L ’ Éducateur comme lieu de mémoire interculturelle
4.1 Des relations confédérales en decrescendo ?
Há um sentido profundo que é a própria realidade do mundo; mesmo ocultado pelas crueldades deste mundo, Buber reconhece que este sentido profundo existe, porque não é possível, para ele, que a vida não tenha uma direção. O que sinaliza esta possibilidade real são as vivências de cada homem do próprio caminho no mundo: reconhecer e empreender uma jornada de vislumbramento do ser no mundo dependem dessa disposição particular em colocar-se sob a luz do Absoluto e ao lado do homem.
Buber nos permitiu compreender, com suas categorias, que o homem tem um propósito no mundo cuja descoberta depende exclusivamente de como pronuncia as palavras-princípio, que são o modo como o homem escolhe ser e estar no mundo. Vimos como o pensamento de Buber é direcionado para uma reflexão do estar do homem com os outros homens, e de como este pressuposto é determinante da significação da sua identidade. Procuramos, portanto pontuar e destacar como as palavras-princípio, que são o modo como o homem escolhe ser e estar no mundo. Vimos como o pensamento de Buber é direcionado para uma reflexão do estar do homem no mundo com os outros homens, e de como este pressuposto é determinante da significação da sua identidade. Procuramos, portanto, pontuar e destacar como as palavras-princípio configuram a presença e a qualidade desta presença do homem, e de como cada perfil pode conduzir o homem para mais perto ou para mais longe de si e de Deus. As duas palavras-princípio, Eu-Tu e Eu-Isso, são as formas de o homem atuar no mundo. Eu-Tu é a forma de relação transformadora e verdadeira que deve conduzir os homens, pois abrange a presentificação do mundo na vida do homem. Trata-se, deste modo, da forma dialógica por excelência de realização humana. Na palavra-princípio Eu-Isso, o homem experimenta um tipo de relação parcial, que contempla somente os aspectos práticos do homem, pertence ao terreno da objetificação, da experimentação em que o homem faz somente uma avaliação do mundo, não configurando uma relação dialógica.
Precisamos expor isto para enfatizar a qualidade da vida de Buber em relação ao seu pensamento. Justamente uma vivência pessoal daquilo que sustenta o pensamento dialógico. Isto permite concluir a possibilidade real de dirigir-se ao Outro
de modo genuíno, e que esta atitude enriquece a vida do homem de modo a transformá-lo e conduzi-lo ao Absoluto segundo um caminho pessoal. E de como o significado do diálogo, cujo conhecimento é possível com a vivência individual. A vida de Buber foi coerente com o que sustentou o seu pensamento: uma vida de diálogo com o mundo, e de como isso refaz a nossa relação com o Absoluto.
Vimos como Buber orienta-se para uma ética transcendente, que está estreitamente vinculada a atitudes consolidadas por valores inerentes ao homem. O estar do homem no mundo refere-se a um reconhecimento dele próprio do lugar no mundo ocupado por ele e pelos outros homens; essa alteridade pressupõe um conhecimento ontológico de si mesmo, porque promove uma aproximação genuína com os outros homens.
A ação ética, para Buber, pode ser descrita como aquela em que o homem é capaz de dispor-se corajosamente em atender solicitamente aos apelos da alma, que tem uma constituição feita da mesma fonte inspiradora da vontade de Deus. Em outras palavras, cada homem age segundo o desejo de estar em conformidade com a essência da alma, consequentemente coloca o homem numa genuína relação com o Absoluto, confirmando, deste modo, uma unidade existente entre a vida do homem no mundo e a vontade de Deus sobre o homem. A ética pensada por Buber vincula- se a uma vivência pessoal com o Absoluto no mundo; defende uma vida humana em estreita aproximação e abertura ao sentido do Absoluto.
Buber não faz separação entre as duas instâncias: divino e humano encontram-se no mundo e compõem uma unidade de sentido. O homem une-se ao sentido e vislumbra o que a sua vida significa essencialmente, isto quando permite relacionar-se de maneira transformada e coerente.
Se a filosofia de Buber sustenta-se no princípio da relação, a existência do homem deve pautar-se no postulado do desvelamento de si em mútua colaboração com o desvelamento do outro na reciprocidade da procura. O homem pontua a sua ação na disposição pessoal e autêntica de tornar-se pleno no encontro com o Outro, para que este também realize a mesma plenitude no Eu.
Esta dissertação procurou investigar o entendimento ético de Buber e a formação do homem para este perfil ético. Mesmo tendo exposto e analisado os principais conceitos, empreendido uma interpretação desses conceitos, a questão do educativo ainda não ficou completamente (se é que isto seja possível) exposta. Com isso, queremos dizer que ainda há muito a acrescentar das obras de Buber,
especialmente as que tratam justamente sobre a educação, para consolidar uma teoria pedagógica voltada para a formação ética dos homens. O que não permitiu esse adentramento mais profundo foi a modalidade de trabalho na qual o tema é tratado. Muito certamente, uma pesquisa com a envergadura de análise mais completo do fenômeno educativo e, especialmente, do pensamento ético, cabe mais a uma tese de doutorado.
