A revisão de literatura sugere que a empresa está inserida em um contexto onde ocorrem interfaces com diferentes objetivos, em diferentes situações e com finalidades que podem variar de acordo com aquilo que previamente foi determinado. Os conceitos e pressupostos dos temas inovação e teoria da complexidade permitem a interpretação de que uma organização pode ser estudada analisando as diferentes perspectivas que compõem os processos de inovação e que a ligação que pode ser feita entre estas duas abordagens contribui para o aprendizado e para o desenvolvimento da organização e dos seus parceiros.
O caminho que é, em geral, percorrido pelos processos de inovação, nos diferentes contextos, empresas, setores apresenta diversas possibilidades de interpretação, serve de base para que em processos futuros os erros sirvam de aprendizado para a evolução, bem como pode cada vez mais alavancar a visibilidade e as competências das empresas.
A partir disso é evidenciado que a inovação perpassa diferentes caminhos, diversas situações, muitos contextos e sua concretização está na composição de procedimentos complexos e interativos que podem ser considerados, como apresentado por Milbergs e Vonortas (2007) como um ecossistema composto de organismos vivos e muitos, simplesmente inanimados, mas que também contribuem para as diferentes etapas da construção das inovações e tem importância considerável na contribuição para o êxito ou fracasso das atividades inovativas.
A primeira proposição, assim como as demais tiveram sua construção baseada no circuito apresentado por Morin (1977) no anel tetralógico, onde o autor propõe uma sequência dizendo que os ambientes, com ordem aparente, pelos acontecimentos e pelo fluxo da natureza dos fenômenos são acometidos de instabilidades e passam a apresentar características de desordem, estas para serem solucionadas chamam a necessidade de interações entre os envolvidos e esta interação tem como resultado uma reformulação dos sistemas, considerado por Morin (1977) como organização e consequentemente se obtém a ordem neste ambiente.
Assim, as proposições desta tese para as inovações na cadeia produtiva da maçã brasileira estão apresentas, sendo na Proposição 1: os processos de inovação na cadeia produtiva da maçã brasileira tem origem a partir da identificação pelos seus integrantes de uma desordem (MORIN, 1977; STYHRE, 2002; AMAGOH, 2008; PHILIP, 2002; MISCHEN; JACKSON, 2008; SANGER; GIDDINGS, 2012).
Nesta proposição pode ser destacada a intenção da utilização da teoria da complexidade contribuindo para os estudos de inovação, autores como Amagoh (2008), Philip (2002), Mischen e Jackson (2008) e Sanger e Giddings (2012) apresentam a possibilidade de união entre os temas teoria da complexidade, conhecimento, mudança, interações, redes sociais e inovação nas implementações de políticas e processos nas organizações. Isto pode ser seguido a partir da ideia de que as desordens que surgem nos ambientes são situações que conduzem a busca de soluções e, podem neste caso, serem consideradas oportunidades de inovação tanto em produto, como em processos ou novas técnicas.
De acordo com Styhre (2002) para que estejam adaptadas as mudanças ou para ganhar vantagem competitiva a empresa precisa estar atenta as oportunidades e isto pode vir junto com as instabilidades que ocorrem muitas vezes fora daquilo que está no planejamento prévio. Para Sanger e Giddings (2012) a teoria da complexidade conduz, por proporcionar uma mente mais aberta, aos gestores uma aproximação com os fenômenos práticos mantendo a singularidade das situações e contribuindo para o seu entendimento.
Para Styhre (2002) a visão sistêmica aliada a teoria da complexidade capacita os gestores com conhecimento e entendimento para lidar com as incertezas e responder as mudanças nas demandas. De acordo com o autor essa visão contribui com áreas da empresa como: inovação, inteligência organizacional, desenho organizacional, gestão do conhecimento e estratégia corporativa, dentre outras.
