• Aucun résultat trouvé

DRACULA

82

Dracula é uma obra que atravessou gerações, fascinando uns e aterrorizando

outros, tornando as personagens em lendas, inúmeras vezes recriadas e gerando um fascínio sobre o vampiro. Porém, a complexidade do manuscrito que imortalizou Bram Stoker não nos conta apenas uma história de homens comuns que se tornam bravos heróis face à eminente contaminação do monstro. Enquanto documento, esta obra refere os medos, as ansiedades, os pensamentos e os costumes de uma época. Será possível pensar em Dracula sem pensarmos nos desígnios por detrás da obra?

De forma moral e contribuindo para a disseminação de uma ideia para a posterioridade, Stoker aniquila Dracula e transforma Mina numa mulher de família, opondo-a à sua amiga Lucy. Vários investigadores questionaram a importância do género nesta obra e, principalmente, o antagonismo existente entre Mina e Lucy comparando, muitas vezes, a Bertha e Laura em Carmilla (1872). A questão do vampiro é outro dos temas fundamentais, principalmente com a importância que o Conde Dracula tem tido para várias gerações, aparecendo em inúmeros filmes, livros, séries e jogos de computador. Mas não foi o vampiro que ditou os reflexos de sangue espelhados nesta reflexão, mas sim as personagens que escrevem nesta obra epistolar.

Assim sendo, a questão que guiou toda esta dissertação deve ser retomada: “As personagens que aparecem na obra Dracula de Bram Stoker podem ser vistas como

ideais tipo que retratam a era vitoriana tardia?” Foi salvaguardado que as personagens a

estudar seriam apenas aquelas cujos diários surgem na obra e foram elaboradas quatro hipóteses, uma para cada personagem analisada.

Mas nada pode ser analisado fora do seu contexto, sendo, deste modo, necessário apreender determinados conhecimentos sobre a literatura gótica, o fin de siècle, a era vitoriana e o próprio autor para ser possível prosseguir o estudo das personagens.

Dracula pode ser considerado como paradigma da literatura gótica, apresentando

características, tanto do gótico do século XVIII, como do século XIX. A utilização de um vilão pertencente à aristocracia, o castelo em ruínas, a superstição e a sexualidade desviante são algumas das especificidades que remontam às obras de Ann Radcliffe e Matthew Lewis. Porém, Bram Stoker inspira-se na sua própria sociedade repleta de tenções, medos e decadências tão próprias do fin de siècle, criando um espelho da época em que vivia. A degeneração, o medo do exterior e o dualismo estão representados em

Dracula, criando uma fusão entre o gótico de Radcliffe e Lewis e o gótico vitoriano

83

A era em que a obra é escrita caracterizava-se por dualismos entre classes sociais, questões de género e sexualidade. Em Dracula cada personagem tem condições sociais especificas, retratando parte de um prisma da realidade existente na época. A questão das mulheres é extremamente importante, dado que, ao contrário dos homens, uma senhora não deveria trabalhar nem ter direito à expressão da sua sexualidade. A esta heteronormatividade moralmente aceite, onde o homem tinha um papel social hierarquicamente superior à mulher, era ainda adicionado uma ideia puritana de responsabilidade laboral e pragmatismo familiar. O poderoso império esmorecia, a proficuidade das colónias enfraquecia e o medo de uma contaminação por parte dos povos primitivos estava cravado no subconsciente dos vitorianos.

Stoker conseguiu com mestria traduzir alguns desses medos de contaminação e ainda demonstrar parte da sua realidade. Porém, a importância em conhecer o autor decorre da necessidade de analisar o documento de forma neutra32, tendo em consideração as ideias de Stoker e como isso influenciou a história que se desenrola em

Dracula. A sua convicção mais moralista está bem presente no final da obra quando

Mina se transforma numa mulher de família, retirada da vida laboral e com um filho nos braços.

