SYNOPTIC SCRUTINY OF PEDAGOGICAL PRACTICES FOR DEVELOPING FIVE MINDS FOR THE FUTURE
3. Findings and discussion 1. Five Minds for the Future
À medida que a segunda metade do século XX avançava, começava-se a perceber, cada vez mais, um acentuar das diferenças entre duas «correntes»: a táctico-técnica11 e a táctico-física12.
Contextualizando, Pereni & Di Cesare (1998) lembram que enquanto a maioria dos clubes do norte europeu se concentravam nas capacidades atléticas, interpretação metódica do desempenho e na disciplina táctica
10 A equipa e o seu jogar devem ser entendidos como um sistema (de sistemas) (Garganta & Gréhaigne, 1999;
Teodorescu, 2003; Guilherme Oliveira, 2004; Silva, 2008; …). Segundo a observação e reflexão sobre décadas de desenvolvimento do conceito de sistema em diferentes ramos da ciência, Durand (2002) reconhece que as noções de inter-relação (dos seus elementos) e de totalidade são duas condições sine qua none que resultaram das definições produzidas. Um sistema é, portanto, “um todo dinâmico cujos elementos estão ligados entre si e que tem interacções” (Bertrand & Guillemet, 1994: 46). Desta forma, Gaiteiro (2006) observa o sistema como uma estrutura viva que se não apresentada sob a forma de jogar (interacções) vê a sua natureza desvirtuada e a estrutura destruída. Por isso, ao se entender a equipa como sistema, confere-se-lhe capacidade para se «deformar», ultrapassando o estaticismo da estrutura.
vulgarmente caracterizadas pelo exemplar auto-controlo para assim alcançar o sucesso; outros – geralmente menos dotados do ponto de vista físico – enveredaram por diferentes soluções, utilizando as habilidades de drible e condução de bola e criatividade; de facto, o seu jogar resultou essencialmente da sua imaginação e improvisação (sempre caracterizadas por um certo cuidado táctico) em detrimento de rígidos esquemas de jogo a exibir.
O surgir da mais significativa e recente «inovação» táctica – a dinâmica (mobilidade) da equipa e dos jogadores – veio servir como tónico para, dentro desta realidade existente, fazer passar o Jogo por uma nova (r)evolução, não só na lógica das ideias como da sua pretensão de concretização no jogar das equipas propriamente dito (Enciclopédia Mundial de Futebol, s.d.; Pinto, 1996; Lovrincevich, 2002). Algo que até hoje ainda perdura.
Da dinâmica de jogo que as equipas começavam a apresentar à necessidade em potenciar as capacidades físicas dos jogadores para garantir o êxito individual e colectivo tácticos das equipas foi um «ápice» e desta relação se «modernizaram» os processos de treino, o jogador e o Jogo (Lovrincevich, 2002).
Aquilo que era outrora o Futebol como uma prática lúdica e de prazer para quem o jogava, independentemente de se conquistar ou não a vitória, com o pretendido e necessário desenvolvimento do Jogo, foi-se alterando face às tentativas por parte dos seus interventores em compreender como o melhorar (Guilherme Oliveira, 2007).
O mesmo autor, num pertinente brainstorming sobre a história, vem de encontro ao que temos vindo a expor. Este recorda que, no «início», o Futebol era um Jogo fundamentalmente técnico e em que procurou evolucionar o jogador tecnicamente, tentando que essas melhorias implicassem melhores desempenhos tanto individuais como colectivos. Vivia-se num período em que o paradigma científico era o pensamento mecanicista13
(Guilherme Oliveira, 2007).
13 Reconhecido também como método de pensamento cartesiano ou analítico, que «corta em partes» (Bertrand &
Guillemet, 1994); ou «paradigma da simplificação» em que, se conhecendo bem as partes se conhece o todo (Morin, 2003). Tendo Descartes (século XVII) como principal precursor, procurou “apresentar uma descrição precisa de todos os fenómenos naturais num único sistema de princípios mecânicos” (Capra, 1982: 57).
