O Epicurismo tornou-se conhecido por eleger o prazer como fim (telos) do agir humano. Fundado por Epicuro (341-270 a.C.), o qual sustentava que o homem vive e experimenta o mundo mediante seus sentidos, o epicurismo coloca o primado sobre as sensações. A sensação estaria, para o Epicurismo, acima de qualquer outra faculdade humana. A ética epicurista teria como fundamento especialmente as sensações de prazer e dor. As ações humanas seriam articuladas em torno dessas sensações. Não apenas isso; nossas categorias morais de bom e de mal estariam vinculadas a tais sensações. Em linhas bem gerais, segundo o Epicurismo, o homem naturalmente busca o prazer e se afasta da dor. Todas as ações humanas, de alguma forma, seguiriam esse padrão. Assim, o prazer seria um bem, constituindo um móbil para a ação humana, enquanto a dor seria um mal. Nesse sentido, o sábio deveria prolongar o prazer, reduzir a dor e fomentar que os demais buscassem participar do prazer em suas mais diversas formas (“Por isso afirmamos que o
prazer é o princípio e o fim da vida feliz”65). Essa é, em linhas bem
gerais, a tese epicurista.
65 Epicuro. In: Laertios, Diogenes. Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. Brasília: Editora da UnB, 2008, p.312.
Com efeito, a partir dessa caracterização geral, percebemos um aspecto materialista na ética epicurista. Não apenas isso; aqui podemos falar (diferentemente do que ocorria com Platão e Aristóteles quando tratávamos da felicidade) em um hedonismo. Além disso, enquanto em Platão e Aristóteles vemos o papel da vida social, comunitária, na busca pela felicidade, aqui o sujeito priorizará a solidão. Em verdade, segundo Epicuro, o sábio “não participará da
vida política”66. Por essa razão, o epicurismo “vai desembocar num
individualismo hedonista, onde o futuro deve deixar o homem tão
indiferente como a inanidade do além”67. Apesar das significativas
diferenças entre Epicuro e os filósofos vistos nos capítulos anteriores, cabe observar que há alguns pontos em comum. Por exemplo,
também Epicuro considera que a arete (virtude) humana está ligada a
uma atividade que é peculiar ao humano. A virtude é também para Epicuro um “bem específico” que conduz à felicidade (afinal, também ele está preocupado com o “bem viver”). Todavia, a diferença é que em Epicuro a natureza humana é material. Logo, seu fim também será material. Alma e corpo são, para Epicuro (que quanto a esse ponto se
66 Epicuro. In: Laertios, Diogenes. Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. Brasília: Editora da UnB, 2008, p.310.
67 Brun, Jean. O Epicurismo. Lisboa: Edições 70, 1987, p.97. Isso está diretamente ligado ao contexto em que surgem teorias como a epicurista e a estoica: “As novas condições impostas ao mundo grego tornam impossível a participação do indivíduo no governo da polis, que o cidadão helênico conhecera sobretudo na fase democrática. O conhecimento deixa de ser preparação para a atividade política (como fora em Platão), passando a se ocupar do aprimoramento interior do homem. Distanciada das preocupações políticas, a filosofia aspira ao estabelecimento de normas universais para a conduta humana e se propõe a dirigir as consciências: o problema ético torna-se o centro da especulação de diferentes correntes filosóficas. As éticas helenísticas partem à procura do bem individual, de uma sabedoria que represente a plenitude da realização subjetiva: o alcance da perfeita serenidade interior, independente das circunstâncias. O bem não mais terá o sentido metafísico do Bem de Platão, fundamento das ideias, dos modelos do mundo corpóreo, e, consequentemente, sustentação tanto do sujeito do conhecimento e da ação quanto da própria realidade objetiva. O bem das éticas helenísticas terá acepção estritamente existencial: é o bem como sinônimo do que é bom para o indivíduo, para a vida de cada homem” (“Estudo Introdutório”. In: Coleção Os Pensadores. Antologia de Textos: Epicuro. Lucrécio. Cícero. Sêneca. Marco Aurélio. São Paulo: Abril Cultural, 1985, p.viii).
inspira em Demócrito), agregados de átomos materiais. Assim, todo
prazer é, segundo Epicuro, físico, natural68.
