CHAPITRE 2. APPLICATIONS DE L’ELASTOGRAPHIE PAR IRM POUR LE DIAGNOSTIQUE DES
2.8. P ERSPECTIVES POUR LES MESURES D ’ ELASTOGRAPHIE PAR IRM DANS LE CERVEAU
Ezequiel também se apresenta como uma personagem que “pensa e cala”. A atividade reflexiva da criança foi primeiramente associada à personalidade de Capitu. Posteriormente, os gestos daquele foram associados aos de Escobar. Como, porém, a criança tinha a mania de imitar os outros, Bentinho não percebe, ainda, neste momento, a “paternidade” do outro. Sancha comenta que as duas crianças iam se parecendo; Bentinho, sem pensar nada a respeito, justifica dizendo que a semelhança se explicava pelas imitações de Ezequiel. Bentinho ainda não supõe a possibilidade de que os dois poderiam ser irmãos. Ezequiel apresenta-se, nessas pequenas leituras que as outras personagens fazem dele, sem um aprofundamento maior em seu caráter. Quando Capitu denuncia as semelhanças entre a criança e o finado Escobar, Bentinho como que acorda de um sonho e enxerga apenas esta possibilidade: a paternidade do outro. Em uma das cenas centrais do romance − o confronto de “Bentinho” com Capitu −, percebe-se que esta não consegue desconstruir o discurso do marido. Mesmo defendendo a sua inocência, Capitu assume a semelhança do filho com Escobar. Capitu, então, defende que a semelhança se justificava pela vontade de Deus, talvez esperando que Bentinho, ex-seminarista, aceitasse esse alvitre. Bentinho, porém, já se transmutara em Dom Casmurro e, assim, a rejeição da criança é completa, seu translado, juntamente com a mãe, para a Europa, duram longos anos. Apenas Ezequiel retorna, após a morte de Capitu. Dom Casmurro, quando se encontra com o rapaz, diz que: “era nem mais
163 Scarpelli (1994, p. 28) percebe a fusão do bem e do mal no nome do herói: “SANTIAGO, port. composto de
Santo Iago (Sant’ Iago). A fusão de bem e mal se inscreve neste nome cooxtensivamente atravessado pelo
Santo e pelo Iago. O senso comum já reconhece Iago como ma figura demoníaca − uma metáfora da inveja e da
nem menos o meu antigo e jovem companheiro do seminário de S. José, um pouco mais baixo, menos cheio de corpo e, salvo as cores, que eram vivas, o mesmo rosto do meu amigo” (cap. CXLV – p. 942). A descrição é dúbia, porque, também, remete ao aspecto de Bentinho, que, em comparação com Escobar, era mais franzino.
A ambiguidade de Ezequiel se cumula no episódio de sua morte. O epitáfio escolhido pelos dois amigos de Ezequiel, para preencher a inscrição no túmulo, se justifica, aparentemente, pela relação com o nome do rapaz. O texto foi extraído do livro do profeta Ezequiel, e escrito em grego: “Tu eras perfeito nos teus caminhos” (cap. CXLVI – p. 943). Dom Casmurro foi conferir o texto na Vulgata e encontrou a segunda parte do versículo: “Tu eras perfeito nos teus caminhos, desde o dia da tua criação” (cap. CXLVI – p. 944). Dom Casmurro se estaciona na parte do versículo que joga luz ao enigma de sua vida, e assim se questiona: “Quando seria o dia da criação de Ezequiel?” (idem, ibidem). Procurando-se o versículo na Bíblia, porém, percebe-se que a sua última parte, não abordada no romance, é a mais interessante: “Desde o dia da tua criação foste íntegro em todos os teus caminhos até o dia em que se achou maldade em ti” 164 (Ez., 28. 15). O contexto desse versículo intriga ainda
mais, já que o versículo faz parte de uma profecia de Ezequiel sobre a destruição do rei de Tiro. O interessante é que esse rei tipifica Satanás: este capítulo vinte oito narra a sublevação de Lúcifer e a sua derrota. Observa-se, aqui, a presença do autor-editor que, por sobre o narrador e as personagens, associa um texto bíblico sobre o diabo ao epitáfio do túmulo da personagem Ezequiel. Não é possível falar que Machado utilizou o versículo fortuitamente. O conhecimento que este tinha da Bíblia165 se revela na propriedade com que ele faz uso de um conjunto variado de metáforas bíblicas em sua obra. O ato do narrador Dom Casmurro de investigar a exatidão do epitáfio na Vulgata, e prosseguir a pesquisa na segunda parte do versículo − esta não selecionada pelos amigos de Ezequiel −, concede a mesma liberdade ao leitor de também averiguar a procedência do texto, bem como a sua parte final. As conclusões a que se pode chegar a partir desse cotejo são inúmeras. Aqui, porém, se defende que a morte de Ezequiel foi urdida pelo autor-editor de maneira que se sublinhasse o aspecto ambíguo dessa personagem.
Ezequiel, em sua morte, ressalta e representa a mesma dualidade formulada no capítulo IX, “A ópera”: a cooperação entre Deus e o diabo para a execução da grande ópera, que é a própria vida. O diabo se apresenta no epitáfio do túmulo do rapaz e o enigma se
164 Bíblia de Jerusalém, Paulus, 2008.
165 Gledson (2006, p. 164) analisando a série de crônicas: Bons Dias, o crítico percebe que “Machado tinha, é
complementa quando se questiona o porquê de Machado “matar” Ezequiel nas imediações de Jerusalém, lugar místico. O ponto de vista que aqui se defende é que há uma associação de Ezequiel com o Filho de Deus, Jesus Cristo, ou com o próprio Deus. O romance registra que Ezequiel foi enterrado nas imediações de Jerusalém. Jesus também foi morto e sepultado nas imediações dessa cidade santa. Assim, a personagem Ezequiel ganha conotações dúbias porque, ao mesmo tempo em que é sepultada como o diabo, sua morte se dá no mesmo topo do Filho de Deus. Esse contexto bíblico do epitáfio pode esclarecer o porquê do nome dado à personagem: Ezequiel.166 Machado, cônscio da analogia que o versículo bíblico estabelece com o diabo, apropria-se do texto, por meio do nome da personagem. As circunstâncias da morte do rapaz subjazem esses outros elementos, que impedem uma relação direta entre Ezequiel e o diabo. Voltando ao texto da Bíblia, é interessante que o versículo utilizado apresenta-se como a síntese de todo o contexto da história relatada no capítulo 28 do livro de Ezequiel: a sublevação de Lúcifer. Assim, esses apontamentos, que aqui são desenvolvidos, apresentam-se como hipóteses que ajudam a compreender o entrecho da construção da personagem Ezequiel. Assim, Ezequiel sintetiza a ambiguidade que o romance se propõe a representar: o dualismo da própria vida.