No período em que esta entrevista foi realizada, os alunos já haviam estudado os modelos atômicos de Dalton, Thomson, Rutherford e Bohr e discutiam, nesse mesmo período, a classificação periódica dos elementos.
Durante a entrevista, ao ser questionado sobre como imaginava que seria o átomo, o aluno afirmou que seria como uma bola cheia de elétrons rodando dentro dela e que o núcleo do átomo também estaria no interior dessa bola.
Em sua representação das partículas de água, o aluno pegou uma esfera de isopor maior e de cor verde – que ele identificou como sendo o átomo de oxigênio – e, com o auxílio de dois palitos de dente, fixou duas esferas de isopor menores de coloração laranja – que ele identificou como sendo os átomos de hidrogênio (figura 3).
Para ele, a origem da união dos átomos seria o fato de que, ao se movimentarem, eles se aproximariam e seus núcleos se uniriam, formando um núcleo único. Aquele que ficasse sem o núcleo (esferas laranja) assumiria uma carga negativa e o que ficasse com os núcleos unidos (esfera verde) assumiria uma carga positiva e, por isso, se atrairiam.
Figura 3. Representação do Aluno 1 para as partículas constituintes da água elaborada na entrevista pré-instrução.
É importante ressaltar que, embora o aluno tenha estabelecido uma comparação entre o átomo e uma bola, ao expressar suas idéias, ele mapeou somente propriedades descritivas como destacado no esquema 1.
ANÁLOGO ALVO
bola 12 átomo
oca oco
superfície limitante superfície limitante
Esquema 1. Mapeamento do Aluno 1 na comparação estabelecida entre o átomo e uma bola.
Neste caso, bem como em outros referentes às entrevistas de alunos que serão apresentados posteriormente, somente exibiremos, mas não discutiremos, os fundamentos desse tipo de similaridade. Como destacamos no capítulo 2 deste trabalho, trata-se de uma comparação de mera aparência e, portanto, não evidenciamos o estabelecimento de um raciocínio analógico.
Na tentativa de explicar a união entre os átomos, o aluno estabeleceu a comparação apresentada e discutida a seguir.
Como se fosse um pai ou uma mãe (mostra a bolinha verde maior) e aqui fosse os dois filhos (pega as duas bolinhas laranja menores), aí eles uniriam um...
(...) Os laços da mãe e do filho. Os dois são unidos, não fisicamente, mas por
sentimentos... E aqui também a mesma coisa. Como se aqui esse fosse uma mãe (aponta para a bolinha verde), esse aqui um filho (aponta para as bolinhas
laranja) aí eles estariam atraídos, pelos sentimentos. Os sentimentos seriam as
cargas.
12 Correspondências entre objetos serão representadas por seta dupla fina; combinações de atributos, por seta dupla
ANÁLOGO ALVO
pai/mãe átomos de oxigênio filhos átomos de hidrogênio atração devido aos
laços afetivos
atração devido às cargas elétricas
Esquema 2. Mapeamento do Aluno 1 na analogia estabelecida entre pais, filhos e átomos.
Embora o aluno parecesse mapear o sentimento para cargas elétricas, ao longo de toda a entrevista ele associou estas à atração entre os átomos, como podemos perceber através do trecho em que ele procurou detalhar mais a explicação para a união entre os átomos:
Esse átomo aqui (bolinha verde), por exemplo, às vezes ele perde elétrons para outro, aí a carga dele seria positiva, se ele perdeu elétrons a carga dele seria positiva, e esse aqui ganhasse elétrons de outro. Aí, um ia ser positivo e o outro negativo, aí quando eles tivessem perto um do outro, iam se atrair.
No seu mapeamento entre os domínios, atributos como o tamanho dos átomos e o tamanho de pais e filhos – apesar de parecerem implícitos em suas representações – não foram explicitamente mapeados, o que nos leva a crer que estes foram ignorados no processo. Por outro lado, o mapeamento relacional entre a atração eletrostática existente entre os átomos e a atração afetiva existente entre os pais e seus filhos ocorreu de forma clara e explícita, nos fornecendo evidências de sua noção sobre a natureza elétrica da matéria e nos permitindo classificar sua comparação como uma analogia. Considerando que até o período da entrevista todo o conteúdo sobre modelos atômicos já havia sido ministrado, e que, portanto, essas noções já eram parte da estrutura de conhecimento desse aluno, estas demonstraram forte influência sobre os domínios comparados.
O fato de esse aluno ter sido capaz de estabelecer uma comparação relacional não significa, entretanto, que ele representasse os domínios da maneira que um professor de ciências esperaria. Pudemos comprovar isso através dos esclarecimentos prestados pelo aluno a respeito dessas representações:
Um tá muito perto do outro (se refere aos átomos), como se fosse ímã e um metal assim... Aí se você chegasse um perto do outro, o ímã agarra no metal, ou o metal no ímã, sei lá.
ANÁLOGO ALVO
ímã/metal átomos
contato físico entre os objetos
contato físico entre os átomos
atração entre o ímã e o metal
atração entre átomos
Esquema 3. Mapeamento do Aluno 1 na similaridade literal estabelecida entre ímãs e átomos.
Nessa comparação, o Aluno 1 relacionou a atração existente entre o ímã e o metal com a atração existente entre os átomos. Além disso, apesar de na analogia anterior ter destacado que a atração entre pais e filhos não originaria um contato físico entre eles, com relação aos átomos, esse aluno demonstrou imaginar que estes se ligariam através do contato físico. Isto ficou evidente por meio de sua descrição do átomo (como esfera oca dotada de uma superfície material delimitadora) e de seus esclarecimentos na entrevista pós-instrução. Com base nessas idéias entendemos que, nessa nova comparação, ele combinou atributos do análogo e do alvo, o que faz dela uma similaridade literal.
Ao longo da entrevista, o aluno esclareceu que, depois de unidos, haveria a migração dos núcleos e que seria essa migração a responsável por manter a união entre eles. Para ele, caso essa migração não ocorresse, os átomos positivos e negativos poderiam voltar a ganhar ou perder elétrons de outros átomos, ficando sem cargas, e, portanto, não haveria a união entre eles.
Quando solicitado novamente a fazer uma comparação, só que agora não mais para a união entre os átomos, mas especificamente para a atração entre eles, ele propôs:
O Sol e a órbita, ... a Terra. Os planetas e o Sol. (...) Só que bem mais junto, né? Bem mais atraído.
ANÁLOGO ALVO
Sol/planetas átomos
atração gravitacional atração interatômica
Esquema 4. Mapeamento do Aluno 1 na analogia estabelecida entre Sol, planetas e átomos.
Nessa analogia13, como na anterior, o aluno combinou predicados relacionais e ignorou os predicados de objeto. Ele confirmou que, ao estabelecer a comparação dos pais e filhos com os átomos, pensou de maneira semelhante à que pensou para estabelecer essa analogia.