• Aucun résultat trouvé

O nascimento da Umbanda, como a maioria dos fatos que se relacionam com a fé religiosa, pode ser muito polêmico. Na prática, os rituais relacionados à Umbanda são bem mais antigos do que a data associada à sua origem, envolta em muitos mitos como atestam autores como Reginaldo Prandi (2011) e Roger Bastide (1971). No entanto, ainda que a religião já começasse a se configurar muito antes dessa data, considero importante a descrição de sua versão mítica como consta nos livros História da Umbanda no Brasil, de Diamantino Fernandes Trindade (2004) e Iniciação a Umbanda, de Ronaldo Linhares (2017) dentre outros. Não por considerar essa versão, a origem real da religião, mas por acreditar que é possível manter as datas registradas como o momento de oficialização de algo que já existia. Neste caso, a palavra “nascimento” pode ser interessante por carregar certa ambiguidade. Se por um lado ela pode ser entendida como “origem”, por outro pode significar “trazer” ou “dar luz” a algo que já vinha sendo gerado há muito tempo. Para a maioria dos umbandistas, ter um marco para apoiar sua crença é importante e na medida em que esta não traz nenhum tipo de prejuízo à pesquisa, escolho incluir sua história neste trabalho. Real ou mítico, o dia escolhido para representar a Umbanda tornou-se uma referência para a História e para muitos religiosos ancorarem a sua devoção, além de legitimar a religião. Sobre essa questão, o jornalista e professor de história José Henrique Motta de Oliveira (2013) diz:

A manifestação de espíritos de negros e de índios ocorria espontaneamente nos rituais da macumba desde meados do século XIX. Longe de ser um culto organizado, a macumba era um agregado de elementos da cabula banto, do culto aos orixás jeje-nagô, das tradições indígenas e do catolicismo popular, sem o suporte de uma doutrina capaz de integrar as diversas partes que lhe davam forma. É desse conjunto heterogêneo, acrescida de indivíduos egressos do kardecismo, que nascerá uma nova religião: a umbanda. (OLIVEIRA, 2013, p.92).

Segundo a lendária história de origem da Umbanda, como descrita nos livros citados, por volta de 1908, o jovem de dezessete anos Zélio Fernandino de Morais começou a apresentar um comportamento estranho. Em alguns momentos seu corpo se curvava como o de um velho enquanto dizia coisas incompreensíveis, em outros, movimentava-se como um felino, de forma ágil, demonstrando grande

conhecimento sobre a natureza. Preocupada com o que chamou de “ataques”, sua família levou-o a um médico que, após examiná-lo, sugeriu que procurassem um padre. No entanto, ele foi levado à Federação Espírita de Niterói onde foi convidado a sentar-se à mesa. Durante a sessão, ele incorporou um espírito, levantou-se, foi ao jardim e voltou com uma rosa branca a qual pôs em cima da mesa dizendo “aqui está faltando uma flor”. Em seguida, incorporou os espíritos de índios e negros sendo advertido pelo dirigente da sessão sobre seu atraso espiritual, ao que o espírito respondeu “Por que repelem a presença desses espíritos, se nem sequer se dignaram a ouvir suas mensagens? Será por causa de suas origens sociais e da cor?”. Ao ser questionado por um médium, acrescentou estas palavras, descritas no livro História da Umbanda no Brasil:

Se julgam atrasados esses espíritos dos negros e dos índios, devo dizer que amanhã estarei na casa deste aparelho para dar início a um culto em que esses negros e esses índios poderão dar a sua mensagem e assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados. E se querem o meu nome, que seja este: Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque não haverá caminho fechado para mim. (TRINDADE, 2014, p.121).

Assim, em 15 de novembro de 1908, “nasce” a Umbanda, religião fundada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas. Baseada essencialmente na oralidade, a Umbanda é o resultado da miscigenação brasileira unindo crenças e cultos de matriz africana, europeia e ameríndia. Por um lado, essa mistura será o diferencial da religião que acolhe a tudo e a todos, por outro, será também o fator desarticulador de um sistema comum a todos os umbandistas. Quanto mais casas ou terreiros de Umbanda forem revelados, tantas serão as diferenças entre eles, pois sua estrutura está ancorada na regionalidade, ancestralidade e conduta espiritual dos dirigentes de cada casa. Não há um livro sagrado ou tratado que defina suas regras, elas são definidas pelo guias de cada templo, sejam eles encarnados ou desencarnados de acordo com suas origens. Assim, algumas casas sofrem grande influência do Catimbó, Candomblé, Pajelança, Catolicismo, Espiritismo e, até do Esoterismo. A Umbanda não possui uma codificação ou livro sagrado que seja aceito por todos os umbandistas. Foram muitas as tentativas de codificá-la, mas tendo em vista que ela já nasceu da diversidade, torna-se muito difícil encontrar uma padronização de seu culto na atualidade. Cada casa construiu sua história a partir de sua fé e trabalho desenvolvido, expandindo cada vez mais as fronteiras da religião. Enfim, os braços

da Umbanda são longos e abraçam tantas crenças e doutrinas quanto a ancestralidade de seus filhos puder alcançar.

