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Em 1915, o município de Arapoti denominava-se Cachoeirinha em referência à estação inaugurada ali naquele ano com o mesmo nome. Quanto às designações das estações ferroviárias, considerando-se elementos trazidos pela reconstituição da memória, as escolhas se davam ou por homenagens a personalidades políticas ou ocupantes de cargos importantes na ferrovia ou em referência a elementos como nomes de rios ou aspectos da paisagem natural. Conforme relata o trecho de entrevista realizada naquela localidade:
Assim! Eu nunca vi nada escrito, mas são coisas assim que vai se passando de geração pra geração. O primeiro nome aqui da estação que deram era Capão Bonito, ai como tinha, já existia a estação de Capão Bonito em São Paulo, daí começou a ter problema de desvio de correspondência. Aí puseram Cachoeirinha, segundo o que contam, foi por conta de uma cachoeira que tem aqui indo pra Ventania, uma cachoeirinha bonita que tem ali, os ferroviários viam e acharam bonito e colocaram o nome de Cachoeirinha. Mas são histórias, mas eu acredito que seja verdade. Aí deu problema também, porque tinha Cachoeirinha no RS, e daí ia parar lá no RS. Vamos ter que mudar, e parece que na época eles tinham uma estratégia na ferrovia, quando eles tinham um nome de um eminente na rede, eles colocavam o nome dele na estação, por exemplo, Calógeras, o Pandiá Calógeras! E Arapoti, quando não tinha o nome de uma pessoa eminente pra eles colocarem o nome eles colocavam o nome tupi-guarani, e daí ficou “Campos Floridos” (ENTREVISTADO 26, 2018).
Com a concessão da malha e o fim das atividades ferroviárias, a estação foi restaurada pela prefeitura em um espaço inaugurado em 2000, como o Memorial Capão Bonito – Casa da Memória de Arapoti (PREFEITURA MUNICIPAL DE ARAPOTI, 2016). Esse local era constituído como área cultural, apresentando uma exposição contínua sobre a história da cidade, destacando-se elementos como a
ferrovia, a fábrica de papel e a presença dos holandeses, e ainda como espaço para atividades e cursos para os cidadãos. Essas funcionalidades foram descritas em vários relatos, assim como o processo de abandono do local.
Citada atualmente no site oficial da prefeitura como o Memorial Capão Bonito – Casa da Memória (PREFEITURA MUNICIPAL DE ARAPOTI, 2018), permaneceu o edifício por muitos anos fechado sob a alegação de que apresentava problemas em sua estrutura física (FERRARINI, 2013).
Em novembro de 2017 um incêndio a destruiu completamente, e o impacto na memória social da ferrovia daquela cidade ficou perceptível no processo final de coleta de dados67. As fotografias 13 e 14 ilustram a lacuna temporal do fato apresentado.
Fotografia 13: Estação em Arapoti, 2013.
Autor: RAMOS, Eliane Netrebka, 2013
67
Sobre essa questão, destaca-se a fala do entrevistado nº 28: “A justificativa oficial é que tava tomada por cupins e coisa e tal. Eu tive conversando esses dias com o engenheiro da prefeitura e ele inclusive produziu uma planta completa de lá pra restauração, e ele me disse que tinha uma viga que tava bastante distante o alargamento grande, que corria inclusive risco de desmoronamento. E tomada por cupins, era nítida, porque ela era de parede dupla, eram duas tábuas, e a de fora tava bem estragada. E aí, ela tava, ela ficou fechada acho que quatro ou cinco anos, não sei te precisar isso”. (ENTREVISTADO 28, 2018).
Fotografia 14: Registro dos restos do incêndio da estação em Arapoti, 2017
Autor: RAMOS, Eliane Netrebka, dez/ 2017.
O impacto que esse fato teve na sociedade, mesmo estando em estágio de investigações, gerou muitas conjecturas, como um acidente provocado por interesses imobiliários ou para desviar a atenção das autoridades policiais, já que naquele dia haviam ocorridos três assaltos à mão armada na cidade, considerado um número alto para uma cidade pequena. Outra hipótese está vinculada às práticas dos grupos que ocupavam aquela área (vadiagem e tráfico de drogas), gerando assim um acidente não intencional. É preciso ressaltar que em 2016, outro incêndio havia atingido os vagões de trens abandonados que estavam no pátio da estação. Quanto à repercussão do fato entre a sociedade, o quadro 7 apresenta algumas narrativas sobre esse fato.
