Peter Enderwick and Peter Buckley *
5. Is there a downside to regionalization?
A natureza do chiste apresenta duas características atreladas: está presa à forma de se expressar e à finalidade de despertar prazer no ouvinte. Além disso, os que possuem cunho tendencioso necessitam de três pessoas: a que conta; a que é atacada de alguma forma; e a que efetiva o chiste por sentir prazer. Dessa forma, quem usufrui do efeito prazeroso é o ouvinte que será incitado, pelo ganho de prazer, a tomar partido favorável ao que é dito, sem maiores reflexões (FREUD, 2017). Do ponto de vista político, os memes sobre o impeachment carregam tendências, fato evidenciado na Figura 27, a qual segue essa lógica por apresentar algo que inferioriza alguém (a presidenta), sentindo-se prazer em subjugar, o que é confirmado pelo riso de um terceiro que, apenas reage com um like ou compartilha, não fez ou quase não fez nenhum esforço.
Figura 27 – Post que relaciona o impeachment da presidenta Dilma Rousseff ao programa Big Brother Brasil.
Outro elemento trabalhado por Freud (2017), em relação ao prazer obtido pelo chiste, diz respeito à atualidade. Trata-se, também, de um elemento intrigante no meme, pois, embora a condição de efêmero seja uma característica marcante, muitos se consagram, e outros, mesmo caindo no esquecimento, podem ser revisitados e voltar a fazer sucesso na internet. O referido autor explica que a nossa necessidade de obter prazer dos processos intelectuais sempre é transformada de acordo com os novos interesses da época. Sendo assim, o meme pode ser tomado como uma roupagem atual dessa necessidade; e como um dos reflexos de uma existência coletiva, oriunda do conjunto de inovações tecnológicas extraordinárias e de efeitos sem precedentes na história humana.
Os memes, apesar de popular na internet (sendo possível até citar vários exemplos amplamente conhecidos e usados mundialmente) não possui definição consensual quanto à sua atuação no ciberespaço. Então, como explica identificarmos facilmente um meme? Percorrendo o caminho que Tarde (2011) considera científico, notamos que, primeiramente, esse objeto apresenta um detalhe de semelhança, o qual tende a se replicar dentro do alcance do raio imitativo que é capaz de produzir. Em segundo lugar, esse detalhe de semelhança e reprodução se depara com a oposição de outros raios imitativos ou adapta-se a eles, isto é, encontram novos sentidos para se entrelaçar (Figura 28).
Figura 28 – Meme que exemplifica um tipo de entrelace de sentidos.
Fonte: Google.
É notório que os memes se relacionam intimamente com as técnicas chistosas descritas por Freud (2017), tal como: abandonar um caminho de pensamento ao invés de se manter firme nele; aderir à facilidade de misturar coisas diferentes ao invés de colocá-las sistematizadamente em oposição; assumir métodos de diferenciação rejeitados pela lógica; juntar palavras e pensamentos e desconsiderar que deveriam fazer sentido em si. Nesse viés,
os trabalhos chistosos proporcionam uma fonte de prazer, visto que, fora da perspectiva chistosa, essas formas inferiores de funcionamento intelectual, como frisa o psicanalista, apenas implicam em rejeição. O prazer decorre da economia de gasto psíquico e do alívio da coerção da crítica, sendo estes aspectos decisivos na natureza do chiste, o qual apresenta uma tendência a realizar um jogo prazeroso, impulsionado a se proteger da crítica da razão.
Nessa perspectiva, o absurdo ganha “sentido”, ou melhor, mesmo que por um ângulo de visão pareça absurdo, por outro faz todo sentido e torna-se admissível. Nisso, consiste o trabalho do chiste, e sua psicogênese indica que o prazer decorre do jogo com as palavras ou da liberação do absurdo, além de que seu sentido visa tão somente proteger esse prazer de sua remoção pela crítica. O gracejo surge, assim, como um estágio prévio do chiste, no qual a tendência de proporcionar prazer está presente, mas aqui é suficiente um enunciado que não pareça absurdo ou ser desprovido de sentido (FREUD, 2017). Nos exemplos expostos na Figura 29 A e na Figura 29 B, é notório um pensamento com fim próprio, isto é, não é tendencioso no arranjo circunstancial do impeachment.
