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Comprendre les termes

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discutidas acima é o fato de que estamos em face de um fenômeno deveras complexo. A grande variedade de métodos e perspectivas adotados para se explicar o mesmo objeto revela essa complexidade. Em virtude disso, este primeiro capítulo não se propôs como tarefa a exposição das reflexões de todos os autores que se debruçaram sobre o assunto, mas tão somente a verificação de quais são as principais vertentes de análise da moda. Para tanto, foi necessário fazer um recorte e selecionar alguns “representantes” daquelas linhas mestras de interpretação. O recorte implicou em renúncia, de sorte que muitos pensadores relevantes sobre o tema não puderam ser incluídos na explanação. Não obstante, o objetivo inicial logrou êxito: exceto pelas perspectivas propositalmente não privilegiadas no presente trabalho por se distanciarem de seus objetivos - como as de gênero e as especificamente antropológicas -, tiveram destaque as teorias de moda mais conhecidas e aceitas.

É provável que a interpretação mais consensual sobre o assunto seja a concepção “diferencialista”, também denominada pejorativamente de “sociologismo”. Para ela, a moda caracteriza um mecanismo de distinção social entre diferentes classes sociais e entre indivíduos da mesma classe. Partilham dessa idéia autores como Veblen, Simmel, Bourdieu e mesmo semiólogos como Barthes e Baudrillard. Essa perspectiva é sobremaneira relevante e coerente, mas, ao priorizar o aspecto distintivo, tende a negligenciar outros aspectos igualmente presentes na moda.

Outra concepção consagrada, que também é propensa a avaliar a questão por um prisma único, é o chamado “economicismo”. Ele concebe a moda enquanto instrumento de

valorização do capital, enquanto atividade de cunho econômico, marcada pela busca do lucro e por todas as vicissitudes oriundas do caráter sistêmico do capitalismo. Nessa vertente, existem apreciações que enfatizam os efeitos positivos da produção e do consumo de moda para a economia, bem como avaliações mais críticas, as quais destacam as implicações da moda na reprodução da sociedade antagônica. Estas tomam partido do marxismo e explicam a moda em termos de fetichismo da mercadoria, alienação e ideologia. Embora a apreensão crítica apareça en passant em vários autores discutidos acima, ela se evidencia exemplarmente em Wolfgang Fritz Haug. Tal avaliação sobre a moda conta com elementos inegavelmente válidos, contudo, algumas vezes apresenta a inconveniência de imputar à economia um papel sobre-determinante, senão determinista. A economia é uma esfera privilegiada na análise da moda, mas não deve ser a única, sob pena de se incorrer em determinismo e de negar justamente a maior contribuição do método dialético.

Há também as análises da moda enquanto instância simbólica construtora de sentidos e significações sociais. Este é o mote de semiólogos como Roland Barthes e Jean Baudrillard. Embora não seja adepto da semiologia, Pierre Bourdieu estabelece relações com essa concepção na medida em que também analisa a moda a partir da idéia do simbólico. No entanto, a análise de Bourdieu não se confunde com as semiológicas, pois ele também confere suma importância às “objetividades sociais”, como as diferenças de classe, por exemplo. Aliás, talvez decorra das influências estruturalistas presentes em sua obra o fato de que, para ele, o simbólico só ganha força quando vinculado a tais objetividades. Outro aspecto marcante de sua reflexão é a ligação entre moda e cultura, sugerida também por outros autores arrolados acima.

No contexto dessa discussão sobre o caráter simbólico da moda, deve-se esclarecer que termos como signo, símbolo, significação, sentido e o próprio simbólico, foram utilizados no presente capítulo em sua acepção mais comum, que os considera como noções correlatas,

quase como sinônimos. Com isso, quer-se destacar que as diferenças e especificidades atribuídas pela semiologia a esses termos não foram rigorosamente observadas. Ainda assim, é possível fazer algumas ponderações sobre o uso do método semiológico na análise da moda. A semiologia é definida como “a ciência geral dos signos”, mas é mister lembrar que a moda não se caracteriza apenas como uma esfera de produção de sentido, embora essa seja uma de suas características. Ela também faz parte do mundo econômico e tem implicações nas relações sociais efetivas, de modo que reduzi-la ao reino do signo equivale a subestimá-la. Diante disso, são válidas as tentativas de Barthes e Baudrillard de escapar - com maior ou menor dose de sucesso, é bom lembrar - a essa injunção presente em tal método, buscando compreender a moda em suas relações com a formação social na qual se insere.

