3.2 Cavitation
3.2.1 M´ethodes de D´etection
O foco deste trabalho foi investigar a relação locução adjetiva/ adjetivo, objetivando-se: i) aferir a frequência de uso dessas duas formas de codificação do modificador nominal em corpus específico; ii) analisar qual o modificador mais recorrente para os casos em que há um eventual termo correlato; iii) identificar motivações para o uso de uma forma ou de outra; e iv) verificar implicações semântico- pragmáticas decorrentes da substituição de uma forma por outra.
Fundamentado teoricamente na Linguística Funcional Centrada no Uso, a pesquisa tomou como corpus textos escritos do português contemporâneo, particularmente publicados na revista Veja, em 2013. Representativos de três gêneros textuais distintos (editorial, coluna social e guia), esses textos circularam em 12 edições consecutivas da Veja e compunham, respectivamente, a seções Carta ao leitor, Gente e Guia.
De forma resumida, os resultados quantitativos foram os seguintes: contabilizaram-se 4108 dados, divididos em 2388 adjetivos (58,1%), e 1720 (41,9%) locuções adjetivas. Dos 2388 adjetivos, 548 (23%) apresentam uma locução adjetiva supostamente correlata, enquanto os 1840 restantes (77%) não possuem. Das 1720 locuções, 942 possuem adjetivos virtualmente correlatos (54,8%), e 778 (45,2%) não possuem.
Quanto às 942 locuções com possíveis adjetivos correlatos, analisaram-se motivações para o uso da locução adjetiva em lugar do adjetivo supostamente equivalente. Para tanto, considerou-se a proposta de Dantas e Silva (2012), com pequenas adaptações, de agrupamento dos casos sob estudo em quatro fatores: alteração semântica, forma lexicalizada, priming e escolha estilística. Os achados dessa análise são os que seguem.
Em 52,6% (496) das ocorrências, a motivação foi de natureza semântica: o uso do adjetivo tido como correspondente em vez da locução adjetiva implica alguma mudança de sentido. 229 ocorrências (24,3%) de locuções adjetivas representaram casos de forma lexicalizada, situação em que a designação de um dado referente ocorre por meio do emprego de estruturas fixas, convencionalizadas pelo uso, a exemplo de plano de saúde. Os casos motivados por priming totalizaram 128 dados (13,6%): nessa situação, estão implicados fatores de base cognitiva e sintática, uma vez que o uso de uma determinada estrutura favorece o acesso cognitivo e, em decorrência, o uso dessa
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mesma estrutura em sequência, de modo que a presença de modificadores adjetivos favorece a ocorrência de outros adjetivos, acontecendo o mesmo com a locução adjetiva. Por fim, 89 dados (9,5%) são os casos de motivação estilística, nos quais as duas formas parecem equivaler-se semanticamente, ficando a opção por uma ou por outra mercê do falante/ escrevente.
Tais resultados vão de encontro ao que preveem alguns gramáticos consultados quanto à existência de correlação entre locução adjetiva e adjetivo. Neves (2011), por exemplo, sugere que o uso da locução adjetiva é limitado apenas por questões de léxico, enquanto a pesquisa mostrou fatores diversos implicados na relação entre esses modificadores nominais.
A pesquisa também contemplou a natureza semântica e o tipo de preposição utilizada nas locuções adjetivas presentes no corpus. Quanto ao primeiro aspecto, identificaram-se quatro valores semânticos: há locuções que exprimem ideia de posse (528 dados, equivalentes a 30,7% do total), matéria (427 ocorrências, 24,8% das locuções), classificação (403 locuções, ou 23,4% do total), ou origem (362 dados, 21,1% dos casos). Em relação às preposições que integram as locuções adjetivas, constatou-se que de é a prototípica com quase 96% dos casos.
Por fim, analisou-se o uso de locuções adjetivas e adjetivos à luz dos princípios de iconicidade e marcação, com base, sobretudo, no trabalho de Silva e Bispo (2013). Confirmou-se a tendência, já atestada por esses autores, de o segundo modificador à direita do substantivo ser codificado por locução adjetiva em vez de adjetivo. Além disso, constatou-se que essa tendência na estrutura reflete o nível de integração semântica (relação motivada entre função e forma): uma vez que faz o primeiro recorte semântico do referente do substantivo a que se refere, o adjetivo ocorre mais contiguamente a ele do que a locução adjetiva. Quanto à marcação, também se confirmaram os achados dos autores referidos sobre a maior frequência de adjetivos em relação a locuções adjetivas, ressalvando-se, porém, a relatividade do caráter marcado e não marcado desses modificadores em função dos diferentes contextos de uso.
Desse modo, a depender dos achados deste trabalho, assim como do de Dantas e Silva (2012), a existência de formas intercambiáveis de locução adjetiva e adjetivo parece não sustentar-se quando se considera a língua em uso. A análise dos dados permitiu verificar que fatores de ordem diversa (semântica, estrutural, cognitiva e pragmática) estão envolvidos na opção pela locução adjetiva em vez do adjetivo supostamente correlato.
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Apesar de algumas formas simples e locucionais do adjetivo pertencerem a um campo semântico similar, os sentidos dos termos em uso são muito mais dinâmicos do que se pode prever aprioristicamente, tal como sugerido por Givón (1990) e Furtado da Cunha et al. (2003).
Parece claro também que é necessário que se analise cada caso como uma situação única, pois cada escolha linguística é motivada por fatores de ordem diversa, não cabendo categorizações preestabelecidas que possam cobrir, a priori, todas as situações que o uso linguístico possibilita. Essa constatação corrobora, ao mesmo tempo em que reforça, pressupostos funcionalistas, reafirmando que a língua é uma estrutura adaptável, sujeita a pressões de natureza cognitiva e intercomunicativa de seus usuários.
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