CHAPITRE 1: Introduction
1. Arthrite rhumatoïde
1.3 Diagnostic clinique
A questão relacionada às dependências químicas, dessa forma, volta a insistir, sendo que agora pode ser retomada a partir de um ponto de vista analítico, ou seja, a partir das diferenças. Vislumbrando como cenário social os dispositivos disciplinares que envolvem os modos de consumo de psicoativos, convém situá-los no texto de um jogo de estratégias interpretativas. O conceito de dependência apontado pela visão medicinal tende a vincular o organismo e seu funcionamento neurofisiológico às concepções fundamentais de saúde. Caracteriza a incidência regular das substâncias e seus efeitos em acordo com critérios diagnósticos organizados positivamente pela observação clínica. A implicação de um sujeito suscetível, ordenador da experiência, fica praticamente excluída dos tratamentos, que se restringem a princípio em desintoxicar os indivíduos e readaptá-lo à vida social produtiva.
A dependência pode ser assimilada, entretanto, a campos mais vastos que a própria palavra distende, cuja amplitude atinge disposições coletivas em sua irredutibilidade, com relação às experiências perceptivas e seus efeitos. A noção de dependência pode assim adquirir caráter difuso ou plural conforme sua leitura, onde a representação ideativa pode estar associada à inter-dependência entre grupos rivais, a idolatrias diversas, ao consumo compulsivo de mercadorias, a neuroses afetivas, a sintomas macro e micro-familiares, e inclusive ao consumo abusivo de psicoativos. Além disso, uma leitura não exclui necessariamente a outra, podendo apresentar complementaridade. Por esse viés, a relação que procuramos apresentar entre o sujeito que experimenta regularmente uma substância e a noção de dependência nesta primeira parte, responde a um apelo discriminatório que faz sentido no seio de sua inserção no campo do Outro, ou seja, no tecido da linguagem.
Há alguns anos atrás, uma campanha de prevenção ao uso de drogas no Brasil foi veiculada através das mídias, utilizando o seguinte lema ou slogan: “Drogas. Nem morto!” 54. I ndependente da estratégia preventiva e seus efeitos de impacto, dizemos que para o sujeito que abusa de substâncias psicoativas, o lema poderia ser outro: ”Drogas. Só morto!”. A relação que o sujeito do efeito psicoativo mantém com sua substância é rigorosa quanto à própria virtualidade da experiência em questão, quanto à insubordinação ao universo simbólico [Só morto!] , e possivelmente esse é o ponto de interesse para aqueles que trabalham com a questão das dependências ou da toxicomania. Fala-se de dependência ou vício, outro termo que adquiriu
54 Slogan utilizado pela campanha de prevenção ao uso de drogas da Associação Parceria Contra Drogas
[APCD], agremiação de grandes empresas brasileiras, amplamente divulgado pela mídia e associado a fortes imagens de dependência química, desde 1996.
sentido pejorativo, mas o consumo das substâncias, mesmo ilícitas, nem sempre caracteriza quadros de dependência química, mesmo quando tomados do ponto de vista dos critérios medicinais e das estatísticas de internação. A dependência associada às substâncias configura um possível fantasma, uma sombra de degradação física e moral, notoriamente vinculada ao estigma das drogas, e amplamente utilizada para fins profiláticos.
Essencialmente, a vivência associada aos psicoativos não gera saber em si; no entanto, está sujeita a interpretações múltiplas, não raro circunscritas à idiossincrasia do usuário, do grupo terapêutico, do arbítrio judicial e de outros. Que haja dependência física ou psíquica, isso não dispõe contra a farmacotimia inerente às práticas diversas, e sim consiste numa relação observável em uma porcentagem de casos, em que fica evidente o desequilíbrio entre o abuso da substância e a interação social junto aos semelhantes. Assim, a questão da proibição sobre o consumo de psicoativos ilícitos, por exemplo, pode estar subordinada a interesses de grupos econômicos, ideologicamente coesos, e de grande poder de influência, inclusive sobre os veículos de comunicação. Observamos que isso lança as bases para um tipo de discurso [ proibicionismo] que condena radicalmente determinadas plantas e substâncias derivadas, pejorativamente designadas drogas, como cocaína [ Erythroxilum coca] , maconha [ Cannabis sativa] , ecstasy [ MDMA 55] e outras, desconsiderando comparações evidentes ou práticas equilibradas de consumo que são menos perniciosas. O hábito de mascar as folhas de coca, por exemplo, é absolutamente integrado à rotina de trabalho nos países andinos.
Apesar de manifestar o traço de conservação dos valores familiares e de interesse social soberano através dos séculos, essa visão hegemônica, que tolera apenas bebidas alcoólicas, substâncias medicamentosas e tabaco, não inibe a procura incessante por diferentes produtos psicoativos e inclusive contribui para uma atitude contestatória e realmente transgressiva fundada na farmacotimia. A visão proibicionista é apenas uma tradução, uma tradição, uma definição narrativa sobre a variedade das motivações humanas, segundo o modelo de estigma apresentado por Elias e Scotson, ignorando outros modos possíveis de relação com as substâncias e plantas, como encontramos nos hábitos particulares culturalmente integrados e nas práticas rituais coletivas.
Por havermos considerado a característica de estigma que envolve diferentes estados perceptivos, refletimos então sobre a relação específica de um suposto sujeito do efeito, que comparece a partir do encontro do usuário com a substância de absorção. Antes de qualquer
consideração, isso constitui um sistema estruturado em torno de experiências perceptivas, seja quanto ao meio ambiente, ou quanto à percepção da alteração psíquica, do corpo orgânico e erógeno, e sua complexa vinculação com a linguagem. O quadro do uso voluntário de um psicoativo fornece justamente o terreno móvel para a indagação psicanalítica sobre as vivências de satisfação associada à esfera da pulsão. Por mais diversas que tenham sido as tentativas de apropriação, captura ou redução dos efeitos das substâncias, seja através de classificações, descrições, nomeações, produções literárias, essas esbarram na insubordinação da realidade perceptiva ao universo simbólico da razão. Em suma, sobre os efeitos das substâncias e seus sujeitos vorazes recobrem-se discursos e metáforas que narrativamente constroem, desordenam e reproduzem o complexo imaginário dos sentidos.