O autor apresenta ainda que as teorias das mudanças organizacionais contribuem para o entendimento da origem dos processos que conduzem as mudanças bem como descrevem o processo complexo, dinâmico, imprevisível e muitas vezes caótico nas transformações organizacionais. No anel tetralógico, a desordem, chama como elo subsequente, a interação, assim a proposição 2 está composta a partir deste entendimento:
Na Proposição 2: as interações que ocorrem entre os atores da cadeia produtiva da maçã brasileira são decisivas para o resultado das inovações (MORIN, 1977; PINA et al., 2006; WEBER; SCHWENTICK, 2007; CICMIL et al., 2009).
Para Weber e Schwentick (2007) a teoria da complexidade apresenta pelo menos duas formas de contribuir para o aprendizado dos sistemas, essas formas são o entendimento da estrutura dos problemas e a dinâmica que envolve a sua complexidade. Esses autores acreditam que a teoria da complexidade deve ser vista como uma dinâmica, a qual apresenta uma avaliação mais precisa e uma noção de problemas dinâmicos e podem ser classificados em classes de complexidade. Os autores sugerem o entendimento da complexidade dos fatos, quando acometidos de problemas, que estes sejam caracterizados como problemas abertos que permitem diferentes entendimentos e esclarecimentos e conduzem a uma visão ampla.
Cicmil et al. (2009) defendem a ideia de que as atividades de mudança organizacional podem ser examinadas e obtém sucesso a partir do entendimento da complexidade e da estrutura dos sistemas envolvidos. Os paradigmas que envolvem as mudanças organizacionais sugerem que elas são produzidas, tendo como base, uma série de causas e efeitos que estão interligados, cujas relações são difíceis de conceber simplesmente um quadro analítico baseado na linearidade, mas sim que os sistemas apresentam modelos e
caminhos de complexidade variável e contribuem para a sua solução além de conduzir os gestores por caminhos mais promissores no sentido de abordar os complexos dilemas organizacionais.
Dessa forma, de acordo com Philip (2002) a proposição foi construída seguindo a perspectiva de que a teoria da complexidade contribui para o entendimento das mudanças nas organizações, descrevendo a interação e a evolução dos processos de desenvolvimento organizacional. Philip (2002) ressalta que para entender uma empresa é preciso entender as interações que seus membros realizam com integrantes de outras empresas parceiras. A comunicação que os integrantes de uma empresa mantêm e também as relações que estes estabelecem com os demais integrantes das outras empresas. Segundo ele a chave para uma comunicação que traga resultados são as interações que acontecem entre os atores.
A sequência do anel tetralógico, a partir das interações, entre integrantes de grupos, sistemas, organizações, dentre outros, tem como ligação ou resultado a organização, este conceito está referido na terceira proposição:
Na Proposição 3: o resultado das interações entre os atores da cadeia produtiva da maçã brasileira resulta em uma organização (MORIN, 1977; PINA et al., 2006; WEBER; SCHWENTICK, 2007; BRANTLE, 2010).
Para Pina et al (2006) a contribuição da teoria da complexidade para noção de organização dos sistemas passa pela criação de uma série de ideias que interligadas compõem as estratégias e os caminhos que a empresa traça com a intenção de obter uma estabilidade e resiliência organizacional.
Pina et al. (2006) destacam que frequentemente as mudanças no mundo das organizações provocam alterações no modo desta enxergar seu próprio negócio. Estas alterações são apresentadas em uma série de novas formas de organização, divergindo do pensamento newtoniano convencional e se aproximando da lógica teoria da complexidade ou de sistemas adaptativos complexos (STACEY, 2003).
Para Pina et al. (2006) o conceito de organização, na teoria da complexidade, mostra que a empresa após o acontecimento de desordens co-evolui e não tem somente planejamento, mas sim trabalha com fluxo permanente de reconstrução e auto-organização, com ações de aprendizagem e alimentação um ao outro em uma sucessão de interações.
