DRACULA
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Dracula é uma obra que atravessou gerações, fascinando uns e aterrorizando
outros, tornando as personagens em lendas, inúmeras vezes recriadas e gerando um fascínio sobre o vampiro. Porém, a complexidade do manuscrito que imortalizou Bram Stoker não nos conta apenas uma história de homens comuns que se tornam bravos heróis face à eminente contaminação do monstro. Enquanto documento, esta obra refere os medos, as ansiedades, os pensamentos e os costumes de uma época. Será possível pensar em Dracula sem pensarmos nos desígnios por detrás da obra?
De forma moral e contribuindo para a disseminação de uma ideia para a posterioridade, Stoker aniquila Dracula e transforma Mina numa mulher de família, opondo-a à sua amiga Lucy. Vários investigadores questionaram a importância do género nesta obra e, principalmente, o antagonismo existente entre Mina e Lucy comparando, muitas vezes, a Bertha e Laura em Carmilla (1872). A questão do vampiro é outro dos temas fundamentais, principalmente com a importância que o Conde Dracula tem tido para várias gerações, aparecendo em inúmeros filmes, livros, séries e jogos de computador. Mas não foi o vampiro que ditou os reflexos de sangue espelhados nesta reflexão, mas sim as personagens que escrevem nesta obra epistolar.
Assim sendo, a questão que guiou toda esta dissertação deve ser retomada: “As personagens que aparecem na obra Dracula de Bram Stoker podem ser vistas como
ideais tipo que retratam a era vitoriana tardia?” Foi salvaguardado que as personagens a
estudar seriam apenas aquelas cujos diários surgem na obra e foram elaboradas quatro hipóteses, uma para cada personagem analisada.
Mas nada pode ser analisado fora do seu contexto, sendo, deste modo, necessário apreender determinados conhecimentos sobre a literatura gótica, o fin de siècle, a era vitoriana e o próprio autor para ser possível prosseguir o estudo das personagens.
Dracula pode ser considerado como paradigma da literatura gótica, apresentando
características, tanto do gótico do século XVIII, como do século XIX. A utilização de um vilão pertencente à aristocracia, o castelo em ruínas, a superstição e a sexualidade desviante são algumas das especificidades que remontam às obras de Ann Radcliffe e Matthew Lewis. Porém, Bram Stoker inspira-se na sua própria sociedade repleta de tenções, medos e decadências tão próprias do fin de siècle, criando um espelho da época em que vivia. A degeneração, o medo do exterior e o dualismo estão representados em
Dracula, criando uma fusão entre o gótico de Radcliffe e Lewis e o gótico vitoriano
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A era em que a obra é escrita caracterizava-se por dualismos entre classes sociais, questões de género e sexualidade. Em Dracula cada personagem tem condições sociais especificas, retratando parte de um prisma da realidade existente na época. A questão das mulheres é extremamente importante, dado que, ao contrário dos homens, uma senhora não deveria trabalhar nem ter direito à expressão da sua sexualidade. A esta heteronormatividade moralmente aceite, onde o homem tinha um papel social hierarquicamente superior à mulher, era ainda adicionado uma ideia puritana de responsabilidade laboral e pragmatismo familiar. O poderoso império esmorecia, a proficuidade das colónias enfraquecia e o medo de uma contaminação por parte dos povos primitivos estava cravado no subconsciente dos vitorianos.
Stoker conseguiu com mestria traduzir alguns desses medos de contaminação e ainda demonstrar parte da sua realidade. Porém, a importância em conhecer o autor decorre da necessidade de analisar o documento de forma neutra32, tendo em consideração as ideias de Stoker e como isso influenciou a história que se desenrola em
Dracula. A sua convicção mais moralista está bem presente no final da obra quando
Mina se transforma numa mulher de família, retirada da vida laboral e com um filho nos braços.
E são as personagens que estão no cerne desta dissertação, reflectindo como espelhos uma realidade apreendida pela mão de Stoker. Tendo em conta o conceito de
ideal tipo, que consiste na indução da realidade, criando um esquema que permite
compreender a realidade, não sendo, no entanto, a própria realidade, conseguimos ver uma época através dos olhos do autor e analisar a proximidade das personagens aos sujeitos da época. Deduziu-se que das quatro personagens analisadas apenas uma não poderia representar um ideal tipo, Mina Murray/ Harker. Mas antes de passar para Mina, o estudo aplicou-se ao seu noivo e, posteriormente, marido Jonathan Harker.
