em desvelar as formas sutis, porém tenazes de “dominação e violência simbólicas”. Para ele, o simbólico é importante por não se tratar do irreal, mas de um real camuflado e que, por ser velado, é mais efetivo e irrefutável.
Em sua análise da moda, o autor lança mão de conceitos fundamentais em sua obra, como os de habitus, campo e capital simbólico, com os quais pretende estabelecer uma complexificação do marxismo ao sugerir que a dominação não advém apenas da posse de capital econômico, mas da distinção trazida pela incorporação dos capitais científico, cultural e simbólico nos habitus individuais, nos gostos e nos estilos de vida, isto é, no “conjunto de
disposições adquiridas” conforme a posição dos indivíduos nos diversos campos que constituiriam a sociedade.
O pensador francês considera a moda como um desses campos nos quais os indivíduos e classes competem por distinção e reconhecimento social. Ela seria um “bem simbólico” que caracterizaria um “modelo válido para todos os consumos simbólicos”. Seria ainda uma modalidade de consumo cultural, na medida em que envolve o consumo de signos e imagens. Explicita-se, assim, a existência de relações entre moda e cultura: além de se constituir como parte da esfera simbólico-cultural das sociedades contemporâneas, a moda seria integrante da cultura na medida em que possui implicações na configuração social do gosto estético. Ela estaria vinculada ao habitus por ser expressão do gosto individual socialmente formatado segundo a posição dos indivíduos nos diversos campos sociais. Para Bourdieu, o gosto é
classificador e classificatório, classificando o classificador. Nos gostos e preferências haveria
uma lógica de classificação distintiva que estaria ligada às condições materiais de existência, as quais se expressariam no ethos e no habitus de indivíduos e grupos.
Embora algumas idéias sobre moda estejam disseminadas ao longo de sua extensa obra, é em um texto escrito a quatro mãos com Yvette Desaut em 1973, denominado O
Costureiro e sua Grife. Contribuição para uma teoria da magia, que o autor trata
especificamente do tema e desvela a estrutura da Alta Costura. Esta é considerada como um campo no qual os estilistas disputam posições mediante a competição por capital simbólico. Para Bourdieu, este capital é o lastro da legitimidade e se distribui diferentemente entre as
maisons.
O campo da Alta Costura seria constituído por duas alas: a da direita e a da esquerda. Na primeira estariam os estilistas estabelecidos e dominantes, articuladores de estratégias de conservação. Já a segunda seria marcada pela presença dos “pretendentes”, representantes da vanguarda. Contudo, para Bourdieu, a vanguarda da moda possui caráter particular e as
mudanças promovidas por ela devem ser mantidas nos limites do próprio jogo da moda, ele mesmo permeado estruturalmente por mudanças. Os “recém-chegados” desenvolveriam estratégias de subversão e disputariam o monopólio da legitimidade dentro do campo, cujo movimento seria conferido por essa disputa.
De acordo com o autor, esse movimento levaria a uma “lei de destruição que, neste universo, se afirma abertamente e toma a forma de uma ruptura obrigatória, efetuada com data fixa, a partir dos cânones do ano anterior”.(2004, p.143). O tempo de uso de cada moda seria arbitrariamente delimitado e a degradação do valor comercial e simbólico dos bens de moda corresponderia à sua disseminação entre as classes sociais, o que deterioraria o poder de distinção desses produtos. Desse modo, nota-se que o valor distintivo é, para o autor, relacional, ou seja, relativo à estrutura do campo na qual se define.
O movimento de valorização e desvalorização aparenta advir de um poder mágico, conferido pelo “capital de autoridade” associado à posição dominante no campo. Assim, a imposição do valor é caracterizada por uma espécie de “transubstanciação simbólica”. Por meio desta, se produz a eficácia da grife mediante uma modificação do produto que, sem alterá-lo, transforma seu valor econômico e simbólico. A grife é definida pelo autor como essa transferência do valor simbólico por um processo de “alquimia social” que altera a qualidade social de um produto sem modificá-lo.
Resgatando o característico foco antropológico, Bourdieu afirma que
[...] se há uma situação em que são feitas coisas com palavras, como na magia, isso se verifica no universo da moda. A grife, “simples palavra colada sobre um produto” é, sem dúvida, como a assinatura do pintor consagrado, uma das palavras mais poderosas, do ponto de vista econômico e simbólico, entre as que, hoje, têm cotação. (BOURDIEU, 1994, p.159/160).
