Até ao início da adolescência, o desenvolvimento psicossexual da criança com D.M. processa-se na mesma sequência e obedece ao mesmo esquema já descrito para a criança normal, necessitando apenas de mais tempo para passar de um estádio ao outro (Katz, 1993). Na verdade, o desejo sexual é sentido e expresso por todos os seres humanos, em todas as idades, ainda que de formas e com intensidades diferentes. É mediatizado, na opinião de Zapian (1993), por processos biofisiológicos, cognitivos, linguísticos e afectivos, o que implica que cada indivíduo (ser humano) tenha um desenvolvimento psicossexual pessoalizado, personalizado e irrepetível. Daí que, conclui o mesmo autor, encontremos pessoas, quer sejam portadoras de D.M., quer sejam normais com maior ou menor angústia em relação à sexualidade, com maior ou menor necessidade sexual, com maior ou menor expressão sexual.
Segundo Morgenstem (1979) , a criança com D.M. pode, porém, possuir uma menor tolerância perante as tensões, uma menor contenção da ansiedade, um ego mais débil e relações mais pobres com as pessoas e os objectos. Pode até nunca chegar a ser tão capaz de responder ao meio ou de amar como a criança normal, o que pode ser consequência tanto das suas experiências vitais e
das suas deficiências globais, como de omissões ocorridas durante o seu processo de desenvolvimento.
No começo da vida, o recém-nascido com D.M. ou normal focaliza toda a sua atenção emocional nas suas necessidades de comer, evacuar, dormir e evitar o desprazer (a dor), que são para ele vitais. Quanto mais dorme, melhor come e quanto maior for a eficácia em evitar o mal estar, mais satisfeito se sentirá, sobretudo se os cuidados, da mãe ou de qualquer outra figura externa, forem acompanhados de um contacto agradável e de ternura. Durante estes primeiros meses, que correspondem ao que Freud (1915/1968) e os seus sucessores designaram por estádio narcísico, a mãe ou quem a substitui é percebida pela criança como parte de si mesma. A princípio, a criança percebe esta figura externa como parte de si mesma. Depois a criança vai ter que aprender gradualmente a reconhecer a sua individualidade, isto é, que é distinta da mãe, que há forças exteriores a si que não pode controlar, aceitando, assim, a necessidade de esperar pela satisfação dos seus desejos e necessidades. Na realidade, o reconhecimento do mundo exterior produz-se quando as suas necessidades não são autosatisfeitas e o agente exterior deixa passar algum tempo antes de as satisfazer. Deste modo, a criança começa a compreender que nem ela, nem ninguém do mundo exterior é capaz de controlar e satisfazer todos os seus caprichos e desejos. A aceitação deste facto, o reconhecimento desta falta de omnipotência, na opinião de Morgenstern (1979) fortalece o ego. Quando o desenvolvimento se processa a um ritmo diferente, mais lento, como na criança com D.M., torna-se mais difícil realizar as aprendizagens anteriores, isto é, reconhecer a sua individualidade, aceitar que é distinta da mãe, que há um mundo exterior a si que não consegue controlar, principalmente se a mãe ou o seu substituto se mostra incapaz quer de adiar por breve espaço de tempo a satisfação das necessidades da criança, quer de estimulá-la a explorar e a manipular os objectos, ajudando, desse modo, a deslocar a sua atenção inicialmente focalizada no interior do seu corpo para o que está fora dele (Loureiro, 1994/95). Torna-se pois mais complicado para a criança com D.M. renunciar às ideias de omnipotência infantil e da autosuficiência unilateral, o que fragiliza o seu ego.
Na perspectiva de Morgenstern (1979), o ego da criança com D.M. pode manifestar um menor vigor para aprender a controlar as pressões das necessidades internas e a adaptar-se às exigências da realidade exterior. Esta fragilidade faz com que a criança possa sentir-se mais vulnerável e frustrada, o
que por sua vez pode prejudicar o estabelecimento duma relação de confiança mútua entre si e o adulto que cuida dela. Quando ocorrem dificuldades nesta relação, a criança com D.M. pode, em casos extremos, permanecer indiferente perante o meio, incapaz de aceitar a existência da realidade exterior. Acredita que só ela existe, que a mãe é um prolongamento de si mesma e que os cuidados que ela lhe proporciona constituem um atributo do seu Eu. Tendem a isolar-se, a não comunicar, a manifestar indiferença perante as pessoas e os objectos. Pode também, pelo contrário, ligar-se exageradamente aos objectos, procurando neles protecção. Continuará a utilizar o objecto transaccional no sentido que lhe é atribuído por Winnicott (1969), muito para além da idade habitual. Segundo Morgenstern (1979), a criança com D.M. não está consciente da sua dependência do objecto transaccional, nem consegue distinguir o uso funcional dos objectos da sua necessidade pessoal de se ligar a algo que, para si, adquire propriedades emocionais, se torna animado e é melhor que ninguém. Apesar da criança não usar estes objectos como uma parte do seu corpo, como no início do estádio oral, durante a fase do narcisismo e da omnipotência primários, estes continuam, no entanto, a não ser completamente reconhecidos como fazendo parte da realidade exterior das coisas.
