• Aucun résultat trouvé

Courbes param´ etr´ ees

Que cessem esses lamentos e não censurem ao Criador! Pois, criando-os, Deus não os forçou a pecar, visto que lhes deu o poder de os cometer ou não, caso o quisessem122.

Toda a criação é boa. Como parte da criação, somos bons. Todavia, algumas criações são melhores do que outras. Por exemplo, mesmo um pecador é melhor do que uma rocha (“Pois do mesmo modo que um cavalo que se extravia é melhor do que uma pedra que não pode se extraviar, ficando sempre em seu lugar próprio, por faltar- lhe movimento e sensibilidade, assim uma criatura que peca por sua vontade livre é melhor do que aquela outra que é incapaz de pecar por

carecer dessa mesma vontade livre”123).

Com efeito, uma vez que o mal não é uma realidade, criatura alguma é má por natureza. Quando dizemos que “o pecador é mau” não estamos atribuindo a ele uma natureza essencialmente má, como se ele tivesse “nascido assim”. Ele permanecerá sendo bom. Não apenas isso, ele (sua alma) será melhor do que as coisas corpóreas: “E, contudo, esse homem que eu censurei e que se encontra embriagado, eu o preferiria ao vinho que enalteci e com o qual ele se embriagara. Acontece o mesmo com as criaturas materiais. Cada ser com todo

120 Agostinho. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1973, XIII (33), p.314. 121Bíblia Sagrada. São Paulo: Editora Ave-Maria, 1999, Gênese, 1, 31, p.50. 122 Agostinho. O Livre-Arbítrio. São Paulo: Paulus, 1995, p.165.

direito é digno de louvor, conforme seu grau de perfeição; enquanto se deve censurar os que abusam, e assim afastam seu olhar da percepção da verdade. E, contudo, esse seres, mesmo corrompidos e como que em estado de embriaguez — não por motivo de seus vícios, mas devido ao que conservam da dignidade de sua natureza —,

permanecem preferíveis àqueles outros, simplesmente materiais”124.

Logo, criatura alguma é essencialmente má.

Quando dizemos que “o pecador é mau” estamos nos referindo a uma privação, a uma ausência de bem. Nos termos de Agostinho em suas “Confissões”: “[...] não sabia que o mal é apenas a privação do

bem, privação cujo último termo é o nada”125. Nesse sentido, o

pecado não seria uma ação com o propósito de se perpetrar o mal, mas uma falta de desejo pelo bem. Em suma, na perspectiva agostiniana, o mal seria um afastamento de Deus, do sumamente bom. Aliás, sobre os bens, caberia ainda acrescentar que há três categorias de bem, segundo Agostinho. Há os bens materiais, os quais são bons, mas podem ser usados em ações más (contrárias à vontade de Deus). Não obstante, eles nos são necessários para que possamos viver de forma correta. Há também bens que poderiam ser chamados de “espirituais”, os quais jamais poderão ser usados em más ações. Temos, aqui, por exemplo, as quatro virtudes cardeais: sabedoria prática (prudência), temperança, fortaleza e justiça. Esses são também bens necessários à nossa felicidade. Por fim, há bens intermediários, os quais se situam entre os materiais e os espirituais. Tais são nossas faculdades, como vontade, razão, memória, etc. Elas são espirituais, mas podem ser usadas indevidamente (eis a razão de elas serem intermediárias).

O pecado tem, pois, um elemento voluntário. O sujeito escolhe não fazer o bem. Dentro da tradição bíblica, assumida por Agostinho, duas situações dramatizam essa escolha. Primeiramente, há a deserção de Lúcifer e dos demais anjos que lhe seguiram (com ele caíram). Em

124 Agostinho. O Livre-Arbítrio. São Paulo: Paulus, 1995, p.166s. 125 Agostinho. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1973, III (7), p.63.

segundo lugar, há a queda de Adão e Eva do Paraíso. O caso de Lúcifer, sua queda, é paradigmática, pois se deu em virtude do vício, mais especificamente da soberba, do amor a si mesmo. Similarmente, a soberba também teria levado à queda Adão e Eva. Ambos sucumbiram à tentação de se assemelharem a Deus. E isso ocorreu voluntariamente. A partir da escolha de Adão e de Eva, o pecado adentrou nesse mundo. Ele faz parte da “condição humana”, condição pós-pecado original. Com isso, perdemos as condições iniciais de perfeição e felicidade. Sofremos com a dor, com o cansaço, com a velhice, com a doença, com a morte, etc. Não apenas temos esses sofrimentos, como temos também uma espécie de rebelião do corpo mesmo, manifesta, por exemplo, na lascívia.

Essa é uma “condição” que dificulta imensamente o exercício de nossas habilidades naturais. Não apenas isso; dificulta o exercício das virtudes. Em suma, dificulta nosso encaminhamento rumo à beatitude.

Detalhando a ideia de mal exposta acima, poderíamos, com Agostinho, falar em três tipos de mal: em mal metafísico (o qual envolve nossa compreensão do mundo), em mal físico (parte do mal metafísico, envolvendo situações como as doenças, o envelhecimento, a morte, etc.) e em mal moral, resultado da livre escolha.

Tanto para a Teologia quanto para a ética, é fundamental explicar

a questão do mal. Especialmente em sua “A Cidade de Deus”126 (‘livro

XI’ e ‘livro XII’), Agostinho deixa claro que o mal veio ao mundo com a queda dos anjos. Nisso percebe-se que o mal é sem substância: ele envolve não escolhermos o bem.

Todas as coisas que se corrompem são privadas de algum bem. Isto não admite dúvida. Se, porém, fossem privadas de todo o bem, deixariam inteiramente de existir [...]. Por isso, se são privadas de todo o bem, deixarão totalmente de existir. Logo, enquanto existem, são boas. Portanto, todas as coisas que

existem são boas, e aquele mal que eu procurava não é uma substância, pois, se fosse substância, seria um bem127.

Portanto, colocando o problema analogicamente, da mesma forma que a escuridão parece ser um buraco na luz, também o mal parece ser um buraco na bondade.

Assim, tal como nos antigos, aqui importa sobremaneira a

prudência (prudentia), pois ela também exerce um papel fundamental

na realização de nosso bem. Ela nos mostra quais coisas devem ser desejadas e quais devem ser evitadas. Aliás, essa é a definição de prudência oferecida por Agostinho: “conhecimento daquelas coisas que precisam ser desejadas e das que devem ser evitadas”.

Também as demais virtudes cardeais são fundamentais. A

fortaleza (fortitudo) seria a virtude responsável por nos dar força para

resistir às tentações diante das coisas que servem apenas ao “uso”. A

temperança (temperantia) refreia as paixões (refreia o desejo pelas

coisas que devem ser evitadas). E a justiça (iustitia) é entendida por

Agostinho em seu sentido clássico, a saber, dar a cada um o que lhe é devido.

Com efeito, a beatitude depende necessariamente das virtudes

cardeais. São elas, juntamente com a graça, que nos asseguram

alcançar aquele estado para o qual estamos, por assim dizer, “destinados”, a saber, o estado de felicidade, de beatitude. Todos almejam a beatitude. Mas apenas alguns (os virtuosos e agraciados) a alcançam.