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FIGURE 4-4. CLEANING HEADS OUT OF DRIVE
O enredo faz com que as partes segmentadas do texto tenham unidade na lógica da causa-efeito103. Ele dá organizacidade ao texto. É a organização dos incidentes. Como foi
exposto, as estruturações percebem retomadas, ecos, repetições ou paralelos internos no livro do Apocalipse. Por isso ele não é linear, mas se estrutura em uma complexa história na qual
99 ROLOFF, The Revelation of John... p. 16. 100 ROLOFF, The Revelation of John... 101 ROLOFF, The Revelation of John... p. 16.
102 WHITE, H. Teoria literária e escrita da história. Estudos Históricos, n. 13, p. 33, 1991; WHITE, H. Trópicos
do discurso. São Paulo: EDUSP, 1993.
há incidentes que permitem perceber a sua unidade. Essa ordenação não significa definição de encadeamentos, mas percepção dos sentidos desses encadeamentos104.
Nessa perspectiva de leitura a partir da proposta de enredo, Barr divide o Apocalipse em três histórias ou cenas narrativas, as quais se estruturam em teofania — visão do trono — guerra santa105. No quadro narrativo João conta três histórias:
1. Preocupa-se quando está em Patmos: visão de um homem magnífico, conforta-o, fala coisas com ele e então dita mensagens para os anjos da igreja;
2. Coisas que contempla quando ascende ao céu, às regiões celestiais: João entra na sala do trono de Deus, onde observa a cena da corte divina. A segunda história diz respeito ao procedimento de um cordeiro imolado, mas de pé, que tira os selos e abre o rolo, cujo conteúdo é revelado. A atenção muda do trono para o templo, onde vê um sinal; 3. Dragão cósmico que persegue a mulher cósmica, a qual é defendida por um guerreiro
também cósmico, resultando no estabelecimento da nova ordem cósmica.
As três histórias que compõe o quadro narrativo de João podem ser esquematizadas da seguinte maneira106:
História/cena 1 História/cena 2 História/cena 3
Lugar Patmos Céu Terra
Personagens - Jesus como humano
majestoso - João - Igrejas
- Jesus como cordeiro imolado
- Irmãos
- Seres celestiais
- Jesus como guerreiro celestial
- Dragão e bestas - Mulher e seu filho
Ação Escrever a carta Adorar Guerra /conflito
Apresentação de João
Secretário Viajante celestial Visionário/profeta
Paradigma mítico Teofania Trono Guerra santa
Capítulos 1-3 4-11 12-22
104 SEIXO, Maria A. A narrativa e seu discurso. In: GENETTE, G. Discurso da narrativa. Lisboa: Veja
Universidade, 1995, p. 12.
105 BARR, The Story John Told... p. 15-18.
Esse quadro precisa ser compreendido dentro do que G. Genette, que apreende das teorias da enunciação107, chama de ato narrativo, que tem como o seu produto a narrativa,
assim como o enunciado é fruto da enunciação108. Essa ação de produção, que se vale dos
sistemas (aqui também memórias e estruturas de memórias — semiosfera), deixa marcas, especialmente do narrador/enunciador, na narrativa/enunciado. Se na definição da narrativa é preciso observar tempo, modo e voz, esta última diz a respeito da relação da narração com a narrativa. O narrador desse esquema é, enquanto história é contada, intradiegético, mesmo sendo o narrador primeiro. E está em relação homodiegética com a narrativa, pois no ato da narrativa, na narração, ele está presente no discurso que produz. Essa estratégia de presença e coparticipação nas histórias faz com que a voz do texto tenha autoridade e que suas histórias ganhem formas. Até mesmo suas estratégias de unificação das histórias, que parecem ser três conjuntos diferentes, integram as realidades. Além disso, sua narrativa sobre o mundo previsto e anunciado pelo visionário ganha peso, pois esse narrador intradiegético- homodiegético precisa de autoridade para propor um enredo de revelação, uma vez que para este o objeto-valor não é um fazer, mas um saber: o conhecimento cósmico, o conhecimento das ordens das coisas no mundo, revelação do que está prestes a acontecer e, acima de tudo,
conhecer a real face do mundo que lhe cerca.
Nessa proposta há três enredos unificantes que preservam seus enredos episódicos por estratégias de entrelaçamento e ricochetes, que são conexões internas identificadas pela análise narrativa. São como cenas no quadro maior que guiam a observação do leitor. As três grandes cenas são separadas por sinais de mudanças no início da seção: mετa, ταῦτα (4,1) e Kαὶ σημεῖον μέγα ὤφθη (12,1). Contudo, existem ecos em toda a obra que produzem a conexão interna (1,1.4.9//22,8; 8,3ss/;1,1//22,6, etc.).
