Dentre as publicações citadas, nos deteremos mais sobre a Piauí, TNY e New York
Review of Books. A primeira, por ser uma revista brasileira, contemporânea da Ilustríssima e
por ter alcançado grande êxito de público. Já as duas publicações americanas receberão maior enfoque por terem influenciado o projeto de suplemento cultural da Folha. Todas elas dão ênfase importante na imagem de capa.
A Ilustríssima, tal qual as revistas que a influenciaram, são destinadas a um público liberal, de classe social elevada, intelectualizado. Enquanto as duas revistas americanas têm um caráter mais cosmopolita, a Ilustríssima é um caderno de circulação nacional, com público mais concentrado na capital paulista. A TNY, diferente da Ilustríssima, tem como uma das suas principais marcas o humor sagaz.
As publicações americanas lançam-se a discussões internacionais, a exemplo das guerras, das questões ambientais, das disputas políticas, enquanto a Ilustríssima tem um enfoque maior nos lançamentos de obras literárias pelas grandes editoras brasileiras, embora não deixe de abordar temas das ciências ligados a questões sobre economia, política, e temas internacionais, como tecnologia, política e saúde.
Buscando acompanhar o ritmo cosmopolita de publicações como a The New York, a
Ilustríssima criou a seção "Diário de...", sobre a vida artística e intelectual de cidades
importantes do mundo. Tal qual na publicação americana, no suplemento da Folha as ilustrações tomam toda a dimensão da capa. Já na NYRB elas ocupam cerca de um terço da página e disputam espaço com manchetes da revista, em uma diagramação mais semelhante ao jornal impresso. Assim, na TNY e no caderno da Folha as imagens recebem tratamento prioritário, mais “nobre”, utilizando a linguagem de Werneck para se referir à pintura.
No que diz respeito especificamente às informações textuais (verbais), tanto a NYRB quanto a Piauí tratam de diversos assuntos na capa. A publicação brasileira opta por não utilizar um tema principal e apresenta chamadas mais “instigantes” do que objetivas. O público da Piauí busca textos longos e desafios, e a intenção de atingir um público segmentado é visível no slogan “Para quem tem um parafuso a mais”. A publicação busca levar o leitor a se identificar e a se sentir parte daquele grupo social pelos temas que aborda, pelos termos que utiliza e pelo apelo a uma imagem mais elaborada, bem como o uso de chamadas instigantes. Tal conteúdo gera um amplo leque de interpretações do leitor, acredita Ferrer (2008).
A Piauí é escrita por intelectuais e colaboradores variados – estrangeiros ou não – e contempla temas brasileiros a partir de um olhar sem fronteiras. A publicação prioriza um aspecto bastante culto, mas sem formalidade. A presença marcante e destacada das ilustrações e fotografias em tamanhos maiores contribui para essa característica. As imagens são pouco poluídas e comunicam de forma ágil, ao contrário do que ocorre em muitas das imagens da
Ilustríssima. Nas seis capas analisadas pelo autor, os conceitos Ironia, Irreverência,
Cosmopolita, Cética e Instigante estão presentes na Piauí, o que ocorre pela grande quantidade de informação textual presente (com jogos de palavras, duplos sentidos) e pelas imagens bastante subjetivas das capas que abrem espaço para uma interpretação mais livre e rica. O conceito Instigante possui o maior número de elementos representados, como pesquisou Ferrer (2008).
A Ilustríssima utiliza poucas chamadas e conteúdo textual nas suas capas. Aposta no uso de uma grande imagem e na força de chamadas principais. Assim como na Piauí, as imagens podem conter elementos diversos, tais como os de ordem contemplativa, instigante, irônica, irreverente (para usar as características definidas pelo pesquisador), além de serem dotadas de maior ou menor cunho artístico.
