77 O CZMG é um grupo que, entre outras características que o particulariza, possui, talvez, a mais significativa delas e, conforme pude perceber, a que desenha com traços fortes a moldura que circunda e dá sustentação à construção da performance do grupo: o contexto familiar.
Ao chegarmos em Cabeceiras no dia 15 de outubro de 2016, numa tarde de sábado bem ensolarada e quente, subimos a pequena ladeira de entrada da rua do Mestre Geraldo e percebemos que havia casas de um lado e do outro, algumas bem humildes e conservando características originais de uma antiga construção, outras já um tanto alteradas, com traços de uma certa modernidade e dando indícios de que houve ali alguma melhoria na condição de financeira da família. A mesma característica se aplica ao terreiro do Mestre Geraldo que ele divide com seus filhos, noras e netos.
A entrada da casa do mestre é uma porteira de madeira sempre aberta. A abertura física denota a característica mais forte da família do Mestre Geraldo, que é a de acolhimento. É uma família unida e agregadora. E por serem unidos e, através dessa união, consolidarem um forte aspecto de autoproteção, parecem seguros o suficiente para se abrirem aos que se interessam por sua cultura, por seu convívio e, de certa forma, por estabelecer laços.
A união é traço tão forte nesse contexto que se materializa na disposição espacial das casas dos membros, que são ao mesmo tempo do grupo e da família. Ao centro, de frente ao portão de entrada do terreiro, há a casa do Mestre Geraldo, uma casa com uma grande varanda em seu entorno e na qual se reúnem todos, filhos, parentes, agregados, vizinhos, enfim, aqueles que animam-se por jogar uma conversa fora em um fim de tarde, ou por participar das serestas que corriqueiramente realizam, além, é claro, das rodas de coco de zambê que acontecem com alguma regularidade.
O terreiro do mestre é grande, porém são muitos os filhos, sendo assim, suas casas são construídas próximas umas das outras, de forma que o convívio e o contato constantes são totalmente inevitáveis. As casas são separadas por muitas árvores, geralmente frutíferas, que fazem uma sombra agradável e torna mais ameno o calor, que nessa região é bastante intenso. Esse clima aconchegante e a temperatura mais amena são favoráveis a encontros constantes sob a sombra das árvores. Esses encontros facilmente tornam-se festas onde todos, ou quase todos, se reúnem para comerem, beberem e tocarem juntos, zambê ou outras músicas.
78 FIGURA 6 - Família do Mestre Geraldo em frente à sua casa.
Fonte: A autora (2017).
Ao redor da casa do mestre ficam as casas de seus filhos: José, Didi, Mião, Vanvão, Uzinho, Jorge e alguns outros parentes. Em conversa com eles, me foi dito que Mestre Geraldo os teria dado pedaços daquele terreno, pois desejava vê-los juntos e morando perto dele e de Dona Iracema, a esposa de Mestre Geraldo. Um aspecto de superproteção que inclusive ficou evidente em outros momentos, como, por exemplo, o medo que o Mestre demonstrou ter de que seus filhos viajassem de avião. Inclusive, tendo desenvolvido um tipo de transtorno de ansiedade pela iminente viagem que fariam ao redor do Brasil através do Circuito Sonora Brasil do SESC.
A partir desse dado poderíamos dizer que o Mestre Geraldo é apenas um pai protetor? Talvez, mas, antes de tudo consciente do seu patrimônio cultural e, conforme nos revelou em conversas, acredita que a melhor forma de mantê-lo é conservando-o dentro do seio familiar. Uma das estratégias de manutenção dessa cultura é essa organização familiar, pois permite o convívio intenso, a ininterrupta transmissão de formas de viver, de valores, de aspectos variados que desenham o contexto da
79 performance desse grupo. Manter o zambê em família, além de assegurar a continuidade da manifestação, também confere-lhes um diferencial frente à comunidade, um valor diferenciado que se traduz em respeito e eleva o status da família.
