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A mudança de mestre acelerada pela eminência da viagem que fariam não é encarada como um aspecto negativo, mas sim como um fato constatado que merece a devida análise. Como uma interferência externa pode ser decisiva na modificação da dinâmica natural dos processos ocorrentes em uma cultura de tradição. Na mesma proporção em que pode gerar conflitos dentro de um contexto também pode fomentar mudanças bastante significativas de comportamento por parte das pessoas que as integram.

De fato, a possibilidade de circularem pelo Brasil todo e, além de reconhecimento em nível nacional ganhar também uma remuneração por isso, fez com que todos do grupo se motivassem a participar do mesmo e o impulsionassem da maneira que lhes cabiam.

119 Uma das mudanças que mais saltou aos olhos foi a da participação nas rodas que aconteciam no terreiro do mestre. Conforme foi se aproximando o período da viagem, pude perceber uma maior frequência de pessoas ligadas ao coco nas rodas.

Alguns desses frequentadores, especialmente os mais jovens, netos de Mestre Geraldo, começaram a movimentar o nome do CZMG nas redes sociais, inclusive criando perfil do Facebook e promovendo interação constante com fãs, produzindo vídeos das apresentações que realizavam nas proximidades de cabeceiras e postando fotos frequentemente nesse perfil. Esse é um procedimento bastante positivo, que ajuda na divulgação do coco de zambê. Atualmente em turnê, essas postagens são ainda mais frequentes, tendo sido inclusive criada uma conta no Youtube na qual compartilham os vídeos dos shows que o grupo tem feito em vários lugares do Brasil.

FIGURA 30 - Canal de Youtube do CZMG.

120 FIGURA 31 - Página do CZMG no Facebook.

Fonte: Página do Facebook do grupo

Outro aspecto de mudança verificado em minhas observações em campo foi a busca por protagonismo por parte de alguns integrantes do grupo. Anteriormente, apenas o Mestre Geraldo compunha os cocos tocados pelo grupo, aos poucos, com a gradual mudança de mestre, Mião começou a lançar-se nas composições e mais recentemente Tintim, o respondedor oficial dos cocos, também começou a compor os seus próprios.

O processo de Mião foi iniciado anteriormente e fomentado no período que antecedeu a viagem, mas a inserção de Tintim parece ter sido iniciada com a iminência da viagem, pelo menos conforme dito por José Cosme em entrevista concedida. Esse também é um indicativo muito significativo de mudança ocorrente no grupo em função de uma interferência externa.

Certamente o grupo ainda se modificará intensamente durante todo esse período de turnê que ocorrerá até o ano de 2018. Nessas viagens eles têm a possibilidade de interagir com outros grupos e já é evidente, nas postagens que fizeram recentemente, que há muita mudança sendo gerida nesses últimos tempos e que certamente serão temas de análises posteriores a esse trabalho.

5.5 MÚSICA E CULTURA NO ZAMBÊ

Durante minha inserção no campo percebi que a música do zambê é a própria vida deles e que algumas características de sua música e dança não são mais que metáforas de suas existências enquanto grupo. A resistência é uma palavra que, por exemplo, dentro desse contexto, carrega muita significância, tanto na dimensão da própria brincadeira como também da vida do grupo.

121 A resistência física necessária pra se tocar e dançar o zambê é apenas uma faceta da resistência que, em uma dimensão maior, se percebe na própria permanência deles enquanto grupo de tradição popular e inserido em um modelo de família que se mantém espacialmente unida, vivendo em comunidade. Esse fator ocorrente em tempos onde o individualismo é crescente também pode ser tomado como um fator de resistência.

Pode-se inferir que o coco de zambê é uma das principais motivações para que essa família permaneça assim, tão unida. Ao mesmo tempo que é sabido pelo Mestre Geraldo que a estratégia mais eficiente de manter sua cultura viva é assegurando que essa se mantenha dentro do seio familiar, é também por conta dessa missão, de carregar viva a chama que aquece o coco de zambê, que os irmãos, Filhos do Mestre Geraldo, se mantêm tão fortemente ligados e cada vez mais conscientes do bem cultural do qual são guardiões e herdeiros.

A ideia que o mestre tem sobre preservação de sua cultura norteia essa decisão de mantê-la resguardada à propriedade de sua família, pois, conforme revelou em algumas entrevistas, as pessoas de fora poderiam entrar no zambê e bagunçar a organização que ele estabeleceu ao longo de anos e nunca mais o zambê se reestruturaria como tal.