Para que se compreenda este pressuposto, importa focar que durante esse período que faz corresponder àquilo que Garganta (1999) identifica como as duas primeiras fases (de três) do direccionamento da investigação académico-científica, a dimensão técnica foi o principal alvo em estudo e a dimensão física emersa como factor dominante do rendimento, abordagens estas sob uma perspectiva mecanicista (Pinto, 1996). Quanto aos aspectos tácticos e estratégicos só adquiriram maior interesse posteriormente (Garganta, 1999).
Mais tarde (sobretudo a partir dos finais dos anos 60 e inícios dos anos 70 do século XX), com a intenção de uma evolução contínua, compreendeu-se que o Futebol não era apenas um jogo técnico, também era táctico e físico. Todavia, a operacionalização continuava a manifestar-se de uma forma mecanicista, em que a separação entre o físico, o técnico e o táctico era indiscutível (Guilherme Oliveira, 2007).
Perante tal conjuntura, salvo raras excepções (Argentina, Holanda e Brasil), o Jogo passou a caracterizar-se por uma constante elevada intensidade sob ponto de vista físico, e como se passou a sobrevalorizar jogadores dotados de qualidades correspondentes a esse tipo de Futebol (em detrimento dos tecnicamente mais dotados), o Jogo passou a ser sobretudo não sofrer golos e não deixar jogar os adversários (Guilherme Oliveira, 2004).
Relativamente a este problema que se passou a equacionar, para além do já descrito sobre a década de 60, recordámos um início da década de 70 aparentemente não muito distinto. A exemplo disso, Galeano (2003) lembra o Mundial de 70, em que o Brasil foi um digno vencedor, e já se havia imposto no mundo a mediocridade do Futebol defensivo, com toda a equipa atrás, armando o «ferrolho»14, e na frente um ou dois homens a jogar sós. Já haviam
sido proibidos o risco e a espontaneidade criadora.
Quanto ao supracitado como aparentemente não muito distinto referimo- nos a uma outra concepção de jogo que fez «finca-pés» na demarcação da sua
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Precedente ao «Catenaccio», foi uma estrutura de jogo concebida e sistematizada pelo treinador austríaco Karl Rappan ao serviço da selecção Suíça nos anos 30 (século XX). Esta estrutura baseada na marcação individual obteve
diferença para com aquela se vinha emancipando. Mais concretamente, face a um Futebol de expectativa esta concepção defendia um Futebol de iniciativa; em oposição a um Futebol estruturado para não sofrer golos, um Futebol dinâmico na procura do golo.
Os anos 70 e inícios dos anos 80 assinalaram, portanto, essa concepção de jogo, reescrevendo a confirmação da dinâmica, da mobilidade de jogo, sem colocar em causa a ordem (organização) da equipa. Duas equipas o personificaram: Ajax e Holanda.
Na opinião do antigo treinador do Ajax e selecção da Holanda, Rinus Michels (2003), a frase «Futebol Total» foi desenvolvida num período em que o Ajax estava a jogar o seu melhor futebol. No entanto, é possível que outras equipas na história do futebol, como os húngaros, ou mesmo os austríacos, no passado, a «Wunderteam», jogassem um futebol que poderia ser chamado de «Futebol Total». Segundo este entendimento, e inter-ligando o que até então foi desenvolvido neste ponto da revisão literária, diferentes «sistemas de jogo» (leia-se, estruturas de jogo), podem servir perfeitamente os intentos de uma mesma filosofia de jogo reproduzindo diferentes formas de jogar.
Cruyff (2002) lembra que, quer no Ajax quer na selecção holandesa, se jogava com uma extraordinária liberdade, mas uma liberdade dentro de uma ordem. Havia liberdade para qualquer um, mas só para um jogador e, quando a tinha, pelo menos cinco jogadores tinham de aguentar-se e cobrir as suas costas, ocupando espaços vagos. Complementando, Galeano (2003) ressalva o facto de chamarem à selecção holandesa de «Laranja Mecânica», mas que nada tinha de mecânico aquela obra da imaginação, que desconcertava a todos com as suas trocas (de posição) incessantes.
