Sempre que Henry Irving precisasse de companhia, sabia que tinha Bram Stoker por perto. Isto afectou significativamente a vida familiar de Stoker, sendo que a sua esposa, Florence, e filho Noel eram, muitas vezes, negligenciados, devido a falta de companhia. Stoker via o actor como um mestre e alguém a seguir, um amigo que precisava de atenção e louvores. Assim, Stoker tornava-se uma sombra do que poderia ser. Após a morte de Irving e de ver a sua saúde debilitada, a situação financeira tornou- se muito complicada, sendo que o único modo de subsistência residia na escrita. Bram Stoker era como um espelho quebrado de Henry Irving, era a sombra que o ajudava e perseguia. Porém, nunca conseguiu concretizar mais objectivos, chegando praticamente a viver para o bem estar do actor.
A dualidade que conseguimos encontrar entre Dracula e Van Helsing é de antagonismo, sendo Dracula o reflexo obscuro, tanto desta personagem, como da noção
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de homem vitoriano. Efectivamente, Dracula e Van Helsing estão ligados a algo mais do que o racional. O primeiro é um aristocrata medieval, inumano e com o objectivo de conquistar/vampirisar Londres e o mundo. O segundo, mais do que um simples cientista, devido aos seus conhecimentos metafísicos, de folclore e tradições místicas. Os seus recursos não estão apenas ligados a leis médicas, pois Van Helsing utiliza estacas, cruzes e alho para tentar salvar Lucy e Mina e repor a paz e moral. Como refere Fred Botting, “Good and evil are similarly articulated as the line separating culture, progress and civilisation from barbarity, primitivism and regression” (Botting, 1996: 140). Van Helsing está no limiar de ambos, pois é alguém pertencente e que protege o novo mundo (industrializado e racional) mas que conhece o antigo (feudal e místico), tendo uma ligação constante entre a ciência e as novas invenções e a força sobrenatural dos crucifixos e estacas.
Dá-se então a cruzada para repor os bons valores vitorianos e salvar Mina, a quem Van Helsing se refere como “There is darkness in life, and there are lights; you are one of the lights” (Stoker, 1897/1997: 165) Esses bons valores são defendidos pelo grupo de homens que vai enfrentar Dracula, avaliado por Botting como duplo dos homens que o perseguem: “Dracula is the dark double of the brave and unselfish men whose identity is forged in their struggle” (Botting, 1996: 149). Mas será que Dracula não é um revelador da falsa moral instaurada na época? A falsa harmonia vitoriana estava minada pela pobreza, doenças (sífilis, turbeculose, etc.), sexualidade reprimida e trabalho infantil. Dracula revela a sexualidade oculta das mulheres, como no caso de Lucy, através da sua doença transmitida pelo sangue. A sua entrada e tentativa de conquista em Londres revela as fragilidades da estrutura social da época.
Para além dos duplos existentes, os mesmos podem ser vistos como reflexos da realidade. Vários críticos acreditam que se pode enquadrar Van Helsing como um alter- ego de Stoker, o seu reflexo na ficção. O primeiro nome do doutor Van Helsing é Abraham, o primeiro nome de Stoker e do seu pai, para além de ser um nome bíblico que significa “pai da multidão”. É, realmente, essa representação protectora e paternal que Van Helsing tem para com os bravos homens vitorianos. Para além do nome, Stoker e Van Helsing são similares nas raízes holandesas.
As descrições físicas não se assemelham às de Stoker, ainda que o autor tenha indicado que esta personagem era baseada numa pessoa real. Muitos acreditam que tenha sido em Max Müller, como aparece em Notes for Dracula: “If there was a life
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model for Van Helsing, a case can be made for a contemporary German professor at Oxford, Max Muller…”. (Eighteen-Bisang, 2008: 283) Müller é um forte candidato, sendo um orientalista com conhecimentos sobre mitologia.
Quanto a Dracula, este tem muito do semblante de Henry Irving, principalmente da sua interpretação de personagens como Mephistopheles, de Fausto. Não há nenhuma indicação de Stoker ter alguma vez visto uma imagem de Vlad Ţepeş; no entanto, existem igualmente algumas semelhanças físicas. Stoker pediu várias vezes a Irving para interpretar o papel de Dracula, mas o mesmo recusou, como é indicado no livro de Barbara Belford que menciona “Despite the countless hours Stoker spent trying to persuade Irving to be Count Dracula, the actor refused to consider a role that would set the standard for any future interpretantion.” (Belford, 2002: 270)
Algo interessante notar é a forma como ambas as personagens são descritas e a importância desta descrição. Na era vitoriana existia um estudo, com pretensões científicas, denominado Frenologia. Este estudo tinha como objecto o crânio e como este poderia ser reflexo de certas características e faculdades mentais de um indivíduo. Stoker utiliza pressupostos da Frenologia para descrever as suas personagens e, no caso de Van Helsing, a sua face é descrita com toda a exactidão por Mina, tendo o cuidado de indicar as saliências cranianas:
The face, clean-shaven, shows a hard, square chin, a large, resolute, mobile mouth, a good-sized nose, rather straight, but with quick, sensitive nostrils, that seem to broaden as the big, bushy brows come down and the mouth tightens. The forehead is broad and fine, rising at first almost straight and then sloping back above two bumps or ridges wide apart; such a forehead that the reddish hair cannot possibly tumble over it, but falls naturally back and to the sides. Big, dark blue eyes are set widely apart, and are quick and tender or stern with the man's moods. (Stoker, 1897/1997: 163)
Quanto a Dracula, existe a descrição feita por Jonathan Harker, que demonstra a rigidez e malevolência do Conde:
His face was a strong - a very strong - aquiline, with high bridge of the thin nose and peculiarly arched nostrils; with lofty domed forehead, and hair growing scantily round the temples, but profusely elsewhere. His eyebrows were very massive, almost meeting over the nose, and with bushy hair that seemed to curl in its own profusion. The mouth,
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so far as I could see it under the heavy mustache, was fixed and rather cruel-looking, with peculiarly sharp white teeth; these protruded over the lips, whose remarkable ruddiness showed astonishing vitality in a man of his years. For the rest, his ears were pale, and at the tops extremely pointed; the chin was broad and strong, and the cheeks firm though thin. The general effect was one of extraordinary pallor. (Stoker, 1897/1997: 23-24)