Alguns aspectos do nosso cotidiano vão tomando, a cada dia, novas configurações de maneira tão acelerada que poucos se arriscam a fazer previsões para um período mais longo. A tecnologia, especialmente a que se vem denominando como ―de ponta‖, sem dúvida, tam- bém alavanca essas transformações. No campo da comunicação, a internet pode ser citada como um bom exemplo. Na última década, operou uma verdadeira revolução. Inicialmente, de demandas de pesquisadores da comunicação, ampliadas para necessidades militares, foi-se expandindo para o cotidiano civil de tal maneira que, hoje, para os que a adotaram, tornou-se insuportável passar sem ela. Do final da década de 60, quando surgiu timidamente, até os tempos atuais, tem sido vertiginoso o seu crescimento.
Criou-se, nos últimos tempos, uma expressão para designar os que não possuem qual- quer familiaridade com o mundo da informática: ―analfabeto digital‖. Tal designação expressa a importância que cada vez mais é atribuída ao computador e as suas múltiplas formas de uso, a ponto de se estabelecer uma analogia com a incapacidade de ler e escrever, carência essa que nem de longe pode ser tolerada por qualquer país com pretensão de ser chamado ―desen- volvido‖. Também já se vem tornando coro que a exclusão digital é óbice para que se alcance a cidadania. De fato, o alheamento ou não-envolvimento nessa área, cada vez mais coloca o indivíduo à margem dos benefícios que a tecnologia contemporânea vem proporcionando, quer no mundo do trabalho, dos negócios ou em simples atividade de lazer.
Dessa forma, pesquisadores e educadores de um modo geral estão convencidos que a escola contemporânea, em qualquer que seja o nível, não pode ficar indiferente e se furtar a, pelo menos, examinar as possibilidades de uso do computador no espaço pedagógico, enquan- to instrumento especial de mediação do conhecimento. Ao tempo em que se fica à mercê do mercado, pois tem-se também que acompanhar os avanços e descartar aparelhos, rapidamente tornado obsoletos.
A possibilidade de enviar e receber textos evoluiu para outras possibilidades envolven- do imagens fixas e em movimento, sons, hipertexto e interatividade. Tudo isso despertou o in- teresse pela potencialização das formas de comunicação. O mundo da indústria, do comércio, dos serviços, dos negócios e do entretenimento prontamente adotou o novo meio eletrônico. A ele não ficou indiferente, por sua vez, o universo pedagógico.
A prova disso é que o ensino superior, para não falar dos níveis fundamental e médio, cada vez mais vem recheando os currículos dos seus cursos com disciplinas direta ou indire- tamente ligadas a essa área, ora criando ora atualizando conteúdos relacionados com o saber digital, seja numa abordagem crítica, seja numa dimensão instrumentalizadora.
A Faculdade de Educação, por exemplo, desde a década de 80 vem criando espaços e possibilidades de construção de competência nessa área, não só no que diz respeito à criação de disciplinas, mas também na instalação de ambientes de formação e desenvolvimento da cultura digital, a exemplo do Tabuleiro Digital e dos dois laboratórios de Informática que servem tanto a atividades ligadas a disciplinas, como para o uso de alunos da UFBA, sem qualquer vínculo curricular.
De forma avassaladora, a internet vem ocupando os espaços mais significativos do coti- diano e, dentre eles, o espaço da sala de aula, que cada vez mais tem sua concepção original alterada, cujos limites de expansão ainda não é possível determinar, a menos que se queira considerar o mundo como o próprio limite, o que, para fins práticos, acarretaria algumas difi- culdades.
Uma simples navegação a sites de instituições educacionais, ou afins, aponta para um sem número de possibilidades de realizações que podem significar a criação de novas dinâmi- cas capazes de tornar a prática pedagógica mais prazerosa e mais profícua, conforme vem sendo anunciado. Em outras palavras, a internet seduz, encanta e desperta interesse dos que buscam construir uma escola com soluções melhores do que as apresentadas historicamente. Incluindo-se aí o que diz respeito à formação humana.
Pouco menos de meio século antes do surgimento da internet, acontecia, em 1929, a primeira demonstração do funcionamento da televisão. Já nessa época, ocorriam também as manifestações exitosas do cinema, outra invenção magistral que despertou, desde seu nasce- douro, grande interesse por parte dos educadores. O alto custo da produção cinematográfica, entretanto, não permitiu que a escola se apropriasse, de maneira mais significativa, dessa nova maravilha, como a indústria do entretenimento o fez. Só décadas mais tarde, com a TV já con- solidada, foi possível, a partir do surgimento das câmeras portáteis, um envolvimento maior por parte de educadores, no que diz respeito à produção e edição imagética. Por outro lado, o
contato com as imagens 17 fixas e as imagens em movimento, tornaram-se cada vez mais fre- qüentes.
A partir de 1962, data da transmissão das primeiras imagens ao vivo, através do satélite Telstar, lançado pela NASA, iniciou-se uma extraordinária expansão da TV, alcançando lo- cais antes inóspitos a outros meios de comunicação. Quatro décadas depois, povoados distan- tes dos grandes centros urbanos recebiam profusões de imagens geradas em culturas longín- quas, justificando a expressão ―aldeia global‖, cunhada na década de 70 por McLuhan.
