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3 ASPECTS CLINIQUES

3.1 Efficacité comparative

demarcação da linha fronteiriça no terreno, já se notava a presença de insignificantes aglomerados populacionais constituídos, em sua maioria, por descendentes de indígenas guaranis paraguaios e caboclos brasileiros. São exemplos de tais aglomerados: Barracón\Barracão (hoje Dionísio Cerqueira\Barracão\Bernardo de

Irigoyen) e San Antonio\Santo Antônio do Sudoeste. O que chama atenção na história daqueles aglomerados é que, embora as ideologias políticas entre Brasil e Argentina tentassem separá-los e fortalecer identidades nacionais, os fronteiriços fariam daqueles espaços exatamente o contrário: promovem uma integração físico- social tão imbricada que, segundo a pesquisa de campo, até por volta de 1940, era difícil precisar onde realmente terminava o território brasileiro e começava o argentino. Os fronteiriços foram formando uma rede de parentesco transfronteiriça tão estreita que era praticamente impossível separar brasileiros de argentinos. Os contatos cotidianos entre indígenas guaranis paraguaios e misioneros, caboclos brasileiros e argentinos, resultavam frequentemente em casamento, o que foi promovendo a mescla que, aos olhos do poder, localizado no centro das escalas nacionais, seria verdadeira zona de incerteza identitária.

O aglomerado de Barracón\Barracão, por exemplo, não apenas sofreu a divisão como também a troca de nomes. No meio daquele insignificante aglomerado, em 1903 foi traçada a linha seca, e a parte que passou a pertencer ao Brasil foi logo elevada à categoria de vila com o nome de Dionísio Cerqueira. Sem dúvida, uma tentativa de diferenciar os dois lados, mas também uma forma de representar a soberania brasileira perante os argentinos naquela zona. Entretanto, ao contrário do que imaginavam os membros da comissão de limite brasileira, entre eles o General Dionísio Cerqueira, nem o nome e nem a condição de vila criou qualquer sentimento de pertencimento ao Brasil. Aliás, os fronteiriços continuaram, por muito tempo, a referenciar o lugar de Barracão\Barracón.

O fato de não aceitar o novo nome da vila brasileira pode ser entendido, de certa forma, como uma primeira oposição dos fronteiriços ao olhar da escala nacional sobre aquele lugar. A própria elevação à categoria de vila, inclusive determinando nomes de ruas que jamais existiriam, não era condizente com a realidade daquele pequeno aglomerado que sequer tinha casas comerciais. E os poucos moradores brasileiros eram trabalhadores totalmente dependentes dos ervateiros argentinos e moravam em casas de chão batido, com paredes de taquaras e cobertas de capim.

Os únicos indicativos da soberania brasileira eram os marcos fronteiriços, porém diante de uma situação de isolamento físico- geográfico e da marginalização política econômico-social, aqueles

marcos não teriam nenhum significado para os fronteiriços e logo ficaram encobertos pela vegetação. Não havia ali símbolos nacionais, escolas públicas e nem mesmo cartórios de registro civil que denotasse ser área de soberania brasileira. Após a passagem da comissão de limites, os brasileiros lá residentes passaram a viver como segregados do Brasil, totalmente à margem do Estado nacional, principalmente em questões de políticas públicas, como educação e saúde.

Já em lado argentino, a ideologia política do Estado nacional foi a de fortalecer a identidade nacional dos fronteiriços que, em sua maioria, eram indígenas descendentes de guaranis. Para pôr em prática tal objetivo o Estado nacional argentino institui escolas públicas na zona fronteiriça, equipamentos de auxílio político- ideológico, pois é através das escolas que os Estados repassam suas ideologias. Além disso, é através das escolas que ocorre o ensino oficial da língua de um país e, na visão dos Estados nacionais, esse ensino não é apenas um meio de comunicação, mas igualmente uma forma expressiva na formação de uma identidade nacional. Por isso, em 1909 foram instituídas duas escolas nacionais pelo governo do Território Nacional de Misiones (1881-953): a primeira em Barracón, Departamento Gral. Manoel Belgrano; a segunda em San Pedro, Departamento de San Pedro.

