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Definition and measurement of saving flows

A General methodological principles and data sources

A.5 Definition and measurement of saving flows

A definição do “instante da morte” foi feita por Hipócrates cerca de 500 anos antes de Cristo e está no De Morbis, 2º livro, parte 5: “Testa enrugada e árida, olhos cavos, nariz saliente, cercado de coloração escura, têmporas deprimidas, cavas e enrugadas, queixo franzido e endurecido, epiderme seca, lívida e plúmbea, pelos das narinas e dos cílios cobertos por uma espécie de poeira de um branco fosco, fisionomia nitidamente contornada e irreconhecível”. Esse conceito hipocrático do instante da morte se resume a uma descrição do que poderia hoje ser denominado de fácies hipocrática. Para ele, a morte

34 era devastadora, imprevisível e inesperada. Porém, o que se deve procurar estabelecer é o momento da morte do corpo ou do soma, pois a morte final seria aquela das células que ocorre posteriormente, com a decomposição.

O conceito de morte física se tornou cada vez mais tênue, devido aos avanços da biotecnologia. Por essa razão, a cada dia, fica mais difícil para médicos e juristas definirem o exato momento da morte (Villas-Boas, 2005). De acordo com o entendimento dessa médica e jurista, a morte não ocorre em um momento exato, mesmo que sejam deixados de lado questionamentos multidisciplinares que envolvem o tema e se concentre apenas na dimensão biológica. A morte biológica pode ser aferida pela integridade de células e órgãos individualmente, enquanto que a morte clínica toma como referência a pessoa. Afirma essa autora que a morte clínica é anterior à biológica e “a supera em relevância

socialmente atribuída para a finalidade de caracterizar a extinção da vida”.

Segundo Ziegler (1977), a morte nada mais é que uma catástrofe fisiológica, visto que o organismo que compõe o corpo somático deixa de fornecer apoio físico à consciência que governa o corpo. Até então, tudo funciona, porém, no final das mutações da morte, o corpo se desfaz, por meio de processo de transformação bioquímica. Os conceitos de parada respiratória, cardíaca ou dos centros nervosos seriam artificiais, visto que os três são independentes.

Sob a ótica da Justiça, a morte é uma questão de fato, e não, de direito, portanto, apenas o médico define o instante em que ela ocorreu e o que a provocou. A ele cabe não só constatar a morte, ou seja, confirmar o que realmente aconteceu, como também preencher a declaração certificando o motivo que levou à sua ocorrência. Porém, a constatação do óbito é fruto de um diagnóstico, que é um ato social, vez que o médico age em função da sociedade em que habita (Ziegler, 1977).

Até a metade do Século XX, o critério que vigorou para se definir a morte, na Medicina ocidental, foi o cardiorrespiratório, como o único para sua aferição. Portanto, o simples fato de respirar significava vida, não importa se as demais partes do todo já não funcionassem mais. Não obstante, por definição, morte clínica é o estado no qual todos os sinais de vida, como reflexos, respiração e batimentos cardíacos, cessam. Atualmente, tornou-se conceitual, pois todas essas funções podem ser substituídas por máquinas, e a

35 morte passou a ser considerada como o início da destruição celular de órgãos altamente especializados, como cérebro e olhos (Kovács, 2010).

Com o advento do primeiro transplante de coração, em 1967, no Kansas, a cômoda ficção de que a morte era um fenômeno natural e que o médico se limitava a constatá-la clinicamente caiu por terra. Surgiu, então, a Declaração de Harvard, que mudou o conceito de morte e definiu novos critérios para a morte cerebral, ou o coma irreversível, determinando, assim, o instante da morte (Ziegler, 1977).

Baseado nos critérios supracitados, no Brasil, o Conselho Federal de Medicina, em 1990, determinou, oficialmente, que a morte encefálica deveria ser considerada como um critério para se verificar a extinção de vida. Em 1997, esse mesmo Conselho definiu as normas de avaliação de morte cerebral como sendo a pesquisa de reflexos supraespinhais específicos, o que está documentado na Resolução CFM nº 1480/97 (CFM, 1997).

Ziegler (1977) refere que, a partir de então, o moribundo ou a família jamais terão direitos, necessidades ou reivindicações, pois o que importa são os parâmetros técnicos do médico que, agora, tem o direito de reger a vida do doente. Na história humana, a sociedade mercantil marca um retrocesso, um rompimento e nega, de modo definitivo, não só o homem em sua unidade, mas também a sua morte.

Como se pode observar, sempre existiu uma definição de morte, do ponto de vista somático, biológico ou científico, que variou de acordo com a evolução tecnológica. Porém, outras abordagens nas esferas psicológica, religiosa e espiritual são necessárias, visto que o homem não se resume ao aspecto somático; a morte e a transcendência são questões existenciais do homem, e ele busca explicações e significados para tudo o que lhe pode causar dúvidas, medo ou fascínio.

