Comportamentos sexuais solitários é uma expressão de Katchdourian (1990), referida por Moore & Rosenthal (1993), que designa os comportamentos que não requerem a participação de parceiro(a) para a sua realização. Correspondem aos subtipos de comportamentos fantasias sexuais e masturbação.
As poluções nocturnas ou sonhos molhados são ejaculações involuntárias que ocorrem no início da adolescência enquanto os adolescentes dormem, na sequência de sonhos com conteúdo sexual ou de movimentos que possam provocar uma sensação agradável no pénis.
Os adolescentes com D.M. ficam muito perturbados e assustados em relação a estas quando acordam e se encontram molhados e por ignorância pensam que urinaram na cama (Katz, 1993).
Os adolescentes normais podem sentir-se embaraçados e desconfortáveis com a ocorrência destas ejaculações involuntárias associadas, a maior parte das vezes, a sonhos eróticos que podem desencadear alguma preocupação e mesmo culpabilidade.
As fantasias dos adolescentes com D.M. podem referir-se a ídolos, adultos ou mesmo a jovens que conhecem e admiram e por quem se apaixonam (Katz, 1993). A dimensão afectiva ou sexual do seu conteúdo é variável de adolescente para adolescente. Podem ocorrer ainda em relação a uma pessoa desconhecida com ou sem suporte visual concreto.As fantasias heterossexuais são acompanhadas, nalguns adolescentes com D.M. pela masturbação, mas são menos frequentes que nos normais, de acordo com Lleror, referido por Marin, Bravo & Perfumo (1993). Estas fantasias, não obstante poderem desencadear certa ansiedade, são uma fonte de prazer e de vivência do desejo sexual, substituindo e compensando a satisfação de necessidades afectivo-sexuais, socialmente estipuladas como inatingíveis ou inapropriadas.
As fantasias sexuais dos adolescentes normais são, por si só ou enquanto parte de outro comportamento sexual, a actividade sexual mais comum, segundo afirma Katchadourian, referida por Moore & Rosenthal (1993). Estas fantasias têm uma função adaptativa, proporcionando ao adolescente a possibilidade de obter prazer e de reconhecer as suas necessidades e preferências sexuais, assim como ensaiá-las, vivenciá-las duma forma não ameaçadora. Contudo o conteúdo erótico (sentimentos sexuais envolvidos nas encenações) de algumas destas
fantasias pode ser percebido como perverso ou proibido, o que pode provocar sentimentos de culpa e ansiedade (Costa, 1998).
A masturbação consiste na estimulação e manipulação dos órgãos genitais com o objectivo de provocar excitação e obter prazer sexual. É um dos comportamentos sexuais mais característicos dos adolescentes com D.M.. Estes podem aprender a masturbar-se eficazmente com outros jovens mais velhos ou descobrir sozinhos, demorando mais tempo a consegui-lo. Neste último caso, a descoberta acontece por ocasião duma erecção (Katz, 1993). Este comportamento permite ao adolescente com D.M. obter a satisfação do desejo sexual, decobrir como funciona o corpo e as novas sensações a ele associadas. Pode ser vivido por ele com um misto de prazer e de curiosidade, mas também com muitas dúvidas, confusões e receios. As afirmações de um jovem com D.M., que transcrevemos de Belmonte (1993, p. 56), são disso testemunho: « Quando me vem...em casa, a minha mãe diz que faz mal fazer isso, e se disser ao meu pai ele zanga-se, mas o meu irmão diz que não faz mal.» ; um outro D.M. diz: «Não é permitido a nenhum homem, é só um pouco se for casado e se a mulher estiver de acordo.». Apesar da repressão mais ou menos subtil de alguns pais e da ausência de um conhecimento correcto que prevalece entre esta população a respeito da masturbação, vários estudos abrangendo pessoas com D.M. desde a puberdade até à vida adulta, têm demonstrado que esta representa o comportamento sexual com maior incidência no sexo masculino (Canas, 1993; Marin et ai. , 1993). No entanto, a incidência deste comportamento entre os adolescentes normais e adolescentes com D.M. é igual, de acordo com um estudo realizado na Universidade de Indiana por Lleror, referido por Marin, Bravo e Perfumo (1993).
A masturbação pode ser usada pelos adolescentes com D.M. não só como redutora de tensão e fonte de prazer sexual, mas também como refúgio ou substituição da ausência duma relação afectivo-sexual satisfatória com os pares, como diz um jovem com D.M., citado por Belmonte (1993, p. 56) : « É fatal, porque faço por aborrecimento ou quando me sinto só...». Se não for proporcionada a este jovem mais informação sexual, outras ocupações, actividades e lazeres mais motivadores e atraentes, bem como oportunidades de se encontrar e relacionar com jovens do outro sexo, a masturbação poderá tornar- se a sua única e exclusiva forma de expressão.
Se bem que os adolescentes com D.M., sobretudo os Síndrome de Down, tenham poluções, erecções e se masturbem, tudo isto é vivido por eles como se
fossem aspectos parciais da sua sexualidade, uma vez que lhe falta a integração, a relação causa-efeito - que tem origem na fantasia sexual que lhe provoca uma erecção e o desejo de se masturbar que leva à ejaculação e à descarga da tensão (Permeias, 1993). Alguns adolescentes com D.M. poderão masturbar-se em público, embora se desconheça a incidência dos que o fazem (Bermejo e Verdugo, 1993; Mitchell, 1987).
