4.3. Développement d’outils pour la recherche d’expressions
4.3.2 Étude des profils combinatoires : le projet Emolex
4.3.2.3. Extraction automatique d’expressions polylexicales
As visões comuns sobre a inserção de Portugal nos sistemas internacionais, estando embora inscritas sobretudo em textos descritivos e parciais, acabam por ter teorias subjacentes, que apontam para um “…conceito de dependência…”181, que ocupa um lugar central. Esse conceito
perde-se no tempo, mas é bem claro na época contemporânea e serve para explicar quase tudo, desde a perda do império até aos problemas de desenvolvimento do país. É mesmo utilizada para explicar questões que podem ser consideradas do espírito, como “…a forma como se abastardou a alma nacional”182.
A Inglaterra é uma referência na época contemporânea. Segundo Telo183, serve de explicação
para todos os males nacionais, que lhe são atribuídos. Almeida Garrett é apontando por Telo como militante dessa causa. De acordo com a sua pena, a “pérfida Albion” envolveria Portugal em nevoeiros densos, nos quais o país se perderia184. Esta explicação é “…uma justificação fácil
e enganadora do atraso nacional e, sobretudo, da decadência e perda de poder relativo ao longo do período contemporâneo, ambos fenómenos reais”185. Do lado contrário, (“aparente
contrário”, na expressão de Telo186), formou-se a tese em defesa da secular aliança e dos
alegados benefícios para Portugal da relação com a Inglaterra. Mas entre os defensores desta tese a noção central, com valor operativo, continua, segundo Telo, a ser a de dependência, embora, neste caso, tal dependência seja associada a contrapartidas e com um resumo final positivo para Portugal187.
portanto que reunir, na sua composição nacional, a permanente capacidade de escolher, em cada momento, em qual se deve apoiar, na certeza de que a sua experiência é a de que nenhuma das opções é suficiente, quando exclusiva” (p. 32).
181 Telo, A. J. (1997). Op. cit., p. 649. 182 Idem, ibidem., p. 649.
183 Idem, ibidem.
184 A anglofobia reúne muitos intelectuais em Portugal. Em nosso entender, é visível, por exemplo, em
Garrett (Garrett, A. (2005). Portugal na Balança da Europa. Lisboa: Livros Horizonte); Herculano (Herculano, A. (1933). Cenas de um ano da minha vida e apontamentos de viagem. Lisboa: Livraria Bertrand), e no geral em toda a Geração de 70 (1870), podendo-se tomar Eça como exemplo (Queirós, E. (1877). Crónicas de Londres. Domínio Público Web site. Acedido em maio de 2015, disponível em
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/eq000002.pdf).
185 Telo, A. J. (1997). Op. cit., p. 649. 186 Idem, ibidem., p. 649.
187 O predomínio das teses que militam nos malefícios da dependência é identificado por Telo (Telo, A. J.
(1997). Op. cit.), por exemplo, após a revolução de 1820 e após o ultimatum de 1890. As teses anglófilas são, para o autor, evidentes - são outros exemplos - no começo do século XX e no período final da II Guerra Mundial. Do exterior parece haver interesse em alimentar a polémica interna, como são exemplos os casos da Alemanha e da Inglaterra nos anos anteriores à II Guerra Mundial. Os dois países financiaram autores que lhes eram favoráveis. A disputa não morre com o início e durante a Guerra Fria, sendo que agora a Inglaterra é substituída pelos EUA “…como fonte de todos os males ou a origem de todas as vantagens e benesses” (p. 650). A propaganda política tenta influenciar, por vezes, a evolução
51
A cobiça dos grandes poderes em relação a Portugal é um ponto em que muitos autores estão de acordo, segundo Telo188, e que tem como consequência “…a perda de poder do país na época
contemporânea”189. Esta é a teoria do Estado-vítima, espoliado no altar das grandes manobras
internacionais. Para o autor, esta visão coincide algumas vezes com a realidade, mas noutras vezes não passa de “…imaginação delirante…”190 cultivada por autores e políticos191. Esta
reação-tipo é exacerbada ao ponto de os atos positivos dos portugueses serem vividos “…como forma de afirmação perante o exterior…”192.