Quando não se verificam estas perturbações nas relações com as pessoas e os objectos, é mais provável que a individuação da criança com D.M. possa ocorrer sem grandes problemas. Para tal, a criança deverá aprender a reconhecer a sua individualidade, a aceitar o mundo exterior e a aprender o significado de adiar a sua satisfação (Loureiro, 1994/95).
À medida que cresce, a criança normal desenvolve as suas capacidades perceptivo-motoras; simultaneamente são-lhe feitas novas exigências para que se torne capaz de uma progressiva independência. Aliás, na opinião de Bios (1962), o primeiro processo de individuação-separação ocorre apenas no final do 2o ano de vida, quando a criança experimenta e compreende o significado do controlo e da capacidade de se poder movimentar para longe da mãe.
No caso da criança com D.M., a aquisição destas capacidades perceptivo- motoras ocorre geralmente um pouco mais tarde (Morgenstern, 1979), o que prolonga a sua dependência, tornando mais difícil a separação emocional relativamente aos pais, assim como a imposição, por parte destes últimos, de novas exigências. A lentidão do desenvolvimento neurológico e motor de grande parte destas crianças pode complexificar ainda mais a aquisição do controlo esfincteriano, momento já por si propício a jogos de afirmação e oposição por
parte de todas as crianças em relação às novas exigências de socialização dos pais. Ignorando este facto, algumas mães intervêm precocemente, impondo regras que a criança com D.M. é incapaz de cumprir; outras, pelo contrário, devido à sua dificuldade em frustrar a criança, tornam a sua aprendizagem longa e cheia de incidentes (Loureiro, 1994/95).
O desejo de conhecer e explorar o seu corpo -principalmente os órgãos genitais - e o prazer que daí obtém, fazem com que a criança com D.M. , tal como a criança normal, sinta interesse e curiosidade pelo corpo do outro, pelas suas diferenças. O relacionamento entre os pais merece a sua especial atenção e curiosidade. A resolução do conflito edipiano pode ser, no entanto, dificultada pela excessiva dependência da figura materna.* Uma excessiva e prolongada dependência da figura materna e um fraco vínculo à figura paterna nos rapazes com D.M. dificultam e lentificam a construção da identidade e do seu papel sexual, uma vez que a identidade de género masculino requer a substituição da identificação primária à mãe pela vinculação à identidade masculina representada pelo pai.
Numa investigação relativa à percepção dos papeis sexuais, Morgenstern (1979) verificou, através de um questionário a 300 sujeitos com idades entre os 7 e os 20 anos, com deficiência mental ligeira (Ql entre os 50 e 83 ), que, comparativamente aos seus pares normais, as crianças com D.M. com menos de 10 anos atribuíam todas as actividades à figura materna ou feminina. Esta identificação da maioria dos rapazes com D.M. com a função e o papel feminino sugere, na perspectiva do autor, uma maior necessidade de dependência da criança com D.M. , « o seu desejo de permanecer junto dos seus».
Num outro estudo, o autor procurou analisar as figuras de identificação de 500 crianças e jovens com D.M. através do desenho de figuras humanas femininas e masculinas, sendo o sexo desenhado em primeiro lugar considerado a figura de identificação. Os resultados mostraram que o número de crianças com D.M., com mais de 9 anos, que desenha primeiro o seu próprio sexo, é equivalente ao número de crianças normais de 6 a 8 anos que faziam o mesmo.
* Na opinião de M. Manoni (1978) , algumas mães, para compensarem a perda do filho imaginário, têm tendência a assumir o filho com D.M. como um objecto que lhes é dado para cuidar fora do alcance do marido.
A resolução do conflito edipiano e a construção da identidade de género e dos papeis sexuais não é só dificultada pela excessiva dependência da figura materna, mas também pela incapacidade dos pais imporem limites aos seus filhos com D.M. e ensiná-los a respeitar a intimidade entre eles (Craft & Craft, 1978).
Na verdade, quando um filho tem deficiência mental, torna-se decepcionante para a mãe, afecta-a no plano narcísico, perturbando toda a identificação com ele. O pai, por sua vez, não consegue ajudar a mãe, sente-se também decepcionado por não ter podido gerar um filho saudável, sente-se angustiado por ver as suas expectativas frustadas. Estes factos, afirma Pefiuelas (1993), « dificultam que o rapaz seja incorporado numa situação triangular, pois como é que se pode fazer cumprir a lei a uma criança que, desde que nasce, está destinada a viver fora das regras ?» .
