Considerando as distintas etapas da coleta de dados, que envolveram a pesquisa em documentos, a aplicação do QOE e a participação na oficina, os recursos para a análise dos dados estão descritos, segundo cada etapa, com o respectivo tratamento metodológico.
3.4.1 Análise dos dados em documentos que orientam a formação em Fisioterapia
Segundo Víctora et al. (2000), no processo de análise de documentos pode-se adotar uma checagem de informação ou efetuar a análise de conteúdo. A primeira consiste em uma operação mais simples, que pode ser utilizada em combinação com outras técnicas. Assim, optou-se por essa alternativa, ao pesquisar em documentos que orientam a formação em Fisioterapia na UFSM, informações que elucidavam os princípios andragógicos e, por sua vez, as categorias de análise. No interior delas, procurou-se desvelar a emergente orientação educacional.
No transcorrer do processo de análise, como base, foram destacadas as orientações de Minayo (1992), para definir os passos necessários à interpretação dos dados. Inicialmente, procedeu-se a uma leitura geral de cada um dos documentos e, depois, a uma seleção dos tópicos de interesse que se identificavam com os princípios andragógicos, de acordo com as categorias, conforme abordado nas etapas anteriores. A ordenação dos dados, a começar pela separação das categorias; foi realizada. Nesse momento, foram utilizados salientadores coloridos, em que cada categoria esteve caracterizada por uma cor; no final, restaram os elementos as serem analisados, mapeados nos documentos. A partir daí, houve a seleção de fragmentos textuais que se identificavam com o objeto das categorias e, no interior delas, os temas que indicavam a tendência educacional, ou pedagógica tradicional ou andragógica. Após isso, foi feita leitura interpretativa dos dados, seguida da síntese.
3.4.2 Análise dos dados do QOE
Os dados do QOE foram tabulados na planilha eletrônica Excel e analisados por meio da aplicação de ferramentas de análise descritiva e de agrupamentos (cluster analysis). De modo que os dados de identificação e os profissionais (parte I) estão descritos pela freqüência relativa, e as demais variáveis (parte II) estão analisadas pela média e pelo desvio padrão. Sendo que, o coeficiente de variação foi representativo para todas as variáveis. Processou-se a leitura dos resultados pela média e pelo desvio padrão de cada variável, nas respectivas categorias, e pela média das médias de cada categoria.
Assim, as respostas assumiam uma escala de valor que, dicotomicamente, caracterizava a tendência educacional. Na pedagógica tradicional, variando de 1 a 2,99; na andragógica, de 5 a 3,01, portanto, o valor 3 assumia o ponto de neutralidade, conforme definido originalmente por Hadley (1974). Por conta disso, foi possível identificar a compreensão de modelo educacional dos sujeitos, em cada categoria de análise.
Na seqüência da investigação, ao mesmo conjunto de variáveis, foi aplicada a análise de agrupamentos, com o propósito de confrontar resultados. Para Hair et
al. (2005, p. 384), “análise de agrupamentos é o nome dado para um grupo de
técnicas multivariadas, cuja finalidade primária é agregar objetos com base nas características que possuem”. Assim, esse tipo de análise visa estudar o agrupamento de variáveis – numa seqüência linear de aglomeração, cujo princípio é revelar a proximidade geométrica dos pontos que representam as variáveis –, e propõe-se, ainda, a classificar as variáveis em pequenos grupos, que são mutuamente exclusivas, com base em suas características de similaridade ou de dissimilaridade. Por conta disso, torna-se viável o trabalho com um grande número de variáveis que, nesse caso, foram as sessenta assertivas correspondentes à segunda parte do QOE, que possibilitaram a simplificação estrutural dos dados, com perda mínima de informações.
Nesse momento, foi utilizado o Software Statistica 5.0, como recurso no processo de análise dos dados, no qual foram lançadas as assertivas do QOE, de acordo com cada uma das categorias estabelecidas e observados os agrupamentos formados. Conforme sustenta Pereira (2001), o resultado de cada estágio do processo
de agrupamento apresenta-se, graficamente, na forma de tabela ou de dendograma, em que uma coordenada representa a matriz de coeficientes de dissimilaridades euclidianas ao quadrado – significa a tabela das distâncias euclidianas entre as diferentes variáveis estudadas –, e a outra coordenada, as variáveis. Na pesquisa, adotou-se o dendograma como recurso para a apresentação dos agrupamentos.
“Embora as distâncias geométricas sejam competentes para identificar os agrupamentos, por terem unidades abstratas de medida, nada podem informar sobre as características dos grupos identificados”, cabe, portanto, ao pesquisador “consultar o comportamento de suas variáveis originais dentro dos grupos identificados”, no procedimento de interpretação dos resultados (PEREIRA, 2001, p. 114). Seguindo tal orientação, procurou-se analisar o perfil dos agrupamentos, confrontando-o com os resultados da média e do desvio padrão, gerados a partir da análise descritiva, sem perder do foco os grupos de variáveis das categorias estabelecidas.