Figura 29 – (A) Post que busca estabelecer conexão entre o olhar atento de um parlamentar com o que seria ideal em uma relação afetiva. (B) Meme que expressa que a beleza de uma
parlamentar está acima da importância da votação do impeachment em si.
Porém, se o enunciado transmite um valor ou tendência, passa de gracejo para chiste: um pensamento digno de interesse, pois, mesmo usando a roupagem mais simples no momento, reveste-se, agora, de uma forma que, em si e por si, desperta nosso prazer (FREUD, 2017). Neste caso, corre-se o risco de encontrar alguém que não goste ou queira ouvir, tal como exemplifica a Figura 30, na qual é expresso um pensamento favorável ao impedimento da presidenta a partir da captura pela televisão de um momento em que o placar lembrou outro momento marcante: a derrota do Brasil no jogo contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014. No momento situado, o desvio do curso inicial do pensamento encontrou um “7x1 favorável”.
Figura 30 – Tweet que estabelece uma relação entre o resultado jogo do Brasil contra a Alemanha na Copa de 2014 com o determinado momento da votação do impeachment da
presidente Dilma Rousseff.
Fonte: Twitter.
Freud (2017) explica que quanto mais claro for o escárnio ou a crítica, consequentemente, menos técnica do chiste contém na expressão, além de poder ter como
alvo: instituições; pessoas que representem instituições; prescrições morais ou religiosas; e concepções de vida que gozam de uma reputação, cuja confrontação só pode ser feita pelo viés chistoso. No exemplo da Figura 31, temos um exemplo de pensamento que usa uma fachada lógica, mas possui um sofisma para representação oculta do que se quer dizer de verdade, isto é, que empresta o caráter de chiste. Neste caso, a tendência, da qual necessariamente depende o chiste, não está relacionada ao impedimento ou não da presidenta, mas, sim, ao sutil desvio de pensamento referente à ideia de que, se há exibições de cena com beijo gay na televisão, isso vai incentivar crianças à homossexualidade. Logo, se há cenas como as da votação em TV aberta, isso vai incentivar as crianças a serem corruptas.
Figura 31 – Tweet chistoso referente à hipocrisia dos parlamentares.
Fonte: Twitter.
Na verdade, trata-se de uma crítica ao primeiro raciocínio, seguido de uma crítica ao parlamento, uma vez que fica subentendido que é essencialmente corrupto. Mas, o exemplo da Figura 31 é um meme? Caso afirmativo, qual é a característica que lhe confere a condição de meme? Assim como o chiste, os memes apresentam formas e roupagens muito diversificadas, utilizando várias técnicas chistosas, mas construindo seus significados em circunstâncias que favorecem à erosão da hierarquia, nas quais o cinismo e o deboche24 encontram mais liberdade. Portanto, os memes assumem a condição de um modo de se expressar muito mais generalizado, ou seja, não se recorre a eles apenas quando é necessário se defender de pressões internas ou externas, de pessoas hierarquicamente superiores, etc. Qualquer coisa que se pretenda expressar é possível, e até preferível, por meio de um meme na internet ou fora dela.
Por essa lógica, a Figura 31 é um meme, porque atende à expectativa das redes sociais acerca de um acontecimento provocativo, assim como foi a votação do impeachment. Seu prazer é retirado, sobretudo, da tendência, e, dessa forma, caso não seja tendenciosa, a fonte
de prazer reside na técnica em si. Se os chistes dizem, nas entrelinhas, que os desejos e paixões do ser humano têm direito também de serem ouvidos, embora diante da moral severa e cheia de exigências, os memes dizem o mesmo, mas adquiriram licença generalizada para fabular e até para explicar sua lógica, conforme notamos ao analisar a Figura 32.
Figura 32 – Tweet feito com a finalidade de explicar que compreender um meme requer ser captado pelo próprio meme.
Fonte: Twitter.