A multiplicação de produtos e serviços e a proliferação das empresas de comunicação, somada ao aperfeiçoamento aos equipamentos de registro, fizeram surgir uma sociedade emi- nentemente audiovisual, com ênfase no sentido da visão. De acordo com Soares (1982: 8), um jovem, ao alcançar 15 anos já foi exposto a 300.000 mensagens publicitárias e gastou vendo TV o dobro do tempo empregado em sala de aula.
Assim, as múltiplas formas de comunicação nos grandes centros e, a partir da TV, pre- sentes também nas pequenas localidades, é mediada por uma profusão de imagens com extra- ordinária capacidade de simular o real.
Multiplicam-se os suportes e a capacidade de reprodutibilidade técnica. Refina-se o con- junto de signos partilhados socialmente. As imagens estão em toda parte: seduzindo, encan- tando, persuadindo, vendendo. Cada vez é maior a verossimilhança. O livro, o jornal, o cartaz, o cinema, a televisão, o vídeo, o outdoor, o transdoor, o painel eletrônico e, contemporanea- mente, a internet abrigam generosamente a imagem, nas mais distintas modalidades de gera- ção, ora criada de forma mais artesanal, ora produzida industrialmente por meio de equipa- mentos mais complexos, ou ainda de maneira mista, resgatando e ressignificando modalidades anteriores.
A superexposição imagética a que é submetido o indivíduo na sociedade contemporânea vem despertando o interesse de profissionais de áreas diversas, no sentido de investigar im- pactos e resíduos que essa exposição excessiva pode ocasionar. É nesse sentido que se preten- de fazer um inventariado de aspectos e abordagens no universo imagético com vistas ao pro-
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Adota-se, aqui, o conceito de Rabaça (1987) para imagem, dentre outros, como sendo ―uma representação vi- sual, artística ou mental de um objeto‖ ou ainda a ―representação de um objeto por meios visuais, gráficos, plás- ticos ou fotográficos (fotografia, desenho, escultura, cinema, televisão etc.). Mais adiante veremos outras concei- tuações. Há uma categorização feita por Mitcheel, citado por Santaella, de grande abrangência. Segundo essa classificação a imagem compreende cinco grupo e cada um deles abriga outros subgrupos: Imagem Gráfica (fi- guras, estátuas, design); Imagem Ótica (espelhos, projeções); Imagem Perceptiva (dados dos sentidos, aparên- cia); Imagem Mental (sonhos, memórias, idéias); Imagem Verbal (metáforas, descrição).
cesso ensino-aprendizagem, não só no que diz respeito a possibilidades de uso em situações de construção do conhecimento, como também no que concerne à dimensão da leitura crítica da imagem. É a percepção da importância que essa questão tem para os que trabalham com a comunicação que leva Dondis a manifestar-se dessa maneira:
―A força cultural e universal do cinema, da fotografia e da televisão, na configuração da auto-imagem do homem, dá a medida da urgência do ensino de alfabetização visu- al, tanto para os comunicadores quanto para aqueles aos quais a comunicação se diri- ge‖ (DONDIS, 1991: 4).
Hoje já se constitui um truísmo dizer que os meios de comunicação, ditos de massa, com ou sem razão, forjam visões de mundo e que refletem o modo de produção que o engen- drou. Não se pode negar a influência que exercem sobre as pessoas, bem como as dificuldades de torná-los inócuos ou desideologizado. Alguns estudiosos apontam como solução a possibi- lidade de trabalhar a mensagem na recepção, através de instrumentos teóricos críticos.
Dentre outras, uma das conseqüências dos valores difundidos por essas mídias, princi- palmente a TV, segundo Soares (Ibid.: 10), é ―a confirmação da ‗justeza‘ do modelo atual da sociedade (os pobres são mais pobres porque são incapazes, mas todos têm iguais ‗oportuni- dades‘, devem, pois, pagar pela sua incompetência)‖.
Eco (1989), ao analisar os resultados de uma vasta enquete feita na Europa por ocasião das comemorações do bicentenário da Revolução Francesa, comenta para mostrar a influência do cinema na construção do imaginário dos indivíduos: ―As pessoas têm idéias vagas, fre- qüentemente filtradas por Hollywood‖ Pelas respostas dos entrevistados creio que não é equi- vocado dizer que os jovens universitários europeus de quatro países (Alemanha, França, In- glaterra e Itália), aprenderam menos com seus professores de História do que com os diretores hollywoodianos.
Isso significa dizer que a visão que um diretor ou roteirista de um grande estúdio tem sobre uma determinada personalidade histórica ou sobre um certo fato, poderá impregnar o seu discurso imagético. O mesmo pode ser dito em relação a outras mídias de grande poder de penetração.
A convicção da importância de novas formas de alfabetização – e aqui poderíamos in- cluir a ―alfabetização digital‖ – faz Dondis (Ibid.: 4) lembrar da célebre frase de Moholy- Nagy, ilustre professor do movimento do Bauhaus, proferida em 1935, na Alemanha: ―Os ile- trados do futuro também vão ignorar tanto o uso da caneta quanto o da câmera‖.