E são as personagens que estão no cerne desta dissertação, reflectindo como espelhos uma realidade apreendida pela mão de Stoker. Tendo em conta o conceito de

ideal tipo, que consiste na indução da realidade, criando um esquema que permite

compreender a realidade, não sendo, no entanto, a própria realidade, conseguimos ver uma época através dos olhos do autor e analisar a proximidade das personagens aos sujeitos da época. Deduziu-se que das quatro personagens analisadas apenas uma não poderia representar um ideal tipo, Mina Murray/ Harker. Mas antes de passar para Mina, o estudo aplicou-se ao seu noivo e, posteriormente, marido Jonathan Harker.

Jonathan representa um homem de classe média/ média baixa cujo investimento na educação e ascensão para funcionário judicial o ajudam a manter um estilo de vida modesto mas confortável. A sua dedicação ao trabalho reflecte a moral puritana da altura, principalmente combinada com o facto de Jonathan ser protestante, neste caso, anglicano. Para além desta incansável demanda pelo trabalho, a sua concepção de moral relega o papel da mulher para segundo plano, considerando que uma mulher não tem a

32 Nas ciências sociais é importante romper com os preconceitos e falsas evidências, sendo essencial conhecer o autor para verificar quais as suas ideias e como estas podem interferir no modo como o mesmo retrata a sua sociedade, antes de passar para a análise do documento.

84

capacidade física e intelectual de um homem, remetendo para a questão do heteronormatismo habitual na época. Esta é a personagem masculina pertencente à classe social mais baixa, o que deixa fora do nosso alcance a visão da classe trabalhadora e das suas vivências. Todavia, relativamente à classe média, Jonathan retrata o pensamento e conduta vitorianos, tornando-se no ideal tipo de um homem vitoriano de classe média.

A segunda personagem masculina, John Seward, é a representante das inovações ocorridas durante esta era. Sendo médico e proprietário de um asilo psiquiátrico, pode- se imediatamente depreender que pertence a uma classe social abastada e com um capital educacional elevado. A ligação às ciências e à tecnologia demonstram o pensamento moderno da época, o positivismo e a crença na evolução científica e as suas novas invenções. Utilizando um fonógrafo, grava o seu diário e os detalhes do tratamento de um paciente cuja patologia é designada por zoófagia. Representa o medo pela degeneração, um dos temores da época. Tal como Jonathan, Dr Seward centra-se no seu trabalho como forma de evasão do sofrimento. Por todas estas características, John Seward é um ideal tipo do homem de classe alta ligado à evolução tecnológica e ao pensamento moderno.

Igualmente de classe alta é Lucy Westenra, a melhor amiga de Mina e futura noiva de Godalming. Na obra, Lucy surge primeiramente enquanto uma jovem mulher de dezanove anos e, posteriormente, como vampira que ataca crianças. A única que será tida em conta é a primeira, ainda que se torne importante realçar que a Lucy vampira é um antagonismo da Lucy viva. Revelando, não só, como a mulher vitoriana deveria ser submissa, mas também o medo que uma mulher determinada e sexualmente dominante transmitia aos homens da época. Relativamente à Lucy viva, concluí-se que representa o

ideal tipo de uma mulher vitoriana de classe alta devido à forma como legitima o poder

do homem e a hierarquização social pela heteronormatividade, as actividades lúdicas e a escolha do parceiro mais afortunado e que lhe possa garantir um melhor futuro.

Por fim Mina Murray/ Harker, a mais completa e complexa das personagens presentes em Dracula. No início, ainda enquanto noiva de Jonathan, Mina Murray apresenta-se como uma mulher de classe média baixa que tem de trabalhar como professora para se sustentar, um emprego aceite pela sociedade da época, com um capital cultural elevado e uma postura firme. Nesta primeira fase, Mina apresenta semelhanças com as new women, não sendo uma pela forma de pensar. Após o

85

casamento com Jonathan Harker, Mina deixa a sua independência financeira em prol da família e começa a construir um futuro enquanto auxiliar do seu esposo e boa mãe, em detrimento do seu individualismo e da sua liberdade de escolhas. Este conflituo de personalidade é abalado por Dracula, que tenta tornar Mina numa vampira e a seduz a ter poder sobre si própria. No entanto, de forma moralista, Stoker termina a obra com a morte do monstro revelador da podridão existente na época vitoriana e na transformação de Mina numa esposa dedicada, confinada à esfera doméstica e com um filho nos braços. Reafirma, deste modo, os bons costumes e os valores dominantes de uma época.

