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2. Région géologique A – Basses-Terres du Saint-Laurent

2.2 Potentiel en hydrocarbures des Basses-Terres du Saint-Laurent

2.2.5 Estimation de la ressource en place

Já na introdução de seu livro Da clausura do fora ao fora da clausura, Pelbart expõe uma certa polaridade que habita, hoje, nossa percepção da loucura, trazendo a posição do psicanalista e crítico literário Jean Starobinski, segundo o qual “existiriam hoje dois enfoques correntes, distintos e irreconciliáveis sobre a loucura: o clínico e o cultural” (Pelbart, 1989, p.13). No âmbito do primeiro, estariam os psiquiatras e

terapeutas “ocupados exclusivamente com o sofrimento psíquico”; no do segundo, estariam “os estudiosos fascinados pela loucura, interessados tão somente naqueles aspectos que confluem em nossa modernidade cultural, poética ou filosófica” (1989, p.13). Esta cisão na percepção da loucura, ou melhor, nessa relação com a loucura e os loucos, envolveria aspectos valorativos, normativos, estéticos, perceptivos, teóricos, e estaria imersa em uma atmosfera de conflito. A distância entre as duas percepções ou experiências poderiam ser assim sinalizadas:

É inegável: os que convivem com os loucos reais consideram a loucura antes de mais nada como dor e ruína; os que vivem distantes dela – fisicamente ao menos – são os que mantém acesa a chama de um imaginário ancestral sobre a insensatez. Para os primeiros a produção psicótica é sintoma patológico; para os últimos, é vanguarda cultural e estética, quando não política, como no caso dos surrealistas (idem, p.13).

Desse modo, é possível situar, oscilando entre dois polos incompatíveis, nossa visão da loucura: “Sofrimento psíquico e subversão estética” (p.14). A posição de Michel Foucault, entretanto, não parece estar localizada, ao menos totalmente, em nenhum desses dois polos que, segundo pontua Pelbart a partir da opinião de Starobinski, são constitutivos de nossa experiência moderna da loucura. Pois Foucault, apesar de toda a sobrecarga de uma concepção cultural da loucura, que invadiria outros domínios de produção, como a literatura e a arte, não pôde se desfazer – mesmo que tenha por vezes priorizado tal enfoque “cultural” - da percepção histórica das práticas repressivas engendradoras de sofrimento e ruína, para aqueles indivíduos aos quais é colado o diagnóstico. Desse modo, o trabalho histórico de Foucault o levaria a uma percepção “concreta” dos “loucos reais” e das suas condições concretas de existência, o que o aproximaria de uma visão arredia à apropriação da loucura pelas vanguardas ou pela literatura, desvinculando-a de sua condição de exclusão social. São as dilacerações, os rumores e os suplícios trazidos pelos arquivos históricos, bem como o próprio contato do filósofo, então estudante de psicologia, com a realidade hospitalar181 que trazem a Foucault uma visão não ingênua, que fazem com que escape a todo o momento de uma concepção que encontraria na loucura e nos loucos o equivalente ou a fonte de criações de vanguarda artística ou a uma celebração dionisíaca. O aspecto trágico que advém da influência nietzschiana de sua abordagem “cultural” (apresentada do prefácio de 1960) leva Foucault, pelo contrário, a perceber, na confluência com a história, a marginalização, a dor, o sofrimento e o dilaceramento que conformam a condição social

181 Cf. Eribon, 1989; Foucault in Droit, 2006. Essa questão foi sinalizada acima, na seção “Sobre o lugar da História da loucura na obra de Foucault”.

do louco. O que impede um tom celebratório ou leviano nutrido no distanciamento da experiência das condições de existência concretas do louco. A visão social e institucional, como fica claro nos textos “A loucura só existe em uma sociedade” e “Loucura, literatura e sociedade” (2010b), ou ainda, “A loucura e a sociedade” (2010b), enfatiza um aspecto que não é nem o da validação de uma visão psiquiátrica e clínica da loucura, estabilizada em suas patologias – enfatizada por aqueles que a concebem como “sofrimento psíquico”, nem o de um entusiasmo “cultural” em relação à produção criativa do louco, também enclausurado em uma imagem fixada, a-histórica, essencializada ou naturalizada, como aquela do “artista-louco”.

Foucault, na sua História da loucura, através de explicações econômicas, por vezes políticas, nos remonta à história da produção ou da constituição das condições de possibilidades da percepção moderna da loucura, que é a nossa. Mostra-nos como a internação esteve vinculada à regulação dos mercados, diminuição do desemprego ou da mendicância, solução de crises de escassez de bens, medidas direcionadas à população, na erradicação de pestes e doenças, na regulação das condutas, etc. Seja através de explicações como estas, seja através daquelas de cunho mais culturalista ou ainda etnológicas, Foucault, quer dar conta dessa “escolha fundamental”, por meio da qual nossa cultura e sociedade rejeitam o louco para seu exterior, excluindo-o de quatro domínios fundamentais de atividade: 1) “trabalho ou produção econômica”, 2) “sexualidade e família, quer dizer, reprodução da sociedade”, 3) “linguagem, fala”, 4) “atividades lúdicas como jogos e festas” (Foucault, 2010b, p.260). Assim, em relação a estes dois eixos – o “psiquiátrico” e o “cultural” (que - como podemos depreender da discussão de Starobinski e Pelbart - estetiza aquilo que o primeiro constata a partir de um aporte científico, por exemplo, a produção psicótica), Foucault parece ter introduzido um outro, perpendicular, que os coloca em movimento: o da história – a partir do qual outros mapas da experiência da loucura, alternativos a este, com outros polos organizadores, são delineados.