Dessa forma, percebe-se o CZMG como uma grande e coesa equipe, onde cada um mostra-se bastante consciente do seu papel dentro do grupo, e mesmo os que não integram o grupo, se reconhecem em seus papeis dentro do contexto que dá sustentação ao grupo e para que esse permaneça existindo, crescendo e difundindo sua cultura para além das fronteiras da comunidade Cabeceiras.

Pude constatar também que aspectos mais sensorialmente perceptíveis da sua música, como a letra dos cocos, por exemplo, dizem muito sobre rotina, sobre passado, sobre valores e concepções de mundo desse grupo e da família de Mestre Geraldo. Mas não apenas dizem sobre eles, também dizem para eles como devem seguir e quais os valores devem nortear suas vidas a partir das mensagens do pai.

Seguindo essa lógica, também percebi que aspectos do próprio tocar e dançar o zambê determinam que certas práticas recorram gerando uma tradição, como, por exemplo, o fato de ser tocado e dançado somente por homens. Esse é, possivelmente, um dos aspectos mais determinantes na permanência de tal característica, e falo isso após vivenciar a minha própria experiência de tocar o zambê. Nessa ocasião pude entender melhor o porquê dessa característica ainda se perpetuar dentro daquele contexto. Pois o principal instrumento, o zambê é extremamente pesado e exige muita força e energia para ser tocado. Pode-se dizer o mesmo da dança.

122 Mas, embora esse aspecto seja muito relevante na determinação de gênero dentro do grupo, acredito que não seja o único, até porque, por si só não anulariam as possibilidades de uma mulher exercer quaisquer uma dessas atividades. Acredito que, por hoje em dia essa característica ter se tornado uma das principais do grupo, reconhecida inclusive por vários estudiosos, talvez ela seja utilizada como uma forte estratégia de diferenciação e, portanto, de afirmação identitária. Uma característica que os particularizam e os tonam únicos no universo dos cocos e das manifestações populares.

A força física necessária para se tocar ou dançar numa roda de zambê não é apenas uma questão de gênero, homem ou mulher (embora esse seja um fator relevante), é uma questão de modo de vida, relação com o tipo de trabalho que normalmente se desempenha. Pessoas que não tenham o habito de realizar atividade física em seus cotidianos ou que não realizam trabalhos braçais, serão certamente menos aptas a tocarem ou dançarem o zambê tal como ele é feito até o presente momento.

Nesse sentido, esse é um outro aspecto em que a música do zambê atua socialmente, pois cria um entendimento de que pra se chegar a participar do grupo, ou pelo menos nas brincadeiras nas rodas, tem que se ter o mínimo de condição física. E isso é percebido nas rodas de coco que acontecem na comunidade, onde apenas pessoas mais magras ou mais fortes se arriscam a entrar para dançar.

Percebe-se que o zambê impulsiona, seus integrantes e as pessoas da comunidade, a comportamentos e procedimentos de escuta, fruição, gestos corporais, etc., comuns a todos (MERIAM, 1964). Esse processo pode ser significativo na construção da musicalidade desenvolvida por eles, mas também pode ser determinado pela própria música, configurando-se um processo de retroalimentação que define a identidade social de seus participantes.

De outra parte, como afirma Blacking (2007), é necessário compreender os contextos nos quais ocorrem as práticas musicais para que entendamos melhor a música. No caso do CZMG percebe-se que o grupo, embora seja familiar, e que assim deverá permanecer, por vontade deles mesmos, exerce um grande impacto no sentido de representatividade do município de Tibau do Sul. Eles são reconhecidos dentro do seu município como pessoas importantes por fazerem o coco de zambê, e isso é decisivo na maneira de conduzir suas vidas frente a essa manifestação. Certamente, se não obtivessem tal reconhecimento, poderiam ter sido desmotivados a continuarem criando, compondo, construindo instrumentos, transmitindo seus conhecimentos e garantindo a continuidade do grupo.

123 Atualmente, com a turnê nacional que realizam pelo SESC, essa consciência de representarem não apenas Tibau do Sul, mas o estado do Rio Grande do Norte, refletirá em mais motivação e busca por manter o coco de zambê em atividade e conseguindo cada vez mais reconhecimento através da sua música.

124 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Chegar ao fim. Olhar para trás, refazer o caminho, ver de novo o que foi feito, também perceber o que não foi feito, mas que poderá ainda ser no futuro. Concluir alguma coisa que não se basta em palavras é difícil. Não deixa a sensação de completude, mas de “preciso parar por aqui”. Parar de olhar, de tentar compreender, de perceber o que há por trás de conversas, de olhares, de ideias, de simples e complexas atitudes em campo. Chegar ao fim, então, me parece muito mais dizer o que consegui fazer durante o tempo que olhei para essa realidade, mas sobretudo, revelar ao leitor o que ainda há por ser feito, percebido, preenchido em outras pesquisas.