No mesmo sentido, Jerusalinsky, citado por Pefiuelas (1993), a propósito do impacto que tem o nascimento duma criança com D.M. junto dos pais, afirma :« Uma vida sem prazer, é uma vida sem desejo e este prazer gera-se na identificação com uma mãe contente, feliz e satisfeita de ter o seu filho e com um pai que lhe proporcione promessas de realização sexual futura no mundo exterior em compensação da inibição actual. É por este motivo que surgem, com tanta frequência, perturbações sexuais nas pessoas com deficiência mental, uma vez que o desejo da mãe fica perturbado, a reciprocidade da interacção deixa de ser gratificante devido à sua depressão e as promessas do pai de futuros relacionamentos sexuais são suprimidas.». Todas estas carências afectam a vida sexual da pessoa com D.M. - a sua auto-imagem, a sua capacidade de sedução, o sentir-se desejado, etc. . Com frequência, estas pessoas têm dificuldade em aceitar o seu crescimento e, em particular, a sua sexualidade. Continuarão a ser sempre a criança que não passará por qualquer crise da adolescência, nem por qualquer tentativa de autonomia, uma vez que continuará a necessitar dos cuidados dos pais.
Durante o período da latência, a criança com D.M. vai ter que encontrar o seu lugar, não só em casa como também na escola e na comunidade, o que constitui uma tarefa crítica. Na escola, é-lhe difícil investir nas actividades: as suas aprendizagens processam-se mais lentamente e são menos gratificantes para si e para os adultos significativos. Tem menos oportunidades de participar nos jogos de papeis ou de proceder a outro tipo de explorações que satisfaçam a sua curiosidade sexual: tem menos tempo e menos espaço livre para jogos não
materna, mas também pela incapacidade dos pais imporem limites aos seus filhos com D.M. e ensiná-los a respeitar a intimidade entre eles (Craft & Craft, 1978).
Na verdade, quando um filho tem deficiência mental, torna-se decepcionante para a mãe, afecta-a no plano narcísico, perturbando toda a identificação com ele. O pai, por sua vez, não consegue ajudar a mãe, sente-se também decepcionado por não ter podido gerar um filho saudável, sente-se angustiado por ver as suas expectativas frustadas. Estes factos, afirma Penuelas (1993), « dificultam que o rapaz seja incorporado numa situação triangular, pois como é que se pode fazer cumprir a lei a uma criança que, desde que nasce, está destinada a viver fora das regras ?» .
No mesmo sentido, Jerusalinsky, citado por Penuelas (1993), a propósito do impacto que tem o nascimento duma criança com D.M. junto dos pais, afirma :« Uma vida sem prazer, é uma vida sem desejo e este prazer gera-se na identificação com uma mãe contente, feliz e satisfeita de ter o seu filho e com um pai que lhe proporcione promessas de realização sexual futura no mundo exterior em compensação da inibição actual. É por este motivo que surgem, com tanta frequência, perturbações sexuais nas pessoas com deficiência mental, uma vez que o desejo da mãe fica perturbado, a reciprocidade da interacção deixa de ser gratificante devido à sua depressão e as promessas do pai de futuros relacionamentos sexuais são suprimidas.». Todas estas carências afectam a vida sexual da pessoa com D.M. - a sua auto-imagem, a sua capacidade de sedução, o sentir-se desejado, etc. . Com frequência, estas pessoas têm dificuldade em aceitar o seu crescimento e, em particular, a sua sexualidade. Continuarão a ser sempre a criança que não passará por qualquer crise da adolescência, nem por qualquer tentativa de autonomia, uma vez que continuará a necessitar dos cuidados dos pais.
Durante o período da latência, a criança com D.M. vai ter que encontrar o seu lugar, não só em casa como também na escola e na comunidade, o que constitui uma tarefa crítica. Na escola, é-lhe difícil investir nas actividades: as suas aprendizagens processam-se mais lentamente e são menos gratificantes para si e para os adultos significativos. Tem menos oportunidades de participar nos jogos de papeis ou de proceder a outro tipo de explorações que satisfaçam a sua curiosidade sexual: tem menos tempo e menos espaço livre para jogos não controlados e vigiados pelos adultos e menos acesso aos contextos de socialização em que ocorrem as interacções com pares. De facto, alguns adultos quando surpreendem as crianças com D.M. nestes jogos de papeis com
controlados e vigiados pelos adultos e menos acesso aos contextos de socialização em que ocorrem as interacções com pares. De facto, alguns adultos quando surpreendem as crianças com D.M. nestes jogos de papeis com conteúdos sexuais, intensificam a vigilância sobre elas. Contrastando com esta excessiva preocupação, outros adultos tendem a neglicenciar a necessidade de ensinar à criança com D.M. que certos comportamentos devem ocorrer numa situação de privacidade. Com efeito, o aparecimento de sentimentos como a vergonha, o pudor e a malícia, indicadores da integração da moral sexual surgem na criança com D.M. mais tarde e, nalguns casos, duma forma incipiente, deficiente. É provável que um dos factores que contribui para esta insuficiência seja a exposição a modelos, socialmente pouco adequados, de comportamentos sexuais dos adultos. Comportamentos de maior intimidade sexual podem ocorrer na presença da criança com D.M. (Domenico, 1996). A negligência por parte de alguns pais, pode também levar à ocorrência de comportamentos sexuais socialmente inadequados como, por exemplo, masturbar-se na presença de estranhos, parecendo os adultos esquecer-se que a criança com D.M. tem dificuldade em interpretar, em discriminar o que deve e o que não deve fazer (Mitchell, 1987).
5. DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL DO