• Aucun résultat trouvé

Estimate on the distortions

Dans le document 3 Lower bounds (Page 30-38)

3 Lower bounds

3.3 Estimate on the distortions

“Nesse espaço equívoco, o espírito perdeu a sua pátria geométrica e a alma flutua”

(BACHELARD, 2005:221).

A palavra presença poderá, entre as suas várias acepções, significar o “facto de (algo ou alguém) estar em algum lugar; (…) o facto de (algo ou alguém) exis- tir em algum lugar (…)” (Dic. Houaiss). Mas diz também respeito à aparência, às qualidades que distinguem esse algo ou alguém e que os individualizam. A aplicação do termo presença associa-se assim à ideia de um espaço de fixação e de notação, de apresentação, de algo que se revela, se distingue e se identifica pela sua forma, pelo modo particular como se dá a perceber.

Ao apresentar em Della pictura a definição de janela para o mundo, Alberti queria já significar a distância e os limites entre o que seria o “espaço figurado e o espaço real”: um quadrângulo de ângulos rectos, desenhado na dimensão que mais lhe conviesse, serviria como janela através da qual era visto o pedaço de mundo a pintar (TOMÁS, 1998:122). Mas o condicionamento do espaço natural ao espaço geométrico não se limitou a ser um meio de registo objec- tivo da realidade, como aliás Vitta salienta: “também implicou uma tarefa de re-construção e de representação do mundo através das imagens que dele se projectaram” (VITTA, 2003:64). O espaço pictórico da Idade Média, conce- bido como um espaço arquitectónico, dá lugar no séc. XX aos espaços ideoló- gicos cubista e futurista. O conceito de espaço poético, introduzido por Gaston Bachelard, evita a separação entre interior e exterior sustentada pela geome- tria: viver o espaço das imagens implica uma influência constante e recíproca entre o espaço íntimo e o espaço indeterminado. Quando Bachelard define o homem como ser de uma superfície que o separa a si mesmo do outro, dir- -se-ia que o encontro, ou o reconhecimento do outro e do mundo no espaço poético, só é possível pela abertura e pela interpretação:

“(…) a fenomenologia da imaginação poética permite-nos explorar o ser do homem como o ser de uma superfície, da superfície que separa a região do mesmo e a região do outro. Não esqueçamos que, nessa zona de superfície sensibilizada, antes de ser é preciso dizer. Dizer, se não aos outros, pelo menos a si mesmo.”1

A noção de espaço poético abre novas perspectivas àqueles que concebem imagens. Se outrora se pretendia, ao abrir uma janela para o mundo, apreen- der uma parcela da realidade, as janelas que hoje se abrem revelam antes os mundos interiores que nos habitam (a nossa geometria íntima, nas palavras de Bachelard). Desta mudança de princípio sobrevêm questões várias: que lugares são esses e como se representam? Como abrir esta(s) janela(s)? A contiguidade dos espaços determina a proximidade entre o eu e o outro, a partilha e a prática

do espaço que é, afinal, projectado em conjunto. Uma prática que Michel de

Certeau relaciona com a noção de leitura, de repetir o silêncio e o prazer ex- perimentados na infância; de no lugar, “(…) ser outro e passar para o outro”. A leitura como um “espaço produzido pela prática do lugar constituído por um sistema de signos – uma narrativa” (AUGÉ cita Certeau, 2005:72). Um espaço vivido – que promove o prazer, o acto lúdico de sermos transportados para a pele do outro, como se fossemos o outro – um espaço vivido porque, ao ser experimentado, se converte em sentido. O suporte constitui-se, então, como um espaço de significação para o ilustrador, “compõe o artefacto de um outro ‘mundo’, agora não recebido, mas fabricado” (CERTEAU, 2007:225). A solidão que sobrevém dos não-lugares da sobremodernidade (Marc Augé): a folha de papel anónima, o ecrã ou o monitor, onde as imagens se sucedem impedindo a proximidade e a ligação; “(…) espaços onde nem a identidade, nem a relação nem a história fazem verdadeiramente sentido, (…) em que só o movimento das imagens deixa entrever por instantes àquele que as vê fugir e que as olha a hipótese de um passado e a possibilidade de um futuro” (AUGÉ, 2005: 74). No lugar da ilustração contraria-se a pressa da vida porque a interpretação exige essa suspensão no tempo, um instante de silêncio e de recolhimento, de pôr em relação; de questionar, de duvidar, de repetir; de ler e de, simplesmente, olhar. O espaço de representação contemporâneo revela-se, acima de tudo, um espaço semântico de interacção e de permuta de sentidos,

um espaço de significação. Um espaço afectivo e de encontro, de reunião entre o eu e o outro. A questão que se coloca ao ilustrador é: como experimentar, transmutar, representar, fazer enfim, significar esse espaço? Que histórias se contam e nos contam estes espaços?

