STARTER UNIT
UNIT 4 – FACT OR FICTION?
estabelecidas e sua idolatria. Dentro do culto da ideologia canônica descrita por Bruce Haynes (2007, p.11) a fidelidade ao estilo e ao compositor está constantemente atrelada à figura do mestre que foi instruído por uma geração de mestres, logo o jeito “correto” de tocar e interpretar estaria justificado por essa genealogia. De forma jocosa o autor lista uma série de possíveis nomes para as performances não baseadas no estudo, sobretudo histórico da interpretação e alguns deles seriam “Performance do o que o meu herói pessoal faz deve ser o correto”35”e “Performance do o que o professor do professor do professor do professor do professor fez porque ele era o Beethoven”36 .
Um dos problemas apontados pelos críticos dessa visão é que o argumento utilizado para justificar opções técnicas e/ou interpretativas é baseado em um argumento de autoridade. “O correto é tocar assim”, porque eu estudei com o aluno, do aluno, do aluno, do aluno de Liszt, ou qualquer outro compositor ou genealogia instrumental. O argumento é sempre porque estudou com alguém. Para Haynes (2007) esse é um argumento que além de arrogante é extremamente raso, porque ignora o fato de que a forma como as pessoas tocam e interpretam variam com o passar das gerações. Crer que as peças de Beethoven hoje são tocadas como eram tocadas há dois séculos não tem fundamento, porque a cada geração a forma como se toca vai se modificando. O fato de ter estudado com um discípulo de Liszt não quer dizer que essa pessoa tocava e interpretava exatamente como Liszt.
Não faz sentido crer que todos os alunos de um determinado professor tocarão exatamente da mesma maneira que ele. Ainda que sejam trabalhados as mesmas músicas e métodos, a forma como cada um desenvolve não só a técnica como a maneira de interpretar é difusa. Somos influenciados e ensinados de formas múltiplas, ouvimos músicas e interpretações diversas e isso também nos afeta, muda nossa percepção a respeito de uma obra. Ao se pegar gravações de um mesmo intérprete em diferentes fases da vida pode se perceber diferenças notáveis, mudando de pessoa para pessoa as diferenças são ainda maiores. Por que então o senso comum acredita que uma linhagem de professores de diversas gerações poderia ter mantido o jeito de se tocar e interpretar? Há notadamente escolas de ensino e de pedagogias de professores que ao longo da história formaram diversos grandes músicos, entretanto isso não quer dizer também que uma determinada pedagogia é perfeita e deva ser aplicada indistintamente a todos os alunos.
Sobre essa questão Vasconcelos (2011, p.423) declara:
35 Whatever my personal hero did must be right performance?
Este estudar com determinado professor é interpretado como tendo a ver “com a tradição que existe na música erudita de estudar com o mestre, de estudar com um modelo”, com a “qualidade” que se consegue alcançar e com a possibilidade que esse professor dá, pelo menos no plano simbólico, de uma determinada inserção profissional”. Segundo o autor dificilmente essa questão mudará, por conta dos próprios alunos e das demais pessoas do meio artístico que insistem nessa visão...vira uma “questão de fé. (VASCONCELOS, 2011, p.423)
Teixeira (2017, p.2) afirma que a pergunta “Com quem você estudou?” é extremamente marcante dentro do grupo social musical. A partir da resposta a essa pergunta já se fazem uma série de pré-julgamentos sobre como você toca ou deveria tocar. Por conta disso há uma busca por parte dos alunos do professor com maior status dentro do meio artístico. Estudar com determinado músico pode “abrir portas” e oportunidades de emprego, não só porque esse professor ensina da melhor forma e leva os seus alunos a tocarem melhor, mas porque estudar com esse profissional garante um selo de qualidade, o que podemos de forma irônica dizer um
“pedigree”, uma garantia de origem. Louro (2004, p.118) também acredita que essa questão
está ligada a uma tradição do ensino instrumental em que os professores se tornam “espelhos de uma metodologia”, ou seja, há uma “cultura de origem” na qual os professores são modelos a serem seguidos.
Para Vasconcelos (2011, p. 422) o professor “famoso”, com o qual todos os alunos querem estudar, é aquele com uma história de “sucesso” como solista ou em orquestras importantes. Esse professor normalmente também é aquele que estudou com um outro músico renomado no meio artístico. Assim a questão da linhagem artística serve de garantia da qualidade de um determinado músico, professores com “nome no currículo”. A fama desses professores não tem necessariamente a ver com uma grande habilidade na docência, mas sim por suas qualidades artísticas como intérprete.
De acordo com Henry Kingsburry (1988, p.41 et seq) dentro do ambiente conservatorial os alunos têm seu prestígio aumentado ao estudar com um professor de grande reputação, no entanto, esse prestígio não tem a ver com as qualidades desse professor ao ensinar, mas de sua qualidade como artista. O aluno que estuda com o professor “famoso” no meio artístico é visto de forma diferenciada dentro dessa estrutura social; por ser o “professor estrela” mais alunos querem ter aula com ele, o que lhe permite escolher os alunos mais avançados, garantindo-lhe também uma reputação como professor. O professor de sucesso tem como escolher os “melhores alunos” e com isso aumenta o seu prestígio como professor, é uma via de mão dupla que favorece o professor e seus alunos.
como a formação de verdadeiros “grupinhos” ou “panelinhas”. Para o autor esses grupos são elementos fundamentais dentro da estrutura social dos conservatórios, “os alunos de fulano”. Esses grupos geram um verdadeiro culto de admiração e devoção à figura do professor, já que esse enaltecimento do mestre também os afeta diretamente como discípulos dele.
A importância das linhagens na música é tão comum ao conservatório que, frequentemente, nos recitais de alunos o nome do professor vem em destaque no programa, “classe do professor X”. Os programas dos recitais também são repletos de citações como: “estudou com o renomado professor X”, “fez masterclasses com o professor Y”. A utilização de nomes de professores/músicos renomados tem a função de atribuir uma maior credibilidade, importância e autoridade ao músico. Essa utilização é claramente derivada de um sistema patronal de educação musical. “A mensagem implícita é que se estudar com um professor em particular, então estará dando um passo para uma linhagem musical específica37”. (KINGSBURRY, 1988, p.45, tradução nossa)