Jonathan representa um homem de classe média/ média baixa cujo investimento na educação e ascensão para funcionário judicial o ajudam a manter um estilo de vida modesto mas confortável. A sua dedicação ao trabalho reflecte a moral puritana da altura, principalmente combinada com o facto de Jonathan ser protestante, neste caso, anglicano. Para além desta incansável demanda pelo trabalho, a sua concepção de moral relega o papel da mulher para segundo plano, considerando que uma mulher não tem a
32 Nas ciências sociais é importante romper com os preconceitos e falsas evidências, sendo essencial conhecer o autor para verificar quais as suas ideias e como estas podem interferir no modo como o mesmo retrata a sua sociedade, antes de passar para a análise do documento.
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capacidade física e intelectual de um homem, remetendo para a questão do heteronormatismo habitual na época. Esta é a personagem masculina pertencente à classe social mais baixa, o que deixa fora do nosso alcance a visão da classe trabalhadora e das suas vivências. Todavia, relativamente à classe média, Jonathan retrata o pensamento e conduta vitorianos, tornando-se no ideal tipo de um homem vitoriano de classe média.
A segunda personagem masculina, John Seward, é a representante das inovações ocorridas durante esta era. Sendo médico e proprietário de um asilo psiquiátrico, pode- se imediatamente depreender que pertence a uma classe social abastada e com um capital educacional elevado. A ligação às ciências e à tecnologia demonstram o pensamento moderno da época, o positivismo e a crença na evolução científica e as suas novas invenções. Utilizando um fonógrafo, grava o seu diário e os detalhes do tratamento de um paciente cuja patologia é designada por zoófagia. Representa o medo pela degeneração, um dos temores da época. Tal como Jonathan, Dr Seward centra-se no seu trabalho como forma de evasão do sofrimento. Por todas estas características, John Seward é um ideal tipo do homem de classe alta ligado à evolução tecnológica e ao pensamento moderno.
Igualmente de classe alta é Lucy Westenra, a melhor amiga de Mina e futura noiva de Godalming. Na obra, Lucy surge primeiramente enquanto uma jovem mulher de dezanove anos e, posteriormente, como vampira que ataca crianças. A única que será tida em conta é a primeira, ainda que se torne importante realçar que a Lucy vampira é um antagonismo da Lucy viva. Revelando, não só, como a mulher vitoriana deveria ser submissa, mas também o medo que uma mulher determinada e sexualmente dominante transmitia aos homens da época. Relativamente à Lucy viva, concluí-se que representa o
ideal tipo de uma mulher vitoriana de classe alta devido à forma como legitima o poder
do homem e a hierarquização social pela heteronormatividade, as actividades lúdicas e a escolha do parceiro mais afortunado e que lhe possa garantir um melhor futuro.
Por fim Mina Murray/ Harker, a mais completa e complexa das personagens presentes em Dracula. No início, ainda enquanto noiva de Jonathan, Mina Murray apresenta-se como uma mulher de classe média baixa que tem de trabalhar como professora para se sustentar, um emprego aceite pela sociedade da época, com um capital cultural elevado e uma postura firme. Nesta primeira fase, Mina apresenta semelhanças com as new women, não sendo uma pela forma de pensar. Após o
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casamento com Jonathan Harker, Mina deixa a sua independência financeira em prol da família e começa a construir um futuro enquanto auxiliar do seu esposo e boa mãe, em detrimento do seu individualismo e da sua liberdade de escolhas. Este conflituo de personalidade é abalado por Dracula, que tenta tornar Mina numa vampira e a seduz a ter poder sobre si própria. No entanto, de forma moralista, Stoker termina a obra com a morte do monstro revelador da podridão existente na época vitoriana e na transformação de Mina numa esposa dedicada, confinada à esfera doméstica e com um filho nos braços. Reafirma, deste modo, os bons costumes e os valores dominantes de uma época.
Assim sendo, foi possível validar três das hipóteses colocadas, sendo que muitas mais poderiam ter sido formuladas devido à riqueza documental da obra. As personagens de Dracula, mesmo a mais secundária, pode dar pistas sobre uma época tão próspera em cultura e criatividade e tão decadente nos dualismos sociais e culturais existentes entre a glória de um império e a corrupção de uma moral e estilo de vida.
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