Em entrevista concedida, José, um dos filhos do Mestre Geraldo, nos revelou que o mesmo não permitia a participação de pessoas de fora da família, pois acreditava que apenas pessoas da família teriam condições de entender o que era o Zambê. O próprio Mestre mencionou que “tocar o zambê é fácil, qualquer um que olhar toca, mas entender a cultura é outra história!” (Mestre Geraldo, 2016).
Nessa fala o Mestre Geraldo deixa evidente sua percepção de que a cultura só se transmite a partir da vivência, coisa que não seria tão facilmente acessada por qualquer pessoa. Compreendendo também que no processo de transmissão não estão envolvidos apenas os aspectos sensorialmente perceptíveis da cultura, mas todo um complexo de valores morais e concepções de vida em sociedade. Essa composição familiar em grupos musicais é, também, observada por Lima (2008) que aponta que isso possibilita relações educativas, de transmissão e aprendizagem, consistentes, pois no núcleo familiar o contato é maior entre os participantes e isso permite que trocas de informação se deem mais frequentemente no cotidiano.
Em minhas inserções no campo, não percebi movimento de pessoas externas à família que se mostrassem interessados em integrar o grupo. No relato de José, me foi dito que algumas pessoas, por vezes, tentaram fazer parte, mas que isso não teria sido permitido. De forma geral, percebo que há um entendimento bem difundido na comunidade sobre o pertencimento do grupo à família de Mestre Geraldo. Ou seja, essa manifestação se dá em Cabeceiras e, ao mesmo tempo que representa a comunidade e toda a cidade de Tibau do Sul, conserva uma forte e notável indissociabilidade da imagem dessa família e ainda mais fortemente do Mestre Geraldo.
Atualmente se consolida a mudança de mestre e já é sabida a função de cada um dentro desse processo de mudança. Nenhum assunto é questionado a ponto de se tornar polêmico e capaz de gerar desentendimentos entre eles. Há um respeito grande entre os irmãos e, sobretudo, dos irmãos em relação ao Mestre Geraldo. Embora todos comunguem da mesma opinião a respeito de que o mestre já não tem mais condição de liderar, tomar decisões e nem mesmo de tocar as rodas de coco, há uma compreensão, por todos compartilhada, sobre a importância de ouvir e atender ao pai.
80 A mudança é, sob essa ótica um acontecimento gradual e não falado abertamente. Ela se mostra em momentos nos quais fica evidente a impossibilidade do mestre em participar de eventos, como os que têm acontecido nos últimos meses da minha pesquisa. Aos poucos se delineia uma nova formação para o grupo, mantendo algumas antigas atribuições inalteradas. Como exemplo disso temos, a posição de José Cosme como um porta voz do grupo; Tintim, como o oficial respondedor dos cocos e atualmente também compondo seus próprios; por fim, Didi, como guardião dos instrumentos.
A lata, o zambê e a chama sempre estão sob a responsabilidade de Didi (Djalma Cosme), guardados na sala de sua casa. Em dia de roda, geralmente as crianças os tiram de lá, já ansiosos por vê-los dispostos ao redor da fogueira e, sentando sobre os instrumentos, finalmente conseguirem tocá-los, já que são pesados demais para que possam tocar como os adultos tocam.
Esse é o principal momento de partilhar o zambê com as crianças, de entender como eles veem essa cultura, como são vistos pelos pais em relação à manifestação. Em vários momentos como esses pude ver o orgulho estampado na face de alguns dos filhos do Mestre Geraldo ao verem seus filhos, de tenra idade, já tocando bem aqueles instrumentos. Eles repetem por vários momentos: “eles são o futuro do Zambê!”. Percebem que ali se assegura a continuidade, através dos mais novos e da inserção deles na brincadeira é que se garante que aquela cultura não caia no esquecimento.
81 FIGURA 7 - Netos de Mestre Geraldo.
Fonte: A autora (2017).