Terá a tese da dependência razão de ser? Para Telo193, não. Em seu entender, os factos provam
que, pelo menos na época contemporânea, a realidade de Portugal está no polo oposto:
É a realidade de um país que, sistematicamente, nos mais diversos sistemas internacionais, nas mais variadas conjunturas, orientado pelos dirigentes das mais caleidoscópicas cores políticas e múltiplas capacidades, consegue normalmente desempenhar um papel e realizar funções que estão acima da sua força aparente. Consegue, dito por outras palavras, canalizar apoios imateriais e recursos materiais para a prossecução de políticas, estratégias e modos de vida próprios, que não poderiam ser levados a cabo sem eles194.
Telo195 lembra que Portugal consegue manter-se soberano e independente nas guerras
napoleónicas, sendo que a derrota francesa começa na Península Ibérica, em particular no nosso país, às mãos de um exército que inicialmente é anglo-luso; vive na época contemporânea com uma balança comercial em défice, mas consegue sempre compensá-la e viver acima do que
interna alimentando a polémica. Tal aconteceu após o ultimatum, por exemplo, mas também em 1961, quanto o Estado português lançou uma campanha antiamericana na sequência da eclosão da guerra em Angola. Telo não encontra grandes penas na defesa desta tese, apesar da vasta bibliografia, situação que atribui à dificuldade de “…dar a volta ao tema e apresentar com alguma lógica, elegância e coerência o que era essencialmente uma posição ideológica baseada numa má análise estratégica” (p. 650).
188 Telo, A. J. (1997). Op. cit. 189 Idem, ibidem., p. 650. 190 Idem, ibidem., p. 650.
191 São exemplos os investimentos de Alves Redol em Angola, em 1924, com notas falsas, vistos em
Portugal como “…uma manobra internacional alimentada por Roma ou Berlim para nos roubar Angola” (Telo, A. J. (1997). Op. cit., 651) ou a política crítica de Kennedy, em 1961, em relação ao colonialismo português, que é encarada como uma manobra norte-americana para “…levar a pérola do império (Angola) para a esfera ianque” (p. 651). A mesma reação já tinha ocorrido no século XIX, quando a pressão para acabar com o tráfego negreiro foi atribuída “…à cobiça britânica…” (p. 651).
192 Telo, A. J. (1997). Op. cit., p. 651. A descrição mediática das campanhas de Mouzinho de Albuquerque
em Moçambique nos finais do século XIX e das condecorações europeias que lhe foram atribuídas são exemplo aduzidos pelo autor. “…o país tinha provado que era digno dos seus maiores e do vasto império que ainda mantinha e a Europa vergava-se à realidade irrecusável com mal disfarçada pena” (p. 651). O autor entende que estas manifestações podem ser atribuídas a “…uma catarse bem necessária depois das humilhações do ultimatum e, sobretudo, das derrotas militares em África frente à polícia da companhia de Cecil Rhodes, que nem sequer era um exército regular” (p. 651).
193 Telo, A. J. (1997). Op. cit. 194 Idem, ibidem., p. 651. 195 Idem, ibidem.
52
produz entre portas; consegue manter um império africano de dimensão muito significativa (sendo, aliás, o primeiro a chegar – 1415 – e o último a partir – 1975), quando a Espanha perde o seu e países como Itália ou a Alemanha não conseguem mais do que impérios menores ou mais pobres do que o nosso; sustenta durante treze anos (1961-1974) uma guerra em África, com frentes separadas por milhares de quilómetros e mantém os conflitos em níveis suportáveis e sem pôr em causa o desenvolvimento interno, o que “…é mais do que a França fez na Indochina e na Argélia e os EUA fizeram no Vietname”196; está na primeira fila da evolução do
sistema internacional através da relação privilegiada que mantém com a potência que domina o Atlântico; recebe convites para membro-fundador das organizações internacionais mais marcantes na época contemporânea, em especial quando estas organizações são iniciativa do poder marítimo ou das suas alianças; os regimes, por mais diversos que sejam, costumam considerar fundamental o apoio externo para se manterem e não poucas vezes conseguem superar crises importantes com base nesse apoio. Como exemplos, refere a guerra civil da Patuleia e o final da II Guerra Mundial.
Baseado nos exemplos referidos, Telo197 conclui não ser sustentável uma imagem de
dependência e de enfraquecimento determinado pelos sistemas internacionais. Pelo contrário, alega, a imagem que transparece é a de um poder que “…vai buscar ao sistema internacional recursos e meios que multiplicam a sua força e lhe permitem abalançar-se a missões e estratégias aparentemente muito acima do seu peso relativo, tanto internas como externas – a fronteira é difícil de traçar”198.