Assim sendo, foi possível validar três das hipóteses colocadas, sendo que muitas mais poderiam ter sido formuladas devido à riqueza documental da obra. As personagens de Dracula, mesmo a mais secundária, pode dar pistas sobre uma época tão próspera em cultura e criatividade e tão decadente nos dualismos sociais e culturais existentes entre a glória de um império e a corrupção de uma moral e estilo de vida.

86

Bibliografia

Altick, Richard D. (1973), Victorian People and Ideas, New York: W. W. Norton & Company.

Belford, Barbara (2002), Bram Stoker and the Man who was Dracula, New York: Da Capo Press Edition.

Bell, Duncan (2007), Victorian Visions of Global Order: Empire and

International Relations in the Nineteenth-Century Political Thought,

Cambridge: Cambridge University Press.

Bíblia Sagrada (1981), tradução Frei Alcindo Costa, Lisboa: Difusora Bíblica. Bolton, Matthew J. (2009), “Dracula and Victorian Anxieties”, in Jack Lynch

(ed.), Critical Insights: Dracula, Pasadena: Salem Press, pp. 55-71.

Bourdieu, Pierre (1979/ 1992), Distinction: A social critique of the judgement of

taste, London: Routledge.

Bourdieu, Pierre (1992/ 1996), As Regras da Arte – génese e estrutura do campo

literário (trad. Miguel Serras Pereira), Lisboa: Editorial Presença.

Botting, Fred (1996), Gothic, London and New York: Routledge.

Botting, Fred (2008), Gothic Romanced: consumption, gender and technology in

contemporary fictions, London and New York: Routledge.

Byron, Glennis (2008), “Gothic in the 1890s”, in David Punter (ed.), A

companion to the gothic, Oxford: Blackwell Publishers, pp. 132-141.

Coleridge, Samuel Taylor (1798/ 1992), The Rhyme of the Ancient Mariner, London: Dover Publications.

Cruz, M. Braga (1989), Teorias Sociológicas – Os fundadores e os clássicos, Vol. I, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Day, Aidan (1996), Romanticism, London and New York: Routledge.

Dijkstra, Bram (1986), Idols of Perversity: Fantasies of Feminine Evil in Fin-de-

Siècle Culture, Oxford: Oxford University Press.

Eighteen-Bisang, Robert, Elizabeth Miller (2008), Bram Stoker’s Notes for

Dracula - A Facsimile Edition, Jefferson, North Carolina, and London:

McFarland & Company, Inc., Publishers.

Florescu, Radu, Raymond T. McNally (1989), Dracula, Prince of Many Faces:

his life and his times, New York: Back Bay Books.

87

Freeman, Nicholas (2007), Conceiving the City: London, Literature, and Art

1870 – 1914, Oxford: Oxford University Press.

Furtado, Filipe, Maria Teresa Malafaia (org.) (1992), O Pensameno Vitoriano –

Uma antologia de textos, Lisboa: Edições 70.

Giddens, Anthony (2006), Sociology (5th edition), Cambrigde: Polity Press. Gil, José (1994), Monstros, Lisboa: Quetzal Editores.

Glover, David, Cora Kaplan (2000), Genders, London and New York: Routledge.

Goffman, Erving (1990), The presentation of self in everyday life, London: Penguin books.

Habermas, Jürgen (1962/ 1992), The structural transformation of the public

sphere: an enquiry into a category of bourgeois society, Cambridge: Polity

Press.

Halsberstam, Judith (1995), “Tecnologies of monstrosity: Bram Stoker‟s

Dracula”, in Sally Ledger, Scott McCracken (eds.), Cultural Politics at the Fin the Siecle, Cambridge: Cambridge University Press, pp. 248-266.

Harrison, Barabara (1995), “Women and health”, in June Purvis (ed.), Women’s

History: Britain, 1850-1945, London: UCL Press, pp. 157-192.