Na sugestão de Hair et al. (2005), antes de tomar a decisão final, é apropriado computar diferentes soluções e, então, a partir de um critério a priori de julgamento prático ou senso comum, decide-se pelo número de agrupamentos mais adequado. Na presente pesquisa, já se tinha estabelecido as categorias de análise, e tal recurso estatístico serviu para confrontação com os demais recursos de análise descritiva. Esses citados autores referem, ainda, que identificar o perfil e interpretar os agrupamentos permite conhecer as características dos agrupamentos, mas, acima de tudo, fornece uma maneira de avaliar a correspondência dos agregados obtidos com os sugeridos por alguma teoria prévia, experiência prática ou categorias pré-estabelecidas. Se a análise de agrupamento for usada para fins confirmatórios, como foi o caso desta pesquisa, o conhecimento do perfil e a interpretação dos resultados contribuem de forma objetiva para a avaliação da correspondência.
Nessa mesma linha argumentativa, existe a afirmação de Leopardi et al. (2001) de que se pode fazer uso de dados quantitativos, como uma possibilidade de evidenciar tendências. No presente caso, observou-se a tendência da orientação educacional, no processo ensino-aprendizagem da Fisioterapia na UFSM, a partir da concepção dos docentes que ministram disciplinas para o Curso.
Esse mecanismo de análise refinada dos dados serviu para planejar a construção do referencial temático a ser explorado na etapa seguinte, a da oficina.
3.4.3 Análise dos dados da oficina
Iervolino e Pelicioni (2001, p. 118) apontam duas maneiras básicas de proceder-se a análise qualitativa, que são: “O sumário etnográfico e a codificação dos dados via análise de conteúdo”. Nesta pesquisa, adotou-se a primeira alternativa, considerando que tal tipo de análise utiliza-se das citações textuais dos participantes do grupo, para ilustrar os achados principais da análise. Considerou-se, ainda, a afirmação de Víctora et al. (2000, p. 53), que: “A abordagem etnográfica se constrói tomando como base a idéia de que os comportamentos humanos só podem ser devidamente compreendidos e explicados se tomarmos como referência o contexto social onde eles atuam”. Em face disso, a leitura centra-se no momento atual do Curso de Fisioterapia.
Proceder a uma análise de dados qualitativos implica em adotar um “conjunto de procedimentos que visem organizar os dados de modo que eles revelem, com a máxima objetividade e isenção possível, como os grupos em questão percebem e se relacionam com o foco do estudo em pauta” (IERVOLINO; PELICIONI, 2001, p. 118). Referindo-se à categorização dos dados de pesquisa, Bardin define: “É um processo de tipo estruturalista e comporta duas etapas: o inventário, que significa isolar os elementos, e a classificação, que consiste em repartir os elementos” (1977, p. 118); assim, definem-se os agrupamentos. Estes servem para evidenciar qualidades que, “por sua semelhança, se constituirão em categorias de eventos, as quais podem ser reagrupadas em temas e sub-temas” (LEOPARDI et al. 2001, p. 301). Já Bardin (1977) revela as qualidades que devem balizar um conjunto de categorias, como: a exclusão mútua, a homogeneidade, a pertinência, a objetividade, a fidelidade, e a produtividade.
Diante disso, elegeu-se tal condição organizativa que utiliza as categorias de análise previamente definidas e, no interior delas, identificou-se, como tema, a orientação educacional, pedagógica tradicional ou andragógica, nos dados coletados nas três oficinas. A orientação de Minayo (1992) de que, uma vez coletados os dados, o pesquisador deve voltar-se para os fundamentos da teoria para refletir sobre os conceitos iniciais, para questionar-se sobre as idéias evidentes e proceder a ordenação, classificação e análise dos dados foi seguida. Então, percorreu-se o caminho de volta à teoria andragógica para, de lá, tentar visualizar, com mais
clareza, o significado dos dados. Nesse momento, todo o material produzido já estava codificado, com uma identificação inicial pelas letras: (P) para o segmento professor, (A) para acadêmico(a) e (G) para a produção da síntese do grupo; na seqüência de cada letra, um número correspondente ao participante, seguido da classificação pela ordem de realização de cada uma das três oficinas. Todo o material produzido compôs um mosaico de informações, classificado nas categorias. A partir de então, em condição de serem analisados.
Após a classificação dos dados, partiu-se para uma leitura linear e repetida do material, confrontando o conteúdo produzido com as categorias teóricas estabelecidas. Nesse momento, foram utilizados marcadores coloridos para recortar as unidades de registro, evidenciadas nos textos individuais e grupais, que sinalizavam o tema em estudo, a revelar a tendência da orientação educacional, ou pedagógica tradicional ou andragógica, no interior de cada categoria. Essa captura do tema permitiu o enxugamento no processo classificatório e o refinamento da análise. A partir disso, efetuou-se a análise interpretativa dos elementos emergentes e, paralelamente, a transcrição de fragmentos textuais dos sujeitos, que se somaram à análise.