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O Protocolo de Expressões Metafóricas baseia-se nos procedimentos constituintes do protocolo de provérbios mais metafóricos e menos metafóricos utilizado na dissertação de Cazelato (2003). Ainda que sua função metodológica seja oferecer condições propícias para a emergência de interpretações figurativas, o Protocolo consiste em uma prática discursiva de natureza metaenunciativa, da qual fazem parte tanto ações comunicacionais características desse gênero textual quanto movimentos discursivos e sociocognitivos típicos da interação. Portanto, mais do que apenas eliciar a produção de conteúdos semânticos sobre os significados e os contextos

de usos das expressões, a aplicação do Protocolo consiste em uma situação de uso da linguagem, a qual, por sua estruturação e finalidade, contribui para direcionar a forma como as interações entre participante e pesquisadora ocorrem.

A elaboração do Protocolo de Expressões Metafóricas consistiu de três etapas: I) seleção e descrição das expressões; II) testagem da acurácia das expressões para os propósitos da pesquisa, por meio do desenvolvimento de um Estudo Piloto; e III) construção da versão final do Protocolo, com base nos resultados do Estudo Piloto. Na sequência, discorremos brevemente sobre cada uma dessas etapas.

Na etapa I, foram selecionadas de dicionários especializados, livros, artigos, dissertações e teses 45 expressões, sendo 15 idiomáticos, 15 provérbios e 15 metáforas. Além da familiaridade, recorrência e produtividade sociolinguística, assim como convencionalidade, cuja atuação nas expressões é fundamental para a sua identificação, foram considerados para a seleção os critérios: i) grau de metaforicidade, ii) grau de transparência, iiii) ambiguidade/não-ambiguidade, vii) explicitude/implicitude do tópico e do veículo e viii) tipos de mapeamentos conceptuais envolvidos . Foi elaborada uma expectativa de interpretação que contém a descrição conceptual e linguística das expressões, a qual objetiva explicitar a sua configuração em termos de mapeamento figurativo e o que se espera das respostas proferidas com relação ao sentido veiculado em cada um dos enunciados. A primeira versão do Protocolo que foi utilizada no Estudo Piloto consta no anexo 2.

Na etapa II, procedemos a um Estudo Piloto da primeira versão do Protocolo. Participaram dessa fase duas pessoas adultas sem comprometimento linguístico- cognitivo, sendo uma, BN, na faixa de 50 a 55 anos com escolaridade de nível superior e outra, RP, na de 65 a 70 anos com ensino fundamental incompleto. No desenvolvimento do Estudo Piloto, depois de explicarmos e exemplificarmos o funcionamento do Protocolo, bem como verificarmos se cada um dos participantes reconhecia a expressão, efetuamos dois procedimentos para cada uma delas.

No procedimento 1, foi perguntado a cada participante “O que quer dizer tal expressão?”, questão esta que, estando no plano enunciativo da menção, requer um determinado trabalho linguístico-cognitivo, principalmente quanto a operações e asserções metalinguísticas. Se considerarmos as condições neuropsicolinguísticas gerais dos afásicos e das pessoas com Doença de Alzheimer, as respostas ao

procedimento 1 tendem a ser mais complexas para os primeiros, já que eles teriam maiores dificuldades de operarem metalinguisticamente com os elementos linguísticos (gramaticais, lexicais, sintáticos etc.).

No procedimento 2, foi pedido a cada participante que “Imagine uma situação em que caberia o uso desta expressão?”, demanda cujo escopo reside no uso, assinalando, pois, um percurso interpretativo de ordem necessariamente pragmática, para o qual inferência, seletividade e relevância são fundamentais. Ao levarmos em conta as características linguístico-cognitivas referidas às afasias e à Doença de Alzheimer, as respostas dos indivíduos diagnosticados com essa neurodegenerescência ao procedimento 2 seriam, pelo menos hipoteticamente, dificultadas, haja vista os seus déficits executivos, organizacionais e atencionais.

Vale ressaltar que, embora BN e RP sejam indivíduos de faixa-etárias diferentes e níveis escolares distintos, não houve diferenças significativas quanto à relevância interpretativa que, de modo geral, ambos atribuíram às expressões. Isso evidencia que a interpretação das expressões metafóricas que constituem o Protocolo não dependem do

grau e experiência de letramento. No anexo 3, apresentamos o desempenho19 de BN e

RP na interpretação de cada uma das expressões.

Com base nos resultados obtidos a partir do desenvolvimento do Estudo Piloto, que incluem tanto o desempenho no processo interpretativo dos dois participantes quanto o desenvolvimento de análises das características das expressões, no que se refere aos critérios utilizados para selecioná-las na etapa 1, iniciamos a etapa 3, que consistiu na elaboração da versão final do Protocolo. Mantivemos a quantidade de expressões, ou seja, 15 provérbios, 15 idiomáticos e 15 metáforas, perfazendo o total de 45, mas, substituímos 10 delas, sendo 1 provérbio, 4 idiomáticos e 5 metáforas. Os procedimentos constituintes do Protocolo permaneceram os mesmos do Estudo Piloto. No anexo 4, indicamos as expressões que foram substituídas e suas respectivas substituições.

No quadro abaixo, apresentamos a versão final do Protocolo de Expressões Metafóricas após as substituições que foram efetuadas.

19 A descrição e discussão das categorias utilizadas para mensurar o desempenho interpretativo dos participantes é realizada na seção 6.1.5.1.1. Relevância das respostas, no decorrer deste capítulo.

Quadro 1: Versão final do Protocolo de Expressões Metafóricas.

Protocolo de Expressões Metafóricas – Versão Final Provérbios

Quem não chora, não mama. Amor com amor se paga.

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. A união faz a força.

A vingança é um prato que se come frio. Não dê o passo maior que a perna. Não coloque o carro na frente dos bois. Quem entra na chuva, é pra se molhar. Quanto maior a altura, maior o tombo.

Nos menores frascos estão os melhores perfumes. Vaso ruim não quebra.

O amor é cego.

As aparências enganam.

A pressa é inimiga da perfeição. Quem semeia vento colhe tempestade.

Expressões Idiomáticas

Fazer tempestade em copo d' água. Achar pelo em ovo.

Descascar o abacaxi. Fazer das tripas coração. Por uma pedra sobre o assunto. Estar na fossa.

Cair na real. Cair do cavalo. Entrar pelo cano. Dar a volta por cima. A carne é fraca.

As paredes têm ouvido. Nem que a vaca tussa.

Lavar a roupa suja.

Não ser flor que se cheire.

Metáforas

A enciclopédia é uma mina de ouro. Ele é o cabeça da quadrilha.

Cortei o dedo com a coroa do abacaxi. As vendas estão a todo vapor.

Minha batata da perna dói. Ele saiu de si.

Vou subir na vida. O Brasil está afundando.

Estou com a autoestima no teto. Fiquei nas nuvens.

Estou um pouco enferrujado hoje. Maria é uma lesma.

Minha sogra é uma serpente. Criei raízes nessa cidade.

A inflação corrói nosso dinheiro.

4.1.2. Expectativa de Interpretação das expressões metafóricas que constituem o

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