Sobre os parâmetros estádio e qualidade embrionária, pode-se dizer que o primeiro apresenta menor subjetividade em relação ao segundo. No entanto, ambos se mostram extremamente importantes na tomada de decisão entre descarte, transferência e congelamento de embriões, sendo, dessa maneira, muito importante que a classificação das estruturas embrionárias seja realizada por um profissional treinado e qualificado para tal trabalho.
Similarmente a diversos trabalhos realizados tanto em gado de corte (SPELL et
al., 2001; HASLER, 2001) quanto em gado de leite (CHEBEL et al., 2008; HASLER,
2001), não foi observado no presente estudo efeito de estádio embrionário sobre as taxas de concepção aos 25 e 46 dias e à perda gestacional. No entanto, no atual experimento a qualidade embrionária mostrou ter efeito sobre a taxa de concepção aos 25 dias, sendo clara a queda dessa taxa de grau 2 para grau 3 (Tab.23). Diversos outros autores também detectaram diferenças em concepção de acordo com o grau de qualidade do embrião inovulado (CHEBEL et al., 2008; PEIXOTO et
al., 2007; HASLER, 2001; DONALDSON, 1985). Em um desses trabalhos, CHEBEL et al. (2008) observaram queda na taxa de concepção à medida que a qualidade
(157/292) e grau 3 = 35,2% (51/145)], evidenciando uma redução mais brusca de grau 2 para 3, dados que corroboram com os resultados do presente experimento.
Quanto à sincronia do cio entre doadora e receptora, os resultados encontrados no presente estudo sugerem que receptoras com sincronia perfeita de cio (0 dias de diferença) e com defasagem de sincronia do cio igual a -1 ou +1 dia com relação às doadoras, apresentam semelhantes taxas de concepção aos 25 e 46 dias de gestação e perda gestacional. Esse resultado se assemelha ao observado em um estudo retrospectivo realizado na mesma propriedade referente aos anos de 2001 a 2006, no qual não foi verificado efeito do dia de sincronia (0, -1 ou +1) na taxa de concepção utilizando embriões frescos [39,96 % (189/473), 45,28 % (652/1440) e 43,55 % (314/721), respectivamente; RODRIGUES et al., 2007b]. HASLER (2001) e RODRIGUES et al. (2003) também afirmaram que a assincronia do cio entre doadora e receptora de mais ou menos 24 horas não afetou as taxas de prenhez. Dados de um trabalho realizado por SPELL et al. (2001) no qual houve também acompanhamento ultrassonográfico do crescimento do CL e análise da concentração plasmática de progesterona, reforçam essa afirmativa, uma vez que não foi observado efeito de dia de sincronia entre doadora e receptora sobre a taxa de concepção, apesar do aumento detectado em diâmetro e volume do CL e da concentração plasmática de progesterona a medida que os dias pós-estro aumentavam nas receptoras (de 6,5 para 8,5 dias). Os resultados dos quatro trabalhos apresentados sugerem que é possível realizar a inovulação de embriões frescos em receptoras nesses três momentos de sincronia com a doadora, sem, no entanto, provocar perdas na eficiência reprodutiva desses animais.
Outros trabalhos, no entanto, mostraram maior taxa de prenhez apenas quando as receptoras apresentavam cio ao mesmo tempo (dia 0) ou 12 a 24 horas antes (dia +1) da doadora (PEIXOTO et al., 2007; HEYMAN, 1988; COLEMAN et al., 1987). Uma saída para tentar manter taxas de prenhez semelhantes para os três momentos de sincronia em questão (-1, 0 e +1) seria trabalhar com a combinação de estádio embrionário e dia de sincronia, dessa forma, embriões em fase de desenvolvimento mais inicial seriam inovulados em receptoras -1, enquanto embriões mais avançados em desenvolvimento seriam transferidos em fêmea +1, os demais
poderiam ser direcionados para os animais de dia 0. Um estudo realizado por DONALDSON (1995) com dados referentes a 13.663 embriões colhidos e transferidos em uma central de TE, mostrou que em alguns casos essa combinação pode ser interessante, como o uso de Bi no dia 0 e mórulas iniciais no dia -1. Apesar disso, esse mesmo autor relata que a diferença nas taxas de prenhez entre receptoras -1, 0 e 24 horas foi bastante pequena, sendo de fato bastante reduzidas quando se utilizou animais -3 e +3.
Na propriedade em que foi realizado o presente trabalho, sempre que possível e especialmente nos casos de embriões em estádio precoce ou tardio do desenvolvimento, foi realizada a combinação entre estádio embrionário e sincronia do estro entre doadora e receptora. Provavelmente, esse fator pode ter colaborado para a obtenção de taxas de concepção semelhantes para os três dias de sincronia ora utilizados.
