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As perspectivas acerca do futuro energético proporcionaram mudanças significativas na economia, implicando na alteração do comportamento produtivo e competitivo das organizações. Estas perspectivas têm levando ao aumento da utilização de energia proveniente de fontes renováveis, a exemplo da eólica, tornando-se uma parte cada vez mais importante das estratégias de muitos países para alcançar reduções nas emissões de gases do efeito estufa (FAN; WANG, 2016).
Segundo Kolk e Pinkse (2007), as empresas têm desenvolvido estratégias para lidar com os efeitos dessas mudanças devido à necessidade do cumprimento de regulamentações de acordo com os ramos de atividades que elas desempenham e à pressão pública para a adoção de medidas coerentes com o papel que delas se espera, que hoje transcende a maximização dos lucros, a geração de bens e a prestação de serviços. Eles acrescentam também que a mudança na gestão empresarial relacionada à questão da sustentabilidade deve ser realizada mediante a participação de todas as partes interessadas (stakeholders), como a comunidade, os fornecedores de tecnologia e os concorrentes (KOLK; PINKSE, 2007).
Lewis e Wiser (2007) afirmam que os países que desejam desempenhar um papel de liderança na indústria de fabricação de energia eólica, independentemente das motivações, benefícios e barreiras à fabricação local de aerogeradores, terão de desenvolver um mercado interno estável e considerável, capaz de absorver a produção de eletricidade e instalar a cadeia produtiva para a utilização de energia eólica. Em contrapartida, do ponto de vista da indústria, faz-se necessário conhecer a estrutura do mercado onde se deseja atuar para compreender a concorrência e identificar as características estruturais fundamentais para se alcançar a vantagem competitiva.
Neste contexto, emerge o conceito de cadeias produtivas. Estas, segundo Prochnik e Haguenauer (2001), são resultantes do aumento da divisão do trabalho e da crescente
interdependência entre os agentes econômicos. Se, por um lado, são criadas pelo processo de desintegração vertical e especialização técnica e social, sob outra perspectiva, são as pressões competitivas por maior integração e coordenação entre as atividades, ao longo das cadeias, que reforçam a articulação entre os agentes. De modo geral, as cadeias produtivas podem ser definidas como “um conjunto de etapas consecutivas pelas quais passam e vão sendo transformados e transferidos os diversos insumos” (PROCHNIK; HAGUENAUER, 2001, p. 2).
Na visão de Pires (2001, p. 75), a cadeia produtiva pode ser conceituada como “um conjunto articulado de atividades econômicas integradas como consequência da relação, em termos de mercados, entre tecnologia, organização e capitais”. Ainda de acordo com o autor, ela pode ser visualizada por meio de uma sucessão de operações de transformação que são dissociáveis, ou seja, capazes de serem separadas e interligadas entre si por intermédio de um encadeamento técnico, sendo complementada por um conjunto de relações comerciais e financeiras que estabelecem, em todos os segmentos, um fluxo de trocas entre fornecedores e clientes (PIRES, 2001).
Além disso, conforme abordado por Elola et al. (2013), o conceito de cadeia produtiva vem se aprimorando devido, principalmente, à globalização, à evolução dos mercados consumidores e à implementação de tecnologias nos processos produtivos. Destaca- se neste segmento a cadeia produtiva da indústria de energia eólica, na qual se observa a ligação e inter-relação dos vários elementos.
Desta maneira, pode-se afirmar, de acordo com Prochnik e Vaz (2002), que o termo “cadeia produtiva” se refere mais a situações em que há uma sequência mais linear de setores, a exemplo do setor de agronegócio, mas, que existe comumente o entrelaçamento de cadeias que formam ligações mais complexas, se espalhando de forma não uniforme por toda a economia, denominada complexos industriais.
Com pontos convergentes a Prochnik e Vaz (2002), Haguenauer et al. (2001) afirmam que é praticamente impossível, em uma estrutura industrial razoavelmente desenvolvida, a delimitação de cadeias produtivas, devido, principalmente, à interdependência geral das atividades e à possibilidade de substituição de insumos, fundamentando o conceito de complexos industriais, definidos como os conjuntos de cadeias produtivas que têm origem nas mesmas atividades ou convergem para as mesmas indústrias ou mercados.