A postagem feita no Twitter, exposta na Figura 32, narra a fuga de um meme dos entraves da razão. Não importa quem é a pessoa, por que tem a imagem dela ou de onde veio, a mãe simplesmente não foi captada pelo meme, cujo sentido criado era o que realmente importava; logo, não foi meme naquele momento. No caso de uma perspectiva mais séria, é necessário abrir mão desse conforto psicológico adquirido por estratégias de economia psíquica, já que diz respeito a um tipo de conexão evitada pelo pensamento rigoroso, mas, abre-se mão, também, da fonte de prazer. Por conseguinte, a plasticidade e adaptação dos memes são tão grandes que é possível criar um meme para explicar uma situação como essa.
Freud (2017) resume o trabalho do chiste como a escolha de material verbal e situações mentais, ambos capazes de garantir que o jogo de palavras e o pensamento resista
diante da prova da crítica. Para tanto, deve ser explorado astuciosamente todas as particularidades do vocabulário e as constelações do contexto do pensamento. Exatamente o mesmo trabalho dos memes, mas a peculiaridade destes reside em um espaço que permitiu que tal resistência fosse potencializada e ofereceu um acervo imensamente mais rico de material verbal (auditivo ou escrito) e imagético: a internet. A disponibilidade deste acervo acelera o ritmo dos caçadores digitais, como consumidores e produtores de imagens.
O bom chiste produz uma poderosa impressão de conjunto, ao ponto de confundir se essa qualidade está em resultado do pensamento expresso ou da roupagem chistosa. No entanto, a incerteza pode ser a motivação do próprio chiste: o pensamento busca abrigo na roupagem chistosa, porque, por essa via, chama nossa atenção, uma vez que ela seduz e confunde a crítica. Dessa forma, tendemos a relacionar ao pensamento o que nos agradou na forma chistosa, e não ver como errado o que nos agradou, afinal, assim, desprezaríamos o que nos deu prazer. Além disso, o chiste é um fator psíquico poderoso, que pode abrir caminho para outros usos, dado que as grandes tendências e instintos da vida espiritual se servem dele para atingir seus propósitos. Em caráter secundário, o chiste inofensivo, iniciado como um jogo, aos poucos cede espaço para as tendências, das quais, em longo prazo, nada inerente à vida espiritual pode escapar (FREUD, 2017).
Não podemos, portanto, reduzir os memes a uma brincadeira inofensiva, trivial e superficial. Sua essência não consiste na brincadeira boba, mas na seriedade do que se propõe, e a proposta pode ser gracejar a roupa da presidenta (conforme a Figura 33 A) ou até convencer a votar em determinado candidato, bem como está sendo feito de forma generalizada nas campanhas políticas (Figura 33 B).
Na Figura 33 B, a senadora Kátia Abreu escolheu criar um meme para responder a repercussão da sua foto oficial da campanha como vice de Ciro Gomes para as eleições de 2018. O motivo da repercussão foi o exagero no photoshop em sua imagem. Se não fosse a vivacidade dos caçadores digitais, provavelmente esse detalhe passaria despercebido, mas a parlamentar neutralizou as sátiras respondendo memes com memes, alcançando assim 6315
retweets e 24829 curtidas. Isso significa despolitização? O perfil Rodrag mostrou que não
necessariamente ao comentar o seguinte: “Senadora. Os LGBT irão lembrar se senhora for eleita, não queremos ser apenas meme ou lembrados em época de eleição. Abraços”. Portanto, é cobrado um sentido do meme, que vá além de um mero gracejo.
Figura 33 – (A) Tweet satirizando a roupa usada pela presidenta no dia da posse (2014). (B)
Tweet da candidata a vice-presidenta (Kátia Abreu) respondendo, à maneira dos memes, as
sátiras feitas em relação à sua foto oficial de candidatura, em 2018.
Fonte: (A) Twitter. (B) Twitter.