A Umbanda é uma religião em processo, autoconstruindo-se a partir da sua própria prática religiosa dentro da dinâmica de uma tradição oral multicultural. A enorme e contraditória bibliografia de escritores umbandistas apenas atesta a impossibilidade de transformar esse universo múltiplo em algo unívoco, estritamente dogmático e doutrinário. Neste sentido, a religião se sedimentou pelas inter-relações das inúmeras vivências religiosas de seus líderes e adeptos, tornando-se pluralista, multicultural e inter-racial. (DANDARA; LIGIÉRO, 2013, p.14).

Além do culto aos orixás, que já era bem diversificado por variarem de acordo com a região de origem, o Islamismo também teve uma forte presença na história da escravidão. Sendo a religião um dos instrumentos utilizados pelos senhores de escravos para instigar rivalidades internas, muitas vezes cargos de chefia eram dados aos seguidores do profeta Maomé que não escondiam o repúdio aos orixás, tornando-se “capitães do mato” ou, em outras palavras, caçadores de escravos que fugiam. Por outro lado, atualmente, muitas casas de Umbanda trabalham com a chamada “linha do Oriente” que abriga mestres hindus e mulçumanos. Segundo o autor Diamantino F. Trindade (2014), a maior parte das religiões trazidas ao Brasil pelos africanos não dialogavam entre si, dividindo crenças e devotos.

Os negros que vieram para o Brasil pertenciam a civilizações diferentes e eram oriundos das mais diversas regiões do continente africano. No entanto, suas religiões, quaisquer que fossem, estavam ligadas a certas formas familiares ou de organização de clãs, a meios biogeográficos especiais, floresta tropical ou savana, a estruturas aldeãs e comunitárias. O tráfico negreiro violou tudo isso e os escravos foram obrigados a se adaptar a uma sociedade fundamentada no patriarcalismo, no latifúndio, no regime de castas étnicas. (TRINDADE, 2014, p.48).

O culto aos orixás teve um papel fundamental na reestruturação desses grupos de escravos, assim como na formação dos quilombos. Ao perceberem que o único meio de lutar por sua sobrevivência era através da união, permitiram-se (não sem dificuldade) conciliar suas crenças no chamado culto aos orixás, aceitando os deuses de outras nações, somando-os à sua fé. Essa “união” não se deu sem resistência e, só com o tempo, essa assimilação foi tomando forma, assumindo, inclusive, o sincretismo com o Catolicismo para escapar aos olhos desconfiados dos senhores de escravos e seus capatazes, assim como, para encontrarem espaço na nova organização social após a abolição da escravatura. Essas primeiras

experiências religiosas começaram a dar direção para o que viria a se estruturar como Candomblé e revela as primeiras sementes do que, séculos depois, seria chamado de Umbanda: a união de ex-escravos e seus descendentes sob a luz dos orixás.

[...] logo o negro se daria conta de que só tinha em comum com os demais negros de uma senzala a cor da pele e o fato de ser escravo. Sem demora perceberam que o branco explorava suas naturais rivalidades pelo fato de falarem línguas diferentes e, então, suas lideranças passaram a buscar o único meio de fazer com que houvesse uma ligação mais profunda entre eles, algo que os impedissem de se perseguirem mutuamente em benefício do branco. Constataram então que, excetuando-se os mandingas, que eram mulçumanos, quase todos os demais traziam muito enraizadas suas crenças nos Orixás; (LINHARES, 2017, p.58).

Porém, esta pesquisa é voltada para o estudo das entidades reveladas (pela) e reveladores da Umbanda, os caboclos e os pretos-velhos. Assim sendo, os orixás (e somente os cultuados na Umbanda) contribuirão para a estruturação do que chamarei de figuras na parte prática desse trabalho e que, mais tarde, serão a fonte reveladora de personagens. Creio ser fundamental reforçar que, para este projeto, busco na Umbanda sua riqueza ancestral, a beleza da diversidade e a arte que vemos em suas impressionantes manifestações. Esta é uma pesquisa de cunho artístico, porém não posso negar meu envolvimento pessoal com a religião, pois é na experiência do terreiro que encontro minhas principais referências. Por isso, escolho utilizar os recursos teóricos e práticos que considero adequados ao desenvolvimento deste projeto, visando preservar a integridade da pesquisa e, especialmente, da religião conhecida como Umbanda. Nesse intuito, priorizo os caminhos que vêm sendo percorridos há anos em algumas casas, dando ênfase à experiência pessoal como assistente e médium, pela oportunidade de observar os processos de manifestação de dentro e fora do terreiro.