4 Iconicity I: iconic variables
4.3 Embedded loci: plurals
“Transfiro agora tudo o que disse acerca do estabelecimento do consciente e do inconsciente e de uma barreira entre eles, para uma suposta entidade que designo como „barreira de contacto‟ (...). O termo „barreira de contacto‟ enfatiza o estabelecimento de contacto entre consciente e inconsciente e a passagem selectiva de elementos de um para o outro.” (Bion 1962a, p. 17)150
Bion foi, tanto quanto esta investigação permitiu esclarecer, o único autor a usar este conceito para além de Freud, embora numa direcção completamente nova. Podemos ler, a este respeito, no artigo de Teising:
“Na minha perspectiva, Bion (1962) foi o único autor a considerar e desenvolver o conceito de Freud de barreira de contacto.” (Teising 2005, p. 1631)151
O que vem a ser, então, a barreira de contacto para Bion?
Em primeiro lugar, distancia-se de qualquer tipo de perspectiva fisiológica, pelo que se trata de uma noção e não de algo que podemos ver ou tocar. Contudo, o próprio Bion trata este conceito recorrendo a noções físicas, referindo-se à barreira de contacto como:
“(...) servindo a função de uma membrana (...)”(Bion 1962a, p. 22)152,
150 “I shall now transfer all that I have said about the establishment of conscious and
unconscious and a barrier between them to a supposed entity, that I designate a ―contact- barrier‖ (…). The term ―contact-barrier‖ emphasizes the establishment of contact between conscious and unconscious and the selective passage of elements from one to the other.” (Bon
1962a, p. 17)
151 “In my view, Bion (1962) is the only author to have taken up and developed Freud‘s concept
of the contact-barrier.” (Teising 2005, p. 1631)
150 ou como uma estrutura:
“(...) a barreira de contacto pode ser considerada, como sugere o nome que lhe dei, como tendo as características de uma estrutura.” (Bion 1962a, p. 26)153
Contudo, penso que não devemos fazer aqui uma leitura demasiado literal. As metáforas e analogias físicas são seguramente muito úteis na tentativa de obtenção de um quadro claro dos problemas envolvidos, em particular quando lidamos com ideias tão complexas e relativamente às quais não existe ainda qualquer trabalho realizado e estabelecido, contanto que se tomem estas imagens físicas apenas como o que creio serem apenas ajudantes de
pensamento.
A barreira de contacto é a „entidade‟ responsável por manter a distinção entre consciente e inconsciente e pela sua criação:
“A barreira de contacto é, assim, responsável pela preservação da distinção entre consciente e inconsciente e pelo seu nascimento.” (Bion 1962a, p. 27)154
O conceito de barreira de contacto, ao ser um instrumento conceptual no pensamento acerca de fundamentais aspectos da vida mental, representa uma função da mente que, não só é reponsável pela própria existência do inconsciente, mas também pela gestão da passagem de elementos entre o consciente e o inconsciente – é por este motivo, como veremos mais detalhadamente, que a barreira de contacto é crucial na preservação da saúde mental.
Quanto ao significado que o conceito tinha para Freud, haverá alguma semelhança entre „barreira de contacto‟ em Freud e em Bion? Diria que, para além da ideia de contacto e demarcação, a problematização da memória surge no pensamento de ambos dentro deste contexto.
153 “(...) the contact-barrier may be regarded, as the name I have given it suggests, as having
the characteristics of a structure.” (Bion 1962a, p. 26)
154 “The contact-barrier is therefore responsible for the preservation of the distinction between
151 Freud atribui à operação das “barreiras de contacto” a possibilidade de estas
representarem a memória – que assume uma importância central no
pensamento geral da psicologia, como podemos ler no Projecto Para uma
Psicologia Científica (1895):
“Uma teoria psicológica que mereça alguma consideração deve fornecer uma explicação da „memória‟.” (Freud 1895, p. 299)155
Neste aspecto singular, o modo como Freud e Bion pensam o conceito de “barreira de contacto” parece aproximar-se: para Bion, a “barreira de contacto” parece ser central na operação da memória. Como Bion escreve em Learning
From Experience (1962):
“A natureza da transição do consciente para o inconsciente, e vice-versa, e portanto também a natureza da barreira de contacto e dos elementos-alfa que a compõem, afectam a memória e as características de toda e qualquer memória.” (Bion 1962a, p. 18)156
É verdade , por outro lado, que Bion não se dedica a um estudo sério da memória, quer seguindo uma linha de pensamento mais tradicional, quer propondo uma perspectiva alternativa a este respeito. No entanto, a passagem acima citada é importante na medida em que enfatiza a natureza criativa da barreira de contacto – „afecta a memória e as características de toda e qualquer memória‟.