Ao encontrar jogadores capazes de mudar de posições com muita facilidade (História do Futebol, 2003), tanto em largura como em profundidade, o seu sistema envolvia o movimento activo e participação não só dos jogadores que interrompiam com sucesso o ataque adversário, mas sim a totalidade dos jogadores da equipa como um todo (Pereni & Di Cesare, 1998). Resumindo, todos atacavam e todos defendiam, estendendo-se e encurtando-se como um leque, e o adversário acabava por perder as suas pegadas frente a uma equipa
onde cada um era onze (Galeano, 2003). Era o preconizar e materializar da importância de objectivar o jogar à luz do paradigma sistémico15.
O «Futebol Total» foi o progenitor de uma série de «inovações» que em muito enriqueceram qualitativamente o Jogo, sobretudo pela concepção apresentada. Se para Lovrincevich (2002) foi através deste que se começou a eliminar a concepção e colocação estática do futebolista e que ao nível das diferentes dimensões conexas ao Jogo (física, técnica e táctica) não se advertiam diferenças de rendimento entre os dez jogadores que se situavam em campo, Lobo (2005) esclarece o seu porquê na noção de missão de defender e de atacar nunca poderem ser compartimentos (leia-se, momentos) estanques, mas, pelo contrário, precisarem de ter uma interligação plena, ao ponto de a capacidade de distinguir esses dois momentos ser reduzida ao mínimo espaço temporal, quase imperceptível.
Entendemos assim que, pela dinâmica (mobilidade) da equipa referenciada pelos diferentes autores relativamente ao «Futebol Total» cujos feitos maravilharam o mundo pelo Futebol exibido, estava indiciado aquilo que no presente viria a ser um aspecto chave das grandes equipas – a necessidade de promover a «indivisibilidade dos momentos16 do jogo» (ataque, defesa,
transições) quanto ao investimento colectivo de não descaracterização organizacional do jogar pretendido. Para isso parece fulcral toda a equipa e jogadores (respectivamente) se envolverem nesse jogar – um «todo inquebrantável» segundo Frade (1985) – que, sendo específico, solicita certos e determinados requisitos das dimensões técnica, física, psicológica e (mesmo) estratégia sob alçada da dimensão táctica17, na procura de levar a efeito uma
organização de jogo de qualidade na articulação dos momentos de jogo.
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“Os paradigmas são estruturas de pensamento que de modo inconsciente comandam o nosso discurso” (Morin, 2002: 17). A sistémica ou teoria geral dos sistemas rompe com o entendimento preconizado pelo racionalismo cartesiano (pensamento mecanicista). De acordo com Morin (2003), a virtude sistémica passa por se centrar na noção de sistema, não como uma unidade elementar discreta, mas uma unidade complexa, um «todo» que não se reduz à «soma» das suas partes constituintes.
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Momento, entendido como tempo ou ocasião em que algo acontece (Freitas, 2006), existindo uma ordem arbitrária e não uma lógica ininterruptamente sequencial implícita no conceito de «fases», apresentada por diversos autores, em que p.e., aquela equipa que está a defender, quando recupera a bola, passa a atacar e de imediato a outra equipa passa a defender (Guilherme Oliveira, 2004; Silva, 2008).
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Em primeiro lugar, fazemos menção ao termo táctica provir do grego «taktikee» (colocar em ordem as coisas) (Cervera et al., 2008). Neste sentido torna-se lógico entender que a componente táctica parece ocupar um lugar central no sentido da concretização de um corpo de ideias de jogo (Fernandes, 2003), em que “o táctico é tudo o que nós
Com o seu «carrossel mágico» no Futebol passou a ser fundamental, “não a distribuição dos jogadores desta ou daquela maneira, mas a dinâmica necessária para criar permanentemente situações de vantagem, numérica ou posicional nas zonas de disputa de bola, quer em situações defensivas quer em situações ofensivas. Noções como solidariedade, polivalência, «pressing»18,
compensações, coberturas, equilíbrio, etc. começam a fazer parte da terminologia do Futebol” (Pinto, 1996: 52-53).
