C. J'observe la construction de l'image
1. Le dialogue avec Écho dans la poésie baroque : un jeu de questions-réponses en équilibre
1.5. Le dialogue avec Écho : se parler à l’autre
Mais de um em cada dez colombianos foram forçados a deixar suas terras em algum momento de suas vidas, seja por causa da violência, do medo ou de ameaçadas relacionadas aos conflitos armados. De 1985 até dezembro de 2013, o governo calculava cerca de 5.185.406 vítimas de deslocamento forçado, mas esse número pode ser bem maior, como afirma a Consultoria para os Direitos Humanos e o Deslocamento (CODHES), chegando a 5.701.996 (IDMC, 2014, p. 4). Desse total, 70% são crianças que se deslocam dentro da Colômbia ou se tornam refugiados em outros países, principalmente aqueles que fazem fronteira com a Colômbia (MIKUNI, 2012, p. 231). Dentre os motivos que deslocam cerca de 300.000 colombianos a cada ano estão recrutamento de menores, violência sexual, minas antipessoais (que estão presentes em mais de 2/3 de todos os municípios colombianos), extorsão e ameaças a defensores de direitos humanos. É interessante destacar que indígenas e afrocolombianos constituem 25% dos deslocados, apesar de corresponderem a apenas 11% da população nacional (IDMC, 2014, p. 1).
111 A vulnerabilidade das crianças aos abusos é uma razão forte para a migração forçada das pessoas. Muitas famílias e crianças se deslocam para impedir que seus filhos sejam recrutados por grupos armados ou para evitar que eles cresçam em meio à violência dos conflitos armados (IDMC, 2014, p. 6). Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), ameaças das guerrilhas e dos paramilitares são a primeira razão para a família buscar refúgio (WATCHLIST ON CHILDREN AND ARMED CONFLICT, 2004, p. 13). Muitas dessas se dirigem aos centros urbanos ou para outros pontos nas mesmas regiões de onde são oriundas para buscar locais seguros onde possam esconder seus filhos de grupos armados que queiram vinculá-los (PACHÓN, 2009, p. 8).
Infelizmente, nem sempre essas crianças e seus pais encontram a segurança que buscavam ao se deslocarem. Deve-se pensar que o conflito armado ainda está em curso no país e que diferentes grupos armados ilegais continuam a ter controle territorial e a competir entre si por rotas, territórios e poder. Sendo assim, famílias podem escolher fugir das guerrilhas para acabar nas mãos dos paramilitares, ou vice-versa, o que não garante de modo nenhum que seus filhos não serão recrutados. Segundo os Princípios e Diretrizes de Paris (2007), crianças deslocadas internamente por causa de conflitos armados podem ter maior risco de serem usadas por grupos ou forças armadas por causa da reduzida proteção social e dos parcos mecanismos para lidar com o deslocamento, além da discriminação com base em seu status migratório ou o fato de serem percebidas como apoiadoras de um dos grupos beligerantes. Além disso, a falta de oportunidades econômicas, educacionais e de lazer pode contribuir ainda mais para o recrutamento. Essa situação acontece na prática na Colômbia. Dentre os menores desvinculados de conflitos armados, 59% deles migraram ou foram deslocados à força a cada três anos antes de serem recrutados (SPRINGER, 2012, p. 21).
Uma pesquisa de 2010 patrocinada pela sociedade civil mostrou que 90% dos deslocados internos na Colômbia viviam abaixo da linha da pobreza e 77% na pobreza extrema (MONITORING COMMISSION, 2010 apud IDMC, 2014, p. 9). Os assentamentos em piores condições de salubridade e acesso a serviços estão habitados por indígenas e afrodescendentes (ROJAS, 2014). Além disso, apenas 1 em cada 4 crianças continua estudando e, como a maior parte delas não foi devidamente registrada, são poucas as que possuem acesso a serviços de saúde (HINESTROZA-ARENAS, 2007, p. 49). A maior parte dos menores deslocados não consegue continuar estudando por dificuldades econômicas, falta de vagas em escolas, material e uniforme escolar, por problemas psicológicos resultantes das causas ou do deslocamento em si e por estigmatização por sua possível associação a um grupo
112 beligerante (SERNA, 2011, p. 4). Assim, esses fatores tornam-nas mais vulneráveis ao recrutamento voluntário como alternativa para sua sobrevivência e proteção.