Em 1931, outra escola foi fundada em San Antonio, Departamento Gral. Manoel Belgrano. Entretanto, aquelas escolas, instituídas com forte ideologia política, se tornariam espaços de interações imateriais, já que todas as crianças brasileiras estudavam na Argentina. Portanto, ao contrário do que se possa imaginar, nem a instituição do limite internacional e nem as ideologias políticas dos dois Estados nacionais foram fatores de separação daqueles aglomerados geminados. E os habitantes, agora tornados fronteiriços, continuaram com seu sistema de relações, indiferentes ao limite territorial. Segundo a pesquisa de campo, a linha fronteiriça não foi, sob nenhuma hipótese, fator de rompimento de relações já estabelecidas anteriormente.

Embora tais relações assumissem caráter de interações transfronteiriças, na ausência de controle dos Estados nacionais, antigos moradores de ambos os lados do limite afirmam que, do começo do século XX até meados da década de 1940, “não havia fronteira”. Na verdade, a fronteira política não havia ainda sido

investida do poder controle fiscal e militar, o que explica tal percepção. Portanto, as interações que lá iam sendo tecidas entre os fronteiriços de um lado ao outro da linha fronteiriça contrariavam as políticas e ideologias do poder central das escalas nacionais e também todo um discurso sobre fronteira linear, território e identidade nacional. Em outras palavras, naqueles aglomerados, a representação da linha fronteiriça não tinha o mesmo significado político e ideológico dos Estados nacionais. Poderíamos pensar num “antilugar” onde o limite territorial é apagado pelo grupo que dele se apropria e o transforma em “lugar” de reencontros, de trocas e transações de todas as ordens. (VELASCO-GRACIET, 1995).

San Antonio\Santo Antônio também formavam um só aglomerado, mas ao contrário de Barracón\Barracão, não receberia tanta atenção política da comissão de limites brasileiro-argentina, pois já havia ali um elemento considerado fator divisório: o rio Santo Antônio, um “fiapo” de água corrente que passou a representar a linha internacional, por isso não houve preocupação na troca de nome daqueles aglomerados, apenas o lado brasileiro na década de 1950 acrescentaria o nome da região paranaense, ficando Santo Antônio do Sudoeste. Entretanto, diferentemente do olhar da comissão política de limites, os habitantes daquele aglomerado não viam o pequeno rio como fator de separação e nem de impedimento de quaisquer relações. Independente de suas nacionalidades, os habitantes daquele aglomerado tinham a liberdade de transitar e de instalar suas residências onde melhor lhes conviesse. Aliás, logo após a passagem da comissão de limites brasileiro-argentina, os habitantes de San Antonio\Santo Antônio do Sudoeste construíram uma ponte de madeira sobre o rio Santo Antônio. Na pesquisa de campo se constatou que aquela construção, sem prévia autorização do Brasil nem da Argentina, teria sido a primeira ligação física por pontes sobre rios entre o Brasil e a Argentina.

A ponte era, sem dúvida, uma necessidade para a travessia dos cargueiros de mulas no transporte da erva-mate do Brasil para os portos argentinos, mas o rio nunca foi fator de separação aos fronteiriços de San Antonio\Santo Antônio do Sudoeste. Portanto, pode-se dizer que a representação da linha fronteiriça pelo rio Santo Antônio não provocou sequelas naquele aglomerado, pois os habitantes continuaram a interagir, indiferentes ao sentido político e ideológico do limite internacional, concebendo aquele espaço como

um só aglomerado no começo do século XX. “San Antonio\Santo Antônio do Sudoeste era um só povoadinho, todo mundo morava lá e aqui e não tinha diferença, porque naquele tempo não se falava de fronteira, tudo era livre, morava aqui ou lá, comprava aqui ou lá, ia e vinha, era tudo assim”.112 Aquela lógica fronteiriça, de espaço “livre” de normas restritivas dos territórios nacionais, era, em parte, determinada pelo próprio cotidiano dos fronteiriços, o que foi contribuindo na formação de um conjunto socioterritorial entre os dois lados do limite e que mais tarde resultaria na conurbação das malhas urbanas de Santo Antônio do Sudoeste\San Antonio.

