa sequência, a unidade literária dos dois textos (Lc e At); uma obra cujo enredo é o desenvolvimento de um plano teológico num trajeto geográfico simbólico. Jerusalém é símbolo do estofo das Escrituras Hebraicas e Roma é símbolo do mundo, dos gentios. O final da primeira parte da obra lucana se dá em Jerusalém. Daí tem início a segunda parte da obra. O clímax e o “final” de toda a obra se dá em Roma, lançando a narrativa e seus leitores para o “mar aberto” de possibilidades advindas da ampliação e expansão preanunciada do plano teológico, forjado no seio judaico e consumado sem fronteiras. A vitória em Jerusalém é a ressurreição de Jesus. A vitória em Roma é a abertura aos gentios. Portanto, a perícope em pauta desta pesquisa é cume na obra lucana, e o desenvolvimento do texto conduz o leitor para a conclusão de que se o destino é Roma, então o destino é a abertura (continuidade), a consumação do projeto entre os gentios. Surge, então, a questão quanto ao papel dos judeus, a partir dessa nova configuração. A pesquisa trata desse assunto mais adiante.

A chegada a Roma no versículo 16 marca o final do uso pronominal da primeira pessoa do plural (“nós”), das chamadas seções “nós” de Atos. (Cf. At 16,10-17; 20,5- 15; 21,1-18; 27,1-28,16) Essas seções são utilizadas como argumento para corroborar o narrador (autor) é acompanhante do personagem. A ausência desse uso pode indicar um recurso literário de afastar o narrador do presente da narrativa, de modo a torna-lo isento e mais credível como narrador do drama histórico, elevando-o a um nível menos pessoal, mais de clímax.

2. Paixão de Jesus, paixão de Paulo: At 28,17-20

Também no início da perícope (v. 17-20), pode-se notar diversas alusões à narrativa lucana da paixão de Jesus e que parecem visar conectar Paulo ao protótipo do projeto que ele assume.

a) Ambos, Jesus e Paulo, são “entregues” nas “mãos” dos gentios;55

55 Tanto em At 28,17 quanto em Lc 24,7, o verbo e o complemento usados são os mesmos:

παραδίδωμι…εἰς τὰς χεῖρας. Acrescente-se o fato de que o verbo está, em ambos os casos, na forma do aoristo (παραδοθῆναι em Lc/ παρεδόθεν em At), reforçando uma narrativa que isola essas ações no passado histórico e pontual para enfatizá-las.

Paulo; 56

c) Os romanos queriam “libertar” tanto Jesus quanto Paulo; 57

d) Tanto no processo de Paulo quanto no de Jesus, é a divisão entre os judeus o enredo que culmina nos respectivos destinos: a opção de Paulo de ir a Roma (Cf. At 28,19) e Jesus condenado à morte de cruz (Cf. Lc 23,18-25);

e) A esperança está presente tanto no destino de Paulo (Cf. At 28,20) quanto no de Jesus (Cf. Lc 23,42-43).

De fato, a narrativa lucana dessa perícope parece apresentar Paulo como aquele que assume uma experiência semelhante à de Jesus, o Messias. Tal aproximação talvez queira justificar e dar credibilidade a Paulo tanto diante dos judeus quanto diante dos gentios, numa continuidade do projeto corroborada pelo discípulo que imita o seu mestre.

No caso específico da condição de Paulo, e dos cristãos, com Roma, a obra lucana busca sublinhar um tratamento que supõe certos privilégios de Paulo (e de outros cristãos) como cidadãos romanos. Vê-se, por exemplo, que os oficiais romanos são imparciais nos enfrentamentos religiosos entre os judeus; incluam-se entre eles os messiânicos/nazarenos/cristãos. (Cf. At 18,12-16) Paulo é resgatado da morte em duas ocasiões pelos romanos. (Cf. At 21, 30-32 e At 27, 42-43) A inocência de Paulo é também declarada por diversos oficiais romanos: Cláudio (Cf. At 23,9), Félix (Cf. At 24,22-23), Festo (Cf. At 25,18-19.25) e Agripa (Cf. At 26,31-32). Há romanos entre os que se convertem aderem ao querigma cristão. (Cf. At 10; 13,7-12; 28,7-10; 7,1-10)

Da mesma forma, em sua primeira parte, a obra lucana busca inocentar Roma no processo de Jesus. (Cf. Lc 23,4.14.15.22) Em At 28, Paulo é inocentado diante de Roma, talvez como reminiscência do processo de Jesus diante de Pilatos.