Muitas imagens de capa da Ilustríssima resultaram de uma opção pelo tempo de desenhar relativo às formas tradicionais, pela ação da mão humana, enquanto outras se valem de aparatos tecnológicos, típicos de um tempo relativo à rapidez das máquinas em produzir imagens (caso do desenho feito no computador). Em várias situações a Ilustríssima consegue ser provocativa, quando suas imagens convidam a uma maior interpretação. Na opinião de Trench, a pintura conferiu um frescor pouco usual às publicações, trazendo "uma linguagem menos viciada”, “certa liberdade”, onde há “um pensamento do artista, do ilustrador". O designer considera que a autonomia da imagem ocorre de forma mais freqüente tanto na
Ilustríssima quanto na Piauí quando estas publicações seguem uma tendência da New Yorker Rewiew de inserir no interior da publicação pequenas vinhetas ou cartoons totalmente
desconectados do texto. A influência da TNY no caderno da Folha pode ser vista na seção
Cartum que, além da contribuição de cartunistas brasileiros (incluindo os que trabalham
diariamente para a Folha), publica uma série de trabalhos de artistas que colaboram com a revista americana.
Diferente destas publicações, a Bravo trabalha eminentemente com fotografias de personalidades conhecidas e, com menos frequência, com reproduções de obra de arte. Impressa em papel couché branco, emana significados como “pureza”, “limpeza”, “valores superiores”, e que se distanciam de aspectos artesanais, populares, explica Bento Fagundes de Abreu (2008). A publicação privilegia a informação sem dar igual ênfase no design gráfico.
Assim como na Bravo, na Piauí e em outras publicações, na Ilustríssima a imagem ocupa a maior parte da capa e os elementos restantes se comunicam com ela. Já outras dão mais espaço para chamadas, títulos, legendas etc, caso da NYRB. Nas publicações culturais o texto pode parasitar a imagem ou ambos podem dialogar, complementando-se.
A capa é o assunto principal e cria o clima da edição, trazendo cores em tons alegres, claras, e outras vezes investindo em tons sérios, em que as imagens estão carregadas de tons escuros, dando à capa uma atmosfera séria, densa e dramática. A legenda da capa ora tem o sentido de identificar o que o texto da matéria principal discute, ora amplia seu sentido.
Enquanto a maioria das revistas aqui citadas são produzidas em um papel de maior qualidade, a Ilustríssima é impressa em papel jornal, o que traz à tona o aspecto descartável da sua produção. Há quem critique a má qualidade da impressão, que desvalorizaria a produção dos artistas, enquanto vários deles acreditam ser um bom desafio pensar a imagem conforme o aparato material do papel.
Ao contrário de outras publicações que marcaram a história do Jornalismo Cultural, como a revista Senhor e o suplemento do Jornal do Brasil, as imagens da Ilustríssima são, em sua maioria, mais figurativas que abstratas. Ou seja, naquelas publicações tradicionais, a imagem artística se assume mais como uma imagem conotada ou simbólica, de uma representação não realista, ao contrário de outra, mais presente na Ilustríssima, que por mimetizar a realidade, aproxima-se mais da denotação e do conceito de analagon (conceito criado por Barthes), conforme Luiz Costa Lima (2011, p. 352), ou seja, um sentido realista da imagem, um análogo com a realidade.
Como analogon, a foto seria pura denotatividade, transparência do real eu por ela se dá à mostra. Mas essa conclusão – extremamente confirmadora da “isenção” das agências de notícia – é simplista e parcial. Mensagem sem código, a foto contém um estilo. É por este que se introduz sua conotação ou significado segundo. O desenvolvimento deste comentário nos levaria a então mostrar como é assim que a foto presta seu serviço, na verdade importantíssimo, às mitologias contemporâneas, Ou seja, como por sua conotatividade, criada sobre sua pretensão analógica e tomando esta como seu álibi, ela se põe a serviço da mistificação (p.352).
Ou seja, ainda que a Ilustríssima busque certa aproximação da imagem denotativa, ela não escapa da conotação. Assim, apesar de prevalecer no processo produtivo do suplemento uma busca por uma tendência ao Realismo, ao figurativo e à objetividade típicos do jornalismo, em muitas das capas da Ilustríssima há também altas doses de instabilidade nas imagens que provocam inúmeras e diversas formas de apreensão dos significados e sentidos.
Trench acredita que a Ilustríssima se destaca no que diz respeito ao uso de uma imagem de qualidade, mas destaca algumas questões que, na sua avaliação, comprometem o design do suplemento, a exemplo da presença das chamadas de capa, que ele extinguiria, deixando prevalecer um visual de cartaz, o que, acredita, poderia potencializar proposta gráfica do suplemento.