7.1.4. Qualidade e localização (lado) do CL das receptoras
Como esperado, a porcentagem de concepção se manteve semelhante para embriões inovulados em qualquer antímero dos cornos uterinos (sempre ipsilateral ao CL). No entanto, diferentemente do que se esperava, não houve diferença significativa em concepção e perda gestacional para as diferentes qualidades de CL das receptoras, apesar de uma grande diferença numérica relacionada ao CL grau 3 comparado ao grau 1 (maior diferença) e ao grau 2 (menor diferença). Pode-se supor que essa ausência de significância estatística possa estar relacionada ao pequeno número de animais apresentando CL grau 3, sendo possível, portanto, que ocorra de fato uma queda da taxa de concepção ao se utilizar receptoras apresentando CLs de pior qualidade, conforme o critério adotado. Essa hipótese ganha força quando se analisa um trabalho publicado por RODRIGUES et al. (2003), no qual se determinou a taxa de concepção de 396 novilhas Bos taurus x Bos indicus inovuladas após a detecção do estro conforme do tamanho do CL único à palpação transretal. Nesse estudo foram obtidas taxas semelhantes para CL grau 1 e 2 (50,6 e 47,3%, respectivamente) e uma queda significante de concepção nas receptoras com CL classificado como grau 3 (31,4%).
Em um outro trabalho, realizado por AMBROSE et al. (1999), a classificação do CL foi também realizada por palpação transretal, baseando-se no seu tamanho e suas características palpáveis. Dessa forma, o CL foi categorizado como 3 (excelente: CL grande de tamanho aproximado 2,0 cm e bem definido, com coroa proeminente), 2 (bom: CL pequeno 1,0 e <2,0 cm, mas facilmente palpável, com superfície arredondada e sem coroa proeminente), 1 (ruim: CL deficiente ou corpo hemorrágico 1,0 cm), ou 0 (não palpável: Cl não detectado à palpação). A acurácia da classificação do CL à palpação retal foi determinada através da dosagem da concentração plasmática de progesterona. Nesse contexto, considerou-se como diagnóstico positivo correto todas as vacas com CL classificado como 1, 2 ou 3 que apresentaram concentração de progesterona 1,5 ng e como diagnóstico positivo incorreto aquelas agrupadas em CL 1, 2 ou 3 que apresentaram progesterona <1,5 ng/mL; animais agrupados em CL 0 deveriam ter progesterona <1,5 ng/mL para serem considerados como classificados corretamente. Os resultados obtidos por tais pesquisadores mostraram um aumento da concentração de progesterona plasmática média à medida que a qualidade do CL subia de categoria (melhorava), ou seja, de grau 0 (2,99 ± 0,49) para grau 1 (4,62 ± 0,54), grau 2 (5,44 ± 0,38) e grau 3 (7,13 ± 0,25). A relação linear entre essas variáveis apresentou correlação positiva (r = 0,46;
P < 0,01) e o contraste ortogonal revelou que as concentrações de progesterona de
fêmeas com CL classificado como grau 0 e 1 diferiu (P < 0,01) de vacas com CL 2 e 3, sendo a categoria 0 diferente da 1 (P < 0,03) e a categoria 2 diferente da 3 (P < 0,01).
Os dados apresentados acima (AMBROSE et al., 1999) embasam o uso da classificação do CL por palpação transretal, através da mensuração da concentração de progesterona e fornecem uma possível explicação para as quedas numéricas nas taxas de concepção encontradas no presente experimento quando da utilização de receptoras com CL classificado como grau 3. É importante relembrar que classificação apresentada no atual trabalho se mostra inversa (1 = excelente, 2 = bom e 3 = “ruim”) à proposta pelo grupo de AMBROSE, sendo, portanto, o CL grau 3 ora apresentado equivalente ao grau 1 apresentado por esses pesquisadores.
Complementarmente, em outro trabalho, a ultrassonografia foi utilizada para determinar a área do CL e realizar sua classificação em graus 1 (>2,0 cm2) , 2 (1,5 a
2,0 cm2) e 3 (<1,5 cm2) em receptoras Bos taurus x Bos indicus (BARUSELLI et al., 2000a; 2003). Ainda, foi observada correlação entre as classes de CL (por ultrassonografia) e a dosagem de progesterona plasmática no momento da inovulação em receptoras de embrião bovino (BARUSELLI et al., 2003; MANTOVANI, 2003) e entre a taxa de concepção e o diâmetro do CL único em novilhas Bos taurus x Bos indicus tratadas para inovulação em tempo fixo (dados não publicados).