3. A fidelidade a Israel: At 28,17.19.20

Os versículos 17, 19 e 20 apresentam ao leitor, enfaticamente, a fidelidade de Paulo ao povo, aos “pais” e à esperança de Israel. Contudo, não somente Paulo é

56 At 28,18 usa ἀνακρίναντες e Lc 23,14 ἀνακρίνας, ambos na forma do particípio aoristo. Em At 28,18

usa-se αἰτίαν θανάτου (razão para condenar à morte) e em Lc 23,14 usa-se αἰτίον θανάτου (réu de morte).

defendido nesse quesito, mas também o cristianismo. Além de Paulo (Cf. At 16,3-4; 18,18; 20,16; 21,18-28; 23,6; 24,14; 26,6-8), vê-se os principais líderes cristãos sendo retratados quanto à sua fidelidade: Pedro e João em At 3,1; 5,12.25.42 e Tiago (além de outros) em At 21,17-20. Soma-se a isso, o fato de muitos judeus devotos (Cf. At 2,5), sacerdotes (Cf. At 4,4; 6,7) e fariseus (Cf. At 15,5) aderirem à fé cristã.

O próprio Jesus nasce, cresce e vive em cumprimento às profecias e de acordo com a Lei de Moisés. Portanto, a obra lucana, esforça-se por esclarecer a seus leitores a continuidade entre Israel, Jesus, Paulo e os cristãos.

Assim, Paulo mostra que o que está sendo julgado não é a sua pessoa, mas a esperança de Israel, em outras palavras, o “cristianismo”. Por outro lado, alguns judeus reagem corroborando que a discussão, de fato, não é sobre Paulo, mas, mais precisamente, sobre o querigma cristão que, para esse grupo judaico, não é o cumprimento da esperança de Israel.

4. Pregação sumária: At 28,23-28

Paulo quer logo falar aos judeus e pede a eles essa oportunidade ao chegar a Roma. Afinal é a eles que se destina o anúncio primeiro, além do que, precisam compreender as razões pelas quais ele está em Roma. Estima-se que haja entre 10.000 e 60.000 judeus em Roma no primeiro século. (Cf. BIANCHI, 2003, p. 75) Certamente, Paulo não os tinha como parte antagônica, a princípio. Não seria justificável que ele os convidasse a esse encontro em sua residência temporária de Roma, se representassem um grupo hostil, como aquele de Jerusalém, que procurava mata-lo. Por outro lado, a ida dele à sinagoga deve ter sido impossível devido à sua condição de prisioneiro.

De qualquer maneira, no primeiro contato, Paulo se apresenta aos líderes judaicos e se refere à hostilidade de parte dos judeus de Jerusalém e seu consequente apelo à César, o imperador – direito seu como cidadão romano, como recurso para defender-se da morte. Os judeus de Roma dizem desconhecer os fatos. Contudo, provavelmente, a opção foi estratégica, já que os judeus de Roma e Jerusalém mantinham estreita relação. (Cf. MARSHALL, 1980, p. 423) Mas, a experiência com Jesus resultou numa sequência de instabilidade que, posteriormente, culminou com a expulsão temporária dos judeus de Jerusalém pelos romanos. (Cf. MARSHALL, 1980, p. 424) Talvez, os líderes judaicos percebessem que a libertação de Paulo era inevitável, tendo em vista não haver nada concreto contra ele diante dos tribunais

(religiosos) para corroborar a decisão de alguns judeus de Jerusalém e rejeita-lo definitivamente.

Esse discurso de Paulo em Roma, a partir do versículo 23 da perícope, sumariza as pregações feitas por Jesus (Cf. Lc 4,43-44; 8,1; 9,11; 20,1) continuadas por seus discípulos (Cf. Lc 9,6; 10,8-11), pelas comunidades nascentes (Cf. At 4,31.33; 5,42; 8,4-5.12.25.40) e pelo próprio Paulo (Cf. At 9,27.29; 14,7; 15,35; 17,2- 3; 18,5.11; 19,8).

O uso das expressões

ἀπό τε τοῦ νόμου Μωϋσέως καὶ τῶν προφητῶν

(da lei de Moisés e dos profetas) e

ἀπὸ πρωῒ ἕως ἑσπέρας

(da manhã até a noite) tem função importante. Quanto ao recurso escriturístico (Moisés e os profetas), também encontrado em Lc 24,27.44-46 e em At 26,22-23, o fato contribui para a profundidade e a intensidade do sumário de Paulo em Roma. No caso da segunda expressão, uma pregação tão longa se encontra em At 20,7-12, contudo não num contexto missionário, e sim do discipulado cristão. Um período tão longo de testemunho sobre o Cristo num ambiente missionário atribui à perícope um caráter de clímax e sumário.

