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Considerando a natureza multidisciplinar da ACD, nesta investigação a metodologia de análise dos discursos visuais, as imagens, se apoia em ferramentas do campo da Cultura Visual. Visto que o material de análise, os livros didáticos, faz parte do contexto educacional, problematizo nas análises as representações das identidades sociais negras contidas nas imagens que compõe esse material. Para evidenciar as ferramentas selecionadas nesta pesquisa para a análise de imagens, a partir da Cultura visual, contextualizo esse campo de estudos.

Os Estudos da Cultura Visual se configuram como um novo campo de conhecimento, teórico e metodológico, decorrente de um debate iniciado na década de 70, que busca aproximar-se das representações visuais numa perspectiva cultural, segundo Hernández (2006).

Apoiado em Michel (2000b), Hernández (2006) denota que nos Estudos da Cultura Visual a ideia de cultura surge dos Estudos Culturais, enquanto a ideia de visual vem dos Estudos de Cinema e da História da Arte. Logo, nessa perspectiva, a visão ultrapassa um ato de percepção, sendo vista como uma forma de expressão cultural e de comunicação humana, não reduzível a ponto de ser explicada nos mesmos términos da linguagem falada ou escrita (HERNÁNDEZ, 2006).

Portanto, o componente visual funciona como um espaço de interação social e de definição de subjetividades quanto à classe, gênero, raça, etnia, por isso, conforme Hernández (2006, p. 21), “[...] a cultura visual comporta um amplo espectro de experiências visuais (desde as imagens cotidianas aos objetos que vinculamos ao prazer ou ao horror estético)”.

Uma das relações entre os Estudos Culturais e a Cultura Visual tem sido a inserção no campo de pesquisas das Ciências Sociais a pertinência das práticas culturais, principalmente as que se vinculam à cultura popular, como mediadoras de identidades e subjetividades de classe, gênero, sexo e etnicidade, segundo enfatiza Hernández (2006). Cabe aqui enfatizar as proposições de Hernández, ao apontar que o pós-estruturalismo conduziu a temas até então marginalizados, como a ‘identidade’, a ‘representação’ e ‘mediação’.

Logo, a Cultura visual, como campo emergente, objetiva ajudar os indivíduos no desenvolvimento de uma visão crítica em relação ao poder das imagens,

auxiliando-os a aguçar ou criar um sentido de responsabilidade sobre as liberdades que decorrem desse poder (MARTINS, 2006). Pois, Martins apoiado em Freedman (2006) recorda que essas responsabilidades têm implicações éticas, as imagens são vistas constantemente e interpretadas instantaneamente, conduzindo a novos conhecimentos sobre identidades e entorno.

Considerando o dinamismo e a velocidade das informações através de imagens, compreendo que é urgente a necessidade do desenvolvimento de uma postura crítica sobre a leitura de imagens, pois elas expressam formas de vermos e sermos vistos, nos representam, ou não, no mundo, além de representarem, com igualdade e respeito, ou não, outras pessoas.

A cultura visual é um campo de estudos emergente que reúne teorias transdisciplinares, os quais se fundamentam no principio de que as práticas do ver se constituem social e culturalmente, conforme Tourinho (2011). Nessa perspectiva, analiso algumas imagens, fotos de abertura de capítulos especificamente, tentando fugir de uma leitura mimética de imagens, mas observando a constituição social e cultural das representações de identidades negras, que as posicionam em lugares (in) justos.

Levando em consideração a complexidade e relevância dessas práticas do ver, a cultura visual trata de discutir os impactos e implicações das experiências do ver e do ser visto atualmente. Lembrando que, não há um único foco e uma única vertente teórica que explicam a cultura visual, muito pelo contrário, os diferentes autores teóricos são de diversas áreas e assumem posições variadas ao explorar esse campo. Sardelich (2006) destaca o crescente interesse pelo visual por historiadoras/es, antropólogas/os, sociólogas/os, educadoras/es preocupados com a necessidade de uma alfabetização visual.

Para Tourinho (2011) o dinamismo das práticas do ver na atualidade demanda novas responsabilidades para a escola, a qual é imprescindível para a educação da cultura visual, podendo empoderar professores e alunos tornando-os capazes de atentar-se nos contextos de produção e significação desse mundo visual, numa perspectiva inclusiva. Pois, as imagens visuais têm um papel formativo fundamental no contexto educativo, elas

podem assinalar diferentes sentidos conferidos à formação educacional aproximando alunos do conhecimento e dos problemas relacionados ao contexto social e cultural em que vivem. Aquilo que somos e aquilo que sonhamos são, de alguma maneira, as coisas que nos motivam e dão

sentido à nossa vida, são as coisas que queremos compreender e interpretar. Ao identificar, escolher ou reconstruir experiências visuais significativas e formadoras, o aluno cria espaço para interpretar momentos ou aspectos do seu cotidiano, buscando uma compreensão de si mesmo e de experiências vividas que, desafiadoras, sofridas ou decepcionantes, podem ser transformadas em aprendizagem. (MARTINS, 2011, p. 19-20).

Diante da relevância e do poder das imagens, e do seu papel formativo no contexto educativo, me embasei nos Estudos da Cultura Visual para analisar imagens nas coleções de LD. Frente aos diferentes métodos para analisar imagens, como, por exemplo, a semiótica enquanto abordagem estruturalista me ative à abordagem pós-estruturalista dos Estudos Culturais, aos aportes do campo da Cultura Visual pelo seu teor reflexivo no campo educacional, pela preocupação denotada em desenvolver senso crítico sobre a interpretação de imagens. Pois, na Cultura Visual, a visão é considerada como uma prática social, construída socialmente, localizada culturalmente ao passo que absolve práticas do ver de todo ato mimético, as eleva graças à interpretação, conforme Mitchell (2002) reverbera em Martins (2006).

Logo, o método de analisar imagens na perspectiva da Cultura Visual se baseia na interpretação crítica, que se constitui como prática social “que mobiliza a memória do ver, aciona e entrecruza sentidos da memória social construída pelo sujeito” (MARTINS, 2006, p. 73).

Quanto à interpretação crítica em Cultura Visual Martins (2006) dá ênfase ao conceito de autor, o qual combina com o conceito de interpretação, pois cada vez que se interpreta uma imagem está sendo construída uma forma de autoria. Esse deslocamento ocorre, nas palavras do autor, devido ao distanciamento da ideia de interpretação única, e devido à multiplicidade de discursos e interpretações da imagem, que mobilizam a posição de sujeito.

Nesta perspectiva minhas análises são olhares, possibilidades de interpretação daquilo que está implícito nas imagens, suas simbologias e ideologias, já que imagens são socialmente situadas.

Para que essa leitura crítica seja possível me amparo em alguns autores, ademais dos mencionados acima, que vêm contribuindo no cenário da imagem e história social, como Kossoy (2001), que preocupa-se com a fotografia especificamente no contexto histórico, bem como Peter Burke (2004) que discorre sobre os diferentes propósitos, composições e sobre as fragilidades da imagem

enquanto testemunha ocular. Também nos apoiamos nas contribuições de Jovino (2014), por trazer reflexões contundentes sobre representações de identidades negras através de imagens, bem como Martins (2009), por apresentar alguns princípios básicos de representações excludentes de negritudes através de imagens.

CAPÍTULO 2 - PESQUISAS SOBRE IDENTIDADES SOCIAIS DE RAÇA EM

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