Fábia Roseana Souza
Universidade Tiradentes – UNIT, [email protected]
RESUMO
INTRODUÇÃO: Na década de 1974, o Chile sofria um terrível golpe militar, encabeçado por Augusto Pinochet e com o apoio estadunidense, encerrando de forma violenta o governo legitimo de Salvador Allende, eleito em 1970. Assim a ditadura de Pinochet trouxe ao país uma onda de opressão, supressão de direitos e muita violência, chegando a construir campos de concentração para apoiadores das ideias marxistas. O movimento cultural das arpilleras, nasce em um contexto histórico turbulento, mais que também foi um período de amadorecimento político para mulheres chilenas. Desta forma, de acordo com Muñoz (2010), os segmentos de mulheres mais atingidos foram as órfãs, viúvas, mães, e irmãs de presos políticos, que obtiveram apoio da igreja católica e então começaram a bordar em sacos de batata suas pautas particulares, para depois entenderem que de uma forma coletiva, o bordado poderia ser o instrumento de resistência a ditadura de Pinochet. Em paralelo a esta conjuntura, nasce o Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB, de uma forma embrionária na região Sul, sob forte influência da Comissão Pastoral da Terra – CPT, que já pontuava as violações de direitos sofridas em todo território nacional, especialmente na Amazônia e que diante desta conjuntura expandia-se por toda região norte. Assim o MAB absorveu tais reinvidicações e em meados da década de 1980 firmava sua pauta de enfrentamento a égide capitalista, “Água
e Energia não são mercadorias”. Desde então, o MAB luta e constrói novas alternativas
de enfrentamento a égide capitalista que se apresentava nas suas diversas faces diante das suas crises cíclicas, as quais vem se aprofundando ainda mais a questão social. Uma das novas alternativas que o MAB encontrou para expandir-se, pluralizar suas demandas e dar respostas as demandas contemporâneas que surgem, é reconhecer de forma legitima as novas pautas emergentes que surgem a medida que o capitalismo avança, uma delas engloba as mulheres atingidas por barragens, que sofrem além de sofrerem as demandas comuns implicadas pelo processo de implantação das barragens necessárias para construção das hidroelétricas, que as cometem semelhantemente aos dos homens, existem pontos específicos de reivindicação e de denúncia, específicos das mulheres atingidas que antes eram invisibilizados e que através da construção coletiva e auto-organização dessas atrizes, tornaram-se legítimos, como por exemplo a divisão sexual do trabalho. Assim as mulheres atingidas estão conquistando ainda mais lugares antes pertencentes apenas aos homens, como coordenações locais e até mesmo nacionais dentro do MAB. METODOLOGIA: O percurso metodológico realizado para construção deste resumo, deu-se pela investigação qualitativa bibliográfica documental, do caderno do MAB, “Mulheres atingidas por barragens em luta por direitos pela construção do projeto
energético popular”, pesquisa bibliográfica da dissertação intitulada, “ARPILLERAS: O bordado como performance cultural chilena, em favor do drama social” além de textos sobre a temática e analises de discurso obtidos pelas redes sociais oficiais do Movimento dos Atingidos por Barragens, contendo depoimentos das mulheres atingidas por barragens e a educação popular, pois de acordo com Amaral e Montrone (2015) trata-se de um referencial metodológico que trás a possibilidade de construção de um novo processo educativo nas mulheres que tiveram seus direitos violados com o processo de instauração das barragens. Corroborando com esta perspectiva, trazemos Allene Lage (2013) que trás o sentido da subjetividade da pesquisa qualitativa, que por sua vez transpõe as regras e condicionamentos prévios, no contato, diálogo e confronto com as realidades.DESENVOLVIMENTO TEÓRICO: Em uma perspectiva histórica, a igreja católica deu uma grande contribuição para o inicio das atividades das mulheres conhecidas como “Arpilleristas” no processo de resistência contra o governo ditatorial chileno, embora que politicamente, a igreja não obtivesse influência política sobre o mesmo. Agosin (2007) pontua que dentro desta perspectiva, de invisibilidade política, líderes religiosos ecumênicos juntaram-se em meados de 1974, e criaram o Comitê PRO- PAZ, tendo como objetivo geral dar auxílio às vitimas de violações de direitos humanos. Pois, ainda de acordo com a autora, a situação do Chile era muito precária devido ao golpe militar, que trouxe consigo, o desemprego, a falta de alimentos perecíveis, e em alguns bairros, a população masculina chegou a diminuir consideravelmente, e aqueles homens que ainda viviam em liberdade, que eram poucos, não tinham como ir trabalhar pela falta até de roupas e sapatos. Diante deste cenário, as mulheres assumiram diretamente o sustento familiar com muita dificuldade, pois a maioria nunca trabalharam fora de casa, e diante da realidade que estavam sendo submetidas, não tiveram outra alternativa ao não ser começar a trabalhar com costura e outros empregos considerados subempregos. Neste cenário, o comitê PRO-PAZ funcionou durante dois anos, sendo encerrado por ordem direta do Presidente Pinochet. Então o cardeal arcebispo de Santiago, capital chilena, Raúl Silva Henriquez (1907 – 1999), pediu autorização direta e urgente ao papa Paulo VI (1897 – 1978) para criar o Vicariato de Solidariedade (1976 – 1992). Esta instituição tornou-se um dos poucos ambientes chilenos onde se praticava certa liberdade política, denunciando