Com efeito, embora a ética de Epicuro seja de cunho hedonista, cabe notar que não se trata de um hedonismo vulgar. Embora a felicidade seja identificada com o prazer, esse, aqui, é compreendido
como ausência de dor (aponia) e de inquietações (ataraxia). O
hedonismo de Epicuro é “de base empírica: o prazer é um bem buscado pelos homens”.
Aqui há uma correlação com a sua teoria da sensação baseada no atomismo: tal como a sensação é o critério da verdade, assim também os movimentos ou experiências do prazer e da dor, que são concebidos como tipos de deslocação atômica, servem como critérios do bom e do mau, visto que o prazer é aquilo que é natural, tal como o bem, enquanto a dor é contrária à natureza, da mesma forma que o mal69.
Mas ao avançar na análise do prazer, Epicuro encontra uma forma mais elevada, “pura”, de prazer, o qual vai além de uma mera necessidade física. Afinal, a “necessidade física” sempre está
“sutilmente misturada com a dor”70. Tal prazer “puro” Epicuro o
entende como “o prazer estático (katastematike) do equilíbrio, a
ausência de dor (algos) do corpo (aponia) e a ausência de perturbação
da alma (ataraxia)”71. Assim, Epicuro não sustenta um hedonismo
vulgar, pois se assim fosse, ele manteria uma concepção de “prazer
68 Não obstante, observe-se que ele não está promovendo os prazeres do corpo, mas da alma. Algumas passagens de Epicuro, cabe reconhecer, quando tiradas de contexto, levam a um equívoco, qual seja, o de pensar que ele está defendendo um hedonismo vulgar. Fragmentos como o que se segue deram espaço para essa confusão: “A origem e a raiz de todo o bem residem no prazer do ventre” (Epicuro apud Nizan, Paul. Os Materialistas da Antiguidade. Lisboa: Editorial Estampa, 1977, p.134).
69 Peters, F.E. Termos Filosóficos Gregos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1983, p.98.
70 Peters, F.E. Termos Filosóficos Gregos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1983, p.98.
71 Peters, F.E. Termos Filosóficos Gregos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1983, p.98.
cinético”, desprezando uma ideia mais “psíquica” de prazer, a qual está expressa na ideia de “prazer estático”. Explicando essa distinção, diz-nos Epicuro: “A ataraxia e a ausência de dor física são prazeres estáticos, mas a alegria e a exultação são considerados prazeres activos
que implicam movimento”72.
Assim, conforme Epicuro, o prazer deve levar a alma à tranquilidade. Nesse sentido, seria apropriado falarmos, aqui, em uma espécie de ascese dos prazeres, em que haveria um primado dos prazeres estáticos em relação aos cinéticos. Com efeito, em linhas gerais podemos afirmar que o prazer é o ‘sumo bem’ segundo Epicuro. O ponto é, segundo vemos, identificar o que Epicuro denota com o conceito de prazer. E ele o faz a partir de uma divisão dos tipos de desejos. Assim há desejos necessários e naturais, como o desejo por alimento e bebida, bem como desejos naturais e desnecessários, como o desejo por alimentos requintados. Por fim, há desejos que não são nem necessários nem naturais, como o desejo por honras.