Trech ressalta a preocupação histórica da Folha com o design, a direção de arte, citando-a como um jornal por onde passaram muitos bons profissionais. No entanto, critica o designer do jornal de forma geral, a exemplo da arbitrariedade no uso de cores e da má qualidade da letra utilizada.
Com relação à participação dos artistas, o designer considera interessante a proposta de colaborar como ilustrador do suplemento e destaca que o tempo para produção é satisfatório. Ao abordar a contribuição da Ilustríssima para as artes visuais, avalia que, embora o suplemento não tenha sido um capitalizador da arte ali veiculada, “valida” o grupo de artistas reunidos por Paulo Pasta, como Bruno Dunley, Ana Prata, Marina Rheingantz,
ampliando ainda mais sua projeção, mesmo que para um número reduzido de leitores, opinião partilhada por outros artistas que colaboram com o caderno.
Apesar de destacar o papel do suplemento na valorização da pintura, acredita que, em termos de atrevimento gráfico visual, existem trabalhos mais expressivos, a exemplo do
Jornal de Resenhas, um projeto de Amílcar de Castro que privilegiava ousadias como os
espaços em branco e outros “respiros”, custo considerado caro para o jornal. O designer lembra que a Folha já teve um projeto político para artes, o que não ocorre atualmente. “O Rodrigo Naves, no Folhetim, teve isso, hoje não mais, hoje é mais desarticulado”. Outra experiência da Folha, o jornal Folhetim também convidava vários artistas plásticos para participarem de suas edições. Parte dessa história é contada por Yanet Aguilera, na obra “Preto no Branco: a obra gráfica de Amílcar de Castro”. “Hoje, no entanto, tudo é pautado por pesquisas de mercado”, compara. Ao contrário do que ocorria antes, havia uma liberdade maior de criação, hoje há mais controle na criação, acredita Daniel Trench (2013). Para o designer, a Ilustríssima traz uma contribuição importante em relação a outros cadernos, ao levar a pintura para o jornal, algo que pode fazer com que o suplemento seja lembrado futuramente; porém, em termos de atrevimento gráfico e visual, destaca que, mesmo a Folha teve propostas anteriores mais ousadas, com a do próprio Jornal de Resenhas.
O esforço de um jornal para elevar a qualidade da imagem varia conforme cada projeto editorial e/ou intencionalidade dos editores e designers. Paulo Pasta é um dos pintores que acredita que a ilustração pode preservar seu caráter artístico no jornal. Um exemplo disso foi o projeto do artista Jack Leirmer para o Jornal da Tarde, em que inseriu pregos nas páginas, em uma visão do jornal como escultura, transformando-o em um suporte do objeto que circula. No caso da ilustração da Ilustríssima, trata-se, segundo ele, de algo mais pragmático, algo que está dividido entre o estético e o funcional, explica o artista, que produziu uma única imagem para o suplemento, já que não costuma trabalhar por encomenda.
A presença da pintura ou da imagem de origem artística na Ilustríssima é também resultado do desenvolvimento tecnológico, que trouxe novas técnicas de representação e reprodução de imagens, como a fotografia. Como um meio mais prático e instantâneo de representação de imagens para a confecção de livros e revistas, provocou deslumbramento pela facilidade técnica da fotografia frente à ilustração, o que a tornou cada vez mais empregada no meio jornalístico. Isso acabou levando a Folha a buscar “inovar” na utilização da imagem. Sem a necessidade de serem tão fiéis à realidade, os ilustradores são capazes de utilizar formas menos conservadoras de desenho.
As capas da Piauí e da Ilustríssima tendem a corresponder ao tipo de abordagem e linha editorial que as publicações apresentam em todo o seu conteúdo, buscando um trabalho de design inovador e contemporâneo em termos de diagramação. Ambas apresentam padrão estético e editorial, mantendo em sua identidade visual elementos presentes em todas as edições, o que permite ao veículo criar uma identificação com o leitor.