Portanto, da mesma forma que Barracão\Barracón, a integração físico-social de Santo Antônio do Sudoeste\San Antonio, fazia com que os fronteiriços também tivessem a noção de espaço “sem fronteira”, ou ainda, espaço sem “passaporte tapejara”, o que na língua guarani significa ter a liberdade de ir e vir de um lado a outro sem precisar pedir autorização ao dono do caminho, neste caso ao Brasil ou à Argentina. As interações socioeconômicas que lá iam se estabelecendo entre os dois lados do limite não eram consideradas transgressivas de normas territoriais. A esse respeito é interessante observarmos o depoimento abaixo.

[...], antes não havia contrabando, todo mundo levava e trazia o que queria e ninguém se importava. A gente passava e ninguém perguntava donde ia nem donde vinha. Meu pai era correntino, conheceu isso tudo em 1904, [...]. Naquele tempo todo mundo vizinhava porque

frontera não havia, não havia pesos e nem miles de réis, o

que havia era hojas do mate, esse era o diñero. Eu falo guarani, português e espanhol porque trabajava com os ervateiros, aí, cada grupo falava uma língua e tinha que se virá, uma barbaridade, Deus o livre! Eu cortei muita erva pro Matiauda, e os cortador dele, quase tudo índio guarani, né, foi aí que aprendi o guarani [...].113

Ainda que os ervateiros tivessem noção do limite político territorial, a liberdade de circulação franqueada pela ausência de controle dos Estados nacionais remetia a um espaço sem fronteira. Por essa lógica, as interações cotidianas lá estabelecidas não tinham

112Entrevista realizada com Francisco Ortega, 83 anos de idade, brasileiro de nascimento,

residente em em San Antonio, agosto de 2008.

113Entrevista realizada com Raul Lindau, 97 anos de idade, residente em Dos Hermanas

conotação de “contrabando”. Ou seja, o que era transgressão de normas territoriais para centros de poderes nacionais era um sistema de alianças para os fronteiriços. Ainda que lá predominasse o peso argentino, a moeda circulante eram as folhas do mate, daí a lógica de que não havia a circulação de “pesos e nem miles de réis”. A língua falada, “que é, sem nenhuma dúvida, um dos mais poderosos meios de identidade de que dispõe uma população” (RAFFESTIN, 1993, p. 97), era no começo do século XX uma mistura de três idiomas: o guarani, o espanhol e o português.

No entanto, é importante esclarecer que, embora os fronteiriços falassem uma mistura dessas três línguas, naquele período havia certa influência da língua espanhola sobre as demais, fato que se explica, em parte, pela presença das escolas argentinas naquela zona fronteiriça. Como já comentado, aquelas escolas não foram instituídas meramente para a alfabetização, elas eram instrumentos políticos de fortalecimento identitário, e naquele período a Argentina acreditava seguramente que a identidade nacional passava pela educação. Porém, na visão de um professor de San Antonio:

[...] a identidade não passa unicamente pela educação, prova disso é essa zona. A língua que é tomada como fator de identidade pelo governo e também pelos educadores, porque esses, também, não respeitaram o capital cultural da região, não conseguiu, sob nenhum ponto de vista, evitar que as pessoas continuassem a falar suas línguas de origem, [...]. Posteriormente o governo argentino estabelece guarnições pra controlar a fronteira, mas nem com escolas nem com militares se fortificou a identidade nacional naquele período, porque aqui é uma zona de fronteira muito especial, uma zona de culturas em contato, então, se se toma por base os primeiros povoadores, tínhamos criollos que falavam o português, argentinos que falavam o espanhol e os misioneros e paraguaios que falavam o castelhano, mas também o guarani, porque vinham dessa região guaranítica. Então temos uma mistura muito forte nessa zona [...]. Hoje já é diferente, hoje 90% da população do nordeste de

Misiones fala português, [...].114

Portanto, ao invés de fortalecerem a identidade nacional, as escolas argentinas tornaram-se espaços de interações imateriais, pois como no lado brasileiro não havia escolas, todas as crianças estudavam na Argentina. E certamente na visão do Estado nacional isso era uma desnacionalização, já que as crianças brasileiras aprendiam símbolos e datas importantes do país vizinho e desconheciam os símbolos de seu próprio país, além, é claro, de aprender a ler e escrever a língua do vizinho. Mas, diferentemente da visão dos Estados nacionais, em zonas fronteiriças, falar, ler e escrever a língua do vizinho não é fortalecer uma identidade nacional e nem mesmo se desnacionalizar: é acima de tudo compreender valores imateriais de outra cultura que geram fatalmente novos valores, como o respeito por indivíduos de outras culturas.