Outro enfoque discutido acima versa sobre a moda enquanto lógica social disseminada por diversas esferas da existência contemporânea. Essa conseqüente perspectiva é encampada por Gilles Lipovetsky, ao qual concernem, entretanto, algumas idéias passíveis de crítica. Este autor compartilha de certas apreciações presentes em estudos antropológicos sobre a moda contemporânea, que imputam a ela o papel de construtora de alteridades e identidades individuais e sociais. Destaque-se ainda que, enquanto a maioria dos estudiosos do assunto adota posição predominantemente crítica diante das conseqüências e implicações sociais da moda, Lipovetsky a considera como instrumento em favor do processo de democratização da sociedade. Entretanto, conforme se observou anteriormente, tanto em seu sistema objetivo de funcionamento quanto em sua lógica, a moda é, por definição, avessa à própria idéia de democracia. Se determinada moda for completamente democrática e disseminada, ela deixa de ser moda. Se a liberdade de escolha do que vestir se torna plena, a moda deixa de ter razão de existir, já que ela é, por princípio, orientação – ou “sugestão”, como preferem seus advogados.

Quanto aos discursos encomiatas acerca da construção de identidades pela moda, vale lembrar que, em larga medida, a identidade por ela conferida é obtida por meio do consumo. Por conseguinte, as alteridades permitidas nesse âmbito caracterizam hierarquizações sociais e econômicas, pois o consumo não é acessível a todos. Ainda que a moda permita o desenvolvimento de diferenças individuais importantes para a definição da posição social dos indivíduos, essas diferenças não são horizontais. Os “estilos” criados pelas “tribos urbanas” existentes em comunidades pobres podem até identificá-las, mas não as tornam menos excluídas. Pode-se observar, então, que essa apologia da diferenciação representa o discurso chamado “pós-moderno” acerca da aceitação e do estímulo às diferenças. Trata-se de uma retórica que prevê a “paz social” e a fundamenta na idéia de “tolerância”, mas que, de fato, apenas rebatiza o antagonismo com o nome de diferença. Nessa perspectiva, a moda é presumida como elemento favorável à tolerância e à democracia. Frente a tal suposição, é coerente resgatar a proposição adorniana de acordo com a qual “paz é um estado de diferenciação sem dominação, no qual o diferente é compartido”. (ADORNO, 1995, p.165).

Diante desse conjunto de teorias, a que conclusões podemos chegar?

A partir dessa seleção de autores que refletiram sobre a moda, é possível considerá-la enquanto mecanismo de distinção sócio-individual e como instância produtora de sentidos e significações, pertencente, portanto, ao reino cultural e simbólico. Pode-se afirmar ainda que ela caracteriza uma lógica social e uma atividade intrinsecamente vinculada à economia.

Portanto, nenhum dos autores acima mencionados está inteiramente equivocado na interpretação que faz da moda. Da mesma forma, nenhuma teoria detém com exclusividade a chave de acesso à compreensão mais acertada do assunto. E isso por uma razão que se tornou clara no decorrer da exposição: não há apenas uma perspectiva válida quando o objetivo da reflexão é compreender um objeto tão multifacetado quanto a moda. Se, por um lado, ela é um dos pontos da constelação de pensamento que pode nos aproximar da apreensão do real, por

outro lado, ela própria só pode ser apreendida por meio de uma concepção constelar, que considere os diversos aspectos e funções que a caracterizam.

Contudo, não estamos propondo uma miscelânea de métodos e teorias, uma vez que tal falta de critérios levaria forçosamente a uma perspectiva precipitada e equivocadamente totalizadora. A este trabalho não concerne a pretensão de apreender todos os meandros existentes na moda. A aspiração que nos move é muito mais modesta: trata-se da tentativa de não incorrer no reducionismo de conferir exclusividade explicativa a apenas um de seus aspectos. Essa postura induziria a olvidar que o desenvolvimento da moda, decorrente de uma conjunção específica da economia, da cultura, da formação social e individual contemporâneas, apresenta, ao mesmo tempo, implicações em todas essas esferas da realidade. Estar consciente dessa amplitude já é um bom começo.

CAPÍTULO 2:

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