Suportando-nos em Cappa (2004) poderíamos referir que, enquanto que as alterações à «lei do fora-de-jogo» deram origem à primeira grande inovação (táctica) no Jogo, com a dinâmica de jogo (onde o «pressing» também se pode incluir pela inter-relação com a necessidade de impor – ofensivamente – uma forma de jogar) ocorreu a segunda grande inovação (táctica) no Jogo.
A primeira – «lei do fora-de-jogo» – inequivocamente influenciou o Jogo pela verificação do repetido «desarmonizar» e necessidade de «harmonizar» os sectores que padronizavam o Jogo nas diferentes épocas. A segunda – a dinâmica (mobilidade) – porque a zona de intervenção dos jogadores adquiriu outra grandeza, em que os deslocamentos dos jogadores no campo passaram a adquirir «novos» significados, passando a existir um maior comprometimento em termos de funções do que propriamente em termos de posições (Frade, 1985), ao que acrescentamos o facto das organizações estruturais evoluírem em sincronia com estas evidências de concepção.
Lovrincevich (2002) relembra que os anos 70 do século passado assinalaram ainda o aparecimento de uma estrutura de jogo que, juntamente com o 1-4-3-3, é ainda muito utilizada na actualidade, referindo-se ao 1-4-4-2 (1 guarda-redes, 4 defesas, 4 médios e 2 avançados). Derivada da primeira, esta estrutura surge do recuo de um dos avançados para a linha intermédia para a fortalecer com quatro jogadores aumentando a racionalização do grande espaço de jogo e, de acordo com Castelo (2004), permitindo uma distribuição
manifestar é necessário “dar ao pedal (dimensão física), é preciso refrear os ânimos (componente psico-emocional) e é preciso ser feito em função de um obstáculo (componente estratégico-congnitiva)”. (Frade, 1998: 3-4).
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Em primeira instância, devemos perceber que o «pressing» está associado à organização defensiva adoptada pela(s) equipa(s), quer seja através da «defesa individual», «defesa homem-a-homem», ou «defesa à zona» tendo para cada uma implicações diferentes na manifestação do jogar. Em segunda instância, o «pressing» deve ser entendido como uma acção (individual/colectiva) no sentido de colocar sob forte constrangimento espaço-temporal a equipa adversária e, em particular, o portador da bola, para assim induzir o erro e a recuperação da bola para poder atacar (Amieiro, 2005).
equilibrada e de fácil compreensão das diferentes funções a desempenhar pelos jogadores dos diferentes sectores da equipa.
Em ligação com o que vínhamos a destacar acerca da dinâmica que passou a fazer parte do jogo das equipas, esta estrutura de jogo apresentou diferentes variantes para o quarteto intermédio – como podemos depreender pela Figura 11 – que tornavam as funções e posições diversificadas para os jogadores em campo, diversificando em nosso entender o próprio jogar da equipa, sendo estas: o 1-4-4-2 «em linha» (tradicional), o 1-4-4-2 em «rombo» (losango), 1-4-4-2 «em quadrado» (Lovrincevich, 2002).
Figura 11. Representação da Estrutura 1-4-4-2 (respectivas variantes).
Com a inclusão desta(s) estrutura(s) de jogo, Lobo (2008) apresenta-nos uns finais da década de 70 (do século XX) em que passa a existir uma prevalência de jogadores na zona do meio campo, em detrimento do sector defensivo e do ofensivo, concentrando aí o jogo e em que as equipas procuravam jogar tanto em largura como em profundidade. De suma importância está, nas palavras do mesmo autor, o facto do Jogo estar, em muitos casos, ligado a fortes «marcações individuais», todavia novos conceitos de «defesa à zona»19 interligados com o «pressing» e o encurtar de espaços
surgiram como novas tendências em expansão.