Nesse sentido, ao longo deste trabalho, estivemos preocupados em compreender como se dá a performance dentro do grupo Coco de Zambê de Mestre Geraldo. Buscamos entender os processos embrincados dentro de sua rotina familiar e de um grupo musical que tem considerável projeção no cenário do estado do Rio Grande do Norte e inserções em projetos de circulação nacional. Nosso intuito, logo, foi acompanhar a trajetória do grupo e tentar, a partir das nossas observações, entrevistas, registros de áudio, fotos e vídeos, compreender os processos existentes dentro do seu contexto de performance.

Percebemos que o CZMG, que ocorre no distrito de Cabeceiras, Tibau do Sul- RN, é uma comunidade formada em grande parte por negros e mestiços, e que, portanto, a manifestação por nós pesquisada, se funda dentro desse contexto de ancestralidade principalmente negra. É um grupo formado por membros da mesma família, ou seja, apenas membros da família do Mestre Geraldo são permitidos na configuração atual do grupo. Esse fator é apresentado pelos próprios como uma importante estratégia de manutenção da cultura do zambê. Embora seja apenas essa a função por eles atribuída a essa característica, observamos, ao analisarmos outros pontos, que essa questão da manutenção da manifestação em seio familiar também se mostra importante processo na manutenção do patrimônio cultural, e, portanto, um instrumento de consolidação do status da família frente à comunidade.

Também verificamos que alguns aspectos podem concorrer para a manutenção de uma característica tão forte dentro da cultura do zambê, que é o fato de ser feito exclusivamente por homens. Alguns deles tem relação direta com a questão física, sobre

125 o peso dos instrumentos utilizados, também a respeito da dança, bastante vigorosa, que requer uma grande força física. Embora esses fatores possam ser questionáveis, se aberta uma ampla discussão de gênero que não foi o objetivo desse trabalho, percebemos que esse aspecto não é por eles discutido e nem pelas mulheres que estão em seu entorno. Esse comportamento não questionador também é visto como um importante fator de manutenção de tal característica.

A dança sim é permitida para as mulheres, mesmo assim em momentos específicos, após a “primeira fornada”, que é a apresentação em que apenas os membros do grupo podem se dançar. Mesmo assim, percebemos que as mulheres da comunidade não participam, apenas mulheres externas à comunidade aventuram alguns passos de zambê quando convidadas. Isso por si só já é um claro sinal de mudança dentro do grupo, pois antes nem nesses momentos era permitido que mulheres participassem.

A própria dança do zambê vem se transformando pouco a pouco. Em nossas observações, ao longo de dois anos de pesquisa, podemos perceber significativas mudanças na sua forma de se apresentar. A dança, que era predominantemente acrobática, muito vigorosa e complexa no sentido da execução, tem dado lugar a outras características, como o elemento dramático, presente na performance de alguns dançarinos. Essa mudança tem permitido que pessoas com diferentes portes físicos possam também dançar o zambê de forma aceitável pelo grupo, pois dessa maneira se preserva a principal das características dessa dança que é a criatividade e a capacidade improvisativa do dançador.

Boa parte das mudanças percebidas em nossa pesquisa vêm como pano de fundo de uma importante mudança que vem se consolidando também ao longo desses dois anos em que estivemos pesquisando-os. Essa grande mudança, que está na linha de frente de uma série de outras, é a mudança de mestre. Observamos, desde o início da nossa inserção no campo, que pouco a pouco se delineava uma substituição do Mestre Geraldo por dois de seus filhos, o José Cosme, que se incumbia de responder pelo grupo, e o Mião, que assumiria o lugar do pai na roda de coco, tocando o Zambê, puxando os cocos e dando continuidade à composição das músicas do grupo.

Essa mudança se apresentou para nós em momentos, durante a pesquisa, em que víamos o Mestre Geraldo não mais sendo tão importante nas decisões do grupo, também em situações de apresentações para as quais ele já não se motivara a ir. Mostrava-se

126 cansado, e não possuía mais o vigor físico necessário para estar a frente da roda e tocando um instrumento tão pesado quanto é o zambê. Ainda assim, mesmo consciente de sua condição, pudemos perceber uma insatisfação de Mestre Geraldo em ter que deixar de acompanhar o grupo por ele construído. Sendo assim, percebemos que Mestre Geraldo apenas se faz presente em apresentações que faz dentro da sua própria casa ou em pequenas apresentações que ocorrem em distritos vizinhos a Tibau do Sul. Nessas apresentações é possível realizar o zambê da forma que ele considera correta, com o aquecimento dos tambores na fogueira e respeitando o ritmo próprio das apresentações, feitas com pequenos intervalos entre as “fornadas”, que são uma espécie de atos durante a apresentação.