A existência de um ser superior, que seria o coordenador de todas as coisas, existe remotamente, e vem sendo discutida desde o tempo de Sócrates e de Platão. A teoria filosófica de Pitágoras talvez tenha sido a primeira em que apareceram as ideias de mortalidade da alma, reencarnação e Deus. Todas as bases teóricas dos sistemas filosóficos aceitam a ideia de transcendência. Em seu livro Fédon, Platão coloca como, a partir da filosofia dos pensadores gregos, chegou-se à descoberta da dimensão espiritual do ser humano. Fica bem clara, nos diálogos do livro, sua crença na alma, como uma realidade imortal que voltaria a terra. Platão sempre insistiu em afirmar que o mundo é muito mais

36 complexo do que se pensa ser e explica as coisas partindo de um Demiurgo ou uma Inteligência Suprema, que teria sido responsável por ordenar todas as coisas e responder às questões fundamentais da vida. Para ele, a bondade, a ordem e a inteligência seriam provas da existência de Deus e não seria possível explicar as coisas apenas com base no material, no físico; acreditava que deveria ter uma causa real metafísica ou espiritual. Sócrates e Platão serviram de fundamentos para a filosofia do Ocidente, que seguiu a postura espiritualista e a questão de Deus. Esse pensamento passou pelo Cristianismo e chegou até Hegel e Bérgson (Bigheto & Incontri, 2007).

A literatura, composta por cartas, diários e livros de romancistas e historiadores, demonstrou o sentimento religioso sobre a morte e o além, ao longo dos Séculos XII a XVIII, relatando ou deixando transparecer que acreditavam nas comunicações dos espíritos mortos ou vivos separados de seus corpos. Ainda no Século XVII, houve o recuo do homo

totus, que significava corpo e alma para a ideia de alma separada do corpo. Essa autonomia

do espírito como a única parte imortal do ser continuou a crescer do Século XVII ao XIX. As condições para o desenvolvimento do Espiritismo são claras nos textos franceses, estadunidenses e ingleses. A resistência da igreja romana foi grande em relação à aceitação do além e limitou os clérigos a fazerem orações para as almas do purgatório. Porém, muitos se afastaram e formaram extensas correntes de práticas de comunicação com o Além - o Espiritismo (Ariès, 1981).

Sérios questionamentos surgiram sobre essa filosofia, a partir dos Séculos XVII e XVIII, por Karl Marx, com a primeira manifestação concreta ao ateísmo, para o qual tudo é reduzido à dimensão da matéria. No século seguinte, críticas ainda mais fortes foram feitas em relação à religiosidade, seguindo as ideias materialistas, e os filósofos Feurbach e Nietzsche pensam que a religiosidade humana é uma ilusão, fruto da criação das necessidades humanas. Essa ideia ateísta ganhou força com Nietzsche, no Século XX, e tomou quase todos os ramos do conhecimento. Então, a espiritualidade foi deixada de lado, assim como Deus. Porém, apesar das críticas feitas à religiosidade e a Deus, apesar de os valores, a cultura e o conhecimento terem se transformado em ateístas no início do Século, o interesse por assuntos relacionados à espiritualidade e a Deus não se tornaram supérfluos ou se esgotaram. A religiosidade humana continua despertando interesse da humanidade, incluindo cientistas que acreditam na integração entre ciência e religião (Bigheto & Incontri, 2007).

37 A questão da sobrevivência da personalidade, após a morte do corpo, tem sido estudada cientificamente e recebido um impulso maior a partir de meados do Século XIX, com o surgimento do espiritualismo moderno na Europa e nos Estados Unidos. Tratando- se de um período em que era atribuído grande valor à ciência, tentou-se também utilizá-la para dirimir as dúvidas e as controvérsias a respeito dos fenômenos mediúnicos e das aparições. Nesse sentido, foram investigadas as evidências diferenciadas, como a mediunidade, a reencarnação e as experiências de quase morte vivenciadas por pessoas que estiveram à beira da morte, além das experiências fora do corpo. Os vários tipos de pesquisas que investigaram essas questões apontaram para sua abordagem empírica, e as conclusões variam de acordo com a força das evidências reunidas (Moreira-Almeida, 2007).

Fato inegável é a existência da morte como o fim comum da vida de todos os seres vivos. Aliás, pode-se entender que a morte não é o fim, mas a transição de uma existência humana para outra. Esse é o pensamento das pessoas de fé na maioria das religiões. Apesar de ser parte natural da vida e de dever, por isso, ser aceita, comumente é negada (Kübler- Ross, 1996).