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“Conteúdos de ensino são o conjunto de conhecimentos, habilidades, hábitos, modos valorativos e atitudinais de atuação social, organizados pedagógica e didaticamente, tendo em vista a assimilação ativa e aplicação pelos alunos de sua prática de vida. Englobam, portanto: conceitos, idéias, fatos, processos, princípios, leis científicas, regras; habilidades cognoscitivas, modos de atividade, métodos de compreensão e aplicação, hábitos de estudo, de trabalho e de convivência social; valores, convicções, atitudes. São expressos nos programas oficiais, nos livros didáticos, nos planos de ensino e de aula, nas aulas, nas atitudes e convicções do professor, nos exercícios, nos métodos e formas de organização do ensino.”

Libâneo (1990)

Essa excelente definição de Libâneo expressa completamente o que se entende por conteúdos de ensino, de uma forma complexa e não simplista. Não há uma definição em poucas palavras que pudesse satisfazer com todo o significado dos conteúdos de ensino, pois ele é ‘tudo o que se ensina visando atingir objetivos educacionais e instrucionais’.

Por um lado, os conteúdos ocupam o lugar dos conhecimentos socialmente construídos pela humanidade; ainda podemos dizer que são também os modos de ação culturalmente determinados pela sociedade; acrescentando, também são as descobertas científicas condensadas em

necessidades de conhecimento de toda a população, permitindo acompanhar a evolução científica cuja qual a sociedade conquistou.

Quanto à divisão em elementos dos conteúdos de ensino, temos várias classificações. Entretanto, duas se destacam dentre as utilizadas pelos teóricos da Didática e da Pedagogia. Uma delas é a de Libâneo (1990), que divide entre

os conhecimentos sistematizados como sendo a base da instrução e do

ensino, os objetos de assimilação e meio indispensável para o desenvolvimento global da personalidade; as habilidades como sendo as qualidades intelectuais necessárias para a atividade mental no processo de assimilação de conhecimentos e os hábitos como sendo os modos de agir relativamente automatizados que tornam mais eficaz o estudo ativo e independente; as atitudes e convicções se referindo a modos de agir, sentir e se posicionar frente a tarefas da vida social. Libâneo (1990) se refere a estes elementos como formadores da capacidade de conhecimento (ou cognocitiva) da formação dos indivíduos.

Outra classificação interessante é a dos Parâmetros Curriculares Nacionais, os PCNs (Brasil, 1997). Eles dizem que a organização dos conteúdos, tem sido marcada pela linearidade e pela segmentação dos assuntos. No entanto, para que a aprendizagem possa ser significativa é preciso que os conteúdos sejam analisados e abordados de modo a formarem uma rede de significados. A hipótese deles parte da premissa de que compreender é apreender o significado, e de que para apreender o significado de um objeto ou de um acontecimento é preciso vê-lo em suas relações com outros objetos ou acontecimentos; é possível dizer que a idéia de conhecer assemelha-se à de tecer uma teia. Tal fato evidencia os limites dos modelos lineares de organização curricular que se baseiam na concepção de conhecimento como “acúmulo” e indica a necessidade de romper essa linearidade.

Segundo os PCNs (Brasil, 1997) é importante deixar claro que, na escolha dos conteúdos a serem trabalhados, é preciso considerá-los numa perspectiva mais ampla, que leve em conta o papel, não somente dos conteúdos de natureza conceitual — que têm sido tradicionalmente predominantes —, mas também dos de natureza procedimental e atitudinal.

Para os PCNs, os conteúdos têm de levar em conta as três dimensões: Conceitual, Procedimental e Atitudinal.

Os conteúdos de natureza conceitual, que envolvem a abordagem de conceitos, fatos e princípios, referem-se à construção ativa das capacidades intelectuais para operar com símbolos, signos, idéias, imagens que permitem representar a realidade. Tal aprendizado está diretamente relacionado à segunda categoria de conteúdos: a de natureza procedimental.