Assim, é claro que o conceito de barreira de contacto apresenta significados profundamente diferentes em Freud e em Bion, porquanto ambos trilharam percursos marcadamente diferentes e estruturados em singulares modelos da mente. Na introdução do artigo citado de Teising, podemos ler:
“Enquanto que para Freud, a barreira de contacto regula a quantidade de energia e funda uma estrutura topográfica, Bion considera a barreira de
155 “A psychological theory deserving any consideration must furnish an explanation of
‗memory‘.” (Freud 1895, p. 299)
156 “The nature of the transition from conscious to unconscious and vice versa, and therefore the
nature of the contact-barrier and its component alpha-elements affect memory and the characteristics of any given memory.” (Bion 1962a, p. 18)
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contacto como sendo uma função psíquica, que simultaneamente regula a demarcação de fronteira e produz o contacto.” (Teising 2005, p. 1627)157
De acordo com o que vimos no capítulo III, a possibilidade do inconsciente existe em virtude da produção de elementos-α pela função-α, isto é, os produtos com sentido das experiências emocionais transformados num estado de ‗awareness‟ – a barreira de contacto é constituída por estes elementos-α. Bion acrescenta:
“A função-alfa, quer durante o sono quer no estado de vigília, transforma em elementos-alfa as impressões sensíveis relacionadas com uma experiência emocional. Esses elementos-alfa, agregam-se à medida que vão proliferando, formando a barreira de contacto.” (Bion 1962a, p. 17)158
Assim, não só a origem do inconsciente, mas também a distinção entre consciente e inconsciente e a gestão dessa distinção dependem de uma bem sucedida operação da função-α e, mais precisamente, do seu resultado directo que é a barreira de contacto.
Este conceito de Bion aparece apenas brevemente em Learning From
Experience (1962). Por conseguinte, poderíamos perguntar-nos porquê
considerá-lo um tão importante conceito uma vez que o seu próprio autor não o explorou de modo mais extenso e aprofundado. A minha perspectiva pessoal é a de que Bion não chegou a dar-se conta do extraordinário progresso que o seu pensamento representa, nem, concretamente, das profundas consequências implicadas no conceito de barreira de contacto – esse foi um dos motivos subjacentes à escolha do tema deste trabalho. Num período de cerca de pouco mais de quinze anos, Bion prestou contributos preciosos ao desenvolvimento da psicanálise: o processo clínico em grupo e fundamentais descobertas acerca do funcionamento grupal; novos desenvolvimentos do
157 “Whereas for Freud the contact-barrier regulates the quantity of energy and founds a
topographical structure, Bion understands the contact-barrier as a psychic function that simultaneously regulates boundary demarcation and making contact.” (Teising 2005, p. 1627)
158 “The man‘s alpha-function whether in sleeping or waking transforms the sense-impressions
related to an emotional experience, into alpha-elements, which cohere as they proliferate to form the contact-barrier.” (Bion 1962a, p. 17)
153 conceito de identificação projectiva; a descoberta do papel crucial das emoções na vida mental; o conceito de “função-α”; novos desenvolvimentos acerca da natureza e do papel dos sonhos; o conceito de “barreira de contacto”. Vários destes pontos – ou se calhar todos eles – não foram elaborados e explorados exaustivamente por Bion, nem tão pouco, penso, ainda suficientemente apreendidos por todos nós.
Provavelmente, este facto terá contribuído para a situação que geralmente ainda permanece – independentemente da sua relevância, o conceito de barreira de contacto continua até hoje a não ter sido extensamente trabalhado por outros autores.
Realmente, esta investigação conduziu-me a este estranho facto: apesar da importância, quer para o desenvolvimento da psicanálise, quer para o pensamento filosófico, que a descoberta do que Bion denominou „barreira de contacto‟ representa, são ainda muito poucos os trabalhos conhecidos acerca deste tema.
Para além do trabalho citado de Teising (2005), encontramos referências na obra publicada de Ferro (2005, 2006), em vários artigos de Grotstein (Cf, por exemplo, 2004 e 2009), de Kohon (2014), e de Sarsfield Cabral (1998). As obras citadas de Ferro e Grotstein, indicam o lugar do conceito de barreira de contacto no contexto da obra de Bion, sem no entanto explorarem o seu significado nem as suas possíveis consequências, nem para o pensamento clínico e, muito menos, para o pensamento filosófico. A obra referida de Sarsfield Cabral, e não obstante ter colocado este conceito no sub-título da sua obra, penso que não problematiza a natureza da barreira de contacto, nem o seu lugar na concepção da função-α. Penso, por outro lado, que o recente artigo de Kohon, com um título muito prometedor (“Making Contact With the Primitive Mind: The Contact-Barrier, Beta-Elements and the Drives”), não contribui de modo relevante, nem para a descrição do conceito, nem para uma reflexão acerca dele.
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