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Como muito bem observou Proença, Mário de Andrade se inspirou em várias obras para compor a história do nosso herói sem nenhum caráter. Entretanto, o personagem principal foi, assumidamente, colhido por ele no livro Von Roroima zum Orinoko, do etnólogo alemão Koch-Grünberg, que compilou lendas de várias regiões sul-americanas. A mais importante delas, para a obra, é a dos irmãos Makunaima, ou de Makunaima, contada pelos povos pemóm, habitantes da região Circun-Roraima, localizada na tríplice fronteira entre os territórios brasileiro, venezuelano e guianense.

Como todo relato que faz parte da tradição oral contada por séculos, de geração em geração, a história dos makunaimas tem várias versões. Em uma delas, o mundo, inicialmente, era caracterizado pela perfeição da vida em comunidade, onde reinavam, absolutas, a solidariedade e a felicidade entre os homens e entre esses e a natureza, até que os Makunaimas, filhos invejosos e traiçoeiros de Wei, a Sol, trouxeram o mal para o mundo, semeando a ambição, a discórdia, a inveja e também a extinção de espécimes naturais, a enchente e diversos outros tipos de males.

Como nos informa Gutiérrez Salazar, especialista da cultura pémon:

Os irmãos Makunaima, muito viajantes e pouco amigos do trabalho, sentiram invejam de todo o bem que encontraram em suas viagens. Movidos pelo vício distorcido, pela curiosidade e pela malícia, começaram a utilizar a arte mágica de induzir o mal nos homens, com fórmulas exotéricas. Assim apareceram o mal, a enfermidade, a incompreensão e a morte. (SALAZAR, 2001, p. 28)

Dentre os três, o mais novo era o mais inteligente e malicioso e estava sempre aprontando maldades com os irmãos. Em uma de suas peripécias conhecidas entre os penóm, que teria ocorrido na época do grande dilúvio, o caçula dos Makunaima, antes de dar uma fruta de boa qualidade para um de seus irmãos - que há muito tempo só comia frutas maduras demais – esfregou-a no pênis e se pôs a admirar o gosto com que o irmão a comia. Não bastando isso, ainda perguntou ao irmão se ela estava gostosa.

Se os Makunaima são os criadores dos males entre os homens, eles são também os responsáveis por muitas coisas boas e importantes, como a própria recriação do homem, após o incêndio universal. Eles são responsáveis, também, pela criação do cachorro – animal muito apreciado pelos penóm. Segundo a lenda, os Makunaima criaram esse animal com o objetivo de comer as espinhas de peixe, os ossos das aves e os restos de comida para que não machucassem os pés dos irmãos (SALAZAR, 2001, p. 24-32).

Encontramos, ainda, Makunaima como fruto do amor impossível entre o sol e a lua. Gerado em um eclipse, ele seria um semideus, que teria herdado características tanto do pai quanto da mãe. Do sol, teria herdado a capacidade de gerar vida e também de tirá-la com sua intensidade excessiva. Da lua, teria herdado a inconstância e o mistério. Criou a “árvore de todos os frutos”, que trazia abundância à população. Um dia, entretanto, vendo que ela tinha sido arrancada do solo, irou-se e colocou fogo em toda a floresta, destruindo a todos os seres. Depois, os teria recriado.

Em uma terceira versão, Makunaima seria gêmeo de Pia. Possuidor de poderes sobrenaturais e criador de homens, animais e vegetais, ele estaria sempre junto à irmã, vingando a morte da mãe que teria sido morta pelos tigres – filhos de Konaboáru: a “Rã das Chuvas” (CASCUDO, s/d, p. 452). Segundo Câmara Cascudo, um dos maiores, estudiosos do folclore brasileiro:

Com o passar dos tempos e convergência de tradições orais entre as tribos, interdependência cultural decorrente de guerras, viagens, permutas de produtos, Makunaima foi-se tornando herói, centro de um

ciclo etiológico, zoológico, personagem essencial de aventuras e episódios reveladores do seu espírito inventivo, inesgotável de recursos mágicos, criando os homens de cera e depois de barro, esculpindo animais, transformando os inimigos em pedras, que ainda guardam a forma primitiva. Tornou-se um misto de astúcia, maldade instintiva e natural, de alegria zombeteira e feliz. É o herói das histórias populares contadas nos acampamentos e aldeados indígenas, fazendo rir e pensar, um pouco despido dos atributos de deus olímpico, poderoso e sisudo (Idem).

Em todas as versões da lenda de Makunaima, ele se apresenta como um ser de natureza dual: humana, mas com poderes divinos, que são utilizados a seu bel prazer. Gosta de traquinagens, de brincadeiras maliciosas e possui um apetite sexual muito aguçado. É destituído de caráter: tolo e astuto, herói e covarde, indiferente à moral. Entretanto, mesmo sem querer, ou para satisfazer a um desejo ou a uma necessidade própria, acaba por realizar coisas importantes que beneficiam a sociedade. Em uma das versões da lenda de Makunaima, ele e seus irmãos, à semelhança de Prometeu, trouxeram o fogo à tribo a qual pertenciam:

Eles ainda não possuíam o fogo e por isso comiam tudo cru, peixe, caça, tudo. Procuraram fogo e acharam o passarinho Mutúg, o qual, segundo se dizia, tinha o fogo. O pássaro estava pescando. Makunaíma amarrou-lhe um barbante ao rabo, sem que ele o notasse. Logo o pássaro se assustou, levantou voo e levou o barbante consigo. Este era muito comprido. Os irmãos seguiram o barbante e achararn a casa do Mutúg. Da casa eles, então, levaram o fogo (KOCH- GRÜNBERG, 1953, p. 45).