Além disso, o versículo 23 responde ao desejo que Paulo tinha de falar à audiência judaica (v. 20) e também o recíproco desejo dos judeus de ouvir seus pontos de vista (v. 22). Cria-se, então, na narrativa, um cenário de expectativa que culmina no sumário que Paulo faz. Os judeus se dividem na reação (v. 24), e isso parece preparar outra expectativa: o destino do anúncio. A narrativa parece estabelecer uma sequência conduzida e anteriormente prevista, o que se compreende bem com a inserção e releitura da citação do profeta Isaías. Com o texto do profeta, Paulo denuncia o que já acontecera e torna a acontecer no seio judaico, ou seja, a rejeição de alguns. Assim, o autor lucano justifica a continuidade do plano salvífico de Deus com a expansão, rompendo as eventuais fronteiras e cumprindo a vocação original de Israel, como luz para todas as nações. (Cf. Is 42,6; 49,6)

Também a presença de dois termos amplamente usados em outros textos de At corrobora para o aspecto de clímax e de sumário do v. 23: διαμαρτύρομαι (At 4,33; 8,25; 10,42; 18,5; 20,21.24; 23,11) e πείθω. (At 13,43; 18,4; 19,8; 26,28) O discurso de Paulo (v. 23) não só é sumário específico do cumprimento da profecia testemunhada por ele em Roma como também atende ao mandamento (Cf. Lc 24,47;

At 1,8; 22,21; 26-17-18) de Jesus, para que o ideário fosse anunciado a todas as nações, destino simbolizado por Roma.

5. Apologia ao acesso aos gentios: At 28,26-27

Paulo, citando Isaías, é identificado com o profeta. O endurecimento denunciado por ele, quanto aos judeus que persistem na rejeição, tem função condenatória, como a Judá. (Cf. Is 29,9-10) Cria-se uma dramática inversão do substrato da citação em Lc 3,4-6 (Cf. Is 40,3-5), quanto à esperança de Israel, para aquele de At 28,25-27 (Cf. Is 6,9-10), quanto à obstinada rejeição de parte de Israel. (Cf. EVANS, 1993, pp. 171-176)

Na verdade, a missão de Paulo, cuja conclusão vai sendo delineada, foi inaugurada pelo discurso em Antioquia (At 13,40-41):

Vede, pois, que não vos sobrevenha o que está dito no livro dos Profetas: “Olhai, desprezadores, maravilhai-vos e desaparecei! Porque eu vou fazer, ainda em vossos dias, uma obra tal que não acreditaríeis, se alguém vo-la narrasse!”58

Essa profecia de Habacuque (1,5), inserida pelo autor lucano no trecho acima citado, é protótipo do que Paulo experimentará no decorrer de suas viagens e que enunciará à guisa de conclusão em At 28,25-28. Aliás, já em Corinto, Paulo declara que irá aos gentios. (Cf. At 18,6) Também em Éfeso, vê-se Paulo acessando os gentios por ocasião da rejeição de parte dos judeus. (Cf. At 19,8-9) Considerando que Jesus, na obra lucana, é também um profeta (Cf. Lc 4,18-19; 11,42-52; 8,10), e que os cristãos também o são (Cf. At 19,6; 21,9; 2,17), o autor busca unir Paulo à continuidade profética judaico-cristã.

Em At 13,46-47, alude-se à rejeição de parte de Israel em compreender-se vocacionado a estender a salvação a todas as nações por ocasião dos encontros de Paulo com os representantes judeus e a respectiva mudança de destino do discurso cristão para os gentios. Na perícope pesquisada, os versículos 25-28 promovem a conclusão, num clímax, do Leitmotiv desses encontros. O germe dessa mudança de destino já pode ser percebido anteriormente na obra lucana (Cf. Lc 4,24-27), pelo fato de que Deus favorece os gentios diante da rejeição de alguns judeus. Trata-se de um precedente histórico e um protótipo literário para a opção que Paulo faz em At 28,25- 28.

da tradição de Israel no cristianismo. O fechamento é aludido pela citação de Is 6,9- 10, intitulada pelo autor na narrativa como ῥῆμα ἕν, uma “palavra final”, uma afirmação decisiva, definitiva59 que sela o abandono da esperança de reunir Israel entorno do

Evangelho. (Cf. MARGUERAT 141, 2002, p. 82) A abertura é aludida pela decisão estrategicamente desenhada em toda a obra lucana do acesso aos gentios como destino vocacional do “resto de Israel” que adere ao querigma cristão.

