As figuras masculinas são, também, numerosas: temos, dentre outras, o amante, personagem construído apenas de rápidas e fugazes menções; 5 imagens
embaçadas de homens presos pela polícia, em cujos rostos estava estampado o sofrimento e a angústia; homens aparentemente pobres, negros, que se encontram sentados ao redor de algumas mesinhas, em pé, sozinhos ou em grupo; o dono de uma banca de jornal; um homem que trabalha em uma salina; o frentista de um posto de gasolina; o rapaz que, supostamente, parece ser o namorado de Vilma; um outro que dirige um iate no qual se encontra Vilma; o fotógrafo que tira fotos de um modelo; um outro que se encontra próximo ao Forte, lavando dois cavalos; o locutor de rádio e os dois personagens principais.
A despeito de estarem, relativamente, em igual número em relação às figuras femininas, algumas dessas figuras masculinas passam despercebidas, não são “destratadas” ou, em outros termos, não são tratadas de forma irreverente,
5 Paulo Emílio Salles Gomes (2000) cita Rebecca (1940), de Hitchcock (adaptação cinematográfica
do romance homônimo), como um exemplo de uma personagem feita exclusivamente de palavras. O espectador conhece essa personagem apenas devido aos depoimentos de várias outras figuras que se reportam a ela.
como o foram, apenas para lembrar – todas as figuras femininas, inclusive a jovem que dirigia um carro de luxo, que foi tratada, por eles, “como uma mulher de classe”. (Pensar na figura da ironia, a “mulher de classe” ao invés de significar distinção, tem o sentido de desqualificar. Assim, eles falam “como se pega uma mulher de classe”; o verbo pegar usado no sentido pejorativo. Dessa forma, eles também diminuem essa mulher, mas o fazem de forma dúbia, pois, ao mesmo tempo, ela é representada pelo seu valor material; ela seria respeitada pelo dinheiro que aparenta ter). Entretanto, quero apresentar, na minha análise, uma outra perspectiva, segundo a qual, as personagens de Jandir e Vavá, em determinadas seqüências que considero significativas são, por seu turno, diminuídas e humilhadas. Ou seja, são representações que os desqualificam.
Discuto, a seguir, os segmentos que, segundo afirmei anteriormente, contribuem para contrariar, ou “sabotar”, o sentido sugerido pelo próprio título do filme. Procuro, agora, examinar algumas seqüências que colocarão em xeque as características definidoras do perfil de “cafajestes” das personagens masculinas. Alguns planos insinuam uma certa “fraqueza” da dupla, representada através de ações vacilantes e inseguras.
A presença constante do uso de entorpecentes, “bolinhas”, maconha, indica que a droga será usada para enfrentar ocasiões que exijam coragem. Quando o protagonista telefona para Leda, às “sete horas da manhã”, abre um vidrinho, cena que irá se repetir freqüentemente, e ingere alguns comprimidos. Enquanto Vavá regula a máquina fotográfica para fazer as fotos de Leda, Jandir percebe um certo tremor em suas mãos; “Tá tremendo? Tome, para tomar coragem” e retira de um vidrinho algumas bolinhas brancas. “Não é muito?” Jandir responde: “vai por mim, que nisso eu sou cobra”. No Forte, enquanto esperam a chegada de Leda e de Vilma, fumam maconha que, se em Jandir não provoca qualquer alteração na atitude de frieza que marca seu comportamento, em Vavá, o efeito é logo percebido. Enrosca-se em um canto, encolhido; em seu rosto transparece angústia; num dado momento, levanta-se,atravessa de uma ponta a outra o Forte, de forma agitada, e a câmara o persegue, também nervosamente; fica de frente
para a câmara, para depois dar as costas, fugir, deitar-se no chão segurando um revólver, perguntando se Jandir é “suficientemente macho para fazer roleta russa”; Jandir responde, seguro: “Sou”. Vavá aponta o revólver para a sua própria cabeça e simula disparar. Os tons dissonantes extraídos de um violão parecem expressar, musicalmente, o estado interior de Vavá. Tal atitude de inquietação é decorrente, conforme já sabemos, da paixão que nutre por Vilma. É como se a afetividade, os sentimentos, não pudessem se misturar com a “maldade” do ser humano. Discorda do plano proposto por Leda, sendo “obrigado” a aceitar por força da pressão exercida pelos dois, assim como para revelar coragem diante daquela situação. Em dado momento, faz uma proposta: “Jandir, se eu te desse o carro agora, assim mesmo, e desse o fora, você toparia?” – Topo! Por que, tá gamado por Vilma? Vavá, envergonhado, com um sorriso meio sem graça, responde: - “Não, por nada”. Os sons atordoantes de uma bateria contribuem para reforçar a imagem de nervosismo e a tensão daquela circunstância.
Em outra seqüência, em um diálogo que travam sentados lado a lado, na areia, Vavá declara-se a Vilma, mas ela encarrega-se de apontar os atributos de pessoa covarde e vacilante do primo.
– “Você sabe que tudo que eu quis até hoje, eu consegui; eu sempre quis você”.
- “Conseguiram, primo; você mesmo nunca foi capaz de conseguir”. - Por isso salvar o banco do velho é tão importante para mim; só por seu intermédio eu posso alcançar isso. É meu último recurso.
- Não é a primeira vez que você tenta. Não vai dar certo, nem hoje, nem nunca.
