• Aucun résultat trouvé

Para se compor o texto empírico, considerando todas essas especificidades, Bronckart (1999[2009]), a ação de linguagem propriamente dita é o resultado da associação do contexto de produção (físico e sociossubjetivo) e do conteúdo temático em que o agente mobiliza quando empreende uma interação verbal. Entendemos, aqui, interação verbal como a materialização do pensamento em um determinado gênero de texto, utilizando-se dos variados dispositivos linguísticos verbais ou não verbais.

Todo o processo que envolve a produção de um texto empírico ocorre em uma situação de ação de linguagem que, segundo Bronckart (2006), é o resultado do conjunto de

representações desdobradas em três conjuntos, a saber: as representações do contexto físico; as representações que envolvem o contexto sociossubjetivo; as representações dos conhecimentos disponíveis dos agentes, referentes ao conteúdo temático expresso no texto.

Ampliando a discussão acerca da última representação apresentada por Bronckart (2006), podemos considerar que os conhecimentos disponíveis na memória estão, também, relacionados à comunidade não verbal e não somente à verbal como menciona o autor. Nesse perspectiva, transpomos o que Bronckart (2006) discorre em relação ao processo de produção (cf. Bronckart 2006, p. 147) quando afirma que o agente, ao produzir um determinado texto, assume um duplo processo: o de escolher o gênero textual mais pertinente às propriedades inerentes à situação de ação de linguagem e o de adaptar esse gênero às particularidades da mesma situação.

Nesse contexto, entendemos que as “escolhas” e “adaptações” não ocorrem somente em razão do dispositivo linguístico verbal. Ao compreender que a complementaridade dos dois elementos semióticos, verbal e não verbal, amplia as possibilidades de coesão e melhor compreensão do que se quer dizer, acreditamos que as escolhas e as adaptações estão, intrinsicamente, relacionadas aos recursos não verbais e o resultado dessa combinação apresenta novos traços ao gênero textual escolhido, ou seja, é um novo texto empírico que se materializa em razão, especialmente, das suas particularidades. Surge, então, o gênero material didático impresso para modalidade a distância, munido de variáveis específicas da necessidade do próprio texto e o fortalecimento da importância da inclusão de múltiplas possibilidades de transmissão do conhecimento. Para isso, os recursos não verbais ganham espaço e assumem o papel de facilitador, associado ao texto verbal, da transposição didática do conteúdo da aula presencial para a modalidade a distância.

De acordo com o que é observado por Bronckart (1999[2009], 2006), o texto empírico se configura a partir do desdobramento de três camadas definidas como folhado textual. Esse desdobramento se configura pelas seguintes camadas do folhado: a infraestrutura geral; os mecanismo de textualização e os mecanismos enunciativos, definidos nos seguintes níveis estruturais.

Figura 28 – Níveis da arquitetura textual

Por se tratar de uma teoria essencialmente voltada para a análise das representações verbais, o desdobramento da arquitetura textual se voltará para os mecanismos verbais da comunidade linguageira. A infraestrutura do texto é constituída pelo que Bronckart (1999[2009]) define como plano geral, o qual se refere à organização do conteúdo temático em função das escolhas referentes aos tipo de discursos e às sequências responsáveis pela planificação da linguagem. Os mecanismos de textualização estão relacionados às séries isotópicas responsáveis pelo estabelecimento da coerência temática por meio dos dispositivos de coesão, e os mecanismo enunciativos dizem respeito à coerência pragmática, em que estão explícitas as constatações acerca de um conteúdo temático e do posicionamento do enunciador diante do que é enunciado. Para esta última camada, estão enquadradas as vozes e as modalizações presentes no discurso verbal.

Qualquer que seja a diversidade e a heterogeneidade dos componentes da infraestrutura de um texto empírico, ele constitui um todo coerente, uma unidade comunicativa articulada a uma situação de ação e destinada a ser compreendida e interpretada como tal por seus destinatários. Essa coerência geral procede, de um lado, do funcionamento dos mecanismos de textualização e, de outro, dos mecanismos enunciativos. (BRONCKART, 1999[2009], p.259).