Por falar em “fornadas”, podemos falar agora do fogo, o principal elemento simbólico dentro dessa manifestação. O zambê é uma brincadeira predominantemente noturna, por motivos de trabalho dos integrantes e também por se tratar da hora do lazer dos adultos, o que acompanha um comportamento bem recorrente em várias outras manifestações. O fogo nessa manifestação tem o importante papel de iluminar a festa. A fogueira ela é acesa para também trazer luz ao lugar onde vai acontecer a roda, mas não só, ela também tem a primordial função de afinar os instrumentos que serão tocados no coco de zambê.

A fogueira é primeiro movimento indicativo de que vai acontecer roda de coco naquela noite. O fogo é presente no dado aos pequenos atos das apresentações, as “fornadas” e também é presente na qualificação dada aos cocos mais animados que eles tocam durante uma rodada de coco, os “cocos quentes”, que são cocos de versificação mais curta, onde pergunta e resposta se articulam com tal agilidade que impulsiona tanto os tocadores quanto os dançadores a tocarem e dançarem mais vigorosamente e mais rapidamente também.

O fogo, dentro do Coco de Zambê de Mestre Geraldo se mostra em todos os momentos como algo muito importante. Inclusive, durante as apresentações, enquanto a fogueira estiver acesa, há a possibilidade de uma nova “fornada”, pois há também a possibilidade de novamente afinar os instrumentos. Se a fogueira apaga, a roda acaba. Certa vez, numa ida ao campo, José Cosme me disse que a coisa mais importante do zambê é o fogo, que sem o fogo não havia roda, nem zambê e nem mestre.

127 Essa consciência sobre o fogo e sua importância, tanto quanto outros valores, é por todos compartilhada. Através do processo de transmissão, outro aspecto bastante importante para este trabalho, pode-se perceber a apreensão desses valores e outros ensinamentos do mestre chegando até os seus descendentes. O próprio Mestre Geraldo, ao nos relatar o seu processo de aprendizagem da cultura do zambê, permeado por proibições do seu pai, onde para aprender, precisava ver tudo o que podia através de uma fresta na janela do seu quarto quando criança, tem plena consciência de que é através das crianças, e do que ele pode passar para elas, que se perpetuará a cultura do zambê através dos tempos.

Embora consciente, nas nossas observações, não é perceptível momentos de intencionalidade de ensino, à parte em alguns casos como na aprendizagem das letras de alguns cocos. Na maior parte do tempo o que se vê, sobretudo entre as crianças, é uma eterna brincadeira onde se experimenta aquilo que se vê desde os primeiros dias de vida. As crianças participam de todos os momentos que antecedem a roda. Desde a escolha das madeiras que irão para a fogueira até o teste sobre a afinação correta dos tambores antes de começar o coco.

Nesse ambiente informal, familiar, de despojamento e brincadeira eles vão provando tudo o que sempre fez parte de suas rotinas. Testam os instrumentos que veem seus pais, tios e avô tocando, imitam os toques, imitam também a dança e já sabem quais os principais elementos de uma boa dança do zambê. Provam força física e criatividade em brincadeiras onde competem entre si para ver quem é o melhor dançador de zambê. E assim se dá os seus processos de aprendizagem, coletivamente, experienciando na brincadeira os valores e as formas de se fazer aquilo que é pertencente às suas origens e de sua família.

Esses fatores pesquisados, como mencionado no início, foram alguns possíveis olhares sobre um campo tão rico e repleto de aspectos observáveis e analisáveis, portanto não representam o todo do que de fato é o Coco de Zambê de Mestre Geraldo, nem muito menos do que é a sociabilidade tecida no seio da família do Mestre Geraldo Cosme. No entanto, são olhares que trazem aspectos que nos ajudam a compreender o contexto da performance e a musicalidade desse grupo, tratando sobretudo de seu contexto, das suas características mais relevantes na nossa percepção e de como essas características são repassadas através de um processo de transmissão que se responsabiliza ao mesmo tempo

128 por mover importantes mudanças dentro do grupo, como também por garantir a permanência de algumas características que lhes conferem tradição.

129 REFERÊNCIAS

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Disponível em:

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_____. Representações sociais sobre práticas de ensino e aprendizagem musical: um estudo etnográfico entre congadeiros, professores e estudantes de música. 1999. 360 f.