História/cena 1. João tem um encontro, em Patmos, com alguém que lhe manda
escrever as sete cartas, na Ásia, às sete igrejas da Ásia. Depois da descrição da figura majestosa de Jesus, que é uma personagem redonda, com linguagem comum na tradição apocalíptica, as mensagens para os anjos das igrejas lhe são ditadas.
História/cena 2. João ouve uma voz no céu chamando-o para subir pela porta que ele
vê aberta no céu (4,1). Ele vai para o céu, vê Deus no trono, cercado por uma corte, e ouve o hino celestial (4,8-11). O rolo selado é apresentado, mas não pode ser aberto (5,3). Esse nó na
107 Para a exposição do conceito de enunciação e sua relação com o enunciado, ver FIORIN, José Luiz. As
astúcias da enunciação: as categorias de pessoa, espaço e tempo. São Paulo: Ática, 2008, p. 31-35.
narrativa parece eliminar a possibilidade de uma ação transformadora, porque ninguém (em todas as esferas — 5,3) poderia tirar os selos e abrir o rolo; por isso ele chora (5,4). Então uma personagem, anunciado como leão, mas revelado como cordeiro-imolado-ainda de pé, realiza uma ação transformadora e passa a abrir o rolo em sete etapas. Em cada estágio várias visões são observadas, as quais têm os selos como o seu como fio condutor. O sétimo produz um silêncio, uma elipse explícita109, uma pausa rápida para que as trombetas sejam ouvidas.
Então as sete trombetas são tocadas e cada uma contém várias visões. Quando a última trombeta toca, ouve-se: “o reino de Deus chegou”110.
História/cena 3. Uma gloriosa mulher celestial dá à luz um filho, que é atacado por
um dragão que deseja consumi-lo. Algumas micronarrativas (14-15,4) são colocadas da abertura até o reinício da série de sete, que forma uma unificação de enredos em 11,19 e 15,5- 8. No entanto, essa unificação de enredos serve como expressão de unidade, mas não desqualifica a organização narrativa em três histórias/cenas. Os dois são preservados, mas o dragão faz guerra contra os outros filhos da mulher. Dois exércitos são reunidos. O dragão convoca dois grandes monstros/bestas: uma do mar e outra da terra. O cordeiro reúne 144.000 no Monte Sião. Há uma cena celestial de colheita que precede o julgamento terrestre, que é realizado em sete eventos de pragas111 e seguido de um grande anúncio: está consumado! O
que é feito a partir de agora está em dois conjuntos de cenas relacionadas a duas mulheres: uma prostituta (guerra contra o céu, guerra celestial, destruição, cem anos de paz, batalha e julgamento finais, nova criação) e a noiva do cordeiro (restauração do Éden como Nova Jerusalém).
Observando as três seções como uma unidade se pode intuir o enredo. Por meio dele se percebe a relação causa-efeito realizada pelo narrador sobre o narratário. Essa coerência é
construída pelos fios condutores, que são unificam a narrativa portadora à macronarrativa112.
Fios da grande narrativa. Um exemplo deles são os fios hínicos, os quais servem como unificadores na grande narrativa: 1-22: 1,4-8; 4,8-11; 5,8-14; 7,9-12; 11,15-18; 16,5-7; 19,1-8113.
109 Essa elipse explícita é parecida com um sumário muito rápido, um período de tempo que não é demarcado
numericamente ou com dados de qualificação. Cf. GENETTE, G. Discurso da narrativa... p. 106-107.
110 BARR, The Story John Told... p. 17. 111 BARR, The Story John Told... p. 17.
112 MARGUERAT, D.; BOURQUIN, Y. Para ler as narrativas bíblicas: iniciação à analise narrativa. São
Fios hínicos: 1-3 Ἰδοὺ ἔρχεται μετὰ τῶν νεφελῶν, καὶ ὄψεται αὐτὸν πᾶς ὀφθαλμὸς καὶ οἵτινες αὐτὸν ἐξεκέντησαν, καὶ κόψονται ἐπ᾽ αὐτὸν πᾶσαι αἱ φυλαὶ τῆς γῆς. ναί, ἀμήν (1,7) Eis!