- Sei de cor o nome de todos os seus namorados. – “Já perdi você demais, dessa vez não, prima”.
Se, nessa seqüência, foi possível a troca de idéias, outros planos são muito significativos no sentido de expressar a dificuldade de comunicação que permeia as relações entre eles. Trata-se, propositalmente, de uma gestualidade teatral, em que os atores se posicionam de modo a sugerir sua presença em um palco.
Através de um jogo coreográfico, há uma indicação de desencontro em que as frases são ditas não diretamente um para o outro, não havendo, pois, uma interação entre eles6. Além de vozes entrecortadas, frases incompletas, as
imagens nos mostram um desencontro: quando um deles fala, o interlocutor lhe dá as costas, revelando uma ausência de entendimento. Vavá tenta, mas não consegue emitir nenhum som. Se, no processo de comunicação face a face, o sujeito fala para o outro, o que pode levar a um diálogo, aqui se reforça o distanciamento e a impossibilidade do processo comunicativo.
Quando conseguem conversar, Vilma em primeiro plano, deitada de costas para a câmera, Vavá reafirma sua atitude vacilante e contraditória. “Jandir não é para você. Você merece coisa melhor!” – Quem, primo, você por acaso? Não adianta pedir, primo, você deve lutar. Uma vez na vida, coragem! Mas Jandir insiste: – Não basta dizer pra ele que eu consegui? É tão simples! – Custa, sim, covarde!”. Com raiva, joga um punhado de areia nos olhos dele.
Em que pese essa seqüência expressar desencontro, desentendimento, no mais das vezes, Vilma é representada como alguém que não se deixa dominar. Estou falando sobre a fraqueza de um, e a segurança de Vilma. Aqui, nas relações entre os sexos, o poder é exercido pela personagem feminina. Não somente em relação ao primo assume uma atitude mais firme. Também, seduz Jandir, que, por sua vez, corresponde aos seus apelos. O primo presencia essa manifestação de paixão, mesmo depois de ter exposto seus sentimentos, o que deve ter contribuído para aumentar mais ainda seu sofrimento, mas sua reação é esconder-se no interior do carro. Aqui, sua atitude de derrota, de ter sido traído por alguém que ele ama, o enquadra na situação do “corno”, “literalmente, um chifre na cabeça de um animal (...) na linguagem popular, passa a significar um homem traído por sua mulher” (PARKER, 1991, p. 82). Transpondo o verbo cornear para o
6 Conforme Bakhtin (1997, p. 294), no complexo processo de comunicação verbal, tanto o “locutor”
quanto o “ouvinte” têm papel ativo e aquilo que se enuncia não diz respeito a um indivíduo, mas tem o caráter social. “O enunciado é delimitado pela alternância dos sujeitos falantes, caracterizando, assim, o diálogo, que se constitui na forma clássica da comunicação verbal”. No filme Os cafajestes são freqüentes as seqüências nas quais as personagens não conseguem estabelecer um processo comunicativo, permanecendo isoladas nelas mesmas.
Foto 13 - A humilhação de Vavá em Os cafajestes
jogo das relações entre os sexos, a palavra ganha a conotação pejorativa, e passa a significar a mulher que “fere” o homem – nos seus sentimentos e na sua virilidade -, pois a noção que o senso comum desenvolve é que o homem não foi capaz de “satisfazer” a mulher. Pode acontecer, segundo Parker, do corno ser comparado ao veado, pois este também tem galhos na cabeça. A figura do corno,
fraco e enganado pela mulher, é contrária à do “machão”, supostamente dotado de força e poder, “dono” da mulher. Neste caso, se a mulher o engana, o homem se julga no direito de usar de violência.
Assim, a resposta de Vavá à “traição” de Vilma é sair pelas brancas dunas, atirando a esmo, chamando a atenção dela, que corre para “socorrê-lo, abraçando-o e beijando-o. Ele, permanecendo deitado na areia, corresponde àquele gesto afetuoso, sem demonstrar estar magoado. Fica, também, em posição desfavorável a Jandir que, nesse momento, ganha, mais ainda, a qualidade de exercer fascínio sobre as mulheres. Seria mais um traço que viria se somar à ”personalidade” de Jandir. Ou seja, um indivíduo que tem “modos grosseiros”, acrescente-se um outro, o de exercer atração sobre as mulheres. Por seu turno, isso reforça uma característica atribuída às mulheres, segundo a qual,
supostamente, elas gostam de quem as maltrata, de quem as violenta. Sublinhe- se, nesse caso, que não apenas Leda está apaixonada por Jandir, mas também Vilma. Fica, assim, identificado à mulher, um ditado exaustivamente repetido pelo senso comum: “mulher gosta mesmo é de apanhar”.
Mais uma vez, está presente uma espécie de tensão entre os dramas íntimos e aquilo que, publicamente ou socialmente se reprova. Através de imagens que ora denigrem ou diminuem as mulheres, ora as colocam numa situação de destaque, ora aparecem como submissas, ora como dominadoras. A exposição de seus dramas, suas fraquezas, seus desejos são perpassados por contradições: simultaneamente, estão presentes o amor romântico e o exercício da sexualidade como puro prazer. Tal dimensão encontra-se, também, vinculada aos dramas sociais: ânsia de status, interesse pelo dinheiro, pelo carro, pelo apartamento, sem falar das normas que regulam as práticas sociais e o jogo, muitas vezes doloroso, quando as mulheres tentam superá-las.