Ainda dentro do conteúdo deste versículo introdutório, vemos, na segunda parte da oração
aybi(N"h; qWQßb;x]
“Habakkuk, o profeta”, a indicação do receptor e proclamador deste “Peso” recebido em “Visão”.Dados preliminares
O texto de Habakkuk não nos fornece respostas necessárias para entendermos o autor. Perguntamos pela identidade do profeta; pelo seu contexto histórico; pela natureza do seu ministério; pelo objeto de seu ministério, a que comunidade ele se dirige; e, não dispomos de muitas informações no texto.
Enfim, essas e outras questões, fazem da intenção de interpretar este livro profético, um grande desafio. Ao mesmo tempo, essa ausência de dados internos concretos expõe o seu conteúdo para as mais diversas especulações.
1.3.1 A Identidade de Habakkuk
A introdução nos ajuda ao indicar o receptor e proclamador profético como sendo
aybi(N"h; qWQßb;x
“Habakkuk, o profeta”. Há certo consenso entre osintérpretes, especialmente, os mais recentes, quanto à Habakkuk ser, de fato, o autor deste livro. A questão fica difícil quando se discute a identidade deste homem. Quem era ele? Tinha ele alguma ocupação antes de ser chamado para ser profeta? O seu nome tem algum significado aplicado ao conteúdo do livro?
Virgulin67 afirma que o nome Habakkuk “parece corresponder ao de uma planta ou árvore
frutífera, talvez a cássia. Com este significado o nome é encontrado na língua assíria: hambaququ”. Na LXX, “seu nome aparece como Ambakoum. Jerônimo a derivou de uma raiz hebraica que significa ‘Segurar’, e disse que: ‘Ele é chamado ‘Abraço’, ou por causa de seu amor ao Senhor, ou porque lutava contra Deus’”68. Schökel69 afirma que Habakkuk “é um dos
profetas sobre os quais menos dados possuímos” e se espanta com esta falta de dados, porque Habakkuk “aparece ao longo do livro como profeta intensamente inserido na problemática do seu tempo”.
A discussão se estende quando levamos em conta as tantas tradições que surgiram, justamente por falta de dados internos, em torno deste nome. O livro deuterocanônico “Bel e o Dragão, do período dos Macabeus, acrescentado em Daniel em um manuscrito da LXX, afirma que Habacuque era contemporâneo de Daniel, e o identifica como filho de Jesus, da tribo de Levi”70/71. Em Dn 14,33-39 temos o seguinte relato lendário:
“Entretanto, o profeta Habacuc estava na Judéia. Ele havia acabado de cozinhar um caldo e de dividir pães em pedaços numa cesta, e dispunha a ir ao campo a fim de levá-los aos ceifeiros. Disse então o Anjo do Senhor a Habacuc: ‘Leva a refeição que tens até a Babilônia, à cova dos leões, para Daniel’. Retrucou Habacuc: ‘Senhor, nunca vi Babilônia, e não conheço essa cova’. Mas o Anjo do Senhor, segurando-o pelo alto da cabeça, transportou-o pela cabeleira até a Babilônia, à beira da cova, na impetuosidade do seu espírito. Gritou então Habacuc, dizendo: ‘Daniel, Daniel, toma a refeição que Deus te enviou!’. E Daniel disse: ‘Tu te recordaste de mim, ó Deus, e não abandonaste os que te amam’.
67 Cf. Virgulin, Stefano “Os doze profetas e Daniel” In: Ballarini, P. Teodorico. Introdução à Bíblia com
Antologia Exegética. Petrópolis: Editora Vozes, p. 112, 1978.
68 Cf. Davidson, F.; Stibbs, A. M.; Kevan, E. F. O Novo Comentário da Bíblia Vol. II. São Paulo: Edições Vida
Nova, p. 892, 1987.
69 Cf. Schokel, Luis Alonso; Diaz, J. L. Sicre. Profetas II (Grande Comentário Bíblico). São Paulo: Editora
Paulus, p. 1123, 2011.
70 Cf. Sayão, Luiz A. T. O Problema do Mal no Antigo Testamento: O caso de Habacuque. São Paulo: Editora
Hagnos, p. 89,90, 2012.
Depois, levantando-se, Daniel comeu. Entretanto, o Anjo do Senhor imediatamente reconduziu Habacuc ao seu lugar”72.
