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3. Tuberculose et transaminases

2.2 Matériel

2.2.2 Equipements

Conforme Cintra (1986) e Faraco (1996), a respeito das formas de tratamento no português, sabe-se da existência, entre os séculos XIII e XIV, de duas formas de referência à 2ª pessoa, herdadas do latim: tu e vós, as quais eram utilizadas segundo o grau de intimidade entre os interlocutores, como ainda o é em francês.

Quanto às línguas românicas, destacam-se, para fim de uma breve comparação com o português, o francês e o espanhol. Como se sabe, a língua francesa foi a única que conservou o sistema tardio latino, ao passo que as outras seguiram rumos diferentes, conforme o contexto no qual cada uma se desenvolveu. Segundo Cintra (1972, p.13, apud LOPES, 2003 p.02)14, o uso frequente de formas nominais de tratamento no português atual é um diferencial

frente à ocasionalidade do emprego das mesmas nas demais línguas neolatinas. Com respeito a isso o autor afirma:

O francês cobre com um simples vous, o espanhol com usted, o italiano com um lei, quase todo o campo dentro do qual empregamos os tratamentos nominais, e ainda a maior parte daquele em que nos servimos dos pronominais você e V. Exª. (eles próprios antigos tratamentos nominais, hoje decaídos semanticamente e total ou quase totalmente gramaticalizados. (CINTRA, 1972, p.14 apud LOPES, 2003, p. 02)

De posse dessa informação, analisou-se o quadro pronominal apresentado por Avolio e Feury (2006), no qual se observou que o conjunto de formas para referência à segunda pessoa em francês constitui-se apenas de dois pronomes, tu e vous, “[...] já que não existem os pronomes de tratamento da língua portuguesa. Assim, tu e vous e suas variações podem ter traduções diversificadas” (AVOLIO; FEURY 2006, p.88, grifos dos autores). Diante dessa assertiva, procura-se mostrar a variação que vigora no português e a ausência deste fenômeno na língua francesa, até onde se tem conhecimento, a respeito do emprego dos pronomes pessoais em francês. Nesse intuito, reproduzem-se, a seguir, alguns exemplos que ressaltam a diferença do uso dos pronomes nessas duas línguas conforme observações da gramática consultada:

(01) Tu sortiras avec elle.

Tu sairás com ela (ou: Você sairá com ela).

________________

(02) Vous qui êtes toujours à l’heure, jê vous félicite!

Você que sempre é pontual, eu o (ou: a) parabenizo! ou: O senhor, que sempre é pontual, eu o parabenizo! ou: A senhora, que sempre é pontual, eu a parabenizo!

Por outro lado, o francês apresenta outras fórmulas de tratamento, sendo as mais frequentes: Monsieur, Madame, Mademoiselle. Estas correspondem, respectivamente, a: o

senhor, a senhora, a senhorita, em português. Não se pode dizer que essas formas, da maneira

como são usadas na língua francesa, inexistem em português, outrossim são de uso muito específico e, mais recentemente (cf. exemplo 02), assume a função de deferência, uma vez que as antigas formas destinadas a esse papel no PB perderam tal traço semântico.

O espanhol, por sua vez, não conservou o sistema latino binário como o francês, uma vez que o sistema de tratamento na Espanha passa por uma crise, semelhante à vivida em Portugal. Diante disso surge, no século XV, o Vuestra Merced como forma de tratamento deferente. A princípio, nota-se que “[...] apesar de Vuestra Merced, a alternância entre ‘vos’ e ‘tú’ se manteve; no entanto, vos começa a perder o valor de respeito. De um modo geral, vos se mantém como uma forma de tratamento intermediária entre Vuestra Merced y tu15

” (CAAMAÑO, 1984, p. 28, tradução nossa).

Destaca-se, por conseguinte, a evolução do Vuestra Merced>usted, processo, até certo ponto, análogo ao ocorrido na LP: Vossa Mercê> você(cê). No entanto, vale lembrar que a introdução dessa nova forma, já gramaticalizada, “[...] desenhou diferentes rearranjos nos sistemas verbal e pronominal das línguas em questão [...]” (FARACO, 1996, p.55). Desse modo, no que diz respeito ao uso de ‘usted’ frente ao ‘tú’ e ao ‘vos’, atualmente, observa-se: (i) na norma culta da América e da Espanha utiliza-se a forma inovadora, singular – ‘usted’ –, designando tratamento formal; (ii) no uso geral, corresponde a um tratamento mais distante, implicando cortesia e formalidade, como se verifica no exemplo reproduzido16 a seguir:

(03) Usted escriba su reclamación en un papel. (Leñero Mudanza [Méx. 1979])

Quanto ao uso dessa nova forma no plural – ‘ustedes’ – comparado à forma canônica de ‘vosostros’, nota-se, na maior parte da Espanha (cf. ex. 04 e 05a), o mesmo valor social de ________________

15 “[...] apesar de Vuestra Merced, el intercâmbio de vos y tú se mantuve; sin embargo vos empieza a perder el

valor de respeto. De todos modos vos se mantiene em um punto intermédio de Vuestra Merced y tu”. (CAAMAÑO, 1984, p.28)

cortesia e formalidade expresso pela forma inovadora no singular. Por outro lado, na América, ao sul e sudoeste da Espanha e nas Canárias, predomina o uso de ‘ustedes’, e seus correspondentes, denominado ‘ceceo’ (cf. ex. 05b e 5c). Nesses dialetos, utiliza-se a variante inovadora para referência a mais de um interlocutor, de maneira formal e informal. Vejam-se:

(04) Ustedes perdonen. Soy el Oficial del Juzgado (Suárez Dios [Esp. 1987]).

(05) a. Siéntense, se lo ruego. Ustedes no se conocen: el señor Germán Hernando, el

señor Juan Antonio Molero (Marsillach Ático [Esp. 1995]).

b.Quiero hacerles un presente, expresión de nuestro cariño y simpatía por ustedes (Aguilera Pelota [Ec. 1988]).

c. A ver, niños, ¿a ustedes les gustan los dulces?(Maldonado Latifundios [Col. 1975]).

Ainda sobre o uso da 2ª pessoa no espanhol, é importante lembrar que vos y vosotros são formas comuns aos falantes desta língua, ocorrendo o ‘voseo’ na maior parte da Hispanoamérica, mas em diferentes graus. Essa diferenciação impõe-se pelos princípios da cortesia e do respeito à posição social do ouvinte (poder/solidariedade).

Voltando ao português, observa-se que a “perda de deferência”, no entanto, não implica desrespeito ou informalidade, conforme os princípios da simetria e da polidez, apresentados na introdução deste capítulo. O que se nota no emprego das formas de referência no PB, com o passar dos anos, é, senão, uma fluidez e tentativas de suavizar a abordagem, em prol de relações mais igualitárias, cumprindo-se, assim, o referido ‘acordo tácito’, no sentido de assegurar o direito de cada um expressar-se e ser respeitado.

Por fim, embora Faraco (1996, p.65) tenha concluído que “[...] a extensão do você no Brasil nada tem a ver com condições mais democráticas de vida [...]”, considerando que no Brasil ‘não houve’ a crise de tratamento ‘como’ em Portugal, acredita-se na interferência da reorganização social. Desse modo, o caráter democrático, solidário e polido no trato com o outro, que se observa hoje no PB, decorreria, também de um ‘afrouxamento’ das relações sociais pós-ditadura. Isto, por sua vez, teria corrido após a desburocratização e quebra de hierarquias excessivas, estas compassadas à instauração do regime democrático no Brasil.

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