Quadro 7: Percepções sobre o incêndio da estação em Arapoti Trechos dos relatos
Entrevistado nº 28
“O incêndio, eu vi imagens da internet, do Facebook principalmente. Pra ser sincero me avisaram quando tava queimando, e não tive coragem de ir lá ver, conforme eu te falei no inicio, é uma questão de paixão mesmo. Não tive condição psicológica de ir lá ver, mas pelo que eu observei nos vídeos é que ela queimou por inteiro”.
Entrevistado nº 31
“Achava muito bonito. Por certo período, a Prefeitura Municipal de Arapoti a reformou, preservando suas características originais e a transformou em um museu. Infelizmente, em outubro ou novembro de 2017, não me lembro ao certo, a estação pegou fogo e foi completamente destruída”.
Entrevistado nº33
“Espaço ‘abandonado’ que seria um bom ponto turístico, atualmente o museu foi queimado e está totalmente destruído”.
Entrevistado nº35
“Abandonado, pichado e sendo usado para ponto de drogas (...) e a estação foi queimada”.
Entrevistado nº37
“Acho um espaço rico em lembranças, mas infelizmente! Nossa casa da Cultura que era a estação ferroviária foi queimada propositalmente no ano passado”.
Entrevistado nº38
“Quando era bem conservado, era um lugar lindo, cheio de história, mas colocaram fogo na antiga estação”.
Entrevistado nº 49
“Que Arapoti não tem mais história, né? Perderam a Fábrica de Papel, agora perderam! Acabou! Arapoti morreu a história deles, matou, acabou! Perderam Cachoeirinha!”.
Fonte: Dados coletados pela autora, 2017-2018. Organização: A autora, 2018.
Essas falas representam alguns trechos referentes a esse fato trágico, pois na maioria dos relatos obtidos em Arapoti foi citado esse acontecimento que certamente marcou a história da ferrovia naquele município. Muitas delas fazem relação do local enquanto importante para a história e enquanto elemento identitário. A lamentação pela falta de cuidado com aquele patrimônio esbarra nas lembranças de sua restauração no início deste século, que o havia transformado em uma importante referência cultural e à cidadania. Nesse sentido, as pessoas percebem a possibilidade de o poder público ter continuado o processo de restauração daquele edifício, refuncionalizando-o de forma proveitosa para a sociedade local.
O cuidado ou o descuido com o patrimônio representado pela estação em Arapoti teve uma repercussão intensa na população do município e na região quanto às responsabilidades pelos bens que possivelmente formam um importante acervo cultural. O entrevistado 28 relatou que a prefeitura já havia removido as peças que
estavam no local, e que compunham o acervo do memorial que por alguns anos funcionou na Casa de Cultura.
Ficou constatado, no entanto, o interesse do Departamento de Turismo de Jaguariaíva em obter a salvaguarda dos bens patrimoniais da ferrovia que existem ainda em Arapoti. Segundo informações, são estudadas medidas para o aproveitamento de vagões abandonados em Arapoti para fins turísticos na região. O que de certa forma pode ser compreendido enquanto um conflito no território da ferroviária no ramal do Paranapanema.
Sobre o fato do incêndio da estação, as memórias e percepções apresentadas se entrelaçam às ideias dos quatro pontos nos quais Santos (2006) sugere enquanto uma análise geográfica. A percepção dos sujeitos sobre os processos ali depositados, naquela ideia de sistema de objetos e ações que embasa a teoria de Santos (2006), estão representados pela reforma realizada pela prefeitura e a inauguração do museu em 2000, ou no abandono da prefeitura (que também não deixa de ser de certa forma uma ação); na apropriação daquele espaço e do seu entorno pelos usuários de drogas; pelos grafiteiros com sua arte estampada pelos muros, paredes e vagões, que mais que marcar seus territórios e registrar sua rebeldia, traz reflexões sobre o alcance do poder público em dominar os espaços urbanos (e por que também não os rurais, já que basta reparar nas estradas, em seus outdoors e viadutos pichados).
O espaço produz representações funcionais também de um lugar que era “cartão-postal” da cidade, ou ponto turístico, importante para a história da comunidade. Nesse sentido, sugere-se pensar em tudo isso e em como há fluidez e sobreposição de territórios e diversas relações de poder conflituantes.