Contudo, Asurmendi opina que “esse texto nos esclarece pouco sobre a pessoa do profeta”73.
Outra tradição, segundo Sayão, aparece em “Vidas de profetas”. Segundo esta “obra pseudoepigráfica (Século 1 a. C.) atribuída a S. Epifânio, o profeta é considerado pertencente à tribo de Simeão, natural de Bethsocher74. Neste livro se lê que:
“Era da tribo de Simeão, da cidade de Betsuhar. Antes da deportação teve uma visão da captura de Jerusalém e se lamentou muito. Quando viu Nabucodonosor contra Jerusalém, fugiu ao ostracismo e habitou na terra de Ismael. Quando os caldeus se retiraram e os que habitavam em Jerusalém desceram para o Egito, estava vivendo de novo em sua terra. Tinha o hábito de servir os ceifeiros de sua cidade. Ao receber a comida profetizou aos de sua família dizendo: ‘Vou-me a uma terra distante, e em seguida voltarei. Se tardar, levai a comida aos ceifeiros’. Chegou à Babilônia, entregou a comida à Daniel e se apresentou de novo junto aos ceifeiros, enquanto estavam comendo. E não disse nada do que ocorreu. Supôs que a provação voltaria logo da Babilônia e morreu dois anos antes do retorno. Foi enterrado só, em sua própria cidade”75
(tradução livre).
Outra tradição surgiu pela sugestão de um rabino de que “o profeta fosse o vigia citado em Is 21,6 e que teria vivido em Beth-Zacaria” (I Mac 6,32)76. Sayão ainda destaca que o
“tratado midráxico Seder ‘Olam Rabbah (século 2 ou 3) coloca Habacuque no reinado de Manassés (695-642 a.C.)”77. O escritor cristão Clemente de Alexandria, diz “que o profeta foi
72 Cf. Bíblia de Jerusalém. “Daniel”. São Paulo: Edições Paulinas, 4ª Edição 1989.
73 Cf. Amsler, S.; Asurmendi, J.; Auneau, J.; Achard-Martin, R. Os profetas e os livros proféticos. São Paulo:
Edições Paulinas, p. 172, 1992.
74 Cf. Sayão, Luiz A. T. O Problema do Mal no Antigo Testamento: O caso de Habacuque. São Paulo: Editora
Hagnos, p. 90, 2012.
75 Cf. Diez Macho, A. Apócrifos del Antiguo Testamento III. Husca, Madri: Cristiandad, 1982. P. 521. Citado
por Mosquera B., Fernando A. in: Habacuc, O Interpelador de Yahweh: Comentario Exegetico y Explicativo. Colômbia: Santafé de Bogota, p. 54,55, 1993.
76 Cf. Sayão, Luiz A. T. O Problema do Mal no Antigo Testamento: O caso de Habacuque. São Paulo: Editora
Hagnos, p. 90, 2012.
77 Cf. Sayão, Luiz A. T. O Problema do Mal no Antigo Testamento: O caso de Habacuque. São Paulo: Editora
contemporâneo de Jeremias, Ezequiel, Jonas e Daniel” e o Sefer Hazohar, do século 14, “identifica Habacuque com o filho da sunamita curada por Eliseu (veja II Reis 4,8-37)”78.
A tradição da contemporaneidade de Habakkuk com Daniel, a tradição de que ele era da tribo de Levi e, portanto, um profeta cultual79, bem como outras tradições, não têm muito
fundamento e, portanto, não podem ser demonstradas porque, “no livro faltam informações biográficas diretas”80. Se esta é a posição quanto à identidade de Habakkuk, parece não haver
dúvidas de que, seja ele quem for, ele é o autor do livro que leva o seu nome.
1.3.2 Ministério
Precisamos incluir aqui algumas considerações quanto ao tipo de profeta que era Habakkuk. Esta questão é importante devido ao emprego da expressão
aybi(N"h;
para designar sua função. Sellin e Fohrer81 veem no uso desta expressão a designação doprofeta profissional82 portador de uma mensagem contra outras nações. Definir o emprego de
aybi(N"h;
como “designação do profeta profissional” não encontra consenso entreos intérpretes. Asurmendi83, afirma que o termo
aybi(N"h;
“não significanecessariamente funcionário cultual e o livro não oferece elementos suficientemente precisos em apoio dessa hipótese”.