Os procedimentos expressam um saber fazer, que envolve tomar decisões e realizar uma série de ações, de forma ordenada e não aleatória,

para atingir uma meta. Os conteúdos procedimentais sempre estão presentes nos projetos de ensino, pois realizar uma pesquisa, desenvolver um experimento, fazer um resumo, construir uma maquete, são proposições de ações presentes nas salas de aula.

A terceira categoria diz respeito aos conteúdos de natureza atitudinal, que incluem normas, valores e atitudes, que permeiam todo o conhecimento escolar. A escola é um contexto socializador, gerador de atitudes relativas ao conhecimento, ao professor, aos colegas, às disciplinas, às tarefas e à sociedade. A não compreensão de atitudes, valores e normas como conteúdos escolares faz com que estes sejam comunicados, sobretudo de forma inadvertida — acabam por serem aprendidos sem que haja uma deliberação clara sobre esse ensinamento.

Finalizando com esta proposta, é colocado de maneira muito importante que dada à diversidade existente no país, é natural e desejável que ocorram alterações no quadro de conteúdos proposto nos Parâmetros Curriculares Nacionais tendo em vista que a definição dos conteúdos a serem tratados, em cada sala de aula, deve considerar o desenvolvimento de capacidades adequadas às características sociais, culturais e econômicas particulares de cada localidade.

Assim, na mesma direção dos PCNs, a definição de conteúdos é uma referência suficientemente aberta para técnicos e professores analisarem, refletirem e tomarem decisões de escolhas, em função das necessidades de aprendizagem de seus alunos.

Acreditamos que a escolha de conteúdos deva ir além dos programas oficiais e da simples organização lógica da matéria, ligando-se às exigências teóricas e práticas da vida social. Tais exigências devem ser consideradas em três sentidos. Primeiro: a participação na prática social, no mundo do trabalho, da política, da cultura, requer o domínio de conhecimentos básicos e habilidades intelectuais, como por exemplo, a leitura, a escrita, o cálculo, a história, as ciências, à geografia, etc. Segundo: a ligação entre tudo o que se aprende na escola com os problemas a serem resolvidos na vida social diária.

Terceiro: a questão do rendimento escolar dos alunos tem interferências na

condição social de cada um. É preciso uma interferência nos conteúdos para que haja uma superação da desigualdade em termos de acesso e permanência na escola por parte de TODOS.

Sobre os conteúdos e o livro didático temos um alerta importante para que o professor não venha a utilizá-lo sem uma prévia reflexão crítica a respeito do que ele está veiculando. Vejamos o que Libâneo (1990) diz a respeito:

“ Ao recorrer ao livro didático para escolher os conteúdos, elaborar o plano de ensino e de aulas, é necessário ao professor o domínio seguro da matéria e bastante sensibilidade crítica. De um lado, os seus conteúdos são necessários e,

quanto mais aprofundados, mais possibilitam um conhecimento crítico dos objetos de estudo, pois os conhecimentos sempre abrem novas perspectivas e alargam a compreensão do mundo. Por outro lado, esses conteúdos não podem ser tomados como estáticos, imutáveis e sempre verdadeiros. É preciso, pois, confrontá-los com a prática de vida dos alunos e com a realidade. Em certo sentido, os livros, ao expressarem o modo de ver de determinados segmentos da sociedade, fornecem ao professor uma oportunidade de conhecer como as classes dominantes explicam as realidades sociais e como dissimulam o real; e podem ajudar os alunos a confrontarem o conteúdo do livro com a experiência prática real em relação a esse conteúdo.”

Dessa forma, precisamos ter um posicionamento suficientemente capaz de não seguir as cegas o que diz nos livros, conhecendo a matéria de maneira mais aprofundada e selecionando a maneira como deve ser ensinadas aos alunos, para que se apropriem de maneira crítica e engajada na dinâmica da sociedade em toda a complexidade que ela comporta.

Se falamos sobre os objetivos educacionais e os correspondentes conteúdos, precisamos saber a maneira mais apropriada para se organizar o ensino aos alunos. Esse é exatamente o próximo tema a ser tratado.