Vale reenfatizar que a classificação do CL via palpação transretal apresenta alta subjetividade, sendo importante haver elevada competência profissional por parte do veterinário responsável pela realização do exame para que esse parâmetro possa ser de fato utilizado como fator de avaliação das receptoras.
7.1.5. Protocolos reprodutivos das receptoras
Postula-se que vacas que apresentam cio natural ou induzido por PGF (sem indutor de ovulação) ovulam um pouco mais tardiamente do que fêmeas submetidas a protocolos de sincronização do ciclo estral, nos quais a ovulação é induzida hormonalmente. Essa diferença ocorre uma vez que, nas fêmeas de ovulação espontânea, há necessidade de um maior crescimento do folículo dominante, para que este atinja a maturidade e produza quantidade de estradiol suficiente para induzir o pico endógeno de LH e, consequentemente, a ovulação. Nas vacas de ovulação induzida, no entanto, a administração do indutor de ovulação causa um pico de LH anterior ao que se daria naturalmente, promovendo a ovulação mais precocemente, e, portanto, de um folículo menor ao que ovularia espontaneamente. Dessa forma, espera-se que ocorra a formação de um CL maior e, portanto, que resulte em maior produção de progesterona e maiores taxas de concepção em fêmeas que ovulam espontaneamente, em comparação às de ovulação induzida (BARUSELLI, 2008).
Nesse contexto, BARUSELLI et al. (2000b; 2003) mostraram que vacas que apresentam cio natural ou induzido por PGF (sem indutor de ovulação) possuem numericamente maiores taxas de concepção, em relação a vacas de ovulação
sincronizada e induzida (PGF = 56,3% vs Ovsynch = 49,2%; P = 0,20). De forma semelhante foi observado no presente estudo, um aumento numérico nas taxas de concepção aos 25 e 46 dias de receptoras de cio natural (39,3 e 29,2%) e que receberam uma injeção de PGF (41,5 e 30,6%) em relação às submetidas ao protocolo de TETF (33,8 e 26,8%).
No entanto, é importante ressaltar que em programas de TE nos quais são utilizadas receptoras de cio natural ou induzido por PGF, faz-se necessário haver observação de cio bastante eficiente. Sabe-se também, que vacas de alta produção leiteira apresentam demonstração de cio de duração mais curta (LOPEZ et al., 2005), o que pode dificultar bastante a detecção do estro desses animais. Portanto, uma boa alternativa para aumentar as taxas de aproveitamento das receptoras (e, consequentemente, as taxas de prenhez), seria a utilização de protocolos de TETF, uma vez que se aboli a necessidade de detecção de cio. Esse efeito pode ser evidenciado nos trabalhos de BARUSELLI et al. (2000b; 2003), nos quais foram obtidas respectivamente para os grupos PGF e Ovsynch taxas de aproveitamento de 45,2 (80/177) e 72,6% (122/168), com P < 0,0001 e taxas de prenhez de 25,4 (45/177) e 35,7% (60/168), com P = 0,03. Ainda, protocolos utilizando dispositivos de P4 e eCG poderiam ser mais eficientemente aplicados a todos os animais, inclusive àqueles em anestro ou sem CL ao início do protocolo.
Um trabalho realizado por RODRIGUES et al. (dados em via de publicação) no qual é realizada a comparação entre taxas de aproveitamento, concepção e prenhez de receptoras utilizadas após a aplicação de PGF associada á observação de cio versus receptoras submetidas a protocolos de TETF apresentando ou não CL no início do protocolo, mostra que apesar da superioridade numérica do grupo PGF quanto à taxa de concepção aos 30 e 60 dias (PGF = 53,6 e 47,6% vs TETF com CL = 42,6 e 38,5% vs TETF sem CL = 38,4 e 37,7%; P > 0,05) o protocolo foi capaz de aumentar as taxas de aproveitamento (35,9a vs 76,5b vs 62,4%c; P = 0,001) e, portanto, as taxas de prenhez aos 30 (19,2a vs 32,6b vs 24%ab, respectivamente; P =0,0006) e 60 dias (17,1a vs 29,4b vs 23,5%ab, respectivamente; P = 0,001), inclusive no grupo de fêmeas que não apresentavam CL ao início do tratamento.
É importante ainda ressaltar que, no presente trabalho, o eCG foi utilizado no momento da retirada do implante de norgestomet. Esse hormônio possui efeito luteotrófico comprovado (BARUSELI et al., 2000a), fato que deve ter desempenhado papel importante na elevação das taxas de concepção desse grupo, deixando-o semelhante aos demais (cio natural e PGF).