Houghton, Walter E. (1957), The Victorian Frame of Mind. 1830-1870, New Haven and London: Yale University Press.

James, Syrie (2010), Dracula, My Love: the secret journals of Mina Harker, New York: Avon.

Johnson, Allan (2009), “Modernity and Anxiety in Bram Stoker‟s Dracula”, in Jack Lynch (ed.), Critical Insights: Dracula, Pasadena: Salem Press, pp. 72-84. Kostova, Elizabeth (2005), The Historian, London: Sphere.

Ledger, Sally, Scott McCracken (ed.) (1995), Cultural Politics at the Fin the

Siecle, Cambridge: Cambridge University Press.

Ledger, Sally, Roger Luckhurst (2000), The Fin de Siècle : a reader in cultural

history c.1880-1900, Oxford and New York: Oxford University Press.

Lynch, Jack (ed.) (2009), Critical Insights: Dracula, Pasadena: Salem Press. Nordau, Max (1895), Degeneration, London: William Heinemann.

Parkin, Frank (2002), Max Weber: revised edition, London and New York: Routledge.

88

Purvis, June (ed.) (1995), Women’s History: Britain, 1850-1945, London: UCL Press.

Quivy, Raymond, Luc Van Campenhoudt (1992), Manual de Investigação em

Ciências Sociais, Lisboa: Gradiva Publicações (trad. João Minhoto Marques,

Maria Amália Mendes e Maria Carvalho).

Sade, D.A.F, Marquis de (1785/ 1989), “Reflections on the Novel”, in One

Hundred and Twenty days of Sodom, trad. Austryn Wainhouse and Richard

Seaver, London: Arrow Books, pp. 91-116.

Schnapper, Dominique (1999), A compreensão sociológica (trad. Eduardo de Freitas), Lisboa: Gradiva.

Smith, Andrew (2004), Victorian demons: Medicine, masculinity and the Gothic

at the fin de siècle, Manchester: Manchester University Press.

Stevenson, Robert Louis (1886/ 2002), The Strange Case of Dr Jekyll and Mr

Hyde and Other Tales of Horror, London: Penguin Books.

Stoker, Bram (1997), Dracula, ed. Nina Auerbach, David J. Skal, Norton Critical Edition, New York and London: W.W. Norton & Company.

Stoker, Dacre, Ian Holt (2009), Dracula: the Un-Dead, New York: New American Library.

Tucker, Herbert F. (ed.) (1999), A Companion to Victorian Literature and

Culture, Oxford: Blackwell Publishers.

Vala, Jorge, Rodrigo Brito, Diniz Lopes (1999), Expressões dos Racismos em

Portugal, Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.

Warner, Michael (ed.) (2004), Fear of a queer planet: queer politics and social

theory, Minnesota: University of Minnesota Press.

Weber, Max (1904-05/ 2001), A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, (trad. Ana Falcão Bastos e Luís Leitão), Lisboa: Editorial Presença.

Weber, Max (1972/ 1989), “Wirtschaft und Gesellschaft. Grundriss der verstehendmen Soziologie”, Teorias Sociológicas – Os fundadores e os

clássicos, Vol. I, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian (trad. Sara Seruya).

Welsch, Camille-Yvette (2009), “A Look at the Critical Reception of Dracula”, in Jack Lynch (ed.), Critical Insights: Dracula, Pasadena: Salem Press, pp. 38- 54.

Whitman, Walt (1860-67, 2006), The Complete Poems of Walt Whitman, London: Wordsworth Editions Limited.

Wilde, Oscar (1891/ 2008), The Picture of Dorian Gray, London: Penguin Books.

89

Williams, Raymond (1983), Keywords: a vocabulary of culture and society, Oxford: Oxford University Press.

Wolf, Leonard (1997), Dracula: the connoisseur’s guide, New York: Broadway Books.

Webgrafia

McLaren, Colin (1995), Folio 66, The Aberdeen Bestiary On-line, Aberdeen University. http://www.abdn.ac.uk/bestiary/translat/66r.hti (22.11.2010)