Por se tratar de um quadro teórico recente e em ampla discussão, esse modelo de folhado textual apresentado inicialmente por Bronckart (1999), sofre alterações e, atualmente, compõe a seguinte proposta, ainda definida como folhado textual. Como dito por Bronckart (1999[2009], p. 134) diante da “plena consciência do caráter relativamente marginal dessa nossa escolha terminológica”, que “nos levaram a modificar a termonologia dominante, associando decididamente a noção de texto à de gênero, e a noção de tipo à

Mecanismos de textualização Infraestrutura Mecanismos enunciativos Tipos de discurso Eventuais sequências Conexão Coesão nominal Coesão verbal

Gestão das vozes

Figura 29 – Níveis da arquitetura textual (atual)

Diante deste quadro relacionado à estrutura da arquitetura textual, ousamos criar uma equivalência do que Bronckart (1999[2009], 2006) propõe como níveis para o esquema do arquitexto verbal ao que postula a linha teórica de estudos da imagem apresentada nesta pesquisa. Entretanto, reconhecemos que esse esquema apresenta uma visão não conclusa do que seria a arquitetura textual não verbal.

Vejamos, então, como seria o esquema dos três níveis estruturais superpostos para a arquitetura textual verbal.

Figura 30 – Níveis da arquitetura textual não verbal

Com base na proposta acima apresentada, consideramos fazer parte da camada denominada de infraestrutura as metafunções sistematizadas pela Gramática do Design Visual em representacional, interativa e composicional, como vimos no Capítulo 3 deste trabalho. De acordo com Bronckart (2006), a esta camada do folhado estão os elementos que constituem o nível mais profundo o que corresponde, entre outros aspectos, às escolhas linguísticas para determinar um texto enquanto narrativo ou expositivo e as suas sequencialidades. Nesse aspecto, reconhecemos que o nível mais profundo do texto não verbal está relacionado, para fins de composição sintática, às metafunções podendo apresentar representações simultâneas em uma mesma imagem, assim como, no texto verbal, pode haver

Mecanismos de textualização Infraestrutura Mecanismos enunciativos Metafunções (Segundo a GDV) Tipos de coesão (Segundo van Leeuwen) Ações multimodais/ Disposição gráfica Mecanismos de textualização Infraestrutura Mecanismos enunciativos Organização temática • Temática • Agonístico • Planificação Eventuais sequências • Tipos de discurso • Modos de articulação • Coesão verbal Conexão Coesão nominal

Gestão das vozes

articulações entre tipos de discurso, por meio do encaixamento de um segmento de discurso em outro.

No plano da textualidade, van Leeuwen (2005) apresenta quatro tipos de coesão que perpassam os textos multimodais, a saber: ritmo, composição, informações conectadas e diálogo. Assim como no texto verbal, a coerência no texto, reconhecido como unidade comunicativa, ocorre por meios da articulação de mecanismos que deem ao texto um caráter coeso, favorecendo a legibilidade da mensagem. Dessa forma, caracterizamos, na arquitetura textual, os tipos de coesão no que se refere à imagem como sendo mecanismos de textualização.

Por fim, na última camada do folhado, encontramos o mecanismo enunciativo. Para este nível, apresentamos as ações multimodais que consistem nas escolhas de um tipo de imagem ou outra como, por exemplo, um rabisco em grafite, uma fotografia em branco e preto, uma fotografia colorida, um desenho realista, entre outros, associadas à disposição

gráfica da imagem na materialização do texto. Compreendemos que esses mecanismos

“contribuem para o esclarecimento dos posicionamentos enunciativos” e “traduzem as diversas avaliações (julgamentos, opiniões, sentimentos) sobre alguns aspectos do conteúdo temático” (cf. Bronckart (1999[2009]). Logo, quando um agente-produtor escolhe uma imagem em forma de caricatura de um político em um determinado contexto conflituoso ou uma fotografia oficial, podemos inferir o seu julgamento em relação ao conteúdo temático. Nesse sentido, havendo o texto verbal, a conexão das informações entre os dispositivos verbais e não verbais garante a coerência do enunciado como todo.

Todos esses aspectos vão se apresentar como fatores relevantes no processo de constituição do plano geral do MDI. À primeira vista, reconhecemos a necessidade de ampliação dessa tentativa de diálogo entre a teoria da Semiótica Visual, especialmente a GDV, e o ISD. No entanto, sabemos que uma não sobressai em relação à outra. Entendemos que há possíveis direcionamentos para análise de texto e isso se torna factível em função das amplas discussões entre as muitas vertentes teóricas.

Capítulo 5 – Análise verbal e visual do MDI para EaD: representação dos