Nessa configuração, considera-se que os complexos industriais também são cadeias produtivas, porém em um nível de estruturação mais complexo. Também não é rara a
tendência de conjugar os termos cadeias produtivas e clusters (aglomerações ou arranjos), cuja abordagem defende a ideia da aglomeração de empresas localizadas em um mesmo território, em um ambiente competitivo e com distintos graus de poder, que apresentam especialização produtiva e mantêm vínculos de articulação, interação, cooperação e aprendizagem entre si e com outros atores locais, tais como: governo, associações empresariais e instituições de crédito, ensino e pesquisa (CARDOSO et al., 2014; COSTA, 2010). Assim, pode-se afirmar que estudos sobre aglomerações locais também constituem trabalhos sobre cadeias produtivas, porém, essas cadeias são mais localizadas e/ou restritas em termos de composição setorial e alcance geográfico (PROCHNIK; VAZ, 2002).
He et al. (2016) afirmam que uma condição crucial para o sucesso de um cluster da indústria de energia eólica é o acesso a recurso humano altamente qualificado e conhecimentos especializados relacionados à tecnologia. Para esses autores, a difusão de conhecimento e tecnologia dentro do cluster deve ser alcançada, processada, utilizada, inovada e difundida por meio de uma estreita cooperação entre os stakeholders. Eles ressaltam também, que o mercado é a pré-condição para o estabelecimento de um cluster industrial, sendo entendido a partir dos seguintes aspectos: demanda do mercado é a força motriz para o desenvolvimento de clusters industriais, capacidade de mercado é uma exigência inerente à promoção da aglomeração de empresas de um cluster e estrutura de mercado é a fonte de vantagem competitiva para as empresas de um cluster (HE et al., 2016).
De modo geral, uma cadeia produtiva pode ser segmentada em diversos macro segmentos ou mercados. Essa divisão pode variar muito a depender do tipo de produto e do objeto de análise. No caso da indústria eólica, segundo Yuan et al. (2014), a cadeia de fornecimento é composta por fornecedores de matérias-primas, fabricantes de componentes, fabricantes de aerogeradores, desenvolvedores e/ou operadores de parques eólicos, operadores de rede e fornecedores de serviços relacionados.
Ainda de acordo com Yuan et al. (2014), em perspectiva da cadeia de suprimentos, a indústria de energia eólica pode ser dividida em duas partes: a montante e a jusante. A montante é composta por fornecedores de matérias-primas, componentes e peças, prestadores de serviços de tecnologia, fabricantes de aerogeradores e desenvolvedores de parques eólicos. Os fornecedores ofertam as matérias-primas iniciais para que outras empresas avancem no processo de produção de componentes; os prestadores de serviços de tecnologia fornecem componentes ou serviços para os fabricantes de aerogeradores; os fabricantes são responsáveis pela transformação das matérias-primas em produtos finais (aerogeradores); e os
desenvolvedores de parques (investidores) realizam investimentos em infraestrutura para a implantação de parques eólicos.
A jusante é constituída pela comercialização, representada por empresas que estão em contato com o cliente final da cadeia de produção e que viabilizam o consumo, por meio dos operadores de parques eólicos, empresas de rede, clientes finais e futuros clientes/distribuidores equipados com instalações de armazenamento de energia (YUAN et
al., 2014).
Souza et al. (2005) acrescentam que para realizar a análise das cadeias produtivas é necessário considerar os ambientes onde elas estão inseridas, como institucional, organizacional e empresarial. O primeiro se refere aos fatores que diferenciam a sociedade, envolvendo as políticas setoriais que refletem na modernização do setor, nas inovações tecnológicas e no comportamento das empresas e dos negócios. Já o ambiente organizacional compreende as universidades, os órgãos de pesquisa, a normalização, a fiscalização, as associações, as cooperativas, os sindicatos e as próprias empresas, compondo uma estrutura de suporte ao funcionamento das cadeias produtivas. Por fim, o ambiente empresarial constitui os subsistemas internos das empresas, representados pelos recursos humanos, materiais, financeiros, tecnológicos e pela gestão empregada no dia-a-dia, além dos procedimentos operacionais utilizados nos processos produtivos, que refletem no sistema de qualidade dos produtos.
Ademais, diante dos conceitos discutidos acerca da cadeia produtiva na indústria de energia eólica, a Figura 3 retrata sua estrutura e suas relações.
Figura 3 – Cadeia de produção da indústria eólica.
Nesta pesquisa, o enfoque será dado à montante da cadeia produtiva, contemplando os fornecedores, fabricantes de peças, subcomponentes e componentes, os fabricantes de aerogeradores (mais conhecidos como montadoras), e, por fim, os investidores dos parques eólicos.