Ora, se para Starobinski, “tudo aquilo que se diz sobre a loucura fora do campo da psiquiatria não passa de mera literatura”, podemos perceber que, para Foucault, pelo contrário, este jogo não é tão simples. Habermas (2000), em sua discussão crítica acerca da obra do filósofo francês, afirma que a proposta da empresa de uma História da

loucura estaria ancorada em uma interpretação ou aspecto muito particular da obra de Nietzsche, que seria uma das causas de sua inconsistência do ponto de vista

metodológico, a saber, a ideia de uma crítica científica da razão e da modernidade. Ora, vemos assim que a pretensão de Foucault – como também a de Bataille, em seu recurso à antropologia, à etnologia e, por fim, à heterologia - não é propriamente literária, como poderiam afirmar seus detratores, que, por baixo dos panos, estariam veiculando e confirmando o monopólio do saber psiquiátrico sobre a loucura, única “alternativa séria” à “tagarelice dos sonhadores” (Pelbart, 1989 p.14).

Projetar discursos como o de Foucault no universo da produção estética, ou melhor, da produção literária, poderia ser visto como o procedimento padrão dos discursos provenientes de uma “hegemonia clínica consolidada” que mobilizaria “estratégias sociais e psiquiátricas” para “reservar a seus opositores esse terreno baldio, gueto imaginário e mítico” (Pelbart, 1989, p.14). No entanto, vimos até aqui que a estética é constitutiva da História da loucura e que, de algum modo, Foucault como crítico ou filósofo que, se por um lado não encara seu projeto como literatura (no sentido desqualificado apontado por Starobinski), encontra em alguns artistas e literatos uma estética que atravessa suas produções e as aproxima da experiência da loucura. Nesse sentido, é a heterologia de Foucault, seu projeto antropológico e histórico, que o leva aos limites da cultura rumo àquilo que lhe é outro - a partir de noções como as de

trágico, fora, exterior, transgressão ou experiência-limite, entre outras – que o leva

também uma estética. E é aqui que sua visão encontra a visão “cultural” apontada por Pelbart.

Essa estética, entretanto, não deve ser entendida no sentido de produção literária, como uma certa crítica a um dito “esteticismo pós-moderno” parece estranhamente querer conceber alguns aspectos mais subversivos ou anárquicos da obra de Foucault, de modo a miná-los. Trata-se de uma estética que mobiliza as noções acima, de modo a promover o encontro entre diversas zonas de experiência, dentre as quais está a loucura. É a esse âmbito que Foucault parece recorrer para estruturar seu projeto, de modo a fundamentá-lo fora das premissas psiquiátricas sobre a loucura. Esse recurso não impede, entretanto, que o autor afirme os aspectos sociológicos e institucionais que consolidaram a exclusão do louco desde a Idade Clássica. O que essa estética que podemos ver aparecer na História da loucura parece querer atingir é aquela dimensão de alteridade que seria inatingível pelo trabalho histórico, devido àquilo que, conforme vimos, Foucault denominou “grande partilha”. Não invalidaria, é claro, esse trabalho em seu esforço de elucidação dos conjuntos históricos que operam sobre os insensatos, ou

seja, não invalidaria aquilo que Roberto Machado denominou “arqueologia da percepção”.

Assim, Foucault não ignora a hegemonia de um conceito clínico de loucura – mas parte dele, visando desapropriá-lo de seu objeto, desfazer o vínculo natural existente entre eles; Foucault faz a história social e institucional das operações que tornaram possível a emergência deste conceito clínico, mostrando sua contingência. O filósofo visa mostrar historicamente como esta hegemonia se fez possível por caminhos obscuros e tão alheios à ciência médica como o era a prática clássica do internamento dos insensatos. Por outro lado - ainda que provavelmente não do ponto de vista metodológico -, esta crítica parece estar baseada na concepção cultural, em uma estética da loucura. E é aqui que a posição filosófica de Foucault se torna mais pretensiosa e intensa e, por outro lado, mais paradoxal. Já tivemos a oportunidade de acompanhar os movimentos de Foucault realizados em relação ao primeiro prefácio de História da

loucura, bem como em relação a algumas noções chave que ele mobiliza. Trata-se a agora, paralelamente à aproximação desse texto com o corpo da obra, de perguntar pela possibilidade de uma estética na História da loucura. Ao compor a imagem dessa possível estética, vinculada à “fonte ontológica” que o prefácio de Hamburgo fazia entrever, é interessante vislumbrar a gradual tomada de distância de Foucault em relação seja às noções centrais do primeiro prefácio, seja dessa estética que surge ao lermos a

História da loucura a partir dele.