Ele vem com as nuvens E todo o olho verá
E os que a ele transpassaram
E se lamentarão por causa dele todos os povos da terra Sim, amém (1,7) 4-11 καὶ ᾄδουσιν ᾠδὴν καινὴν λέγοντες· ἄξιος εἶ λαβεῖν τὸ βιβλίον καὶ ἀνοῖξαι τὰς σφραγῖδας αὐτοῦ, ὅτι ἐσφάγης καὶ ἠγόρασας τῷ θεῷ ἐν τῷ αἵματί σου ἐκ πάσης φυλῆς καὶ γλώσσης καὶ λαοῦ καὶ ἔθνους καὶ ἐποίησας αὐτοὺς τῷ θεῷ ἡμῶν βασιλείαν καὶ ἱερεῖς, καὶ βασιλεύσουσιν ἐπὶ τῆς γῆς (5,9-10)
113 A estes podemos incluir os litúrgicos: 1,6.7; 3,14; 5,15; 7,12; 19,4; 22,20; 14,13; 16,7; 19,1.3.4.6. Cf.
ADRIANO FILHO, José. Estrutura visionária na estrutura do Apocalipse. In: NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza (org.). Religião de visionários: apocalíptica e misticismo no cristianismo primitivo. São Paulo: Loyola, 2005, p. 207-232.
E cantam novo cântico dizendo:
Digno és de tomar o livro e abrir os seus selos porque fostes morto
e comprastes para Deus em seu sangue de todas tribos e línguas
e povos e nação
e fizeste deles para nosso Deus um reino e sacerdotes e reinarão sobre a terra (5,9-10)
12-22 Μετὰ ταῦτα ἤκουσα ὡς φωνὴν μεγάλην ὄχλου πολλοῦ ἐν τῷ οὐρανῷ λεγόντων· ἁλληλουϊά· ἡ σωτηρία καὶ ἡ δόξα καὶ ἡ δύναμις τοῦ θεοῦ ἡμῶν, ὅτι ἀληθιναὶ καὶ δίκαιαι αἱ κρίσεις αὐτοῦ· ὅτι ἔκρινεν τὴν πόρνην τὴν μεγάλην ἥτις ἔφθειρεν τὴν γῆν ἐν τῇ πορνείᾳ αὐτῆς, καὶ ἐξεδίκησεν τὸ αἷμα τῶν δούλων αὐτοῦ ἐκ χειρὸς αὐτῆς (19,1-2)
Depois dessas coisas, ouvi no céu como uma grande voz de numérica multidão que diziam: Aleluia!
a salvação, a glória e poder do nosso Deus porque verdadeiros e justos os julgamentos dele porque julgou a grande prostituta
a que corrompia a terra com sua prostituição E vingou o sangue dos seus servos da mão dela (19,1-2)
As micronarrativas têm seus enredos que servem como estruturantes internos, o que lhes dá coesão. No entanto, a combinação de narrativas gera a macronarrativa. Esta, por sua vez, tem a sua própria manipulação de tempo, espaço e personagem na formação do enredo.
O enredo pode ser dividido em uma estrutura mais simples: 1. Abertura; 2. Clímax; 3. Resolução114 em esquema quinário. Segundo Yves Reuter, esse enredo quinário tem um
“estado inicial” seguido por uma “complicação”, o que é alvo de uma “dinâmica” que geraria “resolução”, a qual seria convertida em um estado final115. Segundo Marguerat e Bourquin116,
as partes desse enrede são nomeadas como 1. Situação inicial (exposição); 2. Nó; 3. Ação transformadora; 4. Desenlace; 5. Situação final. Tal esquema é um instrumento heurístico para captar nuances no texto e não pode ser engessado; pelo contrário, suas modificações servem como indícios para a observação das estratégias do narrador na construção do enunciado narrativo. Como denuncia Reuter, o modelo precisa ser manejado com prudência, haja vista que as narrativas e romances combinam várias narrativas mínimas analisáveis, o que exige do pesquisador flexibilidade necessária117.
As três grandes cenas podem ser observadas, a partir do tripartite plot (enredo tripartido), em blocos maiores: Abertura (1-3), na qual o visionário se encontra com o Cristo que o comissiona para céu e lhe manda enviar cartas; Clímax (4-11), com o auge da tensão narrativa quando o visionário vê o trono em ambiente celestial, o culto e as pragas dos selos; Resolução (12-22), que seria o fechamento e realização da abertura. Nesse sentido, os caps. 12- 14 seriam como intermediários, um grande ricochete para a volta à terra e instauração do fim.