Virgulin84 critica os pesquisadores que veem no conteúdo dos capítulos 1 e 2 uma
“composição ritual ditada para o culto de um dia de penitência e de jejum”. Segundo esta posição, Habakkuk recita o conteúdo desses dois primeiros capítulos imitando profeticamente o rito cultual no templo de Jerusalém quando tem uma experiência extático-visionária e,
78 Cf. Sayão, Luiz A. T. O Problema do Mal no Antigo Testamento: O caso de Habacuque. São Paulo: Editora
Hagnos, p. 90, 2012.
79 Esta questão será discutida mais à frente.
80 Cf. Virgulin, Stefano “Os doze profetas e Daniel” In: Ballarini, P. Teodorico. Introdução à Bíblia com
Antologia Exegética. Petrópolis: Editora Vozes, p. 112, 1978.
81 Cf. Sellin, Ernst; Fohrer, Georg. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Editora Academia
Cristã/Paulus, p. 637, 2012.
82 Para estes autores “profeta profissional” se refere ao profeta “agregado ao templo de Jerusalém, onde se
empenhava ativamente em receber visões (2,1), onde transmitia as instruções recebidas nessas ocasiões (2,4) e as escrevia em tabuinhas (2,2; conf. Is 8,1)”.
83 Cf. Amsler, S.; Asurmendi, J.; Auneau, J.; Achard-Martin, R. Os profetas e os livros proféticos. São Paulo:
Edições Paulinas, p. 172, 1992.
84 Cf. Virgulin, Stefano “Os doze profetas e Daniel” In: Ballarini, P. Teodorico. Introdução à Bíblia com
então, escreve o oráculo. Sua conclusão é que “esta interpretação não se impõe; pois os indícios litúrgicos são frágeis demais e muitas vezes baseados em correções textuais”.
Uma expressão sinônima utilizada por outros intérpretes é “profeta do culto” ou “profeta cultual”. A razão de relacionar Habakkuk com esta designação é encontrada no uso que ele faz de termos sálmicos ou linguagem característica da adoração levita. Isso ocorre, especialmente, no capítulo 3. Mas, como observa Santos85, a expressão “profeta cultual” é
ambígua. Ela pode significar um funcionário do culto ou um profeta que desempenha seu serviço profético nas imediações do templo. Vuileumier e Keller (1971), citados por Asurmendi86, afirmam que o profeta cultual ou o profeta de profissão é um “homem adscrito
ao serviço do templo, onde estava à disposição de quem quisesse submeter uma questão a Deus ou consulta-Lo por intermédio de um homem inspirado”.
Muito embora admitamos que a riqueza de material relacionado ao culto “possa ter surgido numa situação litúrgica, os elementos autobiográficos no livro (Hc 2,1; 3,2; 3,16-19) mostram, em vez disso, que não se deveria atribuí-lo, na sua forma atual, à influência do culto”87. Concordamos com Asurmendi88: “Ter familiaridade com os salmos usados no culto é
uma coisa; ser ‘profeta cultual’ é outra”. Preferimos pensar em Habakkuk como um profeta nos moldes da profecia clássica, ou seja, ele é um profeta enviado da parte de YHWH e dirige sua palavra a uma audiência, podendo estar vinculada ao templo ou não.
1.4 ANÁLISE EXEGÉTICA DE HC 1,2-4
Tendo analisado o livro de Habakkuk como um todo destacando a sua organização e o seu conteúdo e, tendo também observado o que se pode obter quanto ao seu autor pelos dados internos, agora procederemos com a análise exegética. A primeira perícope que analisaremos
85 Cf. Santos, Jeová Rodrigues dos. Ecos de Habacuc para a atualidade: A fidelidade do justo frente à injustiça
social. São Leopoldo RS: Editora Oikos, p. 81, 2009.
86 Cf. Amsler, S.; Asurmendi, J.; Auneau, J.; Achard-Martin, R. Os profetas e os livros proféticos. São Paulo:
Edições Paulinas, p. 171, 1992.
87 Cf. Dillard e Longman, 2006, p. 392, citados por Santos na p. 81,82.
88 Cf. Amsler, S.; Asurmendi, J.; Auneau, J.; Achard-Martin, R. Os profetas e os livros proféticos. São Paulo:
é 1,2-4. E, nela, procuramos pela teologia que dá sustentação à queixa do profeta diante de YHWH.