as violações de direitos humanos cometidos pelo governo militar e onde iniciaram-se as oficinas as arpilleras sob proteção da igreja que, segundo Augosin (2007), gozava de certa autonomia política porque funcionava inteiramente sob as rigorosas leis ecumênicas da Igreja Católica de Roma e do oficio de arcebispo. Assim, o MAB resgatou essa gênese nos anos 2000, trazendo através da perspectiva da educação popular, pautada através do processo de discussão e auto – organização das mulheres, a técnica das arpilleras como sendo uma forma lúdica das mulheres atingidas denunciarem as violações sofridas pelo processo de implantação das barragens. As discurssões antagônicas levantadas pelas mulheres, partem inicialmente da divisão sexual do trabalho, como pontua HIRATA e KERGOAT (p.599,2007) pontua que a designação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva e, simultaneamente, a apropriação pelos homens das funções com maior valor social adicionado (políticos, religiosos, militares etc.). A perspectiva da autora citada corrobora com a realidade destas mulheres, pois foi percebido que além da forma como os homens e mulheres são atingidos, expresso por comumente através da desterritorialização, homens sofrerem com a implantação da barragens, a medida que este processo viola o direito de ir e vir destes sujeitos, além da perca de seus empregos, e as mulheres além de lhe dar com
as violações citadas, ainda sofrem com abusos sexuais ocorridos pelos estrangeiros que se instalam em suas localidades para trabalharem nas obras que antecedem a instauração das barragens, a perca dos laços comunitários e familiares, perca da soberania alimentar e da sua identidade, pois ao contrário dos homens, as mulheres atingidas em um âmbito geral, só trabalhavam em seus lares e não possuíam outra forma de sustento, além do que era provido pelos seus companheiros. Nesta perspectiva, o movimento realiza oficinas que discutem as pautas levantadas pelo movimento de forma coletiva para que posteriormente, as mulheres possam confeccionar as arpilleras, registrando como de deu o processo de violação em sua vida de forma legitima, pois todo o processo se dá pelas mulheres, por mulheres e para que outras mulheres possam se enxergar nestes processos, e tecer novas de perspectivas de enfrentamento e luta através do bordado. RESULTADOS: As arpilleristas chilenas, sem dúvidas foram mulheres extraordinárias que viveram o terror da ditadura, a extrema pobreza e desafiaram o então governo usando agulhas e seus ousados bordados, transformando sacos de batata em tecido de resistência. Estas mulheres, tornaram-se protagonistas de um regime que as oprimia, porém que trouxe a possibilidade de criação de novas estratégias e espaços alternativos que permitiram de uma forma nada convencional, tornar político e repensar problemáticas como a posição das mulheres, dos direitos humanos e do autoritarismo em geral. Assim, mulheres que que só se enxergavam quanto mães e esposas, através das arpilleras, tornaram-se cidadãs políticas, transmitido ao mundo a grande potencia que há no saber popular. Agosin (2007) relata que na primeira oficina das arpilleras patrocinada pelo Vicariato, que ocorreu em março de 1974, compareceram cerca quatorze mulheres que traziam consigo muita dor, pois as mesmas sofriam pela perca de seus familiares desaparecidos e pela crise econômica que as impossibilitavam de alimentar seus filhos. Na contemporaneidade, quarenta e cinco anos depois as arpilleras ganharam o mundo, hoje são inspiração para que o MAB, trabalhe com as mulheres atingidas suas pautas específicas. De acordo com o MAB (2015) o trabalho com as arpilleras consiste em uma metodologia feminista de educação popular, construída de forma coletiva em encontros de mulheres atingidas em todas as regiões do país que hoje fazem arpilleras, assim esta prática dentro do MAB foi essencial para construção de uma rede de mulheres, que se fortaleceram de uma forma coletiva e auto-organizativa e hoje participam de uma forma direta do movimento, além de ser um instrumento de formação política como já foi colocado. O MAB já registrou mais de cento e cinquenta encontros, com mais de novecentas mulheres que produziram mais de cem arpilleras que seguem sendo replicadas. O MAB considera como ápice deste processo, até o momento a exposição “Arpilleras, bordando resistência”, no Memorial da América Latina em São Paulo - SP, no qual foram expostas cerca de 30 arpilleras feitas coletivamente pelas mulheres do MAB, que não são apenas artes figurativas e sim elementos de discursão e reflexão para popularizar o movimento e suas boas práticas.
REFERÊNCIAS:
AGOSIN, Marjorie. Tapestries of Hope, Threads of Love: The Arpillera Movement in Chile. Ed. Rowman & Littlefield Publishers, 2007.
HIRATA, Helena. KERGOAT, Daniele. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Centre National de la Recherche Scientifique, 2007.
LAGE, Allene. Educação e movimentos sociais: caminhos para uma pedagogia de luta. Recife, Ed Universitária da UFPE, 2013.
LIMA, Maria do Socorro Pereira. ARPILLERAS: O bordado como performance cultural chilena, em favor do drama social. UFGO, 2018.
MOVIMENTO DOS ATINGIDOS POR BARRAGENS (MAB). Mulheres atingidas por barragens em luta por direitos e pela construção do projeto energético popular. São Paulo, 2015.
MUÑOZ, Heraldo B. A sombra do ditador: memórias políticas do Chile sob Pinochet. Rio de Janeiro. Ed. Zahar, 2010.
GUERREIRA DE PAPELÃO: ANÁLISE DA VIDA DE CAROLINA MARIA