Outra dimensão chistosa compatível com o meme corresponde ao impulso de comunicá-lo. Quanto a isso, Freud (2017) explica que não basta que o chiste ocorra a alguém, falta algo para completá-lo. No cômico, temos prazer ao comunicá-lo a alguém, mas podemos francamente rir pelo simples fato de topar com algo cômico, enquanto no chiste que eu mesmo faço, não posso rir eu mesmo, embora sinta satisfação com ele. Acontece que, de modo geral, no cômico são consideradas duas pessoas, eu e a pessoa (ou objetos) em quem
descubro algo cômico, então, o eu e a pessoa-objeto são suficientes, uma terceira pessoa até pode aparecer, mas não é requerida (FREUD, 2017).
Por sua vez, já no primeiro estágio do gracejo, quando conseguiu assegurar o jogo e o absurdo contra a objeção da razão, o chiste exige outra pessoa a quem possa comunicar o seu resultado, que não pode ser a pessoa-objeto, mas uma terceira pessoa: o outro do “cômico”. É como se no gracejo fosse transferido a essa terceira pessoa o veredito sobre se o trabalho chistoso cumpriu ou não sua tarefa, como se não houvesse segurança disso. Em resumo, o processo psíquico do chiste se completa entre a primeira pessoa (eu) e a terceira (a pessoa estranha), e não como no cômico entre mim e a pessoa-objeto (FREUD, 2017). No caso dos memes, especificamente os relativos a votação do impeachment, a tendência é fortemente presente e carregam uma categoria moderna e poderosa: a opinião. Então, se despertar sentimentos contrários à tendência, o ciclo psíquico não se fecha, bem como no exemplo da Figura 34 A e da Figura 34 B, em pessoas favoráveis ao impeachment.
Figura 34 – (A) Post que ironiza a situação do Brasil pós-impeachment. (B) Post que faz referência ao vazamento de uma gravação, na qual o parlamentar Romero Jucá e o ex- presidente da Transpetro (Sérgio Machado) sugerem a necessidade de um “grande acordo nacional... com supremo, com tudo”, visto que, com a Dilma Rousseff, não dá para “estancar
a sangria”, resultante da Operação Lava Jato.
Se o riso advém do ouvinte, e não do criador, significa que naquele é suspenso e descarregado um gasto de investimento, já na formação do chiste há obstáculos à suspensão, explica Freud (2017). Sob esse enfoque, o processo psíquico no ouvinte (terceira pessoa) é caracterizado pela compra do prazer do chiste com um gasto próprio muito pequeno, o ganha de presente por assim dizer. De modo geral, busca-se a expressão mais curta possível, a fim de oferecer menos alvos para a atenção e deve ser facilmente compreensível, porque o efeito prazeroso pode se perder, caso a terceira pessoa tenha que despender algum esforço intelectual. Todavia, chegamos em uma categoria importante dos memes da internet: a opinião, cujas circunstâncias são favoráveis à erosão da hierarquia, ao imediatismo do consumo e à ausência de respeito. Por conseguinte, elaborações de pensamentos, nesse sentido, deparam-se com obstáculos internos ou externos mais fragilizados.
O meme apresenta, portanto, o uso de técnicas do chiste, visto que busca captar o outro por meio do prazer, para completar o seu próprio prazer com o efeito reverso do outro sobre mim, voltado para promover o pensamento aumentado e protegê-lo da crítica da razão, tal como no chiste. Como estamos falando de relações não mais essencialmente face a face, isso é confirmado por meio de, por exemplo, publicações, comentários e reações do
Facebook, conforme expresso na Figura 35.
Figura 35 – Reações possibilitadas através do Facebook.
Fonte: Facebook.
Por fim, os memes são fatos sociais e podem ser definidos (como conclusão de nossa investigação até aqui) como uma conexão de ideias, pensamentos e opiniões que entrelaçam mentes e telas. Tal conexão apresenta duração relativa, já que alguns se consagram e compõem um estado imitativo sustentado pela potência chistosa e inventiva que possuem, assim, coadunam um estado social característico da comunicação na sociedade contemporânea. Dito isto, buscaremos, agora, um desfecho reflexivo a respeito do que os memes podem esclarecer sobre tal sociedade.
5 CAPÍTULO IV – ENTRE O DEBOCHE E O CINISMO: A NEGATIVIDADE DA