No entanto, é demonstrado por ele que essa transubstanciação não é mágica: a eficácia dessa operação está nas condições sociais que produzem a crença nessa espécie de magia. A grife
seria resultado de uma imposição de valor, da transferência do capital simbólico, cuja imposição arbitrária assume a aparência de constatação diante daquela crença coletiva na palavra13. Em Bourdieu, essa crença advém do desconhecimento coletivo sobre o arbitrário na criação do valor, que resulta em reconhecimento coletivo, em legitimidade de uma grife ou tendência. Tal operação de “marcação” obedeceria à lei de conservação do capital: embora a moda esteja entre o campo econômico e o artístico, seus interesses econômicos são satisfeitos, mesmo que de forma dissimulada.
Dessa maneira, justamente por consistir em um bem simbólico, a moda auxiliaria na reprodução do capital e da estrutura de classes que o sustenta. A Alta Costura conferiria à classe dominante suas marcas simbólicas e, assim, alta e baixa costura existiriam uma em relação à outra, seriam referenciais de classe relacionais. Em virtude disso, configurar-se-ia uma “dialética distinção-pretensão”, isto é, uma corrida de perseguição entre as classes que implicaria o reconhecimento dos mesmos objetivos por todas as classes em jogo. Trata-se, para ele, de uma concorrência que seria a “forma atenuada da luta de classes”.
É notável que, como Barthes e Baudrillard, Bourdieu atribui suma relevância ao aspecto simbólico na configuração social. No entanto, suas reflexões sobre essa questão têm particularidades que as diferem das análises semiológicas, especialmente dos estudos de Baudrillard. Para Bourdieu, a moda não estabelece somente diferenças simbólicas. Por meio destas, são instituídas distinções sociais efetivas, de modo que ela concorre tanto para a reprodução do capital quanto para a manutenção da estrutura de classes. Embora essa argumentação apresente algumas influências estruturalistas, ela tem o mérito de indicar que o simbólico só pode ser relevante porque se vincula intimamente às objetividades sociais. Não se trata, em Bourdieu, de um reino à parte, mas de algo que configura a sociedade de modo
13
Essa discussão tem relações com as reflexões estabelecidas sobre grife no item que discute Walter Benjamin e com as análises de C. Türcke sobre o logotipo.
objetivo, calando fundo nas relações sociais. Percebe-se, portanto, que, contrariamente às críticas estabelecidas ao pensamento de Bourdieu, o autor não descuida do aspecto classista e antagônico da sociedade. Ele pretende mostrar como essas diferenças tomam formas cada vez mais sutis, incorporadas e, por isso, sofisticadas. Diante disso, adverte:
A imposição da legitimidade é a forma acabada da violência simbólica, violência atenuada, que só pode ser exercida com a cumplicidade de suas vítimas e que, assim, pode dar à imposição arbitrária de necessidades arbitrárias a aparência de uma ação libertadora, invocada a partir do mais íntimo daqueles que a sofrem. (BOURDIEU, 2004, p.183).
Ele denuncia, portanto, a contribuição que certas atividades aparentemente tão estranhas à política (em sua definição restrita), como as da moda, fornecem para a manutenção da ordem simbólica, a qual mantém e reproduz a sociedade desigual.
A análise de Bourdieu sobre a moda é amplamente crítica e inscreve-se nas “concepções diferencialistas”. As reflexões do autor sobre o aspecto simbólico não o impedem de mostrar como a moda se relaciona com a dominação social e mesmo política, ao contrário, tal aspecto é o passaporte para o desvelamento dos mecanismos contemporâneos de reprodução social. Por meio de instâncias como a moda, as classes passariam a disputar entre si imbuídas de objetivos iguais, a saber, o consumo que confere distinção. Essa abordagem se aproxima da concepção de Veblen e parece ter algumas semelhanças com a análise do consumo estabelecida em A Ideologia da Sociedade Industrial, na qual Marcuse defende a idéia de que o conflito entre as classes fora neutralizado quando estas passaram a lutar pelos mesmos objetivos, qual seja, o acesso ao consumo de mercadorias cuja necessidade é criada artificialmente. Outro ponto de congruência entre os dois autores é o desvelamento dessas
necessidades de consumo como “necessidades arbitrárias impostas arbitrariamente” sob a fachada de liberdade de escolha14.
Desse modo, embora a abordagem de Bourdieu contenha ainda resquícios do estruturalismo francês, o que confere a ela uma certa rigidez, pode-se afirmar que os estudos bourdiezianos a respeito da moda concorrem para a atualização das análises sobre dominação social. O autor nos lembra que ela se efetua cada vez mais por meios tácitos e, como por magia, se impõe cada vez mais. Esse potencial de crítica social presente na perspectiva de Bourdieu faz dele um interlocutor a ser considerado em qualquer análise válida sobre moda.
VI GILLES LIPOVETSKY: O IMPÉRIO DA MODA COMO REINO DA