Assim, durante as três primeiras décadas do século XX, os fronteiriços, ao contrário das ideologias políticas nacionais, fizeram daquelas escolas verdadeiros espaços de interações imateriais, pois a educação é por natureza um bem cultural imaterial. Além disso, naquelas escolas não ocorria apenas a alfabetização, mas igualmente reencontros cotidianos de filhos de paraguaios, argentinos e brasileiros. Por conseguinte, um espaço de contato entre culturas diferenciadas, onde as crianças aprendiam e internalizavam valores imateriais, como a amizade e o respeito pela cultura do outro.

É curioso notar que, embora no espaço escolar fosse proibido falar outra língua que não o espanhol, aquela proibição, em tese, não ocorria, pois segundo entrevista o filho de uma das primeiras professoras da Escuela Nacional 604, de Barracón, hoje Bernardo de Irigoyen, naquele período nem os professores escapavam da influência da mescla das línguas faladas cotidianamente, e muitas vezes acabavam por falar e escrever termos que não eram nem da língua espanhola e nem da portuguesa, mas uma mistura das duas.115 Além disso, fora do espaço escolar, principalmente no seio familiar, a língua falada continuava a ser a materna, e os filhos nascidos de casamentos mistos, cujos pais tinham nacionalidades diferentes, a língua falada era uma mistura das duas. A ausência de registro impede-nos de quantificar o número de alunos brasileiros que foram alfabetizados nas escolas argentinas, mas a pesquisa de campo revelou que a implantação daqueles fixos da educação gerou

importantes fluxos de brasileiros em busca de um bem cultural imaterial, a educação. Dona Dorvalina de Lara, residente em Dionísio Cerqueira, aos 90 anos de idade, ainda guarda sentimentos de gratidão à nação argentina por sua alfabetização na Escuela 604 de Bernardo de Irigoyen e também pelas relações de amizade construídas naquele espaço escolar e afirma: “se hoje eu sei ler e escrever, foi graças à Argentina, porque aqui não tinha escola e nem professor [...].116

Tais interações imateriais não se limitavam às crianças dos pequenos aglomerados brasileiros de Dionísio Cerqueira, Barracão e Santo Antônio do Sudoeste, envolviam também a antiga região de Campo Erê e, em menor escala, a de Clevelândia. Entretanto, aqueles núcleos populacionais ficavam a uma distância aproximada de 110 quilômetros de San Antonio e 77 quilômetros de Bernardo de Irigoyen. Diante do distanciamento físico-geográfico e não havendo transporte rápido naquele período, as crianças em período escolar eram deixadas pelos pais em casas de parentes, amigos e famílias conhecidas, nas proximidades das escolas argentinas, como indica o depoimento de um professor de San Antonio.

[...], as crianças brasileiras dessa região toda ali de Campo Erê estudavam aqui na Argentina, fizeram as primeiras letras aqui nas escolas argentinas, porque após a demarcação do limite, a região brasileira sofre um abandono quase que total do Estado nacional até meados de 1950. Então, como não tinha escola do outro lado, vinham estudar aqui. Onde tinham crianças, os pais as mandava pra cá, pra estudar nessas escolas. Vinham de vários lugares, as que vinham de lugares mais distantes, como dos núcleos de Campo Erê, Clevelândia e ao redor deles, ficavam em casas de famílias aqui nesta zona, porque era longe e não tinha transporte para trazê-las; o único meio de transporte naquela época eram as mulas, mas elas também não eram tão rápidas para fazer 100 quilômetros em meio dia. [...].117

Já as crianças que moravam entre 10 e 20 quilômetros das escolas argentinas percorriam diariamente aquelas distâncias a pé ou em lombo de mulas. Segundo entrevista com o ex-aluno da escola de

116

Entrevista realizada com Dorvalina de Lara em Dionísio Cerqueira, março de 2008. Alguns meses após nossa entrevista, Dorvalina de Lara faleceu em Dionísio Cerqueira.

