Buscou-se, por meio de documentação interna (RAIS – Relação Anual de Informação Social), levantar algumas características dos trabalhadores contratados pelo Condomínio Rural Verde Grão. As informações iniciais colhidas sobre este perfil referem-se ao ano de 2005, pois no período em que se iniciou a análise documental não havia dados referentes à população de trabalhadores do ano de 2006. Contudo, posteriormente, buscou-se também informações mais específicas ao grupo de trabalhadores envolvidos somente na colheita de feijão no Município de Unaí (na
safrinha de 2006). Conforme já explicitado, são estes últimos os participantes desta
pesquisa.
São apresentados, assim, dois grupos de informações: um mais geral, incluindo todos os trabalhadores contratados no ano de 2005 e que se dedicaram às diferentes atividades, nos diversos municípios onde o Condomínio atua (n=1955), e outro referente somente aos trabalhadores que se dedicaram à colheita de feijão no Município de Unaí, na safrinha de 2006 (n=354). No primeiro grupo incluem-se líderes e fiscais que atuaram no período e 8 trabalhadores administrativos, além disso, é importante ressaltar que um mesmo trabalhador pode ter sido contratado mais de uma vez no mesmo ano. Já no segundo grupo (dos participantes do estudo), foram excluídos os líderes, fiscais e trabalhadores administrativos.
O número de mulheres, segundo os gestores, vem sendo consideravelmente reduzido. Há uma tendência, por parte dos gestores, de darem preferência à contratação de homens, devido às experiências negativas anteriores com as mulheres (mulheres que omitem a gravidez para serem contratadas, por exemplo, ou mesmo casos de abortos). O fato de este grupo ser reduzido, motivou a exclusão do gênero feminino da Análise Ergonômica realizada. A Figura 6, a seguir, apresenta o percentual de mulheres e homens referente ao ano de 2005.
(1.830) 94%
(125) 6% F M
Figura 6 – Trabalhadores rurais do ano de 2005, por gênero Fonte: RAIS – Relação Anual de Informação Social de 2005.
Conforme ressaltado no capítulo 3, referente à Abordagem Metodológica, as mulheres representaram apenas 3,4% (n=12) do grupo total de trabalhadores rurais (n=354), que constituíram os participantes dessa pesquisa. Portanto, ao considerar somente o grupo de trabalhadores rurais que atuaram no período da safrinha em
2006, a proporção de mulheres é ainda mais reduzida.
Com relação ao tempo de serviço dos trabalhadores rurais na Organização pesquisada, os dados recolhidos confirmam uma elevada rotatividade (Tabela 4).
Tabela 4 - Faixas de tempo de serviço dos trabalhadores do CRVG - 2005
Tempo de Serviço Freqüência Percentual
Até 1 mês 800 40,9 De 2 a 6 meses 696 35,6 De 7 a 12 meses 98 5,0 De 13 a 24 meses 199 10,2 De 25 a 36 meses 13 0,6 De 37 a 48 meses 5 0,3 De 49 a 66 meses 4 0,2 Total 1.815 92,7 Contrato em aberto 140 7,3 Total Geral 1.955 100,0
Fonte: RAIS – Relação Anual de Informação Social de 2005.
Por esta Tabela, é possível constatar que 76, 4% dos trabalhadores (n=1.496), a maioria, permaneceu pouco tempo na organização (até seis meses), sendo elevado também o número de trabalhadores que permaneceu até um mês somente.
Levando-se em consideração os trabalhadores que haviam encerrado o contrato de trabalho, a média de tempo de serviço é de 4,4 meses, com desvio padrão de 6,6. Esta média se torna um dado mais real pois, ao considerar os trabalhadores que já encerraram o contrato, são excluídos os funcionários administrativos que ainda estão vinculados à organização e possuem maior tempo de serviço no Condomínio.
Considerando os dados relativos aos trabalhadores rurais contratados na
safrinha de 2006, a média do tempo de serviço eleva-se para 6,7 meses, mas o desvio
padrão é elevado (27,4), o que revela uma variabilidade maior neste tempo, prevalecendo, ainda, contratos de um a dois meses de serviço.
O curto tempo de serviço é característico da atividade, já que o Condomínio contrata trabalhadores rurais para atuarem em atividades sazonais da agricultura na Região, principalmente atividades relacionadas à colheita. À medida que estas atividades vão sendo encerradas, os trabalhadores são dispensados, ficando apenas um pequeno grupo para suprir necessidades diversas dos Condôminos. Este fato dificulta a implantação de programas que visam a capacitação dos trabalhadores ou mesmo, como foi salientado pelo técnico de segurança da organização, o desenvolvimento de programas visando a prevenção de acidentes (a estruturação da CIPA, por exemplo).