Como vimos “o prazer é o primeiro e inato bem”73. Noutros
termos, Epicuro “aduz o fato de os seres vivos imediatamente após o nascimento estarem contentes com o prazer, enquanto rebelam-se contra a dor por disposição natural, sem a intervenção da razão. Por
instinto legítimo fugimos então à dor”74. Ainda que tanto alma
quanto o corpo sejam materiais, no sentido de serem formados por átomos materiais, Epicuro distingue os prazeres da alma dos prazeres do corpo. Com efeito, segundo ele, os prazeres da alma são mais elevados do que os do corpo, haja vista os prazeres do corpo serem restritos ao presente, não assegurando perenidade. Assim, sobre a distinção acima referida entre os desejos, Epicuro irá defender a primazia dos desejos naturais necessários. Devemos estar preocupados com o prazer da alma. E isso porque, enquanto os prazeres do corpo
72 Epicuro apud Nizan, Paul. Os Materialistas da Antiguidade. Lisboa: Editorial Estampa, 1977, p.137.
73 Epicuro. In: Coleção Os Pensadores. Antologia de Textos: Epicuro. Lucrécio.
Cícero. Sêneca. Marco Aurélio. São Paulo: Abril Cultural, 1985, p.17.
74 Laertios, Diogenes. Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. Brasília: Editora da UnB, 2008, p.314s.
estão restritos ao presente, os prazeres da alma tanto podem envolver o passado, quando deles nos lembramos, como o futuro, quando os pudermos antecipar mediante a expectativa. O limite supremo do prazer será, conforme Epicuro, o prazer catastemático, isto é, a ausência de dor. Ele representa a perfeição do prazer. A ascese e a hierarquia entre os prazeres são deixadas evidentes por Epicuro quanto ele afirma:
Quando dizemos, então, que o prazer é fim, não queremos referir-nos aos prazeres dos intemperantes ou aos produzidos pela sensualidade, como creem certos ignorantes, que se encontram em desacordo conosco ou não nos compreendem, mas ao prazer de nos acharmos livres de sofrimentos do corpo e de perturbações da alma75.
Em suma, apenas a aponia (ausência de dor) e a ataraxia (quietude
da alma) asseguram a vida feliz. Há aqui, também, uma ideia de sabedoria prática. Afinal, é preciso saber deliberar sobre os prazeres. Do contrário, incorremos no erro dos “intemperantes”. Isso significa que deveremos, por exemplo, comer quando estivermos com fome, bebermos quando estivermos com sede, descansarmos quando estivermos cansados, etc. Aqui o primado jaz sobre os desejos necessários e naturais. Aliás, “a natureza [...] fez as coisas necessárias fáceis e encontráveis”, ao passo que as não necessárias são difíceis de
encontrar76. E é precisamente nesse ponto que se faz necessária a
sabedoria prática, o bem deliberar sobre os prazeres. Devemos nos voltar para aqueles desejos que não são causa de perturbação da alma.
Não apenas isso, tal sabedoria prática (a phronesis epicurista) deve nos
prevenir de tudo aquilo que é causa de desassossego, como o medo da
morte, o desejo de viver eternamente, etc. Esses são desejos que
causam, em última instância, inquietude na alma. Logo, devem ser deixados de lado. Com isso, percebemos em que sentido Epicuro,
75 Epicuro. In: Coleção Os Pensadores. Antologia de Textos: Epicuro. Lucrécio.
Cícero. Sêneca. Marco Aurélio. São Paulo: Abril Cultural, 1985, p.17.
76 Ver: Reale, Giovanni. História da Filosofia Antiga. V. III. São Paulo: Edições Loyola, 1994, p.214.
apesar de sustentar um modelo ético hedonista, mantém um ideal ascético. É nesse sentido que ele afirma:
O prazer é nosso bem primordial e congênito, e partindo dele movemo-nos para qualquer escolha e rejeição e a ele voltamos usando como critério de discriminação de todos os bens as sensações de prazer e de dor. Já que o prazer é nosso bem primordial e congênito, também por causa dele não escolhemos qualquer prazer, mas às vezes passamos sobre muitos prazeres, quando são seguidos por um aborrecimento maior [...]. Então todo prazer, por ter uma natureza condizente conosco, é um bem, mas nem por isso todo prazer deve ser escolhido77.