Consideramos de suma importância a não verificação empírica efectiva por parte das equipas naquela época da utilização da «defesa à zona», uma vez que para muitos desse tempo assim como no presente (Morris, 1981; Pereni & Di Cesare, 1998; Lovrincevich, 2002; Castro et al., 2006; Jónatas et
1-4-4-2 «em quadrado» Gr 1-4-4-2 «em rombo» Gr 1-4-4-2 «em linha» Gr
al., 2006; Godik & Popov, 1993; …) haviam equipas que «marcavam à zona», todavia o entendimento apresentado acerca desta forma de defender diverge daquele que nos parece ser o mais indicado para a «defesa à zona».
Exemplificando, atente-se a Rinus Michels (cit. Amieiro, 2005) ao pretender que a sua equipa assim que perdesse a posse da bola, cada jogador deveria rapidamente aproximar-se do adversário que estivesse mais próximo de si (na zona em que se encontrava momentaneamente) para o «marcar». Para este treinador esta tratava-se de uma «marcação à zona» porque cada jogador não ficava responsável pela marcação do mesmo jogador adversário («marcação individual» levada a cabo por muitas das equipas na altura).
O entendimento de «marcação à zona» passava (e para muitos ainda passa) por cada jogador da equipa, ocupando sua/uma posição dentro da estrutura de jogo adoptada, cobrir uma «zona» que lhe correspondesse e que, segundo Ramos (2005), pela «referência de posicionamento» ser o «adversário directo» (o adversário mais próximo da zona de intervenção de cada jogador a defender dentro da estrutura de jogo), faz desta uma «defesa-a-homem»20
. Procura-se no fim de contas, que as estruturas de jogo – dentro do sistema de jogo caracterizador das equipas – «encaixem» uma na outra, em que a referência defensiva tem (ainda) uma aproximação à dimensão individual ao invés da dimensão colectiva que a «defesa à zona» (vai) preconiza(r).
2.1.5. …«novas» (re)organizações (estruturais) no espaço e no tempo rumo ao presente!
Com o Jogo a adquirir um desenvolvimento ramificado em diferentes ideologias e consequentes formas de expressão, juntamente com diversas metodologias de preparação (treino) que exacerbavam mais ou menos essas mesmas ideologias, foram-se apresentando ao mundo «novas» organizações estruturais no sentido de servirem os intentos dinâmicos (colectivos e individuais) pretendidos pelas diversas equipas.
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“Mescla de «marcações homem-a-homem» com «marcações individuais» e que não deve ser confundida com a «defesa à zona»” (Ramos, 2005: 2).
Os inícios da década de 80 do século XX viriam a trazer consigo algo de extrema importância para a concepção e conjectura do Jogo, resultado daquilo a que Lovrincevich (2002) classificaria de «triunfo do conceito de bloco colectivo sobre o individualismo». Segundo o autor, passou a observar-se um Futebol «polifuncional» em que o jogador abandona o papel associado a um «posto específico».
Este entendimento parece subentender o jogador como um elemento também ele «polifuncional» (Valdano, 2002), em resultado de estar a cada momento do jogo ao serviço da dinâmica de inter-relações que expressam o jogar de uma equipa. De acordo com Frade (1985), tem a ver com o construir (e comunicar) (n)um espaço de acção em função da própria equipa e da equipa adversária.
Por outro lado, é nesta década que se afirma a estrutura de jogo representada na Figura 12 – 1-3-5-2 (1 guarda-redes, 3 defesas, 5 médios e 2 avançados) – estrutura essa passível de se desdobrar em diferentes variantes (1-3-4-1-2, etc.) consoante a filosofia mais ofensiva ou mais defensiva de cada treinador. Ao ser utilizada, passou a reconhecer-se a necessidade de estruturar a zona intermédia do terreno de jogo com mais jogadores (Lovrincevich, 2002; Castelo, 2004).
Figura 12. Representação da Estrutura 1-3-5-2.
Foram sobretudo as equipas do sul da América que se notabilizaram com estas disposições em campo, nomeadamente as selecções da Argentina e do Brasil. Parreira (2002) lembra que no Brasil sempre existiram extremos, mas
1-3-5-2
que somente dar amplitude e cruzar a bola. O mesmo é evidenciado por Capinussú & Reis (2004) e por Castelo (2004), denominando-os de «alas».