No estudo de Sanchez (1993), 32 pais responderam a um questionário sobre a vida sexual dos filhos com D.M. (69% de nível moderado e 31% de nível ligeiro), 69% dos quais com idades compreendidas entre os 17 e os 23 anos, 22% entre os 24 e os 29 anos e os restantes 9% entre os 30 e 35 anos, não institucionalizados. Dos pais com filhos do sexo masculino, 57% responderam que sim à questão relativa a se estes evitam acariciar-se e tocar-se nas partes íntimas do corpo em público e 43% responderam que não. Destes pais 43% afirmaram que os filhos quando se masturbam, o fazem em privado e não em público. Para além das diferenças em termos percentuais entre as duas respostas afirmativas (que eventualmente poderão estar relacionadas com problemas de interpretação), estes resultados contrastam com a tendência assinalada por Masters, Johnson e Kolodny (1987), de que as pessoas com D.M. respeitam a privacidade quando se masturbam, pelo que esta é uma questão cuja clarificação poderá vir a ser interessante. A masturbação em público (exibicionismo) é um comportamento sexual inadequado e é explicado por várias causas que irão ser analisadas quando abordarmos os comportamentos sexuais desviantes.
A masturbação também é, entre os adolescentes normais, o principal meio (2/3 dos casos) para atingirem o orgasmo e a primeira ejaculação (Katchadourian, 1990). Constitui uma forma transitória de desenvolvimento da actividade sexual, permitindo a estes jovens inexperientes aprender a expressar-se sexualmente, sem entrar numa relação para a qual ainda não estão preparados. Associada às fantasias sexuais, ajuda o adolescente a reconhecer as suas preferências sexuais e , portanto, a desenvolver a sua identidade sexual. Apesar da sua função positiva e adaptativa, a atitude pouco tolerante da sociedade em relação a este comportamento, considerado durante muito tempo como pecaminoso, doentio e perverso, faz com que o adolescente com frequência sinta culpa e ansiedade quando o pratica. Aliás, apenas menos de um terço dos jovens afirmou que nunca sentiu culpa quando se masturbou, considerando os restantes que já tinham sentido culpa e vergonha em maior ou menor intensidade em relação a esse comportamento (Coles & Stokes, 1985).
Em síntese, tanto os adolescentes com D.M. como os adolescentes normais vivem as primeiras poluções nocturnas com desconcerto, embaraço e culpabilidade. No entanto, enquanto os primeiros lhe atribuem um significado de regressão -«voltar a fazer chi-chi...» - , os segundos provavelmente associam-nas às coisas sexuais proibidas e designadas socialmente pelos adultos como socialmente impróprias para adolescentes.
Os adolescentes com D.M. apresentam uma menor frequência de fantasias sexuais que os adolescentes normais, o que poderá eventualmente explicar-se quer pelo défice do seu funcionamento cognitivo que limita, obviamente, a imaginação, quer pelas limitações das suas vivências pessoais, por exemplo, convívio social, acesso à estimulação visual dos media. As fantasias sexuais, enquanto fontes de substituição e compensação das necessidades sexuais não satisfeitas através de outros comportamentos sexuais devido à repressão social que é exercida sobre estes, têm mais tendência a tornar-se definitivas e mesmo exclusivas entre os adolescentes com D.M. do que entre os normais.
A masturbação permite tanto aos adolescentes com D.M. como aos adolescentes normais conhecer como funciona o seu corpo e as novas sensações eróticas, obter prazer sexual deste, sem entrar numa relação para a qual ainda não estão emocionalmente preparados. Conjuntamente com as fantasias sexuais, ajuda os adolescentes em geral a conhecer as suas preferências sexuais e a desenvolver a sua identidade sexual, se bem que no caso dos adolescentes com D.M. isso aconteça a um ritmo mais lento. Se nos adolescentes normais este comportamento tem um carácter transitório e pode coexistir com relações gratificantes com outros indivíduos, nos adolescentes com D.M., devido aos obstáculos que se lhes colocam no estabelecimento de relações mais íntimas com outros jovens, sobretudo do sexo oposto, este comportamento pode tornar-se uma forma de expressão sexual definitiva e única. Embora entre os adolescentes com D.M. a masturbação seja de todos os comportamentos sexuais aquele que tem maior incidência, quando comparamos esta com a dos adolescentes normais verificamos que são iguais.
Para além de proporcionar prazer sexual tanto aos adolescentes com D.M. como aos normais, a masturbação é vivenciada, por um número considerável de adolescentes normais, com alguma ansiedade e culpa devido aos tabus e às atitudes prevalecentes na sociedade em relação a ela, os adolescentes com D.M. vivenciam-na com dúvidas e receios devido à ausência de informação sexual e à
repressão sexual mais ou menos explícita que é exercida sobre eles. É provável que estes dois últimos aspectos contribuam também para a ocorrência da masturbação em público, no caso dos adolescentes com D.M., apesar de subsistirem dúvidas quanto à sua incidência. Com efeito, 57% dos pais do estudo de Sanchez responderam que «sim» à questão : «Evita acariciarse y tocarse parte íntimas en público?», mas apenas 43% destes pais respondeu «sim» à segunda questão: «Si se masturba, lo hace en privado, nunca en público?».
No seu todo (poluções nocturnas, fantasias sexuais e masturbação), os comportamentos sexuais solitários são uma forma conciliadora entre o que socialmente é pedido aos adolescentes (não ter relações sexuais) e a satisfação das suas necessidades sexuais e, nas palavras de Costa (1998) : «São uma sexualidade de passagem para o mundo adulto que é frequentemente estruturante para a integração harmónica dos aspectos sexuais na personalidade global». Nalguns adolescentes com D.M., sobretudo nos Síndrome de Down, é possível que tal integração dificilmente venha algum dia a acontecer.