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Chapitre II : La bainite par transformation isotherme

II.2. Description de la bainite en refroidissement isotherme

Como já tivemos oportunidade de referir, a análise detalhada das metodologias deste projeto de investigação, e do quadro de opções que lhes são inerentes, estão descritas em rigor na Quarta Parte deste trabalho. Todavia, em jeito de síntese, podemos assumir que esta investigação se insere num paradigma interpretativo (Geertz, 1988), que busca a compreensão através da interpretação das vozes dos próprios sujeitos (Bogdan e Biklen, 1994), no acompanhamento etnográfico de atividades desenvolvidas em dois ateliês de design gráfico portugueses, com assinatura projetual, ao longo de um período contínuo de seis meses, perfazendo uma das partes deste estudo. Na perspetiva de possibilitar uma leitura a partir do interior desse mesmo contexto social, valorizando as relações que ali se estabelecem, o relato dessa experiência constitui-se como um dos vértices da investiga- ção, que optou pela triangulação de dados (Denzin, 1989) como matéria de validação dos resultados da investigação.

Se a componente de observação etnográfica, desenvolvida ao longo de um período de seis meses, em ambos os ateliês, nos permitiu reunir informações adequadas para proceder a uma descrição em profundidade do contexto de trabalho daquelas equipas, as entrevistas funcionam neste estudo como um dispositivo para colmatar eventuais lacunas resultantes dos limites cronológicos, temporais ou sociais da observação. Para além disso, nas entrevistas foi ainda possível abordar com profundidade as principais relações que, ao longo do estudo, foram ganhando preponderância. Em complemento a essa recolha de dados pela via da observação participante, acrescentam-se a realização de dez entrevis- tas semiestruturadas aos intervenientes, bem como a análise documental de alguns dos materiais recolhidos no terreno. No total, estamos confiantes de que estes materiais não só contribuem para o lançamento de novas pistas de entendimento sobre a prática do de- sign gráfico, essenciais a uma fundamentação crítica contemporânea dos ateliês enquanto habitat coletivo de relações entre agentes, humanos e materiais, como se configuram um registo útil à construção de um registo situado da profissão (Grootens, 2010). Para tal, o estudo de casos múltiplos revelou-se a abordagem mais ajustada às necessidades do es- tudo, pela liberdade que confere em estudar casos singulares imersos num contexto real

situado (Yin, 1987), tendo o como e o porquê (Bogdan & Biklen, 1994) como objetivos, conferindo significado aos acontecimentos e às interações desenvolvidas por sujeitos co- muns, num determinado contexto particular.

Desenvolvida através da interação direta entre o investigador e os sujeitos, a investiga- ção privilegiou a recolha através de técnicas de observação etnográfica e de análise docu- mental, completadas com a realização de dez entrevistas semiestruturadas. Se o diário de campo surge como instrumento primordial para a descrição densa levada a cabo em cada ateliê, e no qual o investigador regista tudo o que conseguir (Geertz, 1973), as entrevis- tas assumiram um papel de afunilamento das principais categorias submetidas a análise, para além de permitirem a validação dos dados por parte dos sujeitos observados. A estes dados acrescentam-se a análise documental de vestígios da prática projetual (como dese- nhos e experiência de composição) e a gravação esporádica de determinadas momentos, como as reuniões em grupo.

Ao nível do tratamento dos dados, a opção recaiu sobre a análise de conteúdo, técnica por excelência para a desocultação dos sentidos inerentes aos testemunhos dos participantes (Pêcheux, 1969), permitindo não só compreender através da com- preensão do outro (Silva, 2003) mas também resistir à perpetuação do mito veiculado por dogmas e das verdades absolutas, e reconhecendo que o conhecimento se cons- trói pelo desmantelamento das ideias preconcebidas e das armadilhas que originam o senso comum. Estes processos não só contribuem de um modo indelével para uma maior perceção da design expertise, adotando o conceito avançado por Lawson e Dorst (2009), no sentido em que nos importa acompanhar, interpretar e compreen- der os comportamentos levados a cabo pelos melhores designers, permitindo almejar o entendimento de dimensões como a liderança projetual (e as suas estratégias), a identidade particular do ateliê e as dinâmicas de comunicação organizacional que se estabelecem em cada um dos ateliês observados. Longe de serem exclusivos à com- preensão da prática profissional em design gráfico, será esse o nosso ponto de partida para o entendimento deste contexto profissional, conscientes de que uma transposição do olhar sobre esta realidade aportaria enormes diferenças de interpretação e de con- dução deste estudo.

Para minimizar as diferenças de interpretação, procurámos providenciar ao leitor um retrato literalista do ateliê, inclusive na invocação dos seus aspetos mais mundanos, des- percebidos ao olhar de visitantes ou, inclusive, dos próprios sujeitos da investigação, tal a familiaridade naquele contexto. Sempre que possível, as palavras são utilizadas para transportar o leitor para o universo daquelas empresas, personificando as emoções do ob- servador como forma de incrementar a experiência sensorial da observação participante, similar ao exercício de descrição de algo tão banal quanto uma rua, como o que Georges

Pèrec sugere no seu Espèces d’Espaces (1974), um esforço de representação que procura não deixar nada por dizer:

A rua: tenta descrever a rua, de que é feita e para que é utilizada. As pessoas na rua. Os carros. Que tipo de carros? Os edifícios: nota que eles se encontram no lado confortável, bem pavimentado. Distingue os edifícios residenciais dos governamentais. As lojas. O que vendem eles nas lojas?10 (Perec, 1998, p. 50)

O quadro metodológico apresentado inscreve-se, deste modo, numa linha de enquadra- mento socioconstrutivista, que configura o entendimento do real através de construções pessoais e sociais, assumindo uma postura subjetivista por parte do investigador e dando origem a uma metodologia de inquirição de cariz hermenêutico e dialético, como nos explicam Gray & Malins (2004), através da citação do trabalho de Guba, de 1990.

10. No original: “The street: try to describe the street, what it’s made of, what it’s used for. The people in the street. The cars. What sort of cars? The buildings: note that they’re on the comfortable, well-heeled side. Distinguish residential from official buildings. The shops. What do they sell in the shops?”

E se fôssemos a tratar de todos os aspetos do ofício de gráfico (inclusive os malfadamente económicos) não nos bastaria o ano inteiro, a três tardes por semana. Victor Palla 1. Design(s) e designer(s)

Nesta segunda parte do trabalho, envidamos esforços no sentido de aproximar o leitor do território conceptual em torno da atividade do designer, contribuindo para a sua com- preensão. Longe de esgotar o tópico, procurámos evocar as ideias que mais perto se si- tuam do nosso objeto de estudo, articulando perspetivas sobre o design e sobre a profissão de designer gráfico.