CHAPITRE 1. CONTEXTE ET METHODES
1.5. P ROBLEMES INVERSES – SOLUTIONS PERVERSES
1.5.4. Du risque de sur-interpréter des artefacts
Escobar, como Capitu, também tinha essa capacidade de se voltar para si mesmo: cogitando. A criticalidade dessas duas personagens põe em relevo a ingenuidade de Bentinho. Escobar é descrito como uma personagem de aspecto e caráter fugidio. A característica central da personagem era a sua capacidade de reflexão. É perceptível certa semelhança159 entre a descrição de Capitu e a de Escobar. Este também se atentava para as minúcias dos fatos e acontecimentos narrados por Bentinho. Os pormenores tinham atrativo maior para a atenção do rapaz. Escobar também era disciplinado, sabia se corrigir dos defeitos que percebia em si mesmo. Ademais, era atento às mudanças comportamentais do amigo. Ele tinha uma maneira especial de inquirir Bentinho: “espetando-lhe com os olhos”. Assim, Escobar adentrava os recônditos do amigo e se punha a par de seus segredos, tornando-se, posteriormente, o intermediador das correspondências entre Bentinho e Capitu. Como foi anteriormente relatado, Escobar é um dos principais responsáveis pela liberação de Bentinho: o estratagema montado para livrar Bentinho do sacerdócio proveio da reflexão de Escobar. Disso, se pode concluir que as características de Escobar, percebidas pelo olhar do narrador, sumarizam-se nessa capacidade de inquirir e de estar sempre atento aos atos das pessoas; o que o assemelha à personalidade de Capitu.
No tocante ao que foi exposto, no confronto entre Bentinho e seus dois amigos, o que se ressalta é a ingenuidade do primeiro personagem. Quando Bentinho é confrontado com o seu duplo, com Dom Casmurro, as diferenças são ainda mais visíveis. Dom Casmurro, como o narrador da história, coloca-se sobre o todo do acontecimento, julgando os atos das personagens e, ironicamente, até os de Bentinho. Entre os dois, percebe-se um vácuo, há uma distância descomunal entre a ingenuidade de Bentinho e a criticalidade de Dom Casmurro.160 Eles se apresentam como dois opostos que se repelem. Capitu e Escobar percorriam esses dois espaços (ingenuidade e criticalidade), sem estacionar em um lugar fixo. Nestes, observa-se o diálogo do ser consigo mesmo, por meio do movimento de reflexão. Bentinho, por outro lado, apresenta-se como um ser limitado: uno. Ele só consegue alcançar o patamar da reflexão suprimindo-se, metamorfoseando em Dom Casmurro. Aqui se defende que, a ambivalência entre estes “dois” personagens foi projetada com acuidade por Machado.
159 Gledson (1991, p. 115): “[...] Enquanto personagem, pouco há para dizer sobre ele que já não tenha sido dito
em outro contexto sobre Capitu: observamos repetidamente como são feitos um para o outro, segundo a retórica de Bento”.
160 Schwarz (1997, p. 35) já sublinhara a dupla postura do narrador do romance: “[...] As duas fisionomias do
narrador, tão discrepantes, têm de ser alimentadas por uma escrita sistematicamente equívoca, passível de ser lida como expressão viva de uma como de outra, do marido ingênuo e traído bem como do patriarca prepotente”.
Recorrendo aos dois romances anteriores161 − Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba − percebe-se que o “herói” do primeiro é um ser (narra como um “defunto autor”) altamente crítico e irônico sobre a sua vida já finda. O narrador, como em Dom Casmurro, também é autobiográfico, sendo, assim, o porta-voz de sua história. Brás Cubas narra, de forma despudorada, as suas aventuras. Apesar de a morte separá-lo do espaço da história, percebe-se que não há uma mudança162 de perfil entre aquele que fala e a personagem da narrativa. Neste caso, observa-se o relato, genuinamente, em forma de memórias, já que, aqui, personagem e narrador representam uma só pessoa. Em Quincas Borba, observa-se outro polo da questão sendo tratada: o herói do romance, Rubião, apresenta-se como uma personagem ingênua, que se mostra incapaz de se julgar, para, assim, compreender como tem sido enganado pelos supostos amigos que o cercam. Essa ingenuidade do protagonista inviabilizou que o romance fosse construído em primeira pessoa: o narrador crítico machadiano não comungaria esse aspecto ingênuo do protagonista. Em Dom Casmurro, Machado aproxima as características de Rubião e Brás Cubas em, respectivamente, Bentinho e Dom Casmurro, formando “um ser” marcado pelo paradoxo. Esse esquema, aqui defendido, pode também viabilizar o rechaço, que aqui se adota, da possibilidade de Bentinho (personagem ingênuo) apresentar-se como voz narrativa no romance.
O narrador Dom Casmurro tem essa postura judicativa sobre o todo do relato. Como o defunto-narrador Brás Cubas, que pode se mover sobre o todo da história já finda, Dom Casmurro também se mostra fora da história que narra e, assim, capacitado a percorrer os seus limites. As reminiscências do narrador são recuperadas por meio de uma atividade crítica, de reformulação: “[...] Agora lembrava-me tudo o que então me pareceu nada” (cap. CXL – p. 939). Esse olhar o diferenciava de Bentinho que, apesar de conviver com um ciúme doentio, este apenas o levava a projetar histórias fantasiosas. Bentinho não conseguia conjecturar possibilidades, “enfiar os olhos para dentro de si”, como Capitu, Escobar e Ezequiel. As soluções para seus dilemas sempre são formuladas por outra pessoa. Quando Dom Casmurro nasce (ou surge), a sua posição contraria, visceralmente, a de Bentinho: são dois opostos, que não se relacionam. É necessário, porém, esclarecer esse termo: ingenuidade.
161 Segundo Gledson (2006, p. 316), Casa Velha foi publicado, na revista A Estação, entre os anos de 1885 e
1886. Aceitando essa obra dentro do gênero romance, como propõe Gledson, ela precederia Quincas Borba (1891).
162 Schwarz (2000, p. 61), analisando Memórias Póstumas de Brás Cubas, defende que não há uma diferença de
postura entre a personagem Brás Cubas e o defunto-autor, mas, sim, uma alternância entre “dois registros literários, um de grande porte intelectual, outro mais acanhado”: “[...] Cabe à crítica interpretar estes ritmos. Atribuir a dualidade à distinção entre a vida e a morte não é uma solução, mas um artifício, o que aliás é a sua graça”.
Não se defende, aqui, que Bentinho seja um santo, como sua mãe promulgava: por meio do nome de batismo, Bento Santiago163 e do futuro ofício sacerdotal. Bentinho pertencia a uma classe social e, dentro desse espaço, processava os seus atos. A ingenuidade aqui defendida está no plano de uma dialética com as possibilidades. Bentinho era coagido a agir dentro de um plano determinado e, mesmo discordando dele, não conseguia ver além daquilo que lhe fora proposto. Dom Casmurro era todo crítico, distanciado da vida, descrente desta. Isso justifica a sua filiação, que propomos, com Brás Cubas, que, de fato, morrera, mas, mesmo antes da morte, nunca estabelecera vínculos estreitos com a vida. Assim, Dom Casmurro substitui o defunto Bentinho, aquele que, distante, pode julgar, sem temer censuras, a história dos mortos que narra.