Os inícios da última década do século XX ficaram marcados por uma equipa do Barcelona – o «Dream Team» – que maravilhou o mundo com o Futebol espectacular que exibiu, treinada por um dos treinadores mais marcantes da história recente do Futebol, Johan Cruyff. A sua importância adquiriu maior impacto por estar associado a um período em que o Futebol se encaminhava decididamente para uma atitude defensiva edificado numa confrontação eminentemente táctico-física entre as equipas.
Acérrimo defensor de um Futebol de ataque e de jogadores tecnicamente muito evoluídos para se jogar Futebol de elevada qualidade, apresentou um «sistema de jogo» constituído por uma «defesa a 3»21
.
Cruyff apresentou ao mundo um jogar sustentado numa estrutura de jogo em 1-3-4-3 (1-3-1-2-1-3) (ver Figura 13) que, para muitos treinadores (Barreto, 2003), para além de ser uma estrutura (e sistema) de jogo «evoluída» para se jogar, é também das mais difíceis.
Figura 13. Representação da Estrutura 1-3-4-3 (1-3-1-2-1-3) (Dream Team) de Cruyff.
Mourinho (2003) apresenta-nos como duas das principais dificuldades associadas a esta estrutura: i) a necessidade dos 3 jogadores da defesa terem que conseguir garantir a amplitude ofensiva do jogo à semelhança dos 3 jogadores avançados quando a equipa tem a posse da bola; ii) a obrigatoriedade dos 3 jogadores da frente terem que realizar pressão (zonal) alta e o losango do meio-campo ter que se adaptar na perfeição à posição da
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Esta «defesa a 3» distingue-se daquelas defesas que se vêm constituídas por três defesas centrais ou em que um dos seus elementos corresponde ao tradicional «libero».
bola quando a equipa perde a posse da bola para que a defesa possa jogar somente com 3 jogadores.
Valdano (2002), no sentido das dificuldades apresentadas por Mourinho, faz uma análise ao Barcelona treinado por Cruyff não hesitando em mencionar que, quando «a melhor equipa ofensiva do mundo» devia defender arruinava o registo global, porque libertava bastantes espaços uma vez que quando o adversário vencia a primeira e povoada linha de pressão encontrava-se com um «latifúndio» para desfrutar.
Dadas as particularidades desta estrutura de jogo e as exigências que lhe estão implícitas, chega-se à conclusão de que no Futebol actual a top, 3 defesas para uma amplitude de 70 metros são poucos (Valdano, 2002; Mourinho, 2003; Cruyff, 2004). Não obstante, Cruyff apresentou uma exímia forma de utilizar o espaço do campo para ofensivamente produzir um Futebol de espectáculo, exigindo dos jogadores uma elevada capacidade de posicionamento.
Quase similar à época de Cruyff surgiu um outro treinador que surpreendeu o mundo do Futebol com a capacidade demonstrada pela sua equipa em não se tornar defensivamente vulnerável ao adversário.
Arrigo Sacchi e o seu Milão marcariam a viragem dos anos 80 para os anos 90 com a «defesa à zonapressionante», uma inovação (táctica) no Jogo de extrema importância. Segundo Maturana (s.d., cit. Valdano, 2002), com Sacchi tornou-se possível fazer da «defesa a arte de atacar».
A diferença da «defesa à zona»22 para a «zona pressionante», de acordo
com Amieiro (2005: 48), “está somente na pressão, isto é, na agressividade com que se atacam os espaços e o portador da bola para provocar o erro e assim recuperar a posse de bola”. Valdano (2002) e Lobo (2008) lembram o Milão de Arrigo Sacchi como uma equipa astuta, dinâmica e generosa, que
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Amieiro (2004: 31-32) sintetizou como sendo (aconselha-se a leitura integral do seu trabalho monográfico): “i) os espaços são a grande «referência-alvo» de «marcação»; ii) a grande preocupação é, por isso, «fechar como equipa» os espaços de jogo mais valiosos (os espaços próximos da bola), para assim condicionar a equipa adversária; iii) a