As Reflexões sobre a Lingua Portugueza são, de facto, um dos melhores exemplos do riquíssimo património de fontes textuais da BPE, bem como da relevância da conservação, disponibilização, estudo e divulgação desse património, que integra a nossa herança textual. Escritas em 1768, mas editadas postumamente, como acima se disse, as Reflexões conheceram a sua primeira edição em 1842, em Lisboa, na “Collecção de inéditos publicados
9 A obra teve outras edições em 1746, 1787, 1815 e 1849. Da 1ª parece ter existido uma reimpressão, no
79 pela Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis”10. Esta edição, no entanto, como em geral todas as edições oitocentistas, encontra-se hoje, além de esgotada, desactualizada, porquanto os seus pressupostos não são actualmente aceitáveis à luz dos princípios teóricos e metodológicos da crítica textual (Spina, 1977; Critique, 1986; Spaggiari e Perugi, 2004; Cambraia, 2005; Castro, 2007).
Com efeito, a edição de 1842, claramente interpretativa, não só altera substancialmente o texto do Autor,como não dá a conhecer ao leitor o teor e o alcance das intervenções editoriais, uma vez que não existem critérios de transcrição expressos, o que torna a edição inutilizável para estudos linguísticos. Em nota à “Prefação da Presente Edição”, é dito que “o Sr. Rivara […] teve a bondade de vigiar pela exacção da copia do Ms.” (Rivara, 1842: XXIV), nota que ilustra bem o modus faciendi das edições oitocentistas, cuja transcrição ficava a cargo de qualquer obscuro funcionário de biblioteca, não identificado, cabendo ao “editor” não mais do que a revisão da transcrição e a redacção do prefácio e notas. Não espanta, por isso, que, apesar da erudição dos editores, como é o caso, a análise destas edições revele banalizações e outros erros de transcrição, bem como uma enorme inconsistência ao nível dos critérios utilizados; além da modernização e uniformização indiscriminada de grafias, que, regra geral, oculta importantes factos linguísticos.
Urge, pois, revisitar o manuscrito de Francisco José Freire e fornecer ao leitor actual uma edição fidedigna das Reflexões. Uma tal edição terá de definir de forma clara, em função do tipo e cronologia do texto e do público-alvo da edição, critérios e normas de transcrição, que, atendendo à inexistência de outras edições, terão de ser razoavelmente conservadores. Só este procedimento permitirá a conservação, disponibilização, estudo e divulgação desta importantíssima obra, que, como antes referido, é apenas uma das muitas, de idêntico valor e interesse, que constituem o espólio da BPE e que é objectivo do presente projecto resgatar da poeira dos arquivos e devolver ao público. Vejam-se, nas Tabelas a seguir, alguns exemplos ilustrativos do que acima fica dito sobre as intervenções editoriais de Rivara11.
10Além de promover a edição de várias obras inéditas, esta Sociedade fundou O Panorama (1837-1844),
um dos mais importantes periódicos da primeira metade do século XIX, no qual, entre outros escritores, colaboraram Alexandre Herculano, Garrett, Castilho e Camilo. Neste periódico foram divulgadas muitas novidades literárias, científicas e também linguísticas.
11
Esta edição encontra-se disponível on line, na Biblioteca Nacional Digital (Memórias - Língua), no seguinte endereço: http://purl.pt/135. A obra localiza-se, ainda, em outro endereço:
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TABELA 1
PONTUAÇÃO E MAIÚSCULAS
MANUSCRITO EDIÇÃO
Muito ha, que para … Muito há que para
…da Lição de todos os Authores, que geralmente são tidos por Classicos…
…da lição de todos os Auctores que geralmente são tidos por Clássicos… …mudámos de opinião, persuadindo-nos,
de que este Livro…
…mudámos de opinião, persuadindo-nos de que este livro…
…com a correcção, e energia, que lhe he devida…
…com a correcção, e energia que lhe é devida…
A ordem que seguiremos, será dividir… A ordem, que seguiremos, será dividir… …satisfazendo assim a huns reparos que
nos fizeram…
…satisfazendo assim a uns reparos, que nos fizeram…
…satisfazendo assim a huns reparos que nos fizeram…
…satisfazendo assim a uns reparos, que nos fizeram…
…passaremos a mostrar, que esta não he… …passaremos a mostrar que esta não é…
Livro livro Tratado tratado Linguagem linguagem Partes Parte partes parte
TABELA 2
MODERNIZAÇÃO / REGULARIZAÇÃO DE GRAFIAS uzo prezentes uzarem uso presentes usarem Introdução Introducção Reflexoens Reflexões Authores authoridade Auctores Autoridade
81 Algũas
Hũa
Algumas Uma
Atequi até aqui
hum huns he um uns é Teoricamente Teoricamente Escritores Escritor Escriptores Escriptor estabellecermos Estabelecermos
TABELA 3
DESENVOLVIMENTO DE ABREVIATURAS 1ª 2ª 3ª primeira segunda terceiraTABELA 4
OUTRAS INTERVENÇÕESAcrescentos na margem e na entrelinha Introdução de todos os acrescentos no corpo do texto sem qualquer indicação.
Estes e outros exemplos, que facilmente se identificam no confronto do manuscrito de Freire com as páginas correspondentes da edição de Rivara (1842)12, são suficientemente ilustrativos dos vários problemas filológicos da edição oitocentista realizada pelo bibliotecário e revelam a urgência de uma edição crítica que devolva ao público este importantíssimo texto para efeitos de análise linguística.
12
Importa salientar que as Partes das Reflexões saíram em fascículos diferentes, depois reunidos num só volume, motivo por que cada Parte tem paginação autónoma. A obra de Freire registou uma 2ª edição em 1863, impressa em Lisboa na Tipografia do Panorama (Cf. Anexo 2, imagem 5).
82 Um dos aspectos em que as Reflexões assumem particular interesse linguístico é o que se refere ao léxico do português setecentista, assemelhando-se muitas das Reflexões a dicionários “temáticos”, por exemplo, de palavras caídas em desuso ou de palavras consideradas inaceitáveis em determinados géneros literários, mas comummente usadas. Das
Reflexões como exercício “paralexicográfico” (Verdelho, 1995: 225) tratar-se-á no ponto
seguinte.