Três seixos rolados de quartzito não apresentam sinal de transformação voluntária, mas foram levados para o sítio. Nas três encontramos possíveis marcas de ação térmica: aspecto avermelhado (Foto 55). Vale lembrar que o avermelhamento pode corresponder também a uma oxidação provocada por água.
Foto 55 - : Seixos com início de avermelhamento. Escala de 5cm. Autor: Igor Rodrigues
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185 A peça nº 1 pesa 554g, com 13,2cm de comprimento, média de 6,5cm de largura e 4,1cm de espessura. Não apresenta marcas de utilização como percutor. Nela encontramos
algumas partes com adensamento de marcas de picoteamento. Estas só apareceram em pontos angulosos da peça (Foto 57, Foto 58). Na lateral os pontos são profundos, a indicar que percutiu algo duro. Já na extremidade do comprimento da peça, as marcas não são leves. Isto faz pensar que esta parte pode ter sido utilizada para percutir algo não tão duro (madeira? osso?).
O seixo nº 3 foi lascado pelo fogo. Uma de suas lascas, inclusive, é bem típica deste tipo de lascamento, sem bulbo ou talão e apresenta uma curvatura (Foto 59). As medidas exatas deste seixo são desconhecidas, visto que foi lascado. O conjunto do material coletado pesa 195,1g; a largura do maior fragmento é 6,1cm; o comprimento 13cm;, uma parte desta peça possui a espessura completa que mede 2,7cm, possivelmente a parte central do seixo devia corresponder a 3cm (Foto 61). Antes de sofrer a ação do fogo, o seixo foi utilizado como percutor, como indicam duas intensas marcas de picoteamento, ambas localizadas em extremidades (Foto 60, Foto 61).
Comparando os locais de marcas de picoteamento dos seixos 2 e 3, nota-se que as marcas só ocorrem em pontos angulosos das peças. Excetuando-se as marcas leves situadas na extremidade do comprimento do seixo 2, possivelmente utilizada para bater em algo inúmeros pontos de fuligem
que junto a seu aspecto avermelhado indicam que ela esteve próxima do fogo.( foto 56)
Pesando 248g, com 9,5cm de comprimento, 4cm de largura e 3,7cm de espessura, a peça nº 2 além de possivelmente ter ficado próxima do fogo, pelo seu as pecto avermelhado, apresenta
Foto 56 - Peça nº 1 com vestígios de fuligem lustrosa. Escala de 5cm. Autor: Igor Rodrigues
186 macio, as demais foram usadas para percutir algo duro. Não acreditamos que foram utilizadas para percussão bipolar, pois os locais nos quais as marcas de picoteamento estão parecem não ser muito apropriados para esta tarefa, por serem angulosos. Pode ser que uma parte do seixo 3 pode ter servido para percussão unipolar (foto 13). Através da localização em pontos angulosos dos seixos destas intensas marcas, podemos imaginar são ideais para realizar reentrâncias. Contudo, isto é apenas uma reflexão.
Foto 57 - Peça nº2 com marcas profundas de picoteamento na parte angulosa da lateral. Autor: Igor Rodrigues
Foto 58 - Peça nº2 com marcas leves de picoteamento na extremidade da peça. Escala de
5cm. Autor: Igor Rodrigues
Foto 59 - asca térmica do seixo 3 com densas marcas de picoteamento. Autor: Igor Rodrigues
Foto 60 - Lasca térmica do seixo 3 com densas marcas de picoteamento. Autor: Igor Rodrigues
187 Foto 61 - Fragmento do seixo 3, com adensamento de marcas de picoteamento em grande parte de sua extremidade
lateral. Autor: Igor Rodrigues
Criar uma reentrância em uma pedra pode servir, por exemplo, para a manufatura de uma lâmina de machado semilunar. Não encontramos nenhuma lâmina desta no sítio Vereda III, todavia, uma pode ter sido manufaturada no sítio e levada pelo grupo quando este abandonou o sítio. Estes belos artefatos estão associados com a Tradição Aratu-Sapucaí e na região de Lagoa Santa alguns exemplares foram encontrados, um inclusive nas redondezas da Lapa do Caetano, situada aproximadamente a 10 Km (sul) do sítio Vereda III (Foto 62).
Foto 62 - Lâmina de machado semilunar proveniente das redondezas da Lapa do Caetano. Foto sem escala. Extraído de Prous et al. (2003: 73)
É notório que não encontramos batedores robustos, mais adequados para o lascamento bipolar. Podemos pensar que eles estão ainda no sítio, ou foram levados pelo grupo. Também não encontramos mós.
Além destes seixos carregados para o sítio, na escavação encontramos grandes blocos de calcário friáveis. Esta friabilidade corresponde a um leve esfarelamento, possivelmente provocado pela acidez do solo que recobria os blocos. Por não termos identificado neles em capo marcas de percussão, lascamento e depressões, optamos por não trazê-los ao laboratório, tendo em vista o tamanho avantajado dos blocos. Contudo, cada bloco encontrado no contexto arqueológico da escavação recebeu um número (em
188 Foto 63 - Blocos de calcário encontrados no contexto arqueológico
da quadra I8. Escala de 10cm. Autor: Rogério Tobias Jr.
algarismos romanos), sendo desenhado nas plantas e fotografado
in situ. Assim que fechamos a
escavação, todos voltaram para suas respectivas quadras devidamente numerados e cobertos com TNT75. Em laboratório, arrependemo-nos de não ter trago estes blocos para análises mais detidas após uma lavagem. Mesmo assim, vários destes blocos, particularmente aqueles encontrados na quadra I8 (Foto 63), merecem algumas considerações. Olhando a Foto 63, temos a impressão de que os três blocos da direita deveriam compor um só que estava na vertical e se rachou ao cair, em seguida sendo presos por grandes raízes. Em campo observamos que de fato as três partes se encaixam perfeitamente.
Talvez estes blocos possam ter servido como um suporte para panelas, ou até mesmo uma espécie de mesa para colocar objetos auxiliares nas tarefas culinárias. Cabe lembrar que os blocos da quadra I8 estavam proximos de dois grandes potes piriformes (7 e 13). Nesta quadra também foram encontradas as bolotas de argila não queimada, possivelmente utilizadas para a confecção de vasilhames. Assim, esta conjectura de utilização dos blocos para auxílio de atividades rotineiras ganha um reforço, embora não passe de simples hipótese. Apesar de tudo serviu de alerta para não desprezarmos em campo materiais aparentemente sem modificação humana. Em próximas investidas no local, eles estarão lá, cabe a nós trazê-los para o laboratório de modo a uma análise pormenorizada.