Tais características nos permitem considerar Makunaima como um Trickster, herói que é simultaneamente criador e destruidor, aquele que concede e que toma, que engana e que é enganado, que desconhece os valores morais ou sociais, que é guiado por seu apetites e suas paixões. Segundo Georges Balandier, a denominação Trickster vem de uma antiga palavra francesa triche/tricherie, que significa engano, trapaça, falcatrua (BALANDIER, 1982, p. 25).

Em algumas narrativas, esse herói dúbio e amoral, tem o aspecto de um animal, como um corvo ou uma raposa. Em outras, embora se assemelhe a um animal, possui características humanas. Pode ser também um deus ou um semideus, ou ainda, um homem. Seja qual for a sua forma, o Trickster desempenha, ao mesmo tempo, a função de herói e de vilão. Entretanto, seus feitos heroicos são, geralmente, involuntários. É o caso de Makunaima, que trouxe o fogo para toda tribo porque não queria mais comer alimentos crus, e também o caso do Corvo, Trickster de uma tribo indígena norte-

americana, que proporcionou aos homens o acesso à água potável e aos peixes porque um dia estava sedento e faminto e, então, criou-os, sem qualquer intenção de beneficiar a outros.

Os estudos de Paul Radin, inicialmente realizado entre os índios winnebagos, dos Estados Unidos, levaram-no a concluir que o ciclo do trisckster inicia o processo civilizador, pois, apesar de todo seu egoísmo, suas maldades e excessos, ele acaba por criar, restaurar e promover o progresso.

Jung assim define o trisckter:

O fantasma do "Trickster" se imiscui em figuras ora inconfundíveis, ora vagas, na mitologia de todos os tempos e lugares, obviamente um "psicologema", isto é, uma estrutura psíquica arquetípica antiquíssima. Esta, em sua manifestação mais visível, é um reflexo fiel de uma consciência humana indiferenciada em todos os aspectos, correspondente a uma psique que, por assim dizer, ainda não deixou o nível animal. Considerada sob um ângulo causal e histórico, a origem da figura do "Trickster" e praticamente incontestável (JUNG, 2002, p. 259).

E cita como exemplo de Trickster, Mercúrio, da mitologia romana, ou Hermes, da mitologia grega:

sua tendência às travessuras astutas, em parte divertidas, em parte malignas (veneno!), sua mutabilidade, sua dupla natureza animal- divina, sua vulnerabilidade a todo tipo de tortura e - last but not least - sua proximidade da figura de um salvador. Graças a essas propriedades, Mercúrio aparece como um daemonium ressuscitado dos tempos primordiais (...) Os tracos "Tricksterianos" de Mercúrio tem alguma relação com certas figuras folclóricas sobejamente conhecidas nos contos de fada: Dunga, o João Bobo e o Palhaço que são heróis negativos, conseguindo pela estupidez aquilo que outros não conseguem com a maior habilidade. No conto de GRIMM o espírito de Mercúrio é burlado por um jovem campônio, sendo forçado a comprar a sua liberdade com o dom precioso da arte de curar (Idem).

A mitologia Yorubá, tem o Trickster Eshu-Elegba. Intermediário entre os deuses e os homens, ele é o responsável pelo adultério, pelos sonhos imorais e também pela discórdia entre amigos. Por outro lado, proporciona fertilidade aos casais estéreis. Os Yorubá acreditam que o Eshu-Elegba é um espírito errante, sem moradia, que costuma frequentar as encruzilhadas, as fronteiras, os mercados e está sempre presente quando há confusões (WESCOTT, 1962, p. 337-348).

Radin concluiu que os mitos do Trickster podem ser encontrados tanto entre as sociedades de organização mais simples, como as aborígenes, como em sociedades mais complexas como a Grécia, a Itália ou o Japão, por exemplo (RADIN, 1993, p. 104). Tal fato encontra respaldo nas teorias junguianas a respeito da psique humana. Segundo Jung, o Trickster é um arquétipo do inconsciente coletivo: uma sombra coletiva, sendo o somatório das sombras individuais (JUNG, 2002, p. 263). Dessa forma, embora tenha uma estrutura arquetípica comum a todas as outras, a história de um Trickster tem muito a dizer sobre a sociedade que o produziu, como pertinente aponta o antropólogo Renato da Silva Queiroz:

O Trickster parece constituir, pois, uma categoria por meio da qual podem manifestar-se certas dimensões universais da existência humana. Todavia, esta última só se concretiza em contextos socioculturais específicos, cada qual com sua história. Assim, as diferentes modalidades do Trickster também não poderiam deixar de traduzir peculiaridades próprias aos grupos sociais que lhes dão vida. O estudo destes personagens parece exigir, no mínimo, o reconhecimento das dessemelhanças existentes entre mito e produção literária, e daquelas que opõem as sociedades igualitárias às formações sociais constituídas com as desigualdades (QUEIROZ, 1987, p. 72). O personagem Macunaíma, de Mário de Andrade, possui todas as características de um Trickster: matreiro, esperto, ingênuo, mutante, cruel, alegre... Vejamos o que ele tem a nos revelar.

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