Um dos gestores também ressalta a dificuldade de manutenção dos trabalhadores em função da falta de qualificação e de flexibilidade de atuação. Mesmo havendo atividades diferenciadas a serem executadas nas propriedades, não é fácil encontrar pessoas para realizá-las:
“[...] se você me perguntar se eu tenho um trabalhador aqui que exerce essas dez atividades, eu não tenho. Eu tenho grupos de pessoas que gostam de arrancar feijão, tenho grupos de pessoas que gostam de colher café, tenho grupo de pessoas que gostam de capinar, tenho grupo de pessoas que gostam de bater pasto. Eles têm dificuldade de se adaptarem nisso aí [...]”
A redução do emprego na agricultura em escala e o crescimento de novas oportunidades de trabalho é a tendência (GRAZIANO DA SILVA; DEL GROSSI; CAMPANHOLA, 2002; MEDEIROS; WILKINSON; LIMA, 2002; VEIGA, 2000) já identificada por especialistas. A precariedade de formação e qualificação dos trabalhadores parecem, contudo, fazer com que parte dos trabalhadores rurais continue à mercê de atividades sazonais.
Dados referentes à escolaridade e ao tempo em que atuam na área rural não estavam disponíveis nos documentos consultados. Contudo, pôde-se constatar por meio das entrevistas e contatos com os trabalhadores um baixo nível de escolaridade. Dos trabalhadores que responderam à entrevista semi-estruturada (n=36): três eram analfabetos, 12 possuíam o primário incompleto, oito o primário completo, 11 o 1º. Grau incompleto e apenas dois concluíram o 1º. Grau.
Quanto ao tempo que atuam na área rural, os dados das entrevistas semi- estruturadas e do Diagrama Corporal (n=162) revelam que uma boa parte dos trabalhadores – 50% dos entrevistados (n=18) e 46,6% (n=75) dos que responderam ao Diagrama – iniciou suas atividades na área rural com menos de 17 anos de idade, sendo “desde pequeno” uma resposta comum para esta questão.
Boa parte dos trabalhadores, quando solicitada a dizer quanto tempo de trabalho tinha no Condomínio Rural, manifestou não saber. Ficavam confusos, devido ao fato de haverem trabalhado na Organização por várias vezes, sendo que alguns, desde sua inauguração.
No que se refere à idade dos trabalhadores rurais, os dados recolhidos demonstram que prevalece uma população jovem (43,0% tem até 27 anos), sendo a média de idade de 32,3 anos (DP 11,3) e o cálculo da moda revela prevalecer trabalhadores de 20 anos de idade. Não obstante, pôde-se verificar também que há uma parcela significativa de trabalhadores com idade de quase quarenta anos ou mais (29,2%), considerando aqueles acima de 38 anos. A Tabela 5 apresenta estes dados por grupos de idade.
Tabela 5 - Faixas de idade dos trabalhadores do CRVG - 2005
Faixas de Idade Freqüência Percentual acumulado Percentual
De 17 a 27 anos 842 43,0 43,0 De 28 a 37 anos 543 27,8 70,8 De 38 a 47 anos 356 18,2 89,0 De 48 a 57 anos 152 7,8 96,8 De 58 a 67 anos 53 2,7 99,5 Mais de 68 anos 9 0,5 100,0 Total 1.955 100,0 100,0
Fonte: RAIS – Relação Anual de Informação Social de 2005.
A média de idade dos trabalhadores rurais da safrinha de 2006 (n=354) também não é muito diferente da anterior (34,8 e DP de 11,5) e o cálculo da moda revela que prevalecem trabalhadores de 25 anos de idade. Na Tabela 6, apresentada na página seguinte, é possível comparar este grupo com o anterior em termos de faixas de idade. Há uma pequena redução de trabalhadores nas duas primeiras faixas de idade (17 a 27 e 28 a 37) e eleva-se um pouco nas faixas posteriores, ampliando o número de trabalhadores com quase quarenta anos ou mais (36,4%).
Tabela 6 - Faixas de idade dos trabalhadores participantes da pesquisa - 2006
Faixas de Idade Freqüência Percentual
Percentual acumulado De 17 a 27 anos 113 32,0 32,0 De 28 a 37 anos 112 31,6 63,6 De 38 a 47 anos 72 20,3 83,9 De 48 a 57 anos 39 11,0 94,9 De 58 a 67 anos 16 4,5 99,4 Mais de 68 anos 2 0,6 100,0 Total 354 100,0 100,0
A idade, como poderá ser visto, torna-se um dado importante, na medida em que a atividade realizada por estes trabalhadores rurais demanda exigências físicas elevadas: disposição, movimento, posturas incômodas e lesivas. Estas, por sua vez, são realizadas sob condições adversas como calor, ventania, dentre outras, contribuindo para a elevação do custo humano do trabalho, principalmente em seu aspecto físico, para aqueles trabalhadores de idade mais avançada.
Na próxima Seção, busca-se descrever esta atividade – a colheita do feijão – para que o leitor possa compreender melhor os resultados desta investigação.