Crianças deslocadas internamente enfrentam pobreza, falta de acesso à educação e à saúde, stress psicológico, trabalho infantil e outras violações de seus direitos. Muitas delas veem a desintegração ou separação de suas famílias (WATCHLIST ON CHILDREN AND ARMED CONFLICT, 2004, p. 11). A migração frequente em idade jovem marca o desenvolvimento mental dessas crianças (SPRINGER, 2012, p. 34), pois conduz ao enfrentamento de situações críticas de caráter social, cultural e psicológico (SERNA, 2011, p. 4). As causas que levam ao deslocamento de uma família em um contexto de conflito armado interno alteram as condições e interações familiares normais. Os adultos podem vivenciar medo e ansiedade constantes, o que gera sentimentos de angústia e culpa. Além disso, a situação econômica da família e seu acesso a recursos e serviços também são prejudicados. Atos de violência intrafamiliar podem começar a ocorrer ou se intensificar, levando ao mau trato e ao abuso infantil, uma das causas para a vinculação de crianças como soldados (SERNA, 2011, p. 2). Ao mesmo tempo, o deslocamento pode ser consequência da morte dos pais, o que afeta as crianças e altera seu ambiente de proteção e sustento.
Além disso, o deslocamento leva à perda de pessoas queridas, de referenciais geográficos, afetivos e simbólicos, da possibilidade de participação comunitária e ao rompimento de vínculos com a comunidade de origem (SERNA, 2011, p. 3). A estrutura que fundamenta a vida pessoal, familiar e social sofre um forte impacto, que pode ter consequências no desenvolvimento do menor (SERNA, 2011, p. 3). Jovens e crianças deslocados acabam se vinculando a grupos armados como uma opção laboral (por causa da situação econômica adversa), como vingança contra o grupo que causou seu deslocamento ou a esse mesmo grupo, para acabar com o sentimento de estigmatização ou marginalização sofrido (SERNA, 2011, p. 5). A ausência de perspectivas de retorno e de soluções duradouras para a situação provisória de deslocamento (que se torna permanente) contribui para o cálculo que leva ao recrutamento.
Os grupos armados sabem que os deslocados internos estão em situação de vulnerabilidade e se aproveitam disso para obter novos recrutas. Mulheres e meninas deslocadas sofrem com o aumento da violência doméstica, abuso e exploração sexual. De acordo com um estudo do Instituto Colombiano Pró-família, 20% das mulheres deslocadas foram estupradas e 30% das adolescentes tiveram filhos ou estão grávidas (ROJAS, 2006, p. 3). A vinculação a um grupo armado pode ser uma forma de empoderamento e segurança para
113 meninas, visto que o deslocamento é um fator de maior vulnerabilidade para esse grupo por causa do gênero e da quebra das relações de proteção.
As crianças refugiadas em outros países também enfrentam adversidades e discriminação. Além disso, há casos de recrutamento internacional de crianças colombianas. Em 2002, o ACNUR reportou que grupos armados estavam recrutando menores de 18 anos em áreas fronteiriças do Equador, Panamá e Venezuela (WATCHLIST ON CHILDREN AND ARMED CONFLICT, 2004, p. 13). Esse não é um caso isolado, visto que tem sido intensificado ao longo dos anos. Também povos indígenas amazônicos do Peru e do Brasil foram vítimas de recrutamento e dessas perseguições (PACHÓN, 2009, p. 6).
Existe uma clara conexão entre o deslocamento forçado e o recrutamento de menores na Colômbia. Como afirma o ACNUR Colômbia28, esse é um ciclo vicioso que se
autoalimenta porque o recrutamento de crianças causa o deslocamento de famílias inteiras e o deslocamento deixa-as mais vulneráveis por causa dos laços e das redes sociais que se rompem. Também não há um registro claro sobre qual a porcentagem de pessoas que se deslocam por causa do recrutamento ilícito de menores. O que a organização acredita é que para muitos deslocados continua a ser mais fácil pedir refúgio em outros países do que se deslocar para os centros urbanos dentro da Colômbia. Por fim, a organização sustenta que a Colômbia vive uma guerra de crianças e que há novos riscos de guerras de menores no futuro, o que poderia ser evitado com o desarmamento, a desmobilização e a reintegração de todas as crianças envolvidas no conflito armado colombiano.