Brantle (2010) apresenta a perspectiva de complexidade, onde as estratégias são a arte de manter a empresa na beira do caos, porém com um espaço onde a liberdade e direção combinam no sentido de produzir saídas criativas. O autor demonstra uma integração de
ideias partindo da inovação com visão Schumpeteriana onde os ambientes influenciam as estruturas organizacionais na direção de projetos mais simples e em seguida apontam para ambientes onde são fomentadas as necessidades de improvisação estratégica conduzindo a empresa para readaptação e reestrutura organizacional (BRANTLE, 2010; PINA et al., 2006).
A Proposição 4: a organização na cadeia produtiva da maçã brasileira, a partir das
interações tem como resultante uma nova ordem, cujos processos passam a ser utilizados
pelos seus integrantes (MORIN, 1977; REINSTALLER, 2006; PATHAK et al., 2007; WELLS, 2009; BRANTLE, 2010).
Para Wells (2009) utilizando as perspectivas da teoria da complexidade contribui com explicações a cerca das incertezas, dos conhecimentos e da complexificação que são apresentadas nas constituições em redes ou em cadeias. Para o autor as atividades que são realizadas em organizações em rede de empresas necessitam de governança e papeis bem definidos, bem como de políticas que sirvam de suporte para que as atividades sejam realizadas com êxito e também por servirem de precaução para as ações das empresas.
De acordo com Wells (2009) destaca que a teoria da complexidade com suas perspectivas auxilia na constituição de uma forma mais completa para a integração dos fatores que compõem uma rede ou cadeia de empresas. Essa contribuição também se dá no sentido de que possam ser usadas tanto teorias como aspectos do cotidiano para fortalecer as tomadas de decisão. Isto ocorre, pois esta teoria permite que sejam incorporados novos elementos, desafios e insights conforme vão surgindo.
Já Pathak et al. (2007) apresentam a ideia de contribuição da teoria da complexidade para os formatos em redes ressaltando que esta teoria é um elemento importante no entendimento do contexto que envolve as mudanças e as diferentes atividades quando se trata da interligação de um grande número de empresas de diferentes setores, que é o caso da cadeia produtiva da maçã brasileira.
Assim, Pathak et al. (2007) salientam que as redes de empresas se inserem em um ambiente dinâmico que estão sujeitas a mudanças de estratégias e objetivos constantemente. Por esse contexto ele ressalta que a teoria da complexidade pode contribuir com o surgimento de insights que auxiliam na resolução de problemas e apresenta formas mais dinâmicas de entender os fenômenos que ocorrem nas organizações.
Para Pathak et al. (2007) a teoria da complexidade contribui para a integração de formas de gestão ou novas práticas de gestão, as quais apresentam outras possibilidades de
inter-relações entre os integrantes de cadeias gerando, validando e aperfeiçoando novas formas para que sejam efetivados os novos conhecimentos que são obtidos no setor.
Brantle (2010) defende a ideia de que a concentração industrial ou os aglomerados podem tirar proveito das perspectivas da teoria da complexidade, por exemplo, em inovação, avanço tecnológico e crescimento econômico por auxiliar na estrutura da rede que compõem os processos de inovação. As contribuições são no sentido de melhorar a compreensão das atividades organizacionais além de contribuir com o crescimento e desenvolvimento econômico das empresas.
Brantle (2010) destaca que as redes de inovação, o avanço tecnológico e o crescimento econômico exibem sinais significativos de complexidade, auto-organização e comportamento dinâmico. Para o autor a rede de inovação é impulsionada pelo objetivo de alcançar uma vantagem competitiva, sendo caracterizada por um comportamento que procura otimizar o desempenho da empresa, superando as limitações de recursos de conhecimento e avaliando os riscos e recompensas. O resultado é o avanço tecnológico e, se bem trabalhado e entendido o crescimento econômico.
Assim, pode ser destacado que a difusão da inovação é um processo que deve ser bem pensado pelas empresas, em especial na constituição de cadeia produtiva, pela complexidade das relações e das interações que existem além de que são vários os contextos que estão em voga, nos diferentes elos que compõem uma cadeia produtiva.