A Ilustríssima utiliza poucas chamadas (cerca de sete), algo condizente com o número reduzido de páginas e a priorização de textos não tão longos, se comparada com seu antecessor, o caderno Mais!. Assim como na Piauí, a imagem do suplemento da Folha ocupa uma proporção grande na página. Ambas conseguem, em várias situações, instigar o leitor a uma interpretação mais aberta, já que algumas delas abrem espaço para a imaginação.
Tanto a Ilustríssima quanto a Piauí apostam em imagens que mesclam diferentes estilos de desenho, como o pop, inspirado em histórias em quadrinhos americanos (referência underground dos quadrinhos até hoje), além da influência das novas técnicas visuais, priorizando o imaginário do leitor e seu subconsciente.
Pinturas de retratos, paisagens que incitam a imaginação, cenas que narram acontecimentos importantes, figuras geométricas e quadrinhos, estão entre os temas mais abordados nas capas do suplemento da Folha. Conforme observado anteriormente, ao contrario do que ocorre na Piauí e na New Yorker, na Ilustríssima o tom de humor não é presença constante (este é mais visível no traço dos desenhistas e não dos pintores).
Nas capas da revista da Ilustríssima a imagem é construída de forma a dialogar ou mimetizar o texto, enquanto que na Piauí nem sempre ela tem que se adaptar ao tema da matéria principal. Por se tratarem de publicações jornalísticas, a interação entre textos e imagens ocorre de forma que as informações possam ser vistas com clareza e hierarquização, além do visual ser, geralmente, agradável aos olhos.
Assim como o texto da Ilustríssima e da Piauí tem uma proposta de ser mais literário ou ensaístico, o seu projeto gráfico tem a proposta de utilizar as imagens como elementos de inovação, de desprendimento das convenções e do tradicionalismo. No entanto, nem sempre as duas publicações alcançam este objetivo, principalmente se seu projeto de design for comparado com outros veículos que romperam com a estética da imagem jornalística, a exemplo dos suplementos do Jornal do Brasil e da revista Senhor.
Nas duas publicações o projeto gráfico se adequa às ilustrações e à dimensão da imagem. As ilustrações têm um papel importante nisso, já que existe uma interação entre elas, as chamadas de capa e o logotipo (este muda de cor conforme a imagem, que também
determina o local de todos os outros elementos da capa). No entanto, na Ilustríssima não há uma completa hibridação entre texto e imagem, como ocorreu no caso de projetos mais vanguardistas citados aqui, em que texto e imagem se fundem completamente, como no caso do suplemento concretista do Jornal do Brasil.
A Ilustríssima e a Piauí são resultado da evolução das técnicas e tecnologias digitais, que exigiu dos veículos de massa uma modernização e uma atualização dos seus conteúdos. Para acompanhar a disputa no mercado, suplementos e revistas enfrentam uma transição importante, no âmbito da segmentação e da especialização onde, para ganharem seus públicos, precisam investir em qualidade textual e no rigor da qualidade estética, que resulta em maior atenção ao design. Como as grandes tiragens foram substituídas por mercados reduzidos, a tentativa de fidelizar os leitores ocorre por meio da busca da identificação, investindo em uma estratégia de comunicação textual e visual.
Como vimos, as experiências dessas publicações apontam a capacidade que um suplemento cultural ou uma revista tem de representar seu público através de suas características textuais e, principalmente, imagéticas. A forma como a imagem é usada na capa tem uma relação direta com a proposta editorial de cada suplemento ou revista. Em cada publicação destas citadas, a ilustração foi responsável pelo refinamento e capacidade de informação/comunicação pela imagem.
Fotografias e ilustrações são elementos marcantes nestes veículos e um estimulante no aperfeiçoamento das técnicas de uso e produção de imagem. Com o aparecimento da fotografia, a ilustração adotou caráter opinativo, ligada ora à crítica (muitas vezes pelo viés do humor), mas também ao caráter de adorno.
A capa das publicações citadas neste capítulo têm importante papel na sua inovação gráfica. Portanto, elas revelam muito sobre o jornal e o seu público. O designer de um suplemento ou revista remete diretamente ao tipo de imagens que nele circulará. Percebe-se que um maior vínculo do comunicacional e do informativo com o universo artístico, expressivo e estético contribui para ampliar a geração de imagens mais complexas.