Isso conduz Epicuro àquela já referida divisão dos desejos: “Dos desejos, alguns são naturais e necessários, outros são naturais e não necessários; outros, ainda, nem naturais nem necessários, devidos à
imaginação ilusória”78. Essa é uma distinção essencial para
compreendermos o ascetismo epicurista. Com exceção dos desejos naturais e necessários, os demais são possíveis causas de perturbação. Com efeito, os desejos naturais e necessários são providos pela natureza mesma. Ela nos disponibiliza alimento necessário para que saciemos a fome, bebidas que saciam nossa sede e abrigo contra o frio. No entanto, tais desejos podem, por diversas razões, se degenerar em formas que mais trazem dor e perturbação do que tranquilidade, como, por exemplo, no desejo por uma refeição suntuosa e requintada, ou no gosto por roupas elegantes e caras (que não servem apenas para o propósito de nos aquecer). Por fim, há uma terceira classe de desejos, a qual envolve elementos nem naturais nem necessários, sendo, pois, absolutamente artificiais. Por exemplo, o desejo por glória, por acúmulo de riqueza e poder. Tais desejos nascem apenas da mera opinião. E tal opinião é fomentada pela vida
77 Epicuro apud Laertios, Diogenes. Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. Brasília: Editora da UnB, 2008, p.312s.
78 Epicuro apud Laertios, Diogenes. Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. Brasília: Editora da UnB, 2008, p.319.
social, o que explica a afirmação “vive ignorado”79. A vida política
compromete a felicidade humana em virtude de promover a busca pelo poder, pela fama, pela riqueza. Nesse sentido, diferentemente do que ocorria na Academia platônica, a qual pretendia formar homens
políticos, o “jardim”80 de Epicuro pretendeu formar sujeitos que
reconhecessem que o caminho para a felicidade residia neles mesmos. Assim, vemos que o epicurismo exorta a uma vida modesta, tranquila e livre de desejos por excessos e coisas vãs. E isso tendo como background algo comum à filosofia antiga, especialmente durante o
período helênico81, a saber, a ideia segundo a qual uma boa vida
(eudaimonia) é o telos de nossas ações. Colocado de outra maneira, sempre que agimos, o fazemos com vistas a um bem. Essa é uma formulação geral presente em diversos autores. O que muda é a forma concreta desse bem. Em Epicuro, como vimos, a forma concreta da felicidade, da boa vida, é o prazer (ele aproxima felicidade de prazer, o que aponta para seu hedonismo). Mas, como vimos, tal prazer precisa ser caracterizado para não o confundirmos com um prazer vulgar, o que ocorreria em um modelo hedonista vulgar. Isso, como vimos, não ocorre em Epicuro. Seu hedonismo é mais “puro”. Aqui prazer é
caracterizado a partir de outros conceitos: ataraxia e aponia. Além
disso, em comum com as outras escolas filosóficas do período helênico, Epicuro está preocupado em ocupar a filosofia com a questão sobre o que torna a vida digna de ser vivida, isto é, sobre como ela nos auxilia na arte de bem viver. Por isso a sabedoria teórica (sophia) é, aqui, colocada abaixo da sabedoria prática. Em verdade, para Epicuro, ela pouco importa, pois mesmo um sujeito sem formação poderia alcançar a quietude da alma (mediante a busca e o fomento dos prazeres que nos afastam da dor e nos conduzem a um estado de imperturbabilidade da alma).
79 Epicuro. In: Coleção Os Pensadores. Antologia de Textos: Epicuro. Lucrécio.
Cícero. Sêneca. Marco Aurélio. São Paulo: Abril Cultural, 1985, p.19.
80 Escola filosófica fundada por Epicuro, em Atenas, na qual ele expunha e debatia suas ideias.
81 O qual corresponde à “época da grande conquista de Alexandre Magno até o fim da era pagã”. Ver: Reale, Giovanni. História da Filosofia Antiga. V. III. São Paulo: Edições Loyola, 1994, p.5.