Entretanto, essa análise pode ser mais complexa se observadas as estratégias quinárias do visionário. Temos a situação inicial como uma exposição visionária com traços apocalípticos que determinará o próprio conjunto das micronarrativas (1,1). A situação inicial se constrói como uma abertura epistolar. As micronarrativas constituem “nós” que têm suas resoluções internas (2,4; 2,9-10; 2,20-24). No entanto, há um “nó” que serve como tensão dramática e exige uma ação transformadora. Este é 5,1-4: um livro... ninguém é digno de abrir... chorava muito. Neste há os selos que, ao serem abertos, originarão todas as demais macronarrativas. A ação transformadora é realizada pelo que tem poder para desencadear a narrativa, o leão da tribo de Judá, o rebento de Davi; ele venceu e pode abrir o livro e seus sete selos (5,5). Essa ação transformadora é legitimada pela a adoração dos seres celestiais (5,6-14). O desenlace é um conjunto de “nós” de desgraças com duas interrupções (10-11,13; 7,1-17), micronarrativas que servem para dar mais dramaticidade ao desenlace com jeito de nó.
114 REUTER, Y. Introdução à análise do romance. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
115 FLUDERNIK, Monika. An Introduction to Narratology. New York: Abingdon Press, 2009, p. 8. 116 MARGUERAT; BOURQUIN, Para ler as narrativas bíblicas... p. 67.
Quando se espera que a situação final se instaure como consequência natural de 11,15- 19, um ricochete aparece (12,1) e não permite o fim da narrativa. Assim, o desenlace continua. O dragão é o caos que ataca a ordem, assim como nos mitos do combate no mundo antigo, servindo como uma continuidade da descordem iniciada com os selos (6,1) e intensificada com as trombetas (8,1-2). A esse dragão estão vinculadas a besta que sobe do mar (13,1-10) e a que sai da terra (13,11ss.). O conflito entre o dragão e a mulher conduz narrativamente ao conflito entre o povo de Deus e os inimigos de Deus que, com linguagem do mito do combate, ganha mais força de dramatização118, paralelo ao primeiro nó. Esse desenlace segue nas trombetas,
tendo as taças como uma continuação, uma ampliação, pois 16,17-20 é uma expansão de 11,19b119. O bloco de 17,1-22,9 é parte das sete taças e figura como a sua realização. Assim, o
longo desenlace, que tem muitas tensões e retomadas, vai desde o estabelecimento do caos, que não começa no cap. 12, mas no cap. 6, recebe a investida para a sua destruição, a prostituta e todos os inimigos escatológicos são julgados (17-20,15). A situação final é a Nova Jerusalém. O caos deixou de existir, o mundo está novamente ordenado (21-22).
O livro apresenta um desenvolvimento. Este não é linear como se estivesse departamentalizando a história. No entanto, há a estruturação de um estado inicial de caos, uma percepção da realidade como caótica que, no desenrolar do enredo, usando temporalidades e espacialidades, inverte o “agora-aqui”, paralelos, como é comum na literatura apocalíptica (Dn, 1 En, T. de Levi, 2 En, Jub, etc.). A narrativa do Apocalipse vai da catástrofe à Nova Criação120 — do caos à ordem! Para a construção desse discurso, o qual
serve para interpretar o mundo e prever respostas, o narrador, no ato da narração/enunciação, mostra como recorte a semiosfera e sua textualidade na memória cultural. Por isso seria reducionista dizer que os textos apocalípticos são únicos, como se o livro do visionário João fosse uma “monofonia”. Pelo contrário, há, como será exposto, o encontro das textualidades com a Bíblia Hebraica (Joel, Êx 7-11), literatura oracular helênico-judaica (Oráculos Sibilinos), ritos romanos, mitos do combate das narrativas cosmogônicas, etc. Todavia, revela-se a presença da topografia das tradições de Enoque que contribuem para a instauração do caos narrativo na obra.
118 Cf. COLLINS, A., The Combat Myth in the Book of Revelation; MIRANDA, Valtair Afonso. Uma leitura do
combate entre a mulher e o dragão. NETMAL in Revista, p. 1-, 2007; MIRANDA, Valtair Afonso. O dragão e a mulher: uma análise histórico-social de Apocalipse 12. 2005. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) — Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2005.
119 ADRIANO FILHO, Estrutura visionária na estrutura do Apocalipse... p. 218. 120 ADRIANO FILHO, Estrutura visionária na estrutura do Apocalipse... p. 105-106.