Para o desenvolvimento desta análise nos valeremos da orientação do método histórico- crítico. Apresentaremos a tradução do texto com a sua estrutura conforme se apresenta; prosseguiremos com a análise da crítica textual interpretando os dados do aparato crítico da Bíblia Hebraica Stutgartensia (BHS); em seguida procederemos à análise da forma da perícope, ou seja, delimitação, estrutura, coesão, estilo literário, e gênero literário. É desta análise que pretendemos extrair os dados que nos ajudarão a perseguir nosso objetivo com esta pesquisa.
1.4.1 Tradução Interlinear
[m'_v.ti al{åw> yTi[.W:ßvi hw"±hy>
hn"a"ô-d[;
ouvirás/e não/continuarei clamando por ajuda/YHWH/Até quando`[:yvi(At al{ïw> sm'Þx' ^yl,²ae q[;îz>a
?salvarás/e não/violência/a ti/Clamarei
dvoïw> jyBiêT; lm'ä['w> ‘!w<a'’
ynIaEÜr>t; hM'l'ä
/e devastação /tu contemplas/e opressão/iniquidade/tu me fazes ver/Por que`aF'(yI !Adßm'W byrI¢ yhióy>w:
yDI_g>n<l. sm'Þx'w>
ele suscita/e rixa/intriga/eis que surge/estão diante de mim/e violência‘[v'r" yKiÛ jP'_v.mi xc;n<ßl' aceîyE-
al{)w> hr"êAT gWpåT' ‘!Ke-l[;
/(o)impio/porque/(o)direito/nunca/e não finaliza/(a)Lei/ enfraquece/Por esta causa`lQ")[um. jP'Þv.mi aceîyE !KE±-l[;
qyDIêC;h;-ta, ryTiäk.m;
pervertido/(o)direito/finaliza/por isso/o justo/está cercando1.4.2 Tradução Literal
Seguindo a tradução interlinear, apresentamos aqui a tradução resultante desta primeira aproximação do texto hebraico.
V.2 “Até quando, YHWH, continuarei clamando por ajuda e não ouvirás; clamarei a ti violência e não salvarás?”.
V.3 “Por que tu me fazes ver iniquidade e opressão tu contemplas e devastação e violência estão diante de mim? Eis que surge intriga e rixa ele suscita”.
V.4 “Por esta causa a Lei enfraquece e não finaliza nunca (o) direito. Porque (o) ímpio está cercando o justo, por isso finaliza (o) direito pervertido”.
1.4.3 Crítica Textual
Apresentamos aqui o resultado da nossa leitura das informações constantes no aparato crítico da Bíblia Hebraica Stuttgartensia89 para melhor definir nossa tradução desta perícope.
Verso 3: O aparato crítico da BHS sugere substituir o massorético
jyBiêT;
, um Hiphil incompleto na segunda pessoa masculino singular, “Tu contemplas”, pelojyBa;i
, um Hiphil incompleto na primeira pessoa do masculino singular, “Eucontemplo”. Tal sugestão, possivelmente, se deve à dificuldade de ler a expressão “Opressão tu contemplas” tendo YHWH como sujeito. Esta sugestão segue a versão Siríaca e o Targum segundo A. Sperber. Silva90 vê certa lógica nesta sugestão, pois, “se Javé me faz ver”, logo,
“Eu contemplo”. Entretanto, descarta tal sugestão por considerar o texto massorético em sua forma de apresentação “plenamente compreensível e razoável”. Assim, concordamos com ele em ver YHWH como sujeito tanto da primeira forma verbal: “Tu me fazes ver a iniquidade”, quanto da segunda: “e opressão, Tu contemplas”.
Questiona-se se
byrI¢ yhióy>w:
“E eis que surge intriga”, não é uma leitura variante ou glosa da expressão seguinteaF'(yI !Adßm'W
“E rixa ele
89 Doravante “BHS”.
90 Cf. Silva, Domingos Sávio da. Habacuc e a resistência dos pobres. Aparecida SP: Editora Santuário, p. 31,
suscita”91. Pode ser. Para isso precisaríamos traduzir a expressão literalmente considerando o
“ele” incluído no verbo
yhióy>
(Qal incompleto terceira pessoa masculino singular) “Ele suscita”. Assim, a oração ficaria com o mesmo sentido da próxima. No entanto, a manutenção do massorético não fica sem sentido, pois, pode-se traduzir a primeira oração de modo impessoal “E eis que surge intriga”, mantendo o “ele” do verbo da segunda oração “E rixa ele suscita”. Assim, as duas orações reforçam o sentido uma da outra. Essa é a nossa preferência aqui.
