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Além do fato apresentado sobre o patrimônio da estação em Arapoti, outros elementos foram surgindo no decorrer da pesquisa. Entre eles, buscou-se compreender a localização das casas dos ferroviários, esperando-se encontrar as construções características das casas da rede, de madeira, enfileiradas numa única rua, mantendo aquele padrão da empresa ferroviária. Foram buscados indícios entre os entrevistados sobre os resquícios dessas casas em Arapoti considerando-se que
uma ampla faixa de domínio da ferrovia atravessa a área central da cidade. “Não havia uma rua única com essas casas”, afirma um entrevistado, explicando que as únicas duas casas que restam localizam-se ao lado da antiga estação, e por serem comuns e de alvenaria se misturam entre as outras construções.
Das relações entre a RFFSA e a prefeitura, na questão ocupações dos terrenos, da mesma forma conforme foi discutido anteriormente sobre essas situações em Wenceslau Braz, verificou-se que a prefeitura adquiriu (não ficou claro se houve ação de compra ou cessão por parte da RFFSA) uma parte considerada do entorno da linha e da estação no município até o viaduto sentido Wenceslau Braz.
Segundo informações, essa transação teria sido feito na administração da RFFSA ainda na década de 1980 e no inicio da década de 1990. De acordo com alguns relatos ocorreu que em Arapoti, mesmo antes da reorganização do espaço com a Linha Verde, os proprietários de alguns imóveis tiveram autorização da prefeitura para estender os seus terrenos, cercando-os com muros, através da alegação de que essa providência ajudaria a manter a limpeza e a organização do lugar. Provavelmente por essa razão foram observados alguns portões de acesso construídos nesses terrenos que desembocam diretamente na pista de caminhada da Linha Verde.
A limpeza desse espaço é feita pela prefeitura, que, como forma de reorganizar essa parte do centro da cidade, inaugurou um espaço de lazer e prática de esportes na gestão 1988-1992 como Linha Verde, cuja pista de caminhada é de cerca de 1,7 quilômetros.
Nas proximidades da estação foi feito um loteamento que deu origem a Rua dos Expedicionários, que passou a configurar-se entre aquelas duas ruas centrais do começo do processo de urbanização do município. Os fundos da Rua dos Expedicionários desembocam no terreno plano do antigo pátio da estação em que ainda são visíveis os trilhos e alguns vagões abandonados, enferrujados pelo tempo e também apropriados pelos pichadores e usuários de drogas. As condições são representadas pelas fotografias 15 e 16.
Fotografia 15: Vagões abandonados em Arapoti (PR), 2017.
Autor: RAMOS, Eliane Netrebka, 2017.
Fotografia 16: Vagões com dormentos abandonados em Arapoti (PR), 2017.
Autor: RAMOS, Eliane Netrebka, 2017.
A Linha Verde representa então uma funcionalidade organizada pelo poder público municipal. Da mesma forma, o local comporta outras funcionaldiades a partir de outros sujeitos que não estão interessados em práticas de esporte, como a caminhada e a corrida que utilizam o trajeto da Linha Verde. Os fatos compartilhados, assim como os elementos observados, permitem afirmar que a apropriação de toda a extensão da Linha Verde é partilhada por diversos sujeitos em seus mais diversos interesses e comportamentos. Sobre a disposição da Linha Verde na malha urbana de Arapoti, apresenta-se uma representação através da
figura 4, assim como o ponto em que a estação ocupou durante décadas na área central da cidade.
Figura 4: Representação da localização central da ferrovia em Arapoti
Fonte: Google Earth Pro Organização: A autora, 2017.
Sobre a forma como os entrevistados se relacionam com a Linha Verde, assim como suas visões sobre as formas e funções, aquele espaço destaca-se como lugar de prática de esportes; caminho para o trabalho; de concentração da população para eventos culturais, cívicos, políticos e esportivos; de encontros amorosos; de passeios com amigos e família. Em visita perceptiva realizada em dezembro de 2017, observou-se o cuidado da prefeitura na manutenção da grama aparada e na limpeza do lugar próximo à Linha Verde, apresentando-se como um lugar bonito e agradável, com árvores bem cuidadas, jardins e bancos ao longo do caminho.
Por outro lado, a amostra analisada relata a permanência de usuários de drogas, assim como de pessoas que ali trafegam em situações e práticas violentas. Esse processo se intensifica no período noturno pela considerável extensão dessa faixa afastada das moradias, pela exuberante arborização e pela deficiente iluminação, destacando aspectos da violência que o local representa no imaginário da população, resultado, obviamente, do histórico violento de episódios ali ocorridos,
como assaltos, estupros e homicídios68 (entre tentativas e execuções). Essas ações são consideradas obstáculos para que aquele espaço seja devidamente aproveitado tanto de dia quanto de noite, pois é uma importante ligação dos bairros Jardim Ceres, Vila Humaitá e Vila Pindorama ao centro da cidade. Trata-se, portanto, de conflitos específicos do território da ferrovia que surgem entre a população e o poder público local e se dão em referência à organização do espaço urbano à mobilidade, à violência, à cultura, ao lazer e ao trabalho.
Entender essas relações territoriais tem a ver com a sugestão de Pesavento (1995) sobre os olhares que os pesquisadores devem lançar às relações que se dão no urbano, as quais foram percebidas nos vínculos dos sujeitos da cidade ao patrimônio da ferrovia em Arapoti.
Em relação ao papel da ferrovia na reorganização da cidade entende-se que “não foi somente na implantação e durante o seu pleno funcionamento que a ferrovia influenciou a organização urbana” (MONASTIRSKY, 2006, p. 79). Se as medidas da Prefeitura de Arapoti tinham o objetivo de replanejar os espaços utilizados outrora pela ferrovia, no sentido de “embelezar” ou de encontrar outras funcionalidades, é possível afirmar certa semelhança ao discurso do poder público de Wenceslau Braz no processo de construção da Praça de Lazer Chico.
Em suma, e naquilo que Monastirsky (2006) trata sobre o despreparo e até descompromisso das administrações em criar efetivos projetos de refuncionalização que preservem a memória ferroviária, nessas duas cidades se observam estratégias simplistas, ou seja, são projetos passíveis facilmente de serem revertidas em outras formas de uso e funcionalidades dependendo dos interesses a serem surgidos nos próximos mandatos.