6. Os destinatários de Lc-At

A narrativa em pauta (At 28,16-28) deve ter sido relevante para os primeiros leitores da obra para defender a vida e a atividade de Paulo, no sentido de estabelecer alguma continuidade histórica com o passado e de fornecer um modelo de ação missionária da igreja mundo afora.

O paralelo que a obra lucana busca criar entre Jesus e Paulo parece ser uma apologia que visa harmonizar os dois personagens na eventual necessidade de defesa de Paulo diante dos cristãos que não possuem uma ligação direta com o passado de Israel. Ter Paulo como uma continuidade supera o risco que a ruptura radical com a tradição judaica traria a um discurso incipiente como é o “cristianismo” dos destinatários primeiros da obra lucana: os gentios que aderem ao querigma cristão.

É compreensível que haja, portanto, uma crise de identidade duma comunidade crescente e que busca estabilizar-se com relação aos seus vínculos com a tradição. O autor lucano parece buscar contribuir com o sentido de identidade, continuidade e herança, estabelecendo a continuidade Israel-Jesus-Paulo-cristãos. Somente dessa forma poderá surgir uma eclesiologia cristã legítima. Por outro lado, é preciso tranquilizar os judeus-cristãos quanto à esperança de Israel cumprir-se no “cristianismo” e de que não precisam ceder à pressão da sinagoga. (Cf. COMBLIN, 1988, p. 401)

O modelo da futura Igreja, quanto à ação missionária, é exemplificado na vida e atividade de Paulo que anuncia o Evangelho aos gentios, completando assim a obra de Cristo e cumprindo seu mandamento.

59Assim se justifica nossa opção por traduzir o verbo “dizer” por “asseverar”, buscando incluir no

7. A tensão fértil entre o risco da ruptura e a continuidade imprescindível

Na carta de Paulo aos Romanos, nos capítulos de 9 a 11, Paulo está diante da angustiante rejeição de parte de seu povo, Israel, ao Messias Jesus. Como resposta, Paulo traça um itinerário onde se localizam na história de Israel partes do povo escolhido que, de fato, rejeitam a promessa. Enquanto, encontra, favoravelmente, o conceito de “resto” de Israel com o qual se pode afirmar que a história da relação de Deus com seu povo não é uma história de promessas fracassadas, mas sim de sucessos parciais. Dessa forma, Paulo pode conceber que há um Israel, “remanescente” e salvo pela graça. (Cf. MOESSNER; apud PERVO, 2003, p. 158)

Na obra lucana, o “cristianismo” não é um substituto excludente de Israel, mas subsiste como continuidade histórica e empírica de sua tradição, promessa e esperança. É o mesmo Paulo da carta aos romanos, contudo, acessado com fins objetivos de estabilizar o processo de constituição de uma identidade que supõe a ruptura de parte de Israel, fato que não é surpreendente na história, e apela à continuidade empírica com o cumprimento das promessas e adesão do resto de Israel à esperança cristã.

Portanto, nem Lucas nem Paulo concebem o cristianismo como um novo ou verdadeiro Israel. Aliás, o título de Israel ou israelitas é exclusivo dos judeus. A narrativa lucana vê o “cristianismo” emergir no cumprimento das promessas e na expansão vocacional do plano de salvação a todos os povos. (Cf. Is 42,6; 49,6) A própria figura de Paulo em Lucas, cuja adesão ao Cristo Jesus é contada por três vezes (Cf. At 9; 22; 26), não é despida de sua identidade judaica, ao contrário, é reorientada a partir dela mesma. Mais uma vez, unindo-se Paulo aos cristãos, como um protótipo deles, obtém-se o liame necessário da continuidade e completude do projeto salvífico do Deus de Israel.

Quanto a serem os gentios os destinatários dessa continuidade-expansão, a própria tradição de Israel não considera ser surpreendente, basta que se considerem os exemplos da viúva de Sarepta (Cf. 1Rs 17) e de Naamã (Cf. 2Rs 5). São momentos decisivos da história de Israel em que Deus demonstra sua liberdade de ação. Contudo, na perícope em pauta desta pesquisa, a afirmação de Paulo de que os