San Antonio, Francisco Ortega, brasileiro de nascimento, hoje residente em San Antonio, muitos brasileirinhos enfrentavam rigorosos invernos e inclusive certos perigos para chegar até as escolas argentinas. Os caminhos que os levavam a elas se resumiam a meras picadas em meio à mata, e naquele período havia muitos animais temidos tanto por adultos quanto por crianças, como a onça pintada, também chamada de tigre. Em suas palavras:

[...], tinha quantia de gente que vinha do Brasil pra estudar aqui na Argentina. Eu estudei aqui em San

Antonio, ela (esposa), minha irmã, a mãe do professor

Cabral. Bom, todos que moravam lá vinham pra cá, porque ali no Brasil ainda não tinha escola, isso veio em 1950, por aí. A escola era uma casa do Arrachea, ali onde agora tem uma bomba de gasolina. Naquele tempo, quando comecei a vir na escola, o pai morava na linha Glória, dez quilômetros daqui, eu e a Bárbara, minha irmã, saía de lá de madrugada pra vir estudá aqui de manhã. E naquele tempo tinha muitos tigres (onça pintada), então o tigre vinha gritando em roda do caminho, e a Bárbara, Deus o livre!, tinha um medão que se pelava! O tigre gritava por causa dos bichos (animais) que matava, [...]. Naquele tempo era um desastre no inverno, porque dava muita neve e muita geada, as árvores grandes ficavam tudo branco de gelo e quando dava garoa essa logo formava a neve e a neve quando ia caindo fazia aquele barulhinho no mato. Era lindo, mas muito, muito frio! Eu, num inverno brabo, quando voltava pra casa, quase morri, fiquei todo duro, aí passou um cargueiro e me colocou dentro duma bruaca e tô aqui até hoje, (risos), [...].118

Ainda que não seja possível quantificarmos os fluxos, podemos dizer que as escolas argentinas foram fatores de atratividade e emissividade de fluxos cotidianos de crianças brasileiras em lado argentino. Assim, considerando que por cerca de trinta anos as crianças brasileiras estudaram nas escolas argentinas, podemos dizer que no lado brasileiro formou-se uma região bilíngue, pois as crianças brasileiras, além da língua materna transmitida pelos pais, aprendiam oficialmente a ler, escrever e falar o espanhol. Além disso, no cotidiano das interações transfronteiriças, os brasileiros

acabavam por aprender informalmente a língua espanhola, o que reforça a ideia de uma região bilíngue envolvendo a antiga região de Campo Erê, e em menor grau Clevelândia, passando por Santo Antônio do Sudoeste, Barracão e Dionísio Cerqueira, dali chegando às escolas localizadas em Barracón (hoje Bernardo de Irigoyen) e San Antonio. (ver Figura 16).

A escola de San Pedro não exerceu a mesma atratividade que as escolas localizadas em Bernardo de Irigoyen e San Antonio. Segundo a pesquisa de campo, tal fato se deve à distância físico- geográfica, o que inviabilizava a frequência cotidiana de estudantes brasileirinhos naquela escola. Mas, como aquele município argentino tinha uma população formada majoritariamente por indígenas guaranis do Paraguai e migrantes brasileiros, principalmente de

Campo Erê e Rio Grande do Sul, aquela escola alfabetizava muito mais filhos de indígenas e de brasileiros do que filhos de argentinos. Sem dúvida a língua corrente ali era o espanhol, mas fora da escola os brasileiros continuavam a falar o português, e os indígenas, o guarani.

É interessante notar que no conjunto das interações, tanto materiais quanto imateriais, cada objeto fixo implantado num dos lados do limite e não em outro gerava uma tipologia de fluxos, como ocorreu com a implantação do cartório de registro civil em Bernardo de Irigoyen, que foi fator de atratividade e gerou significativas interações imateriais de brasileiros que buscavam aquele serviço público inexistente em Santo Antônio do Sudoeste, Barracão e Dionísio Cerqueira. Além disso, todos os casamentos, óbitos e contratos comerciais eram registrados nos cartórios argentinos. Assim, todas as crianças nascidas em território brasileiro eram registradas na Argentina, e os meninos, quando completavam maioridade, mesmo morando em território brasileiro, eram convocados a servir o exército argentino. Anos mais tarde, aquelas