Os conceitos são ampliados para o terreno educativo, pois a vivência destes conceitos encerram a formação para o conhecimento dos conceitos. Uma educação que permita conscientizar o homem de seu potencial dialógico. A urgência de formar o homem para o Absoluto como critério fundamental de realização existencial. A religiosidade, no sentido buberiano, é o modo de ser e estar no mundo.
Tivemos como propósito, neste trabalho, expor e interpretar as principais linhas do pensamento buberiano no campo da educação. Vimos como tais linhas são coerentes com o seu pensamento geral, o que nos sinaliza uma unidade teórico- prática dos conceitos filosóficos na educação. No que refere-se ao pensamento geral, pudemos observar o valor essencial do diálogo nas relações: representa o sentido ontológico da existência humana; o homem faz-se nas inter-relações. O reflexo disso na educação foi identificado na urgência de formar homens para a comunidade, isto é, para estarem em relação com os outros homens, de modo a pronunciarem o Tu, única atitude autêntica e de ressonância na existência de todos.
Buber propõe um caminho formativo que permite ao homem encontrar-se em dependência com o Absoluto, fonte de sentido da vida dos homens. Uma vivência religiosa, consequentemente, não tem um significado restrito às práticas rituais de uma religião, ao cumprimento da doutrina ou ao seguimento ortodoxo dos ensinamentos milenares; religiosidade aproxima-se mais de um comprometimento consciente e pessoal com o mundo, constituindo-se nele o lugar de efetivação da vontade de Deus. Isto acontece de tal maneira que é o caminho próprio de cada um que vai sendo descoberto e realizado plenamente. A educação deve proporcionar ao homem a unificação de seu ser no mundo, libertando-o das amarras que o afastam de seu caminho.
Para a composição deste trabalho, circunscrevemos a leitura de algumas obras específicas que abordam os conceitos-chave do pensamento filosófico- educativo, não obstante isto não representar a pouca ou nenhuma importância de
outros escritos de Buber. Apenas delimitamos um campo de leitura para manter o foco da análise ético-educativa.
O que também não permitiu um adentramento mais profundo no pensamento pedagógico e ético de Buber foi o acesso à obra em língua de publicação original do autor, encontrada geralmente no idioma alemão, com raras traduções em português, inglês e italiano. Não temos dúvidas de que a leitura direta no idioma original de publicação permite aproximar-se mais consistentemente das questões filosófico- educativas. Por mais que tenham excelente qualidade, as traduções em outros idiomas não tem o elã da obra no idioma original.
Sendo assim, permanecem como questões de pesquisa merecedoras de investigação os elementos que configuraram o pensamento filosófico-educativo de Buber, justamente as influências originadas de pensadores com os quais teve algum tipo de contato. Kant, por exemplo, exerceu alguma medida de influência. Certamente isto pode ser retomado em pesquisas posteriores. Outra questão que merece ser retomada é a riqueza dos contos hassídicos e o seu viés pedagógico na formação dos hassidim. Certamente um estudo apurado dos contos hassídicos – muitos narrados por Buber – pode apontar para uma leitura pedagógica de riqueza inestimável para a formação humana. Extrair insights pedagógicos das anedotas hassídicas pode conduzir, consequentemente, o pesquisador à necessidade de compreender as linhas gerais que sustentam a Cabala, corrente mística judaica da qual nasce o Hassidismo.
As questões contidas nos escritos de Buber permitem uma ampla discussão e interpretação por parte do investigador. Justamente por esta razão, as interpretações contidas neste trabalho são uma interpretação possível, a qual assumo como possibilidade no estudo do pensamento buberiano. Assim como outro sistema filosófico, as ideias defendidas e a sua aplicabilidade na concretude da vida podem encontrar coerência ou o contrário.
Desta forma, as limitações deste trabalho podem funcionar como ponto de partida para novas investigações, a exemplo do viés pedagógico dos contos hassídicos, a pedagogia cabalística, os ensinamentos cabalísticos na vivência ética, a formação religiosa no sentido defendido por Buber, vivência política etc; além de realizar um exame das fontes não consultadas, a exemplo das que tratam densamente sobre religião, judaísmo, política, educação do povo judeu. Não há dúvidas da amplitude da obra de Buber nas direções traçadas aqui.
Por fim, o empreendimento de qualquer estudo em torno do pensamento de Buber requer do investigador uma atitude de permanente abertura. A compreensão de temas para os quais a linguagem não tem palavra, pode causar, inicialmente, um estranhamento e incompreensão. Contudo, a persistência na vivência dos temas colocados por Buber podem, sim, conduzir espontaneamente à compreensão dos conceitos ontológicos presentes no seu pensamento. Martin Buber exerceu uma profunda renovação da esperança no humano, especialmente no papel inerente a ele quanto à responsabilidade. Existencialmente, o homem deve alcançar de volta a dignidade da presença efetiva no mundo de modo a responder a sua essência.