Silva92 preferiu traduzir o verbo
yhióy>
(Qal incompleto terceira pessoa masculino singular) pelo completo “E eis que surgiu intriga”. Preferimos manter, tanto este verbo quanto o da segunda oração, como uma ação presente aberta para o futuro. O “ele” da segunda oraçãoaF'(yI !Adßm'W
“E rixa ele suscita”, o mesmo intérprete adianta que se refere ao[v'r"
, que vai aparecer no v.4. Segundo ele, este será o “agente responsável pela situação”, tanto de fazer surgir intriga, quanto de suscitar rixa93.
Completando este verso, o aparato da BHS sugere alterar o
aF'(yI
, Qal incompleto terceira pessoa masculino singular “Ele suscita” da expressãoaF'(yI
!Adßm'W
, paraaF'a,
, Qal incompleto primeira pessoa masculino singular “Eususcito”. E se pergunta se, com o passar do tempo, não se deixaram de lado algumas palavras. Preferimos descartar essas sugestões do aparato crítico por entendermos que o massorético é plenamente compreensivo.
Verso 4: Quanto ao v.4 o aparato crítico da BHS informa que no texto correspondente de Qumran, o massorético
jP'v.mi
“Direito”, aparece com o artigo definidojP'v..mih;i
“O direito”.
91 Cf. Aparato crítico BHS p. 1049: Var lect na gl ad sq?
92 Cf. Silva, Domingos Sávio da. Habacuc e a resistência dos pobres. Aparecida SP: Editora Santuário, p. 31,
1999.
93 Cf. Silva, Domingos Sávio da. Habacuc e a resistência dos pobres. Aparecida SP: Editora Santuário, p. 32,
1.4.4 Características Formais
Tendo procurado interpretar as informações do aparato crítico e escolher aquela tradução que, a nosso juízo, se mostra mais coerente mantendo nosso princípio de, tanto quanto possível, não mexer no já remexido texto massorético, prosseguimos agora para a análise das características formais do texto. Isso significa que abordaremos nosso texto tentando definir seu limite, sua estrutura, sua coesão, seu estilo literário e o gênero de sua literatura.
1.4.4.1 Delimitação
Por delimitação entendemos a determinação do início e do fim de um texto ou de uma perícope dentro dele. Esta delimitação se faz necessária a fim de contribuir para o melhor entendimento do texto que estamos estudando.
Inicia-se aqui a primeira unidade literária do livro. Como vimos, esta se estende até 2,4. Compondo esta unidade literária, temos 1,2-4 que se define como uma perícope por se tratar de uma queixa dirigida pelo profeta e endereçada a YHWH. Considerando, como vimos, que Hc 1,1 é um verso que foi inserido posteriormente no texto com o objetivo de dar- lhe uma introdução formal, esta perícope se inicia em 1,2. Seu inicio está marcado por profunda tensão, o que pode ser percebido pelo emprego imediato da expressão
hn"a"ô-d[;
“Até quando?” que dita o ritmo da queixa até o fim. Fim que pode serpercebido pela mudança de sujeito entre os vv.4 e 5. Todo o conteúdo dos vv.2-3 são orações com o sujeito em primeira pessoa se dirigindo a um “tu” divino:
hn"a"ô-d[;
“Até quando...”;yTi[.W:ßvi
(Piel completo em primeira pessoa do singular) “Eu continuarei clamando...”;q[;îz>a,
(Qal imperfeito na primeira pessoa do singular) “Eu gritarei...”;ynIaEÜr>t;
(Hiphil incompleto na segunda pessoa masculino singular com sufixo de primeira pessoa masculino singular) “Tu me fazes ver”. Já o conteúdo do v.4 é coordenado, sintaticamente, pelo sujeito em primeira pessoa dos vv.2-3. Isso se observa pelo emprego de‘!Ke-l[;
“Por esta causa” abrindo este v.4.Já o v.5, se abre com
WaÜr>
(Qal imperativo plural masculino) “Vede”,WjyBiêh;w>)
(Hiphil imperativo plural masculino) “E olhai”,WhßM.T;hi(w>
(Hithpael imperativo plural masculino) “E contemplai” e,Whm'_T.