É no carácter performativo e sustentado pela imaginação que Lyotard confere à linguagem, à narrativa e, consequentemente, ao saber contemporâneos, que se identifica esta abordagem. O ressurgimento da ilustração e a relevância que assume no design actual justificam-se pelos traços narrativos individuais que comunica. As histórias que conta não têm a pretensão de serem universais, são antes a afirmação de uma mentira ou de uma ficção, pela capacidade que o ilustrador tem de conciliar os instintos verbal e visual. São, à sua maneira, o recurso ao logos, interpretado pelo mythos. A procura de uma organização sustentada na narrativa, mas que apela ao símbolo e à metáfora para trazer ao conhecimento o que está ausente na tradução literal do texto. Autores como José Maria Mardones sustentam a importância de um retorno à narrativa e ao pensamento mitológico, reforçando a intenção de Lyotard:

“O mundo do mito é o mundo do sentido, o âmbito da busca de respostas humanas para um ser que tem a experiência do desgarro e da fractura e de viver num ‘mundo desconjuntado’. Exprimir o que é a realidade e a vida, o porquê da ruptura e da disjunção, e também a recon- ciliação e o sentido, é a tarefa do mito”. (…) É preciso utilizar a via indirecta do símbolo, da metáfora, da insinuação e evocação do não presente, do que não está à mão. Colocamo-nos fora da linguagem clara e distinta, da lógica científica, para caminhar pelos despenhadeiros do paradoxo e da polissemia. Estamos no reino do inexacto, da interpretação inacabável e múltipla.”2

Mardones propõe uma abordagem mito-lógica, em que se conjugam o mítico e o lógico. Esta via distingue-se claramente da Gráfica, que Bertin propuse- ra como princípio teórico e metodológico para a tradução de informações verbais em informações visuais, e cujo objectivo maior era a monossemia da comunicação. A ilustração actual promove pelo contrário, os vários sentidos, o dissemelhante, a descoberta do outro e revelação de si mesmo na represen- tação. Afasta-se da exposição do mensurável, de tornar evidente uma verdade

(exegese); quer antes exprimir a ausência, revelar o que está apenas latente no texto. Manifesta, assim, a procura de uma ordem e até eventualmente de algum consenso, mas revela-se uma organização precária e transitória na medida em que é a afirmação do sentido atribuído pelo ilustrador, vulnerá- vel ao momento em que alguém exterior a este processo interpreta a reunião do texto e da ilustração e lhes empresta a singularidade do seu sentido. Não se trata, à semelhança do mito, de um: “(…) contributo para a descrição do mundo, mas para a sua fundamentação e significado” (MARDONES, 2005:186). A ilustração contemporânea é comparável a pequenas narrativas pictóricas e mitológicas porque não quer mostrar o mundo, cujas imagens e representações invadem a todo o momento a nossa existência, mas torná-lo significante. Seduz pela diversidade, pela diferença, e permite ao outro (que lê e interpreta a ilustração) encontrar pontos de convergência, reconhecer- -se e descobrir-se. Se o “absolutismo da realidade”, como diz Blumenberg, é inalcançável, situemo-nos no mundo através de “espaços fechados” que nos permitem projectar os nossos desejos, medos e ambições.

A questão do espaço da ilustração enquanto interface, parece indissociável da ideia de um espaço de partilha, ou como prefere Steiner, de um “encontro fértil com a dádiva de forma e de sentido” pela existente “cortesia entre liber- dades” (STEINER, 1993:160). A cortesia necessária para que se dê o encon- tro com o outro.

Dans le document 3 Lower bounds (Page 30-38)

Documents relatifs