(Qal imperativo plural masculino) “Observai”. Esta mudança, até brusca porsinal, marca, sem dúvida, o fim desta perícope e o inicio da próxima.
Alguns intérpretes preferem ver 1,2-4 em conjunto com 1,5-11. Assim, a perícope seria delimitada de 1,2-11. O argumento é que o lamento do profeta deve ser tratado em união com a respectiva resposta de YHWH. Não é, a nosso ver, uma sugestão ruim quando se busca uma visão integral do assunto ali desenvolvido. O problema é que esta sugestão deveria, pela mesma razão, incluir 1,12-17. Porque, todo o capítulo 1 está, intimamente, interlegado. E isso, deveria nos levar a incluir 2,1-4, ou seja, toda esta unidade literária. A divisão que a maioria dos intérpretes faz, entretanto, tem o propósito de olhar a unidade literária em suas partes e, neste caso, precisamos manter a delimitação de 1,2-4 assim como, ainda veremos, a de 1,5-11, a de 1,12-17 e a de 2,1-4. É essa delimitação em perícopes, especialmente, marcada por queixa – resposta; queixa – resposta, que levou Silva a perceber que o trabalho do profeta consiste de “em nome do povo”, levar a “Javé o apelo desse mesmo povo (1,2-4), para depois”, sem interrupção, voltar trazendo “ao povo a resposta divina”94.
1.4.4.2 Estrutura
Esta curta perícope está claramente estruturada em duas partes principais. A maioria dos intérpretes a divide entre 1,2-3 e 1,4. Esta divisão se apoia no fato de que nesta queixa os vv.2 e 3 seguem o gênero das lamentações, propriamente dito, que é frequente no livro dos Salmos. Asurmendi, que concorda em dividir esta perícope entre 1,2-3 e 1,4 diz que “Habacuc se inspira largamente nessas orações para expor a Deus a situação do povo e pedir sua intervenção”95. Após a queixa seguindo o gênero da lamentação, surge o discurso direto no versículo 4 caracterizado por elementos tipicamente proféticos distinguindo-o, então, dos v. 2
94 Cf. Silva, Domingos Sávio da. Habacuc e a resistência dos pobres. Aparecida SP: Editora Santuário, p. 19-20,
1999.
95 Cf. Amsler, S.; Asurmendi, J.; Auneau, J.; Achard-Martin, R. Os profetas e os livros proféticos. São Paulo:
e 3. Por “elementos tipicamente proféticos” nos referimos a constatação que o profeta faz como leitura da realidade no v.4 como explicação das questões levantadas em 1,2-396.
A respeito da estrutura de 1,2-4, Silva parece favorecer a divisão em 1,2-3 e 1,4. Ele argumenta que a “súplica-lamento” de 1,2-4 se “abre em forma de discurso direto” em primeira pessoa nos versículos 1,2-3 e se fecha “de modo narrativo” no versículo 497. Entretanto, observada pela sua função de interpelar YHWH, esta estrutura, segundo ele, se mostra dividida, não entre 1,2-3 e 1,4, mas, sim, entre 1,2-3a e 1,3b-498. A primeira parte (1,2- 3a), constituindo-se explicitamente como interpelação a YHWH, “serve-se do discurso em segunda pessoa”. Esta interpelação é composta por três perguntas: “Até quando, YHWH, continuarei gritando por socorro?”; (“Até quando”) “Clamarei a ti ‘violência!’ e não salvarás?; “Por que me fazes ver iniquidade e opressão tu contemplas?”. A segunda parte “do v.3b até o fim (v.4), emerge a forma narrativa, em terceira pessoa”. Para ele, o “relato que o profeta insere em sua interpelação direta a seu tu divino”, tem início em 1,3b e não apenas em 1,4. Aceitando esta observação de Silva propomos esta estrutura para esta perícope, ou seja, 1,2-3a – A interpelação a YHWH; 1,3b-4 – A constatação profética ou, a leitura da realidade feita pelo profeta.
1.4.4.3 Coesão
Como já